Monday, May 07, 2012

Nada de água ontem a noite.
A gente descobre que a água é um bem precioso quando quer beber e para isto enfrenta a noite com seus escorpiões, morcegos enormes, milhares de besouros (acho que tá na época) e gritos de um bicho não identificado pra buscar lá do outro lado da rua, no Chavara Bhavan. Assim me explicou o Marco, que fez estes enfrentamentos todos.

Eu consegui a proeza de lavar (ou quase isso) uma panela, um prato, uma caneca, uma faca e uma colher usando uma xícara e meia de água.
E esperei até a manhã para ir buscar mais. Tomei leite.
Hoje de manhã, nada de água também. Só na hora do almoço, uns meio dia, ela apareceu.
E, agora à noite, ela está escorrendo ali fora, sendo desperdiçada. Eta povo doido.

Na caixa dágua aqui do prédio eles tiraram a bóia, e ela está sendo enchida com uma mangueira, a mesma mangueira usada pra fazer massa de construção. Ou de destruição.
Hoje de manhã, umas sete e quinze, caiu uma coisa enorme ali fora. Depois começaram barulhos enormes por todo lado. Era o povo tirando a taipá.

Aqui, eles amarram as taipás. Amarram umas madeiras nas outras usando uma cordinha de cânhamo, e por cima amarram uns tocos que sustentam as pranchas de taipá. Tente visualizar, que eu tento lembrar de fotografar qualquer dia desses as condições super seguras de trabalho.

Bem, quando eram umas 14:00 a luz foi desligada, e parou geral, aqui no prédio. No resto do Campus, tinha luz. O que indica que desligaram esta linha para arrumar alguma coisa. Eu aprovo.
Depois que fuçaram nela na semana passada, ela caiu só uma vez. Muito bom. Quem sabe agora ela pára de cair de vez, né?

Mas tive uma decisão dificílima pra tomar. Lendo os artigos e alguns livros do Boff, percebi que ele é um gênio. Dá raiva, o Boff. Ou a igreja. Ou os dois. Mas o caso é que os textos dele são bons excessivamente, a ponto de você só conseguir parar de ler com muita força de vontade. Enfim, li um livro e uns cinco artigos. Aí pensei que ia ter de expandir o meu artigo um pouco.

E escrevi a expansão. Depois (devia ter feito isso antes) li no último número da Dharma Journal (a revista para a qual estou escrevendo) como eram as regras de artigos. 4000-6000 words. Bem, a parte da expansão tem 3900. Ou seja, tive de escolher o que publicar, se a parte sobre Teologia da Ecologia comparando o Boff e o Frei Betto ou se só a parte de Teologia Social Ecológica, que é uma coisa muito inteligente, pois se trata de fazer uma teologia da libertação com temas de ecologia, porque eles são temas sociais. Fiquei com a segunda opção. De quebra, já tenho mais um artigo. Vou mandar pra outro lugar que esteja publicando Ecologia.

Ficou bom, viu? Enfiei lá no meio, inclusive, uma frase do Carl Sagan: "We are a way Universe found to know itself". Massa bagarai. "somos um meio que o Universo encontrou para se conhecer."

A noticia de que tem um cara que dá bombons se espalhou, e umas sete crianças me pediram chocolate hoje. Como elas estivessem todas juntas e eu só tivesse dois no bolso (saí com bombons no bolso porque já previa a divulgação do Evangelho do Chocolate), não ia ter como dar pra dois escolhidos, né? Então quando a noitinha chegou, lá pelas 18:00, fui no mercado e comprei umas bobagens. Wafer, bombons (dois sacos e uma caixa), uma versão coreana daquele trem argentino, o Alfajor, só que de côco ao invés de doce de leite. E também não chama alfajor, mas tem o mesmo formato... Coloquei tudo na geladeira e experimentei uns. Resultados:
Wafer de manteiga de amendoim - espetacular
bombom de côco - parece o prestígio, mas é mais macio. Bom.
Bombons árabes (com nozes, com tâmaras, com sei lá o que) - Nooooooooossa. Que coisa boa.
Alfajor de côco - sem gracinha, mas bão.

Wafer de manga - esse eu guardei pro café da manhã. Acho difícil ser ruim.

Voltei pra casa, comi esses trem e tomei banho, que a água tinha voltado. Fui no banheiro na verdade pegar a toalha pra tomar banho no bloco dos padre, na maior conformidade indiana. Mas já que tinha água, né! Me botei de molho no sabão. Vc se ensaboa e espera. Eles dizem aqui que é muito bom pra eliminar toxinas da pele e algum ovo de qualquer coisa (pulga, piolho, escorpião, barata, lagartixa, sei-lá-o-quê) que possa ter caído em você na rua. Aí esfreguei bem com o meu scrubber, pra esfoliar um bucado, e enxaguei. Ô mas que beleza. Enchi meus dois baldes de emergência, porque nunca se sabe até quando essa alegria dura.

