Hoje eu tirei férias, numa grandiosa cara de pau.
Fiquei lendo o livro do Gandhi o dia todo, estou no último capítulo.
Ele era uma boa pessoa, tadinho. Tenho muitas reservas e desconfianças sobre algumas idéias dele, que me parecem muito inglesas para serem indianas.
Por exemplo, ele era muito crédulo. Achava que era possível uma situação na qual a Índia fosse um território ultramarinho da Inglaterra. E lutou em três guerras (dos Bôeres, dos Zulus e a Primeira Guerra) no exército inglês. Achava que o Império era uma coisa boa.
Além disso, fez ao longo da vida uma prática de austeridade extrema. Comia apenas frutas, não fazia sexo com a esposa, não bebia leite, não tomava remédios... Ele me parece muito meio inglês.
As idéias que ele tem sobre o brahmacharya (o celibato, que só pode ocorrer depois de a pessoa casar - curioso, né?), sobre tapás (estas práticas como jejum e dieta e negar-se tratamento e talz) têm muito a ver com um vitorianismo, que era uma prática moral na época da Rainha Vitória da Inglaterra e talvez do Rei Eduardo. Ou seja, 1860-1920, por aí. Os ingleses desconfiavam do corpo.
Mas os indianos, a cultura tradicional indiana, sempre esteve de bem com ele.
Por isto que o brahmacharya só pode ser feito por gente casada, ou o sannyasi (o sair do mundo social) e o pandaraswami (a mesma coisa, praticamente) são votos que só podem ser feitos por quem tenha feito useo completo e perfeito da capacidade sexual, financeira, sensorial, etc.
Não faz sentido pensar nessas coisas como penitência, como um refrear do corpo em favor do espírito.
Por sinal, contam as tradições e as hestórias (uma mistura entre História e estórias) que muitos sadhus, ou seja, muitos santos, renunciantes, iogues, sannyasis, brahmacharyas e similares largavam vez ou outra a prática de austeridade para atender as demandas sexuais das ninfas, das mulheres da aldeia, de seja lá que mulher fosse. Ou seja, eram safadzinhos.
E os filhos dessas relações eram sempre dotados de grande valor pela virilidade com que praticavam o sexo. Eles acreditavam que quando mais prazerosa for a relação para o casal, maior a qualidade da prole.
E o prazer está ligado ao cumprimentos dos papéis de gênero, assim um homem só sente prazer quando a mulher é muito feminina, que só sente prazer na presença (ou companhia) de um homem muito machão.
Bem, essas idéias, até hoje, são ofensivas em alguns círculos, e até imagino alguns olhos de leitores se arregalando. Numa inglaterra conservadora então...
Assim, a idéia do Gandhi, de que é preciso refrear o corpo, não faz sentido. A prática espiritual é, meramente e simplesmente, espiritual. Não tem a ver com uma oposição do corpo como negação, mas e mais uma oposição dialética, uma complementariedade de dois opostos que até podem ser tidos como existentes (as muitas correntes filosóficas da Índia nem sempre concordam com a existência do corpo ou do espírito ou mesmo de alguma coisa a não ser Deus, mas isso é meio complexo e marginal a isto de hoje aqui neste blog, neste bat-horário). Mas, existentes não negando um a ou outro. São esferas de realização diferentes, que devem ser atendidas. Gandhi não. Ele opõe corpo e espírito, de uma maneira quase platônica. Enfim...
Mas é uma grande pessoa, esse Mohandas. Porque ele sabia que não sabia nada, e que era inocente, frágil, incapaz, dependente, bobo e tolo. Ele se adjetiva assim muitas vezes. E escreveu a sua autobiografia (minha vida e minhas experiências com a verdade) com absoluta transparência, típica de quem não tem nada a esconder. De vez em quando, ele taca lá "mas disso eu não vou escrever porque é coisa minha" ou "isso eu não vejo porque escrever, então não o farei" ou ainda "e tiveram outras coisas, que não julgo conveniente escrever". Ele não oculta. Deixa claro que não vai escrever e pronto.
A gente tem a tendência idiota que ser transparente e sincero é dizer tudo, tudo tudinho da silva sauro.
Claro que não. Ser transparente é deixar que a pessoa saiba que você oculta dela algo porque julga que ela não está em condição de entender. Por isto, fiquei achando o Gandhi um grande homem: ele respeitava o limite dos interlocutores. Admitia as suas ignorâncias, também.
