Tuesday, September 25, 2012


a realidade é estática, e dinâmica. Está dentro e está fora. Está em toda parte, e em lugar algum.
O real pertence a outra parte.

Friday, September 21, 2012

... e vocês acham que eu iria deixar assim barato, sabendo que tem internet no Oroporto?
Aqui estamos, minha gente.
No Aeroporto, enrolando pra entrar no avião.
Tive um "último almoço", e depois uma "última ceia".
E no último dia, descasquei um abacaxi tirando do suvaco um táxi pra uma mulher que tava precisando.
Isso às 19:00.
Às 20:20 tive minha última ceia.
E as 23:00 vim pro Aeroporto!
E agora são... 4:30 de sábado.
Eu decidi escrever esse último post só pra dizer o seguinte:
Valeu a pena?
SIM!
Porque?
Porque discerni muita coisa de mim, descobri que não tem nada de errado em ser sensível, chorão, agri-doce.
Fiquei com fama de "doce", "sweet person", "kind", "gentleman" e outros adjetivos.
Pelo Gijo, que fala português, "polifacético", "multi-talentoso", "sincero", "profundo".
Por uma ou outra pessoa (assim esperamos), devo ter sido até bonito. Ou muito bonito!

A parte do doutorado, de escrever?
Descobri que não tem o menor mistério. Leia.
Entenda.
Escreva.
Defenda.
Fim.

"você quer voltar?"
Não, eu não quero.
Eu vou voltar.
Assim que possível.
Voltarei, farei meu pós-doutorado e mergulharei mais e mais na cultura maravilhosa da Índia, que no final das contas, é sobre... realidade.

Só pude ser livre, salvo, amante de Deus, de Maria, de todas essas coisas que nos ensinam a amar mas não dizem quem são, quando encontrei esse menino perdido no Templo, ensinando os doutores.
O Templo que sou eu.
Os doutores que sou eu.
O menino que sou eu.
O ensinamento que sou eu.

Volto podre de rico.
Na verdade, financeiramente, beiro a bancarrota.
Não tô nem aí.

Eu vim na Índia.
Eu conheci a Índia.
Eu passeei pela Índia.
Os indianos me confundem com eles mesmos.
E eu vou voltar pra Índia.

Quem quiser vir, é convidado.
Quem não quiser, também é.
E quem vier, viverá.

Beijo.

Avisem as crianças que há presentes a todos.
Até pra Rafaela Terra, lá em Ubá.
E será entregue pessoalmente!

(Ah, nao sei quem é Rafaela.. quem é? Quem é? É minha amiga, uai. Que você tem com isso, interlocutor...?) 

Thursday, September 20, 2012

Aos que ficam na Índia. Ou foram pro México.


e num repente, 
a consciência da inconsciência
sobre uma coisa qualquer, sem nome ou origem
que me corrói a alma e me faz triste

calor e frio, lâmina cortando a pele
febre talvez seria, mas não é o caso.
Saudade.

de tudo o que não foi.
Será?

(Francisco Vargas)

Wednesday, September 19, 2012

O olho anunciou a todos os outros:
"Vocês não sabem, mas cá do alto da montanha eu avisto uma cidade ao longe."

O ouvido disse que não era possível, pois não ouvia com algum.
O nariz riu-se e reclamou que odor algum estava percebendo.
A língua ajuntou a ausência de qualquer sabor diferenciado para assegurar que fosse verdade.
Como um todo, a pele apontou para a completa falta de estímulos de toque para assertar que tampouco sabia disto.

Passaram a segredar entre si: "Há algo de errado com o olho." 

Monday, September 17, 2012

Emails são textos formados de bits. Zeros e Uns.
Mas cartas são muito melhores.
Têm digitais. Uma ou outra partícula de poeira da casa da pessoa que te mandou o troço.
Aqui, recebi muitas cartas.
Uma delas foi absolutamente supreendente. Vou partilhá-la.

"Juiz de Fora, 03 de Agosto de 2012

    Julinho,

  Sei que você ainda estará na Índia no dia da minha formatura, mas fiz "questã" de mandar o convite oficial.
  Conto com suas orações nessa passagem importante da minha vida.
  Um dia desses, a Barbara (sem acento, como você gosta) me disse assim: "Marina, isso tudo vai passar, vocês ainda vão ser amigos." Ao que respondi: "Ele que não me dirija a palavra!"
  Ela estava certa. Ainda bem.

     Com carinho,

         sua amiga Marina"


Legal, né? Eu gostei. Mereceu até publicação sipecial, amiga.
         

Saturday, September 15, 2012

Fiz, como relatório final, um relatório propriamente dito e um artigo, pensando assim: "vai que acabo publicando de novo!"
Estava meio achando sem graça publicar de novo na mesma revista.
Aí me liga um editor de uma revista de Goa, ao meio dia (exato momento onde eu estava me dando por satisfeito com a minha revisão do tal artigo) e ofereceu:
"Quer publicar na nossa revista?"
Segunda feira vou encontrar com ele no Hotel Maharaja, que é aqui perto.
Tem gente que chama isso de sorte.
Sei, sei.
Chamo de culiamento descarado.

Friday, September 14, 2012


ATENÇÃO: ESTE POST É UM LONGO DEVANEIO, QUE REALMENTE NÃO MERECE SER LIDO. E EU QUERO COM ESTA FRASE DIZER, EXATAMENTE, QUE É PARA VOCÊ NÃO O LER, SE NÃO QUISER ENTRAR EM MIM.

Se eu conhecesse alguma canção sobre esta dor, eu a cantaria o tempo todo.
Um desconforto.
Estou entrando, hoje, na minha última semana aqui em Bangalore. Dentro de uma semana e algumas horas, precisamente às 23:00 de sexta feira dia 21 de Setembro, entrarei num táxi até o aeroporto, e lá esperarei até as 3:30 para embarcar no avião que me levará a Londres. Ele decolará às 6:30 do dia 22. Chegará em Londres mais ou menos ao meio dia. Dali, pego outro avião até Madrid, às 15:30. E em Madrid, espero até 18:30 para pegar um terceiro vôo, este com destino a São Paulo.
Chego em São Paulo na manhã do dia 23, domingo.
É possível que o Frederico esteja lá. E então, dali do aeroporto, vou com ele (ou sem ele, se ele não puder ir lá me esperar) para São José dos Campos, mas uma pré-descompressão de uma semana. Mas não acho que vá descomprimir tudo em uma semana. Claro que não.
Clodomir, meu colega do doutorado, precisou de dois meses para se re-acostumar ao Brasil. Eu acho que devo levar mais ou menos o mesmo tempo, também.
Para reconhecer o Brasil, as pessoas, tudo.
Na minha mala levo presentinhos pra todo mundo que julguei merecedor. Tem gente que não vai ganhar nada. Talvez fique até com raiva. Não ligo.
Resolverei um monte de saudades, e criarei outras. Natural.
Eu e Marco combinamos de ir a um congresso em Açores em Abril do ano que vem. As outras pessoas daqui, algumas só mesmo voltando para reencontrar.
Seria o caso dos padres, de muitas freiras. De indianos de forma geral. Do Jan.
Outras pessoas disseram que vão ao Brasil, e não duvidaria. Sarah, Shin, Subin (que disse que vai ao casamento do Frederico - pobre alma). Esses poderiam pagar a passagem.
A vida é assim, cruel. Cobram passagem nos aviões, ainda. Talvez ainda leve muitos anos ou milênios para desistirem desta prática absolutamente abusiva. Todo mundo devia poder viajar de graça.
De qualquer modo, estas pessoas (puxa, são todas muié! tacaria no meio o Jan, que disse que o sonho dele é conhecer o Brasil, só pra acabar com o clube da Luluzinha…) é possível de irem ao Brasil, algum dia.
Duvidoso. Mas possível. Acho que só vou poder falar com elas de novo por email mesmo. Algumas, nunca mais verei.
Na verdade, acredito MUITO que, tirando Jan e Marco, perderei contato com todo o resto. Mas… quem sabe, né? 
Não terei saudade da falta de água. Hoje fazem dois dias que não tem uma gota sequer na torneira. Não terei saudade das panes elétricas. E nem da barulhada imensa, o tempo todo, por todos os cantos. E nem da falta de calçadas. Ou do trânsito louco.
Não sentirei a menor falta do facebook ou do skype, que me conectaram com o pessoal do Brasil. Nem um pouco.
Não sentirei saudade da comida. É boa. Mas não ao ponto de criar saudade. Não é a "minha" comida. Especialmente os cubos de pele de porco cozidos. Esses não sentirei nem uma gota de saudade. Ou a salada de alguma coisa muito amarga com côco e pimenta. Não… essa salada eu procurarei esquecer.
Mas a descompressão não é disso. Não é de nada. Não é de ninguém. É de mim mesmo. Levará tempo.
Quando eu vim pra cá, trouxe comunidade, JUDAC, Grupo de Oração, Deus, família, Gisele, plano, sonho, Neo, vontade de dar aula na UFJF…
Pouco a pouco, peguei todos estes deuses pelo braço, levei à cruz e matei. Matei mesmo. Matei Jesus. Senti o sangue dele espirrando na minha testa enquanto batia o martelo e o culpava por tudo. Olhei pra cara dele desconfiado.
E matei todo mundo, também.
Um a um. 
Não sei qual é o tamanho da Isabela. Não sei se a Alopex me reconhecerá. Não sei se o pai está mais gordo ou mais magro. Não sei se  a Bia continua bocão (ah, sim… continua… fofoqueira!). Não sei se é assim ou assado. Não sei se a Missa é boa ou ruim. Não sei de mais nada.
O último a matar foi eu mesmo. Deitei a mim mesmo lá. E tome martelo.
Morremos, todos.
Surgiu uma indiferença, uma consciência. Antigamente eu falava assim "sei que nada sei" porque o Sócrates tinha falado. Aí eu falava pra todo mundo perceber que eu conhecia o Sócrates, que sabia dele. Na verdade, ao falar isso, eu só dava prova de que sabia isso e aquilo. Sabia mesmo. Fui muito sábio, por muito tempo.
Aí, desde que morri, esqueci tudo. Não sei de nada, nadinha da Silva, nada.
Só sei que não sei.
Olho desconfiado pra mim mesmo. E pra mãe. E presse povo daqui, esses mesmos que vão ou não manter contato. Desconfio de todos eles.
Só confio na única coisa que se levantou depois de um tempinho de morto. Não fui eu. Eu continuo morto. É Ele. 
E olha, levantou muito diferente, nem te conto. Sabe o que tem a ver com esse das adorações do santíssimo e da Bíblia e de toda essa parafernália? Nada. E tudo.
É plenamente reconhecível como o mesmo. Mas é totalmente diverso.
Estar morto é uma beleza. Espero não levantar. Olho pra mim mesmo, pras coisas que eu quero, e rio. Acho graça. Sinto-me ridículo, todo desejoso de tudo. E aí, nem ligo mais. 
Se não tem água, não tem problema. E tem.
Se tem água, que bom. E não.
Não faz diferença. E faz.
Estar morto é ser sim e não. O morto sempre vive na lembrança…
Vocês, queridos a quem matei e que desconheço completamente, estejam já avisados. Vai ser aos poucos. Vou precisar de tempo pra me reacostumar. Peço paciência.
Havia em mim alguns monstros, também. Estes sobreviveram.
Eram todas as coisas que eu fazia, pensava de mim ou negava que tivesse feito ou que me sentisse.
Hoje em dia, vivemos todos juntos.
