Thursday, August 30, 2012

Estava eu, feliz e incauto no RU, quando o secretário da administração veio me interpelar!
"Chegou uma caixa pra você. Sarita está trazendo."
Não demorou muito, a outra moça que trabalha lá (Sarita Agnes, o nome dela) chegou com uma caixa na mão.
De papelão, recoberta de pano. Isso mesmo, de pano. Para o prof Julio Eduardo Simões, trelele... Srinagar, Kashmir.
Uma caixa enviada pelo Jan, que foi visitar a família na Caxemirra e me mandou "frutas típicas" de lá.
Nozes e avelãs. Sim, sim, a Caxemirra é fria, e por isto estas coisas crescem lá.
Colheu no quintal da casa dele, enfiou numa caixa e mandou.
Frescas, muito frescas. Pra dizer a verdade, eu não sabia até hoje qual era o gosto que as nozes e avelãs tinham. É algo realmente muito mais bizurado.
Têm gosto de mistério, de amizade que surge do nada, e que promete ficar.
Né?

p.s.: Este post é em homenagem ao Gramur, que ontem me acusou de ser uma pessoa malvada. Tá vendo, nem sou...

Tuesday, August 28, 2012

Entrou no restaurante, onde eu resolvi ir hoje pra ver como era.
Um que serve comida árabe.
Me olhou na mesa, deu uma risadinha, sentou.
Fez aquele aceno de cabeça tradicional do Brasil.
Chegou a mulher e os filhos.
Cabelos encaracolados, todos. Meio beges.
Bermuda, havaiana, camiseta sem manga.
Na hora de ir embora, fui parado.
Está gostando de Bangalore?
Sim. e você?
Também.
Vácuo sideral.
De onde vocês são?
Arábia Saudita, como você, não...?
Na verdade, estava pensando que vocês eram brasileiros.

Todo mundo espantado, olhando uns pra cara dos outros.
Me peguei pensando: "Porque a mulher dele não tá de burca?"

É.

Os brasileiros parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem árabes, que parecem brasileiros, que parecem INDIANOS!

Sunday, August 26, 2012

Fui no shopping, olhei os preços de uns tablets que tão me pedindo pra comprar.
Baratos... poderia até comprar um pra mim, se tivessem teclado. Mas não entendo pra que um computador sem teclado pode servir!!!
Feito isto, voltei para a Universidade. 16:30.
Sentei no banco. Ouvi passos. Olhei quem era. Nunca vi na vida.
Uma menina veio, sentou-se no banco lá do outro lado da rua do campus. Brilho estranho nos olhos.
As pessoas passaram.
Eu virei de costas pra rua. Fechei os olhos. Fiquei ouvindo os passos.

Ouvi passos no meu silêncio.
Apressados.
Lentos.
Cadenciados.
Descompassados
O som aumentou, aumentou, aumentou.
E começou a diminuir...

Quando este som irá parar, para que meu Amor sente-se no banco do meu silêncio?

Passos passaram, só o silêncio ficou.

E o silêncio, fui eu quem o fez.
E nele morri.

Friday, August 24, 2012


No coração de tua bribinha, Amado
pulsa desejo por Ti.
Eu, pequena e só.

Transparece em cada querença a busca por Ti
a certeza de que só Tu és saciedade
a vontade de perder-me.

Mas então a memória me trai
e o corpo se me arrepia diante do mundo onde habitas
Mas não é Tu.

Ah, Amado. Te encontrei no mundo, dissolvido em minha História, é certo!

Mas agora... agora quero mais, assumo envergonhado
Ser.

Ai de mim.
Encontrei-te e por isto fiquei
solitária, pequena, órfã e fria.
Briba.

E mesmo assim, quase o tempo todo, desvio de Ti o olhar
ao contemplar o mundo, me esquecendo que És o mundo
E que como num verso curto, ousado,
Te aproximas e entras de novo em mim, pelo mundo que não te é!

meu universo é você.

Thursday, August 23, 2012

23 de Agosto

A gente estava namorando fazia pouquíssimo tempo. Duas semanas. Foi um custo, ela não queria. Só porque eu, galinhão e ciