O tempo foi passando, e aquela menina jovem, saltitante e serelepe foi se enrugando.
Das balas às berinjelas, do achocolatado ao café sem açúcar, das batatas fritas ao jiló e dos tomates às alfaces, foi se conformando com os amargores da vida.
Os seus olhinhos, antes acolhedores e luminosos, foram se tornando velhuscos e profundos.
Entendeu, com o tempo, que era melhor ouvir que falar, aprendeu o silêncio...
Passou a prezar o silêncio mais que qualquer coisa. Em tudo, queria silêncio. Foi se escondendo. Do centro da cidade para o bairro, do bairro para o campo, e por fim do campo para o deserto.
Deserto de almas vivas. As que por lá havia eram assim rascunhos de vida, coisas sem pujança nem nada.
Decidiu viver isolada. E, quando alguém por lá aparecia, exigia silêncio.
Dia desses, foi descoberto um grande depósito fóssil, com petróleo, a muitas profundidades daquela velha senhora.
Ela mandou cavarem. Teve de reaprender a falar, muito embora prefira mesmo é o isolamento. Fala pouco, medindo palavras, cautelosa e numa timidez-quase-medo que dá dó.
O petróleo vem à tona. Há de ser consumido, queimado, dissipado e como a velha, igualmente silenciado. Mas por enquanto é só jorro descomunal, sarapintando os escavadores e a velha de um visgo inevitável.
Pra brincar nesse visgo, chega uma menina novinha, seis anos. A vida inteira pela frente, só alegria. Não aceita os sabores amargos, não os sabe apreciar. Vive de bala na boca e torce o nariz pras rúculas da velha senhora.
A velha passa-lhe broncas que lhe fazem calar-se. Nesses castigos, ela cresce dois milímetros por vez. E a velha ri com o canto da boca da alegria da menina, quando saltita ao ver-se de novo livre. Mas se ela trepa nos poços de petróleo, bronqueia de novo.
Vai acabar se machucando! É perigoso mexer com os instrumentos de escavação!
Mal sabe ela que a criança já trouxe ao chão algumas destas velhíssimas armações, e as reconstruiu ao seu modo.
Mas a criança aos poucos se calará, mudar-se-á para um deserto que se transformará em riqueza solitária. Novas escavações se imporão. Novas crianças gritarão na cabeça desta futura velha senhora que - espero - entre risos de canto de boca tornará a bronquear.
Cristianismo, pra mim, é o abraço entre estas Sofias.
Tuesday, November 23, 2010
Friday, February 12, 2010
Livramento
Acho que estou tomando gosto por essa tal de prosa...
Estive aqui pensando. O ser vivente é realmente algo poderosamente vitorioso.
Constante livramento...
Aos que me conhecem, nem preciso dizer que testemunho frequentemente a fragilidade da vida. Aos que não conhecem tão bem assim, fiquem com a pulga atrás da orelha...
De todo modo, realmente é frágil, essa tal de vida. Num instante, num repente, não mais que num repente, tudo muda. Tudo acaba...
Iludimo-nos o tempo todo, julgando saúde, bem estar, sobriedade, inteireza, estabilidade, garantia... tudo mentira, como também concorda comigo o Doutor. A verdade, a inegável verdade, é que tudo está e sempre esteve por um fio.
Um fino e fragilíssimo fio que garante o sustento da vida. Uma coisinha de nada... um fio tão esticado, mas tão esticado, tão a ponto de arrebentar-se, que quaisquer 50 gramas que se ponham a mais sobre ele o destroem.
Verdadeira primeira corda de cavaco, o fio da vida.
Basta um olhar de relance, uma palavra mal dita ou bem dita, que todo o equilibrio pende pra um dos lados. Basta a falta de 200 ml dos habituais ou ideais 2 litros de água para uma dor de cabeça daquelas... Basta uma dor existencial bem pronunciada pra se encher o rabo de cachaça e mandar a tal sobriedade pras cucuias!
E basta também um repente, um ponto limite no acúmulo de tensões e obstruções pra um infarto fulminante e um AVC.
Basta aquele torresminho de nada, porém diário. Aquelas brigas rápidas e insignificantes, porém semanais. As saudáveis expectativas, porém desiguais e por isso frustradas... e pimba! No decorrer de poucos anos (15 anos é pouca coisa, lhe garanto...) tá o meu pobre leitor cheio de inflamações nas articulações, cirrose hepática, enfisema pulmonar, insuficiência renal, pedra na vesícula, apendicite...