É que, como morri, virei um zumbi, uma assombração sobre mim mesmo. Nos tornamos iguais. Descobri que eu era só mais um dos monstros, e aí ficou fácil.
Nós jogamos cartas, rimos dos padres. Achamos engraçado o fato das freiras usarem burcas e serem chamadas de devotas, enquanto as muçulmanas de hábito são tidas como oprimidas. 
Andamos por aí, todos de mão dadas, e os guardas nos fazem continência. Respondemos com um sorriso imenso. Eles riem de volta, e fica muito melhor assim. Achamos curioso o fato de gozarmos de privilégios.
Enquanto as freiras e as moças que moram no prédio do Adyanna ou os padres e irmãos e meninos que moram nos outros blocos têem que estar em casa às 19:30, vez ou outra saímos neste horário.
E aí os guardas que ficam no portão e pelas ruas do campus não nos batem continência. Só riem. E nos deixam passar. Rimos de volta.
E rimos de nós mesmos. Quando um ou outro nos pergunta porque fazemos assim e não assado, respondemos que não nos importamos muito com o que os superiores pensam. Que não estamos nem aí pros superiores. Superiores, Coordenadores dos blocos estes que, ao contrário de repreender, riem. E dizem "da próxima vez, me convide."
Rimos do medo dos outros. Rimos da autoridade dos coordenadores. Rimos da amizade dos guardas. Rimos da nossa cara de pau. Rimos porque estamos ensinando o "jeitinho". 
Mas não ficamos nos lembrando. De noite, entre uma e outra ave-maria (essa também pessoa morta, morta, coitada. Diferente que só do que dizem a respeito dela. Acho que até fica meio ofendida), pegamos todos os risos, todos os guardas, tudo. E matamos, um a um.
Até que fiquemos eu, os monstros (jogando cartas), Ele e ela.
Ela é boa companhia. 
Perguntei outro dia "é verdade isso?" e a resposta foi "e importa?"
É, não importa mesmo se é verdade ou mentira, doutrina ou heresia, ortodoxia ou sei lá o que. Importa que seja boa companhia.
Outro dia, um dos monstros ficou meio em dúvida. "Não sei não. Você está exagerando, Zumbi. Deve ter algo de verdade em alguma coisa que essa gente toda fala…"
É verdade, teólogo. (esse é o nome do monstro. Já é em minúsculo porque já nem é identidade) Tem mesmo algo de verdade. É que todos estes santos, e santas e tudo, estão em Deus. E onde está Deus?
Ele apontou um dedinho pro nada.
teólogo, faz um favor pra gente: me diz o que você está vendo ai em Deus.
"Nada. É vazio, sem forma, sem som. Puro silêncio de alma."
Então cala a boca, teólogo. Se este povo todo estiver em Deus, nunca saberemos. E a opinião que temos sobre este estar deles por lá só pode ser monstruosa e mentira. Porque se fosse divina e verdadeira, não saberíamos. Como você mesmo sabe, parvo, não é possível saber. Portanto, o que dizem a respeito de tudo é, necessariamente, mentira.
Ele ficou meio triste. Ele gosta de saber de coisas. Até conta algumas pras outras pessoas. Mas conta querendo confundir. Declaradamente, sabe que tudo é mentira, desde que expliquei isso pra ele.
Ali, sentados na beiradinha do colchão, eu e meus monstros rimos, jogamos Uno.
Um outro deles era cismado de que gostava de mulheres. Chamava-se heterossexual casadoiro. 
Foi um dos que mais deu trabalho. Pele grossa. Dura. Quase entortou o prego. Mas morreu também.
Perguntam-me mentalmente os zumbis do outro lado deste teclado se isso quer dizer que eu não vou me casar.
Pode ser. Não importa. Se a "adversária" topar não me amar, eu aceito.
Amo só o Amor. E mais ninguém. Ninguém merece ser amado, sinto muito. O máximo que posso oferecer é um assento na minha varanda pra juntos amarmos. 
Sexo, filhos, planos, todo o resto, é o de menos. Não importam.
Eu sou filho não planejado. A Cecília também é. 
Somos os favoritos, tenho certeza. É que causamos mais impacto.
Até imagino a cena.
"Que? Tá grávida? Mas e o planejamento familiar…?"
E távamos lá, sugando edométrio há muito tempo.
E aí, depois da surpresa, aquele amor imenso. 
Nossos pais amaram a gente. E assim amaram. Não se amaram. Amaram a vida um com o outro.
Não só, claro.
Porque, se isso parece verdade, só pode ser sinal de que não é, posto que a verdade está em outra parte, sempre inacessível.
Por isto, não amo mais ninguém. Amar gente conhecida é muito fácil.
"Ah, como podeis dizer que amais a Deus, a quem não podeis ver, se não amais ao próximo  a quem vedes?"
Sinceramente, não sei de onde você tirou isso. A palavra que você utiliza para falar do amor entre pessoas é diferente do amor a Deus, que é o que estou me referindo aqui. Estou falando de agápe. De dar a vida. Não dou a vida por ninguém. Não tenho vida pra dar. Morri.
Posso viver esta morte com quem quiser dar a vida comigo, é só.
E o que eu posso oferecer a esta outra pessoa é outra coisa, que leva o nome de amor, mas não é amor, amor, amoooor mesmo. É que nossa língua é muito pobre.
Eu amo com esse amorzinho fuleiro, claro que sim. Esse outro é feito de inclinações pessoais, afinidades, planos, sonhos conjuntos…
O problema é que esses são nomes de monstros, que iludem a consciência e nos tornam assim anestesiados a respeito do que somos essencialmente.
Somos mortos. Nós, que AMAMOS, morremos.
Eu encontrei um Amor, no fundo de mim. 
Não sei o que fazer a respeito dele.
Ele veste muitas roupas e muitas peles e muitas vozes.
Ele ficará aqui, e irá comigo.
Ele é diferente de mim, e meu único igual.
Vocês terão de ter paciência, porque… no fim, e depois deste longo preparo, posso dizer de forma que vocês todos entendam:

Não quero saber de nenhum de vocês. 
Se vocês todos sumirem, não fará a menor diferença para o que eu sou.
Eu sou uma faisquinha miúda. E vocês também são, claro.
Mas a chama…? A chama é outra coisa!
E eu conheci a chama. Aí, minha faísca se tornou desnecessária. E apagou.
Conhece-te a ti mesmo… Me conheci, e não era diferente de todas as outras mentiras.
Por fim…
Antigamente, eu queria ser santo.
Hoje, não quero mais.
Já sou de Deus. Se ele quiser me jogar no inferno, por mim tudo bem.
E por isso tudo, tenho saudades de todos. Mas as mato ao cair da noite.

Wednesday, September 12, 2012

Não tenho certeza sobre isso, mas vá lá.


Meu íntimo, meu igual aqui diante de mim
estou segurando tua mão
Não te ouço nem te vejo
Não te percebo, portanto estás aqui

Nas brumas mais ocultas do meu pobre coração
Eu te encontro a mendigar
Por meu olhar, por uma lembrança de teu nome
Por permitir que respires em mim

Eu sou teu suspiro mais profundo de amor
Sou tua pobre esposa Senhor, a desejar que teu calor aqueça em mim
Ao meu redor o mundo te revela a mim, que só sei querer
Que enfim eu me perca em Ti.

Nos bancos solitários do Jardim eu te espero
Quero ouvir-te aproximar
E sempre concluo que não podes vir a mim
Posto que em mim sempre estás

Meu vogar, minha esperança é vã
meu desejo é parcial, imaturo estou a te desejar
Fala-me e converte o meu coração
e entenderei
Que o chamado é te viver

Eu não sei se me convém amar-te assim
Se eu bem sei que és em mim
Porque então desejar te encontrar?
Jogo-me aos teus pés e descanso assim
pobre de mim
Que desejo o que É, e não há.

Tuesday, September 11, 2012

O Robson às vezes se vê pensando porquê a vida tem que ser assim.
E no final, todos concluímos juntos:
Cristo, minha vida eu entrego a Ti
Sem medo de ser feliz.

É muito difícil você perceber que rupturas são coisas diárias, e que a maior ruptura é romper com a ruptura.
Não pra ficar inteiro, mas porque já não se é.
E quando não se é, e se está, a gente acaba aceitando a condição da gente.
Tudo posto em meu lugar.
Comprei mais uma mala das grandes, de tanta coisa que quero carregar pro Brasil...
E alarguei a minha compreensão e a minha alma, para enchê-la de mais e mais coisas.
Os padres nos param (a mim a ao Marco, amigo que fiz e que levo comigo) e nos dizem "fiquem mais um pouco!"
Irmã Sarah e Pastora Shin dizem "que pena que não poderão ir conosco ao Norte e Nordeste da Índia!".
Francis diz "volta, faz pós-doutorado aqui em História da Igreja!".
Mas minha mala segue aumentando, e tenho até outra.
Estou mesmo indo embora, para sempre.
Se tiver de vir de novo, venho outra vez.
Mas, por esta vez, chega!

Saudade de ouvir a Isabela dizer meu nome pela primeira vez.

Em ti me abandono, Tu és o meu dono,
De hoje em diante e pra todo fim
Cristo minha vida, entrego a Ti
Sem medo de ser feliz.

Saturday, September 08, 2012

Há muito tempo atrás, em uma terra distante, uma pessoa enjoada me falou assim:
"Puxa! Você nunca me escreveu nada, dedicando pra mim! Porque? Não é meu amigo? Não me ama?"
A todas estas pessoas (ah, são muitas e tantas...), dedico o que segue:


Eu me importei contigo e com tua expectativa
E decidi-me por escrever-te o mais belo de todos poemas de amor.
Desenlodeei minha memória experiencial sobre tu
E não encontrei nada. Era tudo mentira em desejo.

