Ontem de noite o senhor Ananias começou a dar sinais de cansaço e impossibilidade de funcionamento.
Isto ocorreu quando eu estava salvando um documento que fiquei o dia inteiro revisando, e que era um artigo do Marco. Imagina se o negócio apaga!!!
Depois de aproximadamente 20 minutos travado (deu tempo de jantar e lavar todas as vasihas), ele continuava travado, então dei um golpe e saí apertando o botão de salvar loucamente.
Sei lá como, ele voltou a viver, salvou o documento… e travou de novo.
Tudo isto no final de um dia lindo… bem, desliguei ele, liguei pra Gisele e pra mãe e, como era já horário bancário no Brasil, fui no site do BB pra fazer uma transferência pra mãe.
O trem travou de novo, e minha senha foi bloqueada misteriosamente.
Liguei pro telefone de suporte no exterior do banco, e a moça que me atendeu era uma piadista, no mínimo. Mandou que eu ligasse pra um 0800 do BB, pra suporte a internet banking, e eu expliquei pra ela que 0800 não funcionam em ligações internacionais (não funcionam mesmo, é regra básica, do mesmo jeito que os 1800 [chamados chistosamente de tollfree] da Índia não funcionam se a chamada for originada de fora da Índia). Além disto, o telefone de suporte que estava no site do Banco do Brasil era o dela, portanto ela é quem deveria apresentar uma solução.
A solução que ela apresentou foi mais linda ainda. Disse que eu deveria ir ou a minha agência, ou um terminal de autoatendimento mais próximo. Aí eu perdi a paciência e falei pra ela: "minha filha, eu já te falei: eu tô na Índia. Se você, que está aí pra dar informação não sabe, deixa eu te dizer: não existem agências ou terminais do BB neste país aqui!" e ela: "Senhor, mas esta é a única solução." E eu ri, porque é realmente engraçado, e disse a ela: "Menina, isto é vergonhoso! Você está me dizendo que a única solução possível é sair da Índia, seja pra voltar pro Brasil ou pra ir ao Japão, que é o lugar onde temos uma agência, no caso em Tóquio (nossa, como sou bem informado)! Então é melhor que você diga que não tem solução, porque isto que você chama de solução não é solução nenhuma, até porque pra um cidadão brasileiro entrar no Japão, ele tem de pedir visto em uma representação no Brasil. Ou seja, a solução mais viável é eu gastar 4000 reais pra desbloquear uma senha." E a moça: "senhor, eu entêindo a sua indiguinaçâum, mas é que…" "Mas nada. Não tem solução, ou então você não sabe. E quer saber, ainda bem que esta ligação está sendo gravada, que é pra quem escuta ela saber que é ridículo colocar pra um cliente no exterior uma solução totalmente inviável como a que você apresenta."Aí eu desliguei, na minha primeira falta de educação na Índia.
E, depois de matutar, pedir o celular do Dedé pra Gisele e tudo o mais, resolvi ligar pra agência, onde o pessoal ficou desesperado com a minha reclamação, porque também não sabiam se tinha sido um bloqueio real ou o que fazer. Me pediram pra ligar em 10 minutos, e nunca mais atenderam o telefone. Vou ligar pra lá hoje de novo.
Desliguei o Ananias e fui dormir, fazer o que, né?
Hoje de manhã, tracei itinerários, em quatro rotas, pra viajar pras universidades que eu preciso ir aqui na Índia, usando o Ananias, que travou mais de 500 vezes. O caso é que o Ananias, um EEEPC4g, tem 4Gb de HD, e vinha com um sistema Linux da Asus, que era uma coisa linda.
Um belo dia a Asus resolveu que não ia mais dar suporte ao Xandros, e aí começaram meus problemas.
Linux é terra de ninguém, porque todo mundo pode fuçar. O resultado é que ele começou a dar pau e não tendo quem arrumasse, recorri aos fóruns de informática, que não resolvem nada. Enquanto um fórum de Windows te diria: "clique ali, baixe isso aqui e rode que vai dar tudo certo", os de Linux sempre começam com "O kernel 2.2.16, editado por Torvalds em uma máquina Sun na Hungria, é essencial para resolver o problema do pendrive de um Giga da Kingston, quando este trava. O caso é que este novo kernel tem uma maior capacidade heurística de montagem e desmontagem do sistema de arquivos fat16 em componentes flash com mais de 3018 cilindros…"
Assim, eu aprendi muito na época, e até hoje me defendo beeem numa máquina Linux, sei compactar, descompactar, emular, compilar a partir de código fonte e tudo. Mas como é um sistema aberto, nem sempre o que é solução em um computador específico o é em outro, porque o usuário final (o dono do computador) tem tanta autonomia sobre o sistema que as variações podem ser gigantescas ao ponto de dois usuários do mesmo modelo e com o mesmo sistema de início (suponhamos, dois computadores eeepc4g comprados no mesmo dia e na mesma fábrica exata, montados pelo mesmo técnico) se transformarem, em poucas horas, em algo como num windows 95 e outro no MacOS. Isso mesmo! Um pode ficar , por vontade do usuário com o Wine ou com o WEMU, rodando tudo quanto há do windows 95 e se comportando como um windows 95 (muito embora o fundo e Unix e não sei o que e tralalala, essa conversa chata sobre software) e outro se comportando exatamente como um MacOS, até com os mesmo aplicativos, recompilados pelos compiladores do 2.2.15 pra cima sob, digamos, Fedora Core, porque é um sistema cheio de capacidades e talz. Ou o meu amadíssimo Knoppix, que por ser pequeno ocupa pouco espaço e te deixa encher de coisas desnecessárias.