Acho que quando uma pessoa se dispõe a admitir ignorâncias, ela se sente livre para oculta do outro, e deixá-lo na ignorância, muitos fatos. Se ela mesmo, a pessoa que está falando, é ignorante, porque o outro não pode ser? Isso é liberdade. E, de novo, não é contraditório necessariamente. Pode ser complementar.
Comprei uns bagulhos no mercado, depois da chuva que caiu de quatro às cinco hoje. Fui comprar leite, ms acabei comprando chips de banana salgados (rodelinhas de banana frita - uma delícia!!!) e esqueci o leite.
Na ida, as crianças me cercaram, querendo chocolates. Dei a eles. Agora saio do prédio com vários nos bolsos.
E lembrei. Lembrei que uma vez num retiro, durante uma adoração, vi um menino pequeno, de um ano e meio, que veio a mim. Ele tinha um rosto indefinido, que era todos os rostos de todas as crianças. Num mistério, ele me pegou no colo, mesmo sendo tão pequeno e eu sendo um semi-senhor barrigudo e gordo. Aquele menino, pequeno, me pegou e era enorme.
É assim que eu me sinto quando eu saio e, dando chocolates pra meninos tão pequenos, eles riem. E o riso deles me abraça.
Eles sabem falar uma coisa em português. "Calma". Eu falo com eles "caaaalma, caaaalma, tem pra todo mundo, meninada... caaaalma!". E eles repetem: "Caaaalma! Byebye! Tchócleit"
E, rindo e dizendo caaaaaalma, caaaaalma, me abraçam numa mágica, num gozo espiritual, numa cama macia, com cheiro de Brasil e de casa, me fazendo dormir. E me pedindo calma.
Não há oposição entre o gozo que eles sentem ao receber o bombom e o gozo que me dão sem saberem. Na verdade, um é causa do outro. Como também é causa da minha satisfação eles me cumprimentarem, dando apertinhos de mão e soquinhos. Contato físico, gerando gozo espiritual.
É disso que me ressinto com o Gandhi.
Fiquei lendo o livro do Gandhi o dia todo, estou no último capítulo.
Ele era uma boa pessoa, tadinho. Tenho muitas reservas e desconfianças sobre algumas idéias dele, que me parecem muito inglesas para serem indianas.
Por exemplo, ele era muito crédulo. Achava que era possível uma situação na qual a Índia fosse um território ultramarinho da Inglaterra. E lutou em três guerras (dos Bôeres, dos Zulus e a Primeira Guerra) no exército inglês. Achava que o Império era uma coisa boa.
Além disso, fez ao longo da vida uma prática de austeridade extrema. Comia apenas frutas, não fazia sexo com a esposa, não bebia leite, não tomava remédios... Ele me parece muito meio inglês.
As idéias que ele tem sobre o brahmacharya (o celibato, que só pode ocorrer depois de a pessoa casar - curioso, né?), sobre tapás (estas práticas como jejum e dieta e negar-se tratamento e talz) têm muito a ver com um vitorianismo, que era uma prática moral na época da Rainha Vitória da Inglaterra e talvez do Rei Eduardo. Ou seja, 1860-1920, por aí. Os ingleses desconfiavam do corpo.
Mas os indianos, a cultura tradicional indiana, sempre esteve de bem com ele.
Por isto que o brahmacharya só pode ser feito por gente casada, ou o sannyasi (o sair do mundo social) e o pandaraswami (a mesma coisa, praticamente) são votos que só podem ser feitos por quem tenha feito useo completo e perfeito da capacidade sexual, financeira, sensorial, etc.
Não faz sentido pensar nessas coisas como penitência, como um refrear do corpo em favor do espírito.
Por sinal, contam as tradições e as hestórias (uma mistura entre História e estórias) que muitos sadhus, ou seja, muitos santos, renunciantes, iogues, sannyasis, brahmacharyas e similares largavam vez ou outra a prática de austeridade para atender as demandas sexuais das ninfas, das mulheres da aldeia, de seja lá que mulher fosse. Ou seja, eram safadzinhos.
E os filhos dessas relações eram sempre dotados de grande valor pela virilidade com que praticavam o sexo. Eles acreditavam que quando mais prazerosa for a relação para o casal, maior a qualidade da prole.
E o prazer está ligado ao cumprimentos dos papéis de gênero, assim um homem só sente prazer quando a mulher é muito feminina, que só sente prazer na presença (ou companhia) de um homem muito machão.
Bem, essas idéias, até hoje, são ofensivas em alguns círculos, e até imagino alguns olhos de leitores se arregalando. Numa inglaterra conservadora então...