Com bravura, sinceridade e amor; quem diria;
segui com lápis em punho, feri o papel.
O resultado foi essa bosta, que agora lês.

Desculpe-me.

É que meu Amor é Outro, e eu sou dEle os suspiros.

Wednesday, September 05, 2012

Então. Vou contar causos, agora.
Nem só de brasileiros, mexicanos, congoleses, indianos (obviamente), franceses, alemães e etc vive a Índia.
Também há coreanos. Litros.
A Coréia do Sul tem negócios no Oceano Índico, perto das águas territoriais indianas, o que por sinal tem causado um pouco de atrito. Mas além disto, desde meados do século passado (o 20), houve um grande êxodo, e se espalharam pelo mundo. Até em Juiz de Fora mesmo tem, né? Os famoso "coreano", que vendem uns vestidos baratos!
Então. Este processo de migração da Coréia está continuando até hoje, razão pela qual a gente encontra coreanos fora da Coréia. E aqui na India também.
São muito gentis. Extremamente educados, suaves. Entre eles aqui, eu que sou um sujeito feminino e heterossexual por acidente, conheço três meninas. Shin, que faz pós-graduação e me pede mil ajudas em tudo que é matéria, e que é semi-pastora anglicana. Ultra gente fina, e doidinha de tudo.
O marido dela, que já é padre, ficou em Seoul.
Ela me apresentou uma pobre alma, favorita do Frederico, Subin. Que chegou aqui há uns três meses, em Bangalore, mas mora na Índia há uns 4 anos porque os avós dela moram em Chennai. Faz uma graduação na Christ.
E a irmã dela, Sumin (taliqual os filhos Marina/Mariana, Rodrigo/Ricardo, Pata/Peta/Pita/Pota/Maria Clara... tão freqüentes no Brasil) faz o terceiro ano, do Ensino Médio. Que por aqui chama Junior College, ali no Koramangala 4th Block, coisa de uns 40 minutos a pé daqui.
Pois muito que bem. Têm uma estrutura social estranha.
Sumin tem uma Guardiã. Uma espécie de mãe postiça, que toma conta dela.
E Shin, a "padra" anglicana, é a guardiã informal de Subin. Uma quase-guardiã.
Na verdade, ela é uma ounni, uma "irmã mais velha", a mais velha de todas. A palavra "ounni" significa irmã mais velha. Mas elas não são parentes. E se conheceram aqui. Mas curiosamente, automaticamente pelas duas serem anglicanas (ou quase, ja que a Subin é meio budista também) e da mesma cidade (Seoul) a Shin se torna responsável por ela. E tem que pagar as contas, quando saem juntas, inclusive. E tem que cuidar dela. Muito louco, né?
Nessa coisa toda, ampliando o conceito, se um menino mais novo conhece uma mulher (ou menina mais velha), a menina mais velha não é ounni, mas "nunna" do rapaz.
E um rapaz mais velho é "opa" de todo mundo ali, meninos ou meninas.
Como eu sou um cabra curioso, saí perguntando isso tudo pra poder saber. É muito gozado algumas coisas, que eu não perguntei.
Tipo: quando encontro um deles, menino/menina; é como entrar em uma academia de karatê. Faz aquele cumprimentozinho do início, curvando. Mas um pouco menos curvado.
E ai de vc dizer "nossa, vocês parecem japoneses...".
O Japão é a Argentina da Coréia. E eles sustentam que são super diferentes, que não tem nada a ver, que o Japão é isso e aquilo.
Aí tá. De uns tempos pra cá, notei que a Shin, que tem 29 anos, começou a me chamar de opa. Eu deixei, uai. Que que eu ia fazer? Ela insistia! Comecei a chamar ela de Nunna, e ela ficava irritada, dizendo "não!!! sou Shin, só, e você é Opa. E é assim."
Como ela é meio louca (já disse isso aí pra cima... na opinião do Marco, ela é louca e meia, e do Frederico, é americana), achei melhor não contestar e "assumi o cargo". E ajudei ela com o trabalho de direito canônico (que ela como todo e qualquer protestante ou católico fundo que se preze não entende porque existe), com hebraico, com Mariologia... tudo moleza, né.
Na verdade ajudo o Dalsai, que está formando em Teologia, com o trabalho dele também. Mas ele é mais preguiçoso que eu, e me faz entender a irritação da Maria Inês comigo na época. E ajudo o Philip com a aula de Epistemologia da Religião dele também.
É, eu sou um cara prestativo.  Tooodo mundo sabe disso, que finjo de mau mas na verdade sou bonzinho.
Segunda feira, estava eu aqui olhando pro teto quando a Shin me liga.
"Opa, venha no hospital Sagar. Não estou entendendo o que o médico está falando."
Fui lá. Achei que ela estava doente.
Mas na verdade, a Subin é que estava com febre dessas que vai e vem, e com vômitos e não sei o que. Dengue. E elas queriam que queriam vacina contra a dengue. E queriam internar de qualquer jeito, porque é uma doença terrível.