Por isto é que eu digo: a vida é muito frágil, e por isto, constante livramento. Diante de tantas e inevitáveis situações (estas que citei) que o devir há certamente de impor, só mesmo por livramento divino manter o tal equilíbrio que permitirá no devido tempo a recuperação plena ou satisfatória da pessoa humana, impedindo-a de perder o sentido da vida em casos irreversíveis ou de perder a própria vida em situações de precocidades clínicas diversas (como um infarto aos 25 ou AVC aos 27)
Impõe-se, assim, que haja no universo uma força que não nos pertença, desafiando a loucura do caos e sendo ao mesmo tempo parte dele.
No caos da vida, em algum ponto dele, se esconde o nosso livramento...
Estive aqui pensando. O ser vivente é realmente algo poderosamente vitorioso.
Constante livramento...
Aos que me conhecem, nem preciso dizer que testemunho frequentemente a fragilidade da vida. Aos que não conhecem tão bem assim, fiquem com a pulga atrás da orelha...
De todo modo, realmente é frágil, essa tal de vida. Num instante, num repente, não mais que num repente, tudo muda. Tudo acaba...
Iludimo-nos o tempo todo, julgando saúde, bem estar, sobriedade, inteireza, estabilidade, garantia... tudo mentira, como também concorda comigo o Doutor. A verdade, a inegável verdade, é que tudo está e sempre esteve por um fio.
Um fino e fragilíssimo fio que garante o sustento da vida. Uma coisinha de nada... um fio tão esticado, mas tão esticado, tão a ponto de arrebentar-se, que quaisquer 50 gramas que se ponham a mais sobre ele o destroem.
Verdadeira primeira corda de cavaco, o fio da vida.
Basta um olhar de relance, uma palavra mal dita ou bem dita, que todo o equilibrio pende pra um dos lados. Basta a falta de 200 ml dos habituais ou ideais 2 litros de água para uma dor de cabeça daquelas... Basta uma dor existencial bem pronunciada pra se encher o rabo de cachaça e mandar a tal sobriedade pras cucuias!
E basta também um repente, um ponto limite no acúmulo de tensões e obstruções pra um infarto fulminante e um AVC.
Basta aquele torresminho de nada, porém diário. Aquelas brigas rápidas e insignificantes, porém semanais. As saudáveis expectativas, porém desiguais e por isso frustradas... e pimba! No decorrer de poucos anos (15 anos é pouca coisa, lhe garanto...) tá o meu pobre leitor cheio de inflamações nas articulações, cirrose hepática, enfisema pulmonar, insuficiência renal, pedra na vesícula, apendicite...
Por isto é que eu digo: a vida é muito frágil, e por isto, constante livramento. Diante de tantas e inevitáveis situações (estas que citei) que o devir há certamente de impor, só mesmo por livramento divino manter o tal equilíbrio que permitirá no devido tempo a recuperação plena ou satisfatória da pessoa humana, impedindo-a de perder o sentido da vida em casos irreversíveis ou de perder a própria vida em situações de precocidades clínicas diversas (como um infarto aos 25 ou AVC aos 27)
Impõe-se, assim, que haja no universo uma força que não nos pertença, desafiando a loucura do caos e sendo ao mesmo tempo parte dele.
No caos da vida, em algum ponto dele, se esconde o nosso livramento...
Tuesday, February 09, 2010
Se há uma coisa que sempre quis fazer e nunca tive força de vontade o suficiente para cumprir, é acordar todos os dias antes do sol nascer, só pra não perder jamais o espetáculo que se dá nesta ocasião.
De um tempo pra cá; pouco tempo, é bem verdade; esta vontade ficou ainda mais patente dentro de mim. E também por fora, que não acredito nessa baboseira infantil de espírito e alma, e tampouco que meu cérebro pense. Minhas melhores idéias só surgem após alguma caminhada, treino, viagem, natação, banho de sol, beijo na boca ou seja lá o que for. Meu corpo inteiro pensa, sente, quer, deseja, reza, transcende... Não tenho alma, dessas separadas, esvoaçantes e com mania de retorno a corpos diferentes do meu. Minha alma é tão minha, mas tão minha, que é física, que é meu corpo!
Por isto meu desejo de alvoradas. O nascer do sol também não é nascer “só do sol” (como se o sol pudesse ser tido como “só isso aí”, mas vá lá...) mas é também Renascer de Esperança, Espetáculo de Luz que transforma tudo.
Por sinal, quando eu fico acordado até tarde (o que nem é raro, diga-se de passagem), vez por outra sou surpreendido pelo sol nascendo e então penso “puxa, já está cedo”. O nascer do sol é essa coisa assim mágica, transformadora. Transforma o meu “tarde”, num instante, em inegável e universal “cedo”.
Ah, como eu queria fazer o contrário, e tenho tão pouca força de vontade... Dormir mais cedo (ou seria tarde do dia anterior?) pra acordar mais cedo. Porque aí eu não seria surpreendido pelo sol... não! Acordar deliberadamente, todos os dias, mais cedo, seria minha expressão de Confiança, de Esperança na Transformação, de Ansiedade pelo Novo. Nada de glamour. Nada de passar a noite em claro esperando o sol nascer. Dormir, chegar antes da hora pra apreciar o nascimento. Isso sim é que seria uma vida digna, completa, cheia de sentido...
Pois é. Mas durmo tarde... lá pelas duas.
Acho que Alguém teve pena da minha vontade, ontem. Porque a construção sem sentido, sem nexo, que me faz tossir sem parar por alergia ao cimento que nunca cessa de ser comprado e gasto neste quartinho de nada que está ali no quintal, recém construído e ainda pleno de poeira... essa construção irritante! Me deu uma lição. Passou a abrigar canários.
Ontem, os canários se reuniram e cantaram, cantaram, cantaram. Acordei com aquele doce barulhinho, parece até com vozinha de criança. Os canários me acordaram, cinco minutos antes da alvorada.
Eu espero que eles se acostumem comigo. E que eu não me acostume com eles, que eles sempre me surpreendam e me acordem, dessa maneira tão doce, sutil e meiga.
Há um deles que é especial. Tem um canto tímido, meio engasgado, meio de esgueio. E jura-me que é atirado, pelinha, que não posso dar-lhe alpiste algum ou agarrará pra sempre no meu quintal. Acho que vou botar-lhe alpiste é cá na janela, pra ele freqüentar meu quarto... Mas sem arapucas e alçapões, isso não se faz.
Ele me canta como se me perguntasse se acordo ou não, se aprendo o tempo dele ou se fico assim todo trouxa acordando tarde. Bichinho danado. Parece que na minha pergunta, eu mesmo sou-lhe a resposta. Me encanta...
Nunca fui bom em crônicas, este blog tem sido um desafio.
Fosse uma dissertação, eu teria algum treino.
Ou fosse verso, maravilha, algum costume.
Mas crônicas... chronos feito texto... libertar em texto o que vou sentindo e vivendo ao longo do tempo? Desafiador!
De todo modo, fica a lição: Ainda que sua construção não faça sentido e lhe incomode, fale dela aos canários, que algum há de se habituar a acordar-te para a alvorada, que não tarda, sempre vem. Sempre cedo, nunca tarde.
Preciso aprender a acordar mais cedo. É que descobri-me precisado do meu canário. Preciso cevar esse bicho danado aqui, preciso criar nele o hábito da minha janela, pra eu ver o Mundo com esses olhinhos e esse canto entre eu e Ele. E logo. Antes que esse canário troque de construção.
De um tempo pra cá; pouco tempo, é bem verdade; esta vontade ficou ainda mais patente dentro de mim. E também por fora, que não acredito nessa baboseira infantil de espírito e alma, e tampouco que meu cérebro pense. Minhas melhores idéias só surgem após alguma caminhada, treino, viagem, natação, banho de sol, beijo na boca ou seja lá o que for. Meu corpo inteiro pensa, sente, quer, deseja, reza, transcende... Não tenho alma, dessas separadas, esvoaçantes e com mania de retorno a corpos diferentes do meu. Minha alma é tão minha, mas tão minha, que é física, que é meu corpo!
Por isto meu desejo de alvoradas. O nascer do sol também não é nascer “só do sol” (como se o sol pudesse ser tido como “só isso aí”, mas vá lá...) mas é também Renascer de Esperança, Espetáculo de Luz que transforma tudo.
Por sinal, quando eu fico acordado até tarde (o que nem é raro, diga-se de passagem), vez por outra sou surpreendido pelo sol nascendo e então penso “puxa, já está cedo”. O nascer do sol é essa coisa assim mágica, transformadora. Transforma o meu “tarde”, num instante, em inegável e universal “cedo”.
Ah, como eu queria fazer o contrário, e tenho tão pouca força de vontade... Dormir mais cedo (ou seria tarde do dia anterior?) pra acordar mais cedo. Porque aí eu não seria surpreendido pelo sol... não! Acordar deliberadamente, todos os dias, mais cedo, seria minha expressão de Confiança, de Esperança na Transformação, de Ansiedade pelo Novo. Nada de glamour. Nada de passar a noite em claro esperando o sol nascer. Dormir, chegar antes da hora pra apreciar o nascimento. Isso sim é que seria uma vida digna, completa, cheia de sentido...
Pois é. Mas durmo tarde... lá pelas duas.
Acho que Alguém teve pena da minha vontade, ontem. Porque a construção sem sentido, sem nexo, que me faz tossir sem parar por alergia ao cimento que nunca cessa de ser comprado e gasto neste quartinho de nada que está ali no quintal, recém construído e ainda pleno de poeira... essa construção irritante! Me deu uma lição. Passou a abrigar canários.
Ontem, os canários se reuniram e cantaram, cantaram, cantaram. Acordei com aquele doce barulhinho, parece até com vozinha de criança. Os canários me acordaram, cinco minutos antes da alvorada.
Eu espero que eles se acostumem comigo. E que eu não me acostume com eles, que eles sempre me surpreendam e me acordem, dessa maneira tão doce, sutil e meiga.
Há um deles que é especial. Tem um canto tímido, meio engasgado, meio de esgueio. E jura-me que é atirado, pelinha, que não posso dar-lhe alpiste algum ou agarrará pra sempre no meu quintal. Acho que vou botar-lhe alpiste é cá na janela, pra ele freqüentar meu quarto... Mas sem arapucas e alçapões, isso não se faz.
Ele me canta como se me perguntasse se acordo ou não, se aprendo o tempo dele ou se fico assim todo trouxa acordando tarde. Bichinho danado. Parece que na minha pergunta, eu mesmo sou-lhe a resposta. Me encanta...
Nunca fui bom em crônicas, este blog tem sido um desafio.
Fosse uma dissertação, eu teria algum treino.
Ou fosse verso, maravilha, algum costume.
Mas crônicas... chronos feito texto... libertar em texto o que vou sentindo e vivendo ao longo do tempo? Desafiador!
De todo modo, fica a lição: Ainda que sua construção não faça sentido e lhe incomode, fale dela aos canários, que algum há de se habituar a acordar-te para a alvorada, que não tarda, sempre vem. Sempre cedo, nunca tarde.
Preciso aprender a acordar mais cedo. É que descobri-me precisado do meu canário. Preciso cevar esse bicho danado aqui, preciso criar nele o hábito da minha janela, pra eu ver o Mundo com esses olhinhos e esse canto entre eu e Ele. E logo. Antes que esse canário troque de construção.
Friday, February 05, 2010
Alvorada
Sobe agora o eterno rei
Dos meus dias que foram para não voltar
Dos que temeram a noite escura
Nenhum ficou pra testemunhar a luz
Se eu ficar no meu lugar
Se eu ousar só esperar
Eu sei tua luz virá e inundará meu ser
Alvorada tanto te esperei
Sozinho, sem saber como clamar-te
À noite, minha voz se foi e me deixou
Tive medo de não mais voltar a enxergar
Mergulhaste no meu chão e assim entendi
A noite não é eterna, insistes em ressurgir
Dos meus dias que foram para não voltar
Dos que temeram a noite escura
Nenhum ficou pra testemunhar a luz
Se eu ficar no meu lugar
Se eu ousar só esperar
Eu sei tua luz virá e inundará meu ser
Alvorada tanto te esperei
Sozinho, sem saber como clamar-te
À noite, minha voz se foi e me deixou
Tive medo de não mais voltar a enxergar
Mergulhaste no meu chão e assim entendi
A noite não é eterna, insistes em ressurgir
Thursday, February 04, 2010
Fazia já algum tempo que meu celular não tocava de madrugada. Já andava desejoso há muito que isto voltasse a acontecer.
Antes não era assim, havia outros do grupo quase feminino de amigos que eram, como eu, insones pela mera falta de atividades, e era divertido sair a noite (lá pelas 2) pra bater um papo, ou fazê-lo pelo telefone celular, esta bendita invenção.
Ele tocou, e uma das mais doces de todas as vozes me disse, num tom assustado, que você decidiu viajar, mudar de casa, ir pro seu destino.
Penso em você, e me lembro com alegria de nossos encontros.
Nunca sozinhos, é bem verdade. Sempre a três, a quatro, a mil. Sempre em serviço.
Me lembro da tua risada larga, gostosa, do seu fino humor.
Não houve, jamais entre nós, uma conversa que não fosse permeada por risadas.
"Canta a música do filho pródigo pra oração da manhã?"
"Qual delas, Diego? Deve haver milhares!!?"
"Ah, sei lá. Uma autobiográfica, que fale de você."
"Que fale de mim? Puxa, vc conhece minha história de vida...?"
"Bom... eu tava falando daquele trecho que diz que o pai mandou buscar um novilho capado e gordo..."
Impossível não rir, mesmo me sentindo meio ofendido com meus mais de 90 quilos, na época.
Foi sempre assim, por mais séria que nossa conversa iniciasse (por exemplo uma entrevista pro jornalzinho da paróquia, quando enfim você veio à minha casa), nunca durava muito sem que tudo descambasse em risadagem e fuleragem.
Sinto saudades, mas sei que continua aqui, em cada lágrima que me escorre por dentro e por fora, em cada olhar perdido na capela mortuária, em cada exéquias que eu celebrar e recordar o seu caixão.
E também, mais forte ainda, em cada riso que me derem, em cada gargalhada gostosa quando me lembrar dos momentos felizes, até mesmo em cada música de filho pródigo, em cada oração da manhã, em cada terço rezado, em cada encontrista convertido, em cada... respiração.
Talvez mesmo até em cada vitória (imerecida) dos Sagazes, seu clube de coração, sobre outros times aqui da igreja.
Você resolveu partir, não me engano. Você quis, uma vez na vida, ser pioneiro, e inaugurar o céu dos encontristas do JUDAC.
Fico pensando em você, ao lado do Marcos, que inaugurou o departamento de palestras, ensinando às almas deste purgatório como é que se sorri e como é que se reza. Estão formando, sem dúvida, uma excelente dupla, e já vejo suscitados em corações saudosos o desejo de santidade que emanava do exemplo de vocês.
Ainda não digeri esta última troça que quis fazer... brincadeira de mau gosto, ir assim sem avisar..
Tudo bem, foi ao encontro do Nosso Amor Maior, mas acho uma tremenda falta de finesse ir assim, tão de repente. Meu canto perdeu parte do sentido, e em protesto, a rouquidão. Sôo agora como um locutor de radio AM. Em nosso serviço, éramos por vezes eco um do outro. Só recuperei a voz pra cantar enquanto baixavam teu esquife para dentro da terra-sementeira que vamos nos reencontrar, que "meu lugar é o céu e é lá que eu quero morar."
Agora, ir pro céu ganhou novo sentido, porque sei que tenho um amigo concreto me esperando, e fatalmente não faltarão risadas. Você não vai resistir, eu sei, e vai me sacanear de algum jeito bem na porta, em voz baixa que é pra São Pedro não te ouvir.
É justamente o que sabe fazer bem: deixar que Deus e os outros santos,
como tu, ouçam apenas as nossas risadas. Sorrio aliviado, com saudade,
mas esperançoso de te reencontrar. Será bom, este dia...mas não posso deixar de pensar que, certamente, sua primeira atitude em minha intercessão foi uma zoeira. Foi uma fuleragem.
Eu aqui, desejoso de ouvir uma voz, e tu mexe os pauzinhos celestes para
meu celular tocar. Atendo sequioso, alegre e saltitante. Ouço a triste notícia de sua partida.
Fico desalentado, perco até a voz, mas ouço a tua, em risadas angelicais. Pregou mais uma peça no véio aqui. A primeira dessa sua nova fase transcedental e etérea.
É, Diego... continuas o mesmo...
Antes não era assim, havia outros do grupo quase feminino de amigos que eram, como eu, insones pela mera falta de atividades, e era divertido sair a noite (lá pelas 2) pra bater um papo, ou fazê-lo pelo telefone celular, esta bendita invenção.
Ele tocou, e uma das mais doces de todas as vozes me disse, num tom assustado, que você decidiu viajar, mudar de casa, ir pro seu destino.
Penso em você, e me lembro com alegria de nossos encontros.
Nunca sozinhos, é bem verdade. Sempre a três, a quatro, a mil. Sempre em serviço.
Me lembro da tua risada larga, gostosa, do seu fino humor.
Não houve, jamais entre nós, uma conversa que não fosse permeada por risadas.
"Canta a música do filho pródigo pra oração da manhã?"
"Qual delas, Diego? Deve haver milhares!!?"
"Ah, sei lá. Uma autobiográfica, que fale de você."
"Que fale de mim? Puxa, vc conhece minha história de vida...?"
"Bom... eu tava falando daquele trecho que diz que o pai mandou buscar um novilho capado e gordo..."
Impossível não rir, mesmo me sentindo meio ofendido com meus mais de 90 quilos, na época.
Foi sempre assim, por mais séria que nossa conversa iniciasse (por exemplo uma entrevista pro jornalzinho da paróquia, quando enfim você veio à minha casa), nunca durava muito sem que tudo descambasse em risadagem e fuleragem.
Sinto saudades, mas sei que continua aqui, em cada lágrima que me escorre por dentro e por fora, em cada olhar perdido na capela mortuária, em cada exéquias que eu celebrar e recordar o seu caixão.
E também, mais forte ainda, em cada riso que me derem, em cada gargalhada gostosa quando me lembrar dos momentos felizes, até mesmo em cada música de filho pródigo, em cada oração da manhã, em cada terço rezado, em cada encontrista convertido, em cada... respiração.
Talvez mesmo até em cada vitória (imerecida) dos Sagazes, seu clube de coração, sobre outros times aqui da igreja.
Você resolveu partir, não me engano. Você quis, uma vez na vida, ser pioneiro, e inaugurar o céu dos encontristas do JUDAC.
Fico pensando em você, ao lado do Marcos, que inaugurou o departamento de palestras, ensinando às almas deste purgatório como é que se sorri e como é que se reza. Estão formando, sem dúvida, uma excelente dupla, e já vejo suscitados em corações saudosos o desejo de santidade que emanava do exemplo de vocês.
Ainda não digeri esta última troça que quis fazer... brincadeira de mau gosto, ir assim sem avisar..
Tudo bem, foi ao encontro do Nosso Amor Maior, mas acho uma tremenda falta de finesse ir assim, tão de repente. Meu canto perdeu parte do sentido, e em protesto, a rouquidão. Sôo agora como um locutor de radio AM. Em nosso serviço, éramos por vezes eco um do outro. Só recuperei a voz pra cantar enquanto baixavam teu esquife para dentro da terra-sementeira que vamos nos reencontrar, que "meu lugar é o céu e é lá que eu quero morar."
Agora, ir pro céu ganhou novo sentido, porque sei que tenho um amigo concreto me esperando, e fatalmente não faltarão risadas. Você não vai resistir, eu sei, e vai me sacanear de algum jeito bem na porta, em voz baixa que é pra São Pedro não te ouvir.
É justamente o que sabe fazer bem: deixar que Deus e os outros santos,
como tu, ouçam apenas as nossas risadas. Sorrio aliviado, com saudade,
mas esperançoso de te reencontrar. Será bom, este dia...mas não posso deixar de pensar que, certamente, sua primeira atitude em minha intercessão foi uma zoeira. Foi uma fuleragem.
Eu aqui, desejoso de ouvir uma voz, e tu mexe os pauzinhos celestes para
meu celular tocar. Atendo sequioso, alegre e saltitante. Ouço a triste notícia de sua partida.
Fico desalentado, perco até a voz, mas ouço a tua, em risadas angelicais. Pregou mais uma peça no véio aqui. A primeira dessa sua nova fase transcedental e etérea.
É, Diego... continuas o mesmo...
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