Assim, a idéia do Gandhi, de que é preciso refrear o corpo, não faz sentido. A prática espiritual é, meramente e simplesmente, espiritual. Não tem a ver com uma oposição do corpo como negação, mas e mais uma oposição dialética, uma complementariedade de dois opostos que até podem ser tidos como existentes (as muitas correntes filosóficas da Índia nem sempre concordam com a existência do corpo ou do espírito ou mesmo de alguma coisa a não ser Deus, mas isso é meio complexo e marginal a isto de hoje aqui neste blog, neste bat-horário). Mas, existentes não negando um a ou outro. São esferas de realização diferentes, que devem ser atendidas. Gandhi não. Ele opõe corpo e espírito, de uma maneira quase platônica. Enfim...
Mas é uma grande pessoa, esse Mohandas. Porque ele sabia que não sabia nada, e que era inocente, frágil, incapaz, dependente, bobo e tolo. Ele se adjetiva assim muitas vezes. E escreveu a sua autobiografia (minha vida e minhas experiências com a verdade) com absoluta transparência, típica de quem não tem nada a esconder. De vez em quando, ele taca lá "mas disso eu não vou escrever porque é coisa minha" ou "isso eu não vejo porque escrever, então não o farei" ou ainda "e tiveram outras coisas, que não julgo conveniente escrever". Ele não oculta. Deixa claro que não vai escrever e pronto.
A gente tem a tendência idiota que ser transparente e sincero é dizer tudo, tudo tudinho da silva sauro.
Claro que não. Ser transparente é deixar que a pessoa saiba que você oculta dela algo porque julga que ela não está em condição de entender. Por isto, fiquei achando o Gandhi um grande homem: ele respeitava o limite dos interlocutores. Admitia as suas ignorâncias, também.
Acho que quando uma pessoa se dispõe a admitir ignorâncias, ela se sente livre para oculta do outro, e deixá-lo na ignorância, muitos fatos. Se ela mesmo, a pessoa que está falando, é ignorante, porque o outro não pode ser? Isso é liberdade. E, de novo, não é contraditório necessariamente. Pode ser complementar.
Comprei uns bagulhos no mercado, depois da chuva que caiu de quatro às cinco hoje. Fui comprar leite, ms acabei comprando chips de banana salgados (rodelinhas de banana frita - uma delícia!!!) e esqueci o leite.
Na ida, as crianças me cercaram, querendo chocolates. Dei a eles. Agora saio do prédio com vários nos bolsos.
E lembrei. Lembrei que uma vez num retiro, durante uma adoração, vi um menino pequeno, de um ano e meio, que veio a mim. Ele tinha um rosto indefinido, que era todos os rostos de todas as crianças. Num mistério, ele me pegou no colo, mesmo sendo tão pequeno e eu sendo um semi-senhor barrigudo e gordo. Aquele menino, pequeno, me pegou e era enorme.
É assim que eu me sinto quando eu saio e, dando chocolates pra meninos tão pequenos, eles riem. E o riso deles me abraça.
Eles sabem falar uma coisa em português. "Calma". Eu falo com eles "caaaalma, caaaalma, tem pra todo mundo, meninada... caaaalma!". E eles repetem: "Caaaalma! Byebye! Tchócleit"
E, rindo e dizendo caaaaaalma, caaaaalma, me abraçam numa mágica, num gozo espiritual, numa cama macia, com cheiro de Brasil e de casa, me fazendo dormir. E me pedindo calma.
Não há oposição entre o gozo que eles sentem ao receber o bombom e o gozo que me dão sem saberem. Na verdade, um é causa do outro. Como também é causa da minha satisfação eles me cumprimentarem, dando apertinhos de mão e soquinhos. Contato físico, gerando gozo espiritual.
É disso que me ressinto com o Gandhi.
3 comments:
olha só que danadinhos, aprendendo falar alguma coisa só para ganhar chocolate.Criança é tudo igual no mundo inteiro mesmo.Hoje o Zelão queria brincar com os cachorrinhos de plástico da Escola e não tava dando confiança pra Aninha. Mas quando ela falou(a meu conselho) nos cachorros, deu um sorriso na mesma hora, olhando, meio sapeca de lado.Só para brincar com os cachorros que ele queria tanto.
Interessante sua pontuação em relação à influência inglesa no pensamento de Ghandi. Eu não sabia
dessa visão do pensamento indiano, pensava equivocamente num dualismo.
o problema não é o gozo, mas quando ele vem pra mim em detrimento da destruição do próximo...
um beijo julinho
fica com deus, sonhei contigo esta noite!
Não pude deixar de lembrar da musiquinha da Aline Barros: um chocolatinho basta!
Ela é pior que o Ghandi...huahuauhahua!
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