E sim, o sotaque do Sul da Índia parece ser péssimo. Eu entendo não sei porque. Acho que é porque é muito parecido com o do Dilip, que parece brasileiro mas só consegue explicar Filosofia Vedanta em inglês. Nada mais justo, já que os livros estão em inglês... mesmo os aí do Brasil.
No Brasil ou você não encontra nada, ou encontra umas coisas Nova-Era ou encontra o livro em inglês sobre Filosofia Vedanta. No mais, é Nova-Era mesmo. Nego dizendo que Krishna e Jesus são a mesma coisa não no sentido profundo de mitologias de acesso ao divino, mas no superficial de serem um a encarnação do outro. E sobre a mitologia de Jesus, claro que não estou falando do Jesus Revelado, do Evangelho, mas daquele cara super gente-boa que cura até unha encravada nos grupos de oração. Ou no super-amiguinho que dá ao estudante uma vaga na universidade porque o ama muito e ele é o escolhido do Senhor. Ou no que... enfim. Pescou, né? Há uma mitologia extra-bíblica de Jesus que é mais conhecida que a história dele mesmo.
Bom. Fim deste enorme parêntese.
Fui lá, servir de intérprete.
A Índia toda é um grande monumento à burocracia inglesa, minha gente. Pense no críquete, cuja partida dura 5 dias (no duro. 5 dias de partidas de 6 horas cada) e no baseball, que é uma versão simplificada pelos estadounidenses do mesmo jogo. Os ingleses adoooram burocratizar. E os indianos também. Resultado...?
O paciente na Índia, mesmo que seja para engessar um braço quebrado, não pode nada.
Ele tem que ter um acompanhante, e as coisas são perguntadas e resolvidas com o acompanhante. O acompanhante é que diz se vai ou não vai fazer exame. Ou se vai ou não vai querer ir ao médico.
E aí, na hora que o médico ou o enfermeiro aparece pra colher o sangue, colhem e dão a guia pro acompanhante, ele tem que ir nao sei aonde e resolver nao sei o que. O paciente tem que ficar pacientemente sendo um sujeito passivo na coisa toda.
Os formulários estavam em inglês. Com perguntas do tipo Idade, peso, tal. E, do nada... Nome do responsável na Índia (pai ou cônjuge). Bem desse jeito.
E a Shin, que morou nos EUA e não entende o sotaque, não conseguia explicar que Subin não era casada. E nem entender que o médico queria saber como é que ela morava, se não era casada e nem morava com os pais. E Subin, que fala inglês indiano perfeito (depois de 4 anos também, né...?) não podia abrir a boca. Explicava a coisa pro médico, mas ele não deixava ela preencher o formulário e não preenchia. E dizia de novo "mas quem é responsável por você?" "Eu!! Tenho 22 anos!" "Mas você é mulher. Quem é responsável por você?" E tudo isto.
Sendo também que, como estava com dengue, foi colocada na sala de exame isolada, para que a doença não se espalhasse pelo hospital. Muito melhor que controlar o Aedes com um fumacê. Sai mais barato colocar os dengosos dentro de uma sala fechada. E isolada, sozinha, aumentando a ansiedade. E a Shin não podia entrar lá. Então tentaram resolver pelo celular, mas o médico tomou o celular da Subin, porque o paciente também não pode falar no celular. É proibido, porque faz muito barulho.
E o médico começou a perguntar pra Shin onde estava o marido dela, e ela dizendo "na Coréia" e o médico "o que? o que? o que?". Detalhe. Shin fala "South Korea"assim, lindamente. Mas com sotaque texano, porque morou lá por 6 anos. Sotaque este que, aos ouvidos do sul-indiano, é tão estranho quando o sul-indiano ao ouvido querendo ouvir inglês americano.
No meio desse circo, eu cheguei lá.
Curiosamente, tinha lá um amiguinho da Subin, da Universidade, que também não queriam deixar fazer nada porque tem 17 anos. E é assim, minha gente: Fica o enfermeiro vigiando quem está com o formulário. Tem uma mesa pra preencher o formulário. Não pode pegar e sair dali com ele. Não, não pode. É a burocracia. É só naquela mesa específica, de frente para aquele enfermeiro específico e aquela pessoa específica que pode preencher.
O menino é indiano, e a Shin não conseguia entender o que ele dizia.
Cheguei no circo. Cumprimentei. Shin me falou assim: "fica quieto e vai balançando a cabeça quando me vir", por uma mensagem. Ok.
Cheguei, fui balançando a cabeça e ela danando a falar coreano e eu boiando total e fazendo o cumprimentozinho japonês. O médico olhou pra minha cara.
"Ah, é você..." E quando eu ia dizer "eu o que?"A Shin já foi dizendo "YES! It's him! Can he fill the form?"
Me deram o formulário.
Coisas até simples. Mas termos loucos, que o enfermeiro foi explicando o que eram. Difícil mesmo de entender aquele formulário. Na verdade, não sei se o que atrapalhou a Shin e a Subin foi o formulário ou as explicações do enfermeiro. O menino (Nanda, que ele chama. Acabei de lembrar!) foi meio que traduzindo pra mim. E preenchi a coisa toda.
Entreguei. O enfermeiro olhou, conferiu, fez assim uma cara de "ah, tá" e me devolveu.
"assina aí, pra menina ser internada."
Que, gente? Olhei pra Shin. "O que ele quer dizer? Não é você que tem que preencher isso? Você não é 'ounni' dela?"
"Você é o Opa. Você é nosso protetor aqui na Índia."
"Desde quando, Shin?"
"Desde que descobri que nessa porcaria de país machista mulher não tem vez. Na verdade, estamos pra nos casar em breve, e Subin é minha filha adotiva. É o que ele parece ter entendido."
E olhou pro enfermeiro, que olhava pra mim como quem estivesse disposto a resolver uma iminente crise conjugal.
"Ah, tá... depois você me explica isso direito."
Assinei. Fomos pra sala de pagar os negócios todos. 880 rupias, pagos com a carteira da Subin, que já estava com a Shin. A mulher deu o recibo pra mim e não pra Shin. Até as mulheres são machistas na Índia.
"Como assim, pastora?"
Ela começou a rir, nervosa. Me olhou, falou mais umas coisas em coreano. E eu dei aquela sacudidinha e disse "Hai! Hai!", que é sim em Japonês. Mas e daí? Ninguém ali sabia nem coreano e nem japonês mesmo... Acho que ela estava com vergonha e danada da vida, tudo ao mesmo tempo.
"Relaxa. Não estou nervoso e nem bravo. Mas tô curioso com isso tudo. Como assim?"
"O cara queria que eu trouxesse o meu marido. Expliquei que ele era padre e estava em Seoul. Ele me perguntou onde era Seoul. Disse que era na Coréia, e ele disse que então eu era divorciada. Então disse que não, ele perguntou onde estava meu marido de novo. Expliquei a ele que na Coréia é assim e assado, que eu era a guardiã da Subin. E ele disse que tinha que ser um homem, e mandou eu chamar o meu guardião. Meu guardião é você, eu acho."
"É?"
"É. você é mais velho, faz karate, e tem mestrado. É o guardião."
"Sou?"
"É!!!! Opa!!!!"
Aí que eu entendi exatamente o que um "Opa" era.
"Mas... e porque vamos nos casar?"
"Porque o enfermeiro não entendeu nada do que eu expliquei e me perguntou tudo de novo. Aí me deu a idéia de te promover a noivo, que sabe coreano e por isso podia ajudar. Desculpa"
"Você é louca mesmo... bom... e o que você me disse lá?"
"Um monte de desaforos ao enfermeiro, só olhando pra sua cara."
Pouco depois, chegaram vááááários coreanos. Todos falando aquela bizarrice de língua. Alguns meninos, de uns 20 e poucos anos, tinham os cabelos cortados no melhor estilo "cavaleiro do zodíaco" ou "Ben10". Quando perguntavam o que eu fazia, dizia que era pesquisador de doutorado. Faziam uma cara de admiração, curvavam. E diziam ooooohhhhh...
O menino indiano ficou curiosíssimo querendo entender como é que eu podia ter Mestrado em Teologia.
"So you do detain a Master's Degree in Theology, don't you?"
"Yes."
"Are you a father?"
"No."
"How is this possible?"
Gente.
Acabou que a Subin ficou no hospital, a Sumin e a guardiã da Sumin foram pra lá e ficaram com ela. Expliquei que a vacina era todo mundo usar repelente.
"Porque não tem vacina? O Brasil é rico! Podia fazer a vacina."
Também estou me perguntando isso até agora.
Não sei se ainda estão lá, mas como a cultura do "zoto", como vocês podem perceber, é muito estranha, não sei se devo ligar pra saber.
Porque de uma hora pra outra pode acabar que viro avô de sei lá quem sem o menor aviso.
Mas o que IMPRESSIONA, e assim quero fechar o texto e dizer o que realmente me inculcou, é que a pergunta de fundo, no Brasil, na Índia, na Coréia, é a mesma.
"Como você pode ter Mestrado em Teologia e não ser padre?"
Fiquei sabendo, depois, pela boca da Shin, que a Sumin é da opinião que eu e Marco somos muito sagrados (very Holy people) porque pesquisamos teologia e nem somos padres. Somos mais sagrados que os padres. Somos na verdade reencarnações/emanações/sei-lá-o-que da sabedoria do Buddha.
No Brasil, as donas já pararam o Robert na fila do caixa do Bahamas pra dizer "Nossa, o Julio tem Mestrado em Teologia, e já está no doutorado. Como pode ser que possamos conviver com alguém assim...!!!". A mãe do Fernando Haider ficou na dúvida se a Barbara, doutorinha, comia pipoca.
E, diante de um Rubem Alves da vida, eu babo ovo e o considero super-sagrado.
O que nos causa espanto é que sabemos que o outro é território sagrado, e as maneiras que a gente reage a isto é que são variáveis em cada cultura.
No Brasil, compramos o melhor milho.
Na Índia, batemos continência e pedimos bênção.
Na Coréia, fazemos da pessoa a nossa guardiã.
No catolicismo, santo.
No hinduísmo, outro deus.
E assim em diante.
Mas o desconforto é o mesmo: o outro é sagrado.
Eu, o piorzão, sou sagrado.
E essa é uma coisa pior de se constatar.

Talvez deva me preocupar mais com o meu milho. E pedir minha própria bênção. E ser meu guardião. E me conter. E ser santo. E assumir o Deus dentro de mim.

E, claro... o causo por si mesmo já é super bizarro e divertido. Vale a pena registrar...

Sunday, September 02, 2012

Foi ate meio complicado, admito.
Com duas panelas e uma boca de fogao apenas... mas comecei fazendo o feijao, enlatado e ja cozido, na frigideira menor.
Depois, enquanto cozinhava o arroz, coloquei o feijao numa tigelinha e lavei beeeem lavada a  frigideirazinha.
E, quando o arroz ficou pronto, fritei os dois ovos, duvidando que fosse dar certo. Mas deu. Fritei-os sem arrebentar a gema, deixando-a naquele estado semi-mole favorito da maioria das pessoas do planeta Brasil.
Arrumei tudo no prato.
Para acompanhar, uma kingfisher red. Muuuito leve, esta cervejota. Voce poderia tomar umas dezoito e nao ficar bebado com ela. Enfim...
Sentei.
Chegaram as companhias, em minha mesa enorme que permiti que se fizesse a minha frente.
Cidinha, que adora ovo frito e muito embora cozinhe em festas nao sabe fritar ovo sem arrebentar a gema e sem atingir o ponto preciso do quase-cozimento da gema foi a segunda a tomar sela. Antes dela, a mae e o pai.
Ele disse que comeria so arroz e feijao. E batata, claro. Sempre ha batatas pra ele em minha mesa, salteadas e cozidas.
A mae ficou me olhando e perguntando se eu estava tomando cuidado com o alcoolismo. O Frederico, que tambem estava ali, disse a ela que isso e bobagem da Teresa e que nao e porque a pessoa toma uma cerveja no domingo que ela e alcoolatra. E a mae logo se adiantou: "Oooooh!!!! Mas e assim mesmo que comeca, aos poucos. Nao acha, Toninho?"
O tio Toninho levantou um pouco a cabeca e fez um sinal que ninguem entendeu. E pediu outro relogio de pulso. Servi-o em seu prato.
Dona Aparecida Lopes, querida segunda mae, ficou falando "nossa, Julio! Voc^e precisa ensinar a Gisele a cozinhar assim!" E o sr Moacir comeu em silencio, rindo vez ou outra. E me acompanhou na kingfisher, dizendo que Antarctica era melhor. Ate a Ketlin comeu. Arroz feijao e ovo, pra ela, tudo bem. Acho ate que escolhi este cardapio requintado para poder inclui-la inconscientemente.
Num repente, o Robinho apareceu. Aquela versao divertida dele, casado ainda. Aqui na minha mesa nao tem essas frescuras de tempo. Sentou-se com a Mirian pequenininha no colo. E ja foi se servindo, de acordo consigo mesmo, de roz, jao e disco voador.
Sem o menor aviso, a Tia Lalinha comecou a fazer caretas com a dentadura, enquanto a tia Tilinha nao sabia se a repreendia ou ria.
Vo Lilita (quem diria!) elogiou (sera que elogiaria?) a comida do Macaquinho. E o Vo Francisco batia um papo com o Zezinho, sentados la na escada. Ouvi-os pela janela.
Francisco e Henrique riam, contavam piadas estranhas, comiam, enquanto a Isabela parecia mergulhada em um mundo proprio, onde a satisfacao do paladar e tudo o que importa nesta vida.
Ao lado dela, a procuradora procurava a conta que esqueceu em algum lugar, enquanto o Codiobé, por trás, segurava o Zé Lucas e conversava com o Marcio, que trazia uma menina no colo. Até já nasceu, por aqui.
A Glauciléia conversava com a Glaucilene a respeito de seus nomes estranhamente estranhos e parecidos. Mas que pra elas é normal.
Robert colocou Maria Gadu no cd player, dizendo que todos deviam experimentar ouvir, o que foi atestado pela Barbara, que assegurou que nao assentia por lampadismo apaixonado, mas que as letras, que nao sei o que mais... etc. E me acusava de implicancia, gratuitamente! Eu, sempre inocente...
Fabiana e Marcello tambem vieram. O pai perguntou pra ele onde estava a foto da Tia Henriqueta.
E entao, um barulho de motor. Pela porta, Nelminha, Frederico, Newton e Marcia. Nao sei o que diziam. Mal me lembro, agora, das suas vozes...
Asseguraram que nao deviamos nos preocupar com o carro, pois ninguem roubaria "aquilo". Foram seguidos imediatamente pela Aninha e Miguel, que trouxeram um frango assado e uma carne de nao sei o que na cerveja, parece.
Ela me perguntou alguma coisa sobre o aquario, mas o Frederico discordou de tudo que eu disse e falou outras coisas. Ele esta certo, acho. Tem aquario ha mais tempo. E o pai falou que peixes morrem mesmo.
E a mae protestou num muxoxo "aaaaah, mas e taaaao triste!"
Teresa, que sentou-se umas duas cadeiras pra la do Robinho, estava linda, em plena luz do dia. Ria alto de tudo, Ribeiro que so.
Gisele falava com todo mundo ao mesmo tempo, rindo risos lindos, acendendo luzes por toda parte com a simpatia e docura enorme.
E entao...
A tela de mosquiteiro da janela aqui na minha frente. O ultimo grao de arroz. Voltaram todos pra dentro da minha casa que sou eu. Se impregnaram no meu sangue. Nao so estes que cito, mas muitos e muitos outros que estavam aqui. Todos... Ate o Sr Vicente Tonelli, que metia o pau no Juracy Scheffer o tempo todo estava presente! E a Bia, a minha amiga querida. Joana, com um olho espetacularmente verde, um riso frouxo. Hundt e Hundien davam um risinho pro Alexandre e pra Carminha na varanda. E taaantas outras cenas, em cada grao.
Pelo que sei, foi a minha ultima refeicao. Posso morrer a qualquer hora, visto que estou vivo. Tomara que nao. Tomara que me sente em muitas mesas ainda. mas quem sabe?
O que me importa mesmo e que felicidade e a consciencia de que sou a 'suas'  mesa.
Sirvam-se do que posso dispor, hoje e sempre.