E vim escrever procês.

Eu fiquei matutando sobre o encontro, sobre encontrar as coisas, as pessoas, encontrar a si mesmo. E lembrei de uma coisa que escrevi lá em Pirapora, depois de ter visto o encontro do Rio das Velhas com o Rio São Francisco, na Barra do Guaicuí.
E aí percebi que é assim que eu me sinto a respeito do encontro que fiz comigo mesmo e com o todo!

Para ler, você deve ouvir essa música que ponho o link aqui junto. Aí vai lendo. É que eu e o Frederico cismamos de ir em Pirapora por causa dessa música, e eu ouço ela muitas vezes por semana dentro de mim desde que a ouvi a primeira vez. Escrevi ouvindo ela assim, por dentro.

Tavinho Moura - Encontro das Águas (Guaicuí) tocada pelo Almir Sater e Rodrigo Sater, ó.
Em 1989.

http://www.youtube.com/watch?v=JuiGwBHuMtE&feature=results_main&playnext=1&list=PL8DB4D6D48FF021CB

Clicou no link? A música já tá tocando? Então leia...

Encontro

Não se engane nem se olvide, sou dono de mim
E sei da minha grandeza e soberania neste sertão seco
Nunca te precisei, e chegaria bem longe sozinho
Sempre saltando e mudando sem rumo ou destino

Colho mil águas, mil risos, mil tons, enfim
E todos se curvam ao meu canto, em suave eco
Da minha alma cantora que canta sem ninho
E sem eira nem beira, sem nada, sem tino.

Se bem claro isto está posto, só assim eu confesso
Que o encontro contigo me trouxe vida nova e força
E tornou-me outro canto bem mais forte a gritar.
Na aridez que enfrento eu te fiz o meu verso
E me fiz seu reverso, eu rompi uma margem.

Na tua margem rompida eu lancei minha água
E choquei-me com a tua, sem querer arriscar.
Mistura não tardou, e minha água hoje é  nua
A regar a secura da nossa ausência
Que se fez no momento do encontro das águas.

FIM

Não é assim uma brastemp, esses versim. Mas eu gosto de ter escrito eles.
Eu rompi uma margem, descobri isso ontem de noite, celebrei isso hoje o dia todo.
Saia de si! Misture-se! Macule-se do outro! E fique branco, mesmo assim.
Porque misturar-se é morrer.
É deixar de ser e passar a gozar O Ser.
A gente não precisa se preocupar o tempo todo em não se perder na mancha alheia.
Brancura é escolha, não estado.

5 comments:

Bárbara said...

mas e a criançada ...comeu mais bombom?
deu agua na boca
como assim, vc ficou ensaboado e sem se enxaguar? não entendi...
bjo

Glorinha said...

E a água para beber?Vocês não podem comprar um monte e armazenar?Ficaram com sede? Coitados, tô cum muita pena docês,sô. E agora, como você vai fazer com essa molecadinha aí?Espero que tudo se ajeite, minha nossa! Tô rezando, vou rezar mais muito mais para você e seu amigo latino aí, nessa lonjura doida.Um abração do tamanho do Brasil.fique com Deus.

Roiíces de um Minotauro said...

Gente, quanta preocupacao... Acho que to virando indiano...

Barbara:
Fica-se ensaboado sem enxaguar, isso mesmo. Quando o sabao comeca a endurecer, enxagua.

Mae:
E sempre tem agua em algum outro lugar.
Existe um equipamento avancadissimo aqui, uma especie de caixa dagua em miniatura e portatil.
Chamam ela de "balde"
Voce vai na casa do vizinho, enche dois deles e toma banho de caneca, lava prato com caneca e etc, tudo com caneca.
E a agua de beber nunca falta. Pelo menos essa parte eles planejam, dado o calor!
Sempre tem agua de beber.

Fabs Lawall said...

Minha nossa... quanta saudade de vc!!! Li seu poema escutando a música do Almir Sater e deu uma vontadinha de ouvir sua voz recitando tal poema... e depois... torta de limão!!! rsrsrs
Vc, pequeno rio... romependo sua margem... LINDO! Lindeza que só! Saiba que te amo, meu amigo! Um grande beijo e abraço apertado de saudade.

Maria Maria said...

Bárbara, qdo terminar de estudar pro concurso toma um banho desses. Acho que vai ser bom pra compensar os dias pulados
Julius,
acrescente aí na minha lista esses bombons! Compra saco de bala pra molecadinha. É mais barato e faz o mesmo efeito. Depois arrume um dentista por aí pra cuidar dos dentes delas, né?