O jeito foi instalar o Windows XP SP2 nele. Eu comprei uma licença por 150 real na época, até. Mas a Microsoft matou o suporte ao SP2, passando a suportar só o SP3. E, com o Sp3 instalado, sobra só 600MB livres. Se você quiser instalar o Office, vai ter de instalar só a metade, porque se colocar o Word, o Excel e o Power Point, morreu. Aí tem de mudar a paginação do HD, pra liberar espaço nele, ou desabilitar o Backup. Opções, ambas, ruins.
O Ananias é de outra era, coitado. Sofreu upgrade de memória RAM, trocou placa mãe e wifi, já… matou a câmera, que passou a mostrar de vez em quando uma imagem espelhada… depois caiu no chão, coitado. Nunca mais foi o mesmo.
Pensava eu, quando estava saindo do Brasil, que o Ananias iria durar no máximo dois meses, sem dar pau. Mas ele deu pau 4 vezes. Duas delas, feias. Tive de formatar aqui duas vezes, e ir reconfigurando com muita paciência, buscando a linha tênue entre usabilidade e possibilidade.
Aí resolvi ver, diante da dureza dos fatos, quanto custava tudo. Depois de fazer contas a manhã inteira, fui lá pelas 15:00 nas lojas de informática a procura do meu objetivo: algo que custasse até dois mil reais e que fosse bom. Tão bom quanto possível. E que fosse portátil, claro.
Vi máquinas da Samsung, Acer, Asus, Toshiba. Nada que oferecesse um bom custo benefício. Um computador da Samsung com 6Gb de ram e 1 TB de disco travou ao meu toque de estresse. Sim, porque pedi pra fuçar, e eles traziam os negocinhos novos, e eu pedia um cd do office, instalava. E, assim que pronta a instalação, abria o office e o internet explorer ao mesmo tempo. Este é um bom teste, não sei porque.
A maior parte ficou lenta, muito lenta, ao fazer isto. E o da Samsung, de 6Gb, morreu. Tive que pedir desculpa pro moço da loja, porque que coisa feia, né? Travar computador do zoto de poprósito. Aí fui na Apple, e encontrei o meu sonho de consumo. MacBookAir.
Custou 2025 reais, com maletinha, kit de limpeza, garantia mundial de três anos, protetor de arranhões, capinha de teclado, que a gente põe em cima e fica sem entrar poeira. Mil e cem reais barato que no Brasil. Sendo que os top top daqui sairiam por 200 reais a menos, só. Nem compensava.
Ele é lindoooo!!! Emocionantérrimo, rápido. E chique que dói. Nada adequado a mim, que sou um bronco…
Mas to com complexo de gastação de dinheiro. Complexo bobo, porque eu comprei o mais barato e mais melhor possível, algo que juntasse as duas coisas.
E o que importa contar essa história toda?
Importa em pensar que eu me assusto.
"Não importa o lugar se comigo o Senhor está:
Com muito ou pouco, sou feliz.
Não importa o que está do lado de fora,
És o meu tesouro e está dentro de mim."
Tenho me esforçado pra viver com pouco e não me importar com casca há uns quatro anos. E ter de comprar um produto de primeira linha me machuca, porque aí eu percebo que eu ainda não cheguei lá. Se tivesse chegado, não é porque eu não compraria alguma coisa de que precisasse e me esforçasse em comprar o melhor produto pelo melhor preço. Mas é que eu faria isso e não me importaria, passaria por mim. Mas estou meio afogado, porque me importo. Ainda não sou perfeitamente pobre. Se fosse, eu não teria dinheiro, mas simplesmente ele existiria na minha vida, como existe a água. É difícil explicar, mas é assim: consciência de que as coisas me afetam!
É a dor de ser humano, se der húmus, de ser terra.
Dizia o Buda que fomos feitos para o ar. Somos árvores, de pés no chão e corpo fora dela, erguido.
Somos flor de lótus, raiz na lama, flor na superfície do lago, flor que não toca, sequer, a água.
Eu queria partir. Queria ser todo livre. Mas, infelizmente, este computador aqui me enche de alegria.
Assim, por mais que o tesouro esteja dentro, parte de mim ainda curte e ama o lixo de fora.
E ai que dor! Porque ao pensar que tenho de ser livre e que nada pode me afetar, diz uma sábia: "Quem se quer livre demais acaba se perdendo na tentativa vã de ser inteiro, algo que só acontece quando se morre. O mundo pode e deve nos afetar" (LOPES, Gisele. Conversa no Skype. Bangalore : MacBook, 2012. p33.
E outra, "é preciso amar apaixonadamente, e não fugir da paixão." (VALLE, F. Lawall. Blog em Branco do Julim. Juiz de Fora : Notebook dela e do Marcello, 2012. p x .
E, entre o Buda e a Gisele ou a Fabiana, fico com elas. E assim me liberto. Ananão (esse é o nome do brinquedo novo), eu te acho o máximo, você é meu sonho desde 1997, quando eu vi um Mac na casa do Pedro Brito. Ananias, salvou nossas vidas. Seremos eternamente gratos.
Ananias voltará a ter Linux, a versão mais leve, que permite a ele ser uma ótima máquina de escrever. E será carregado pra lá e pra cá. Nunca será atualizado, será um museu vivo, uma relíquia, uma espécie de fusca da informática.
Por sinal, estudo uma forma de incorporá-lo ao Petit Pois, com uma antena bluetooth, como um centro de multimídia integrado. (zoeira).
Bem, é isso aí. Um beeeeeijo pra todos, e um muito especial pro Frederico, que fez um comentário demonstrando que é um sentimentalóide como todos os ômi lá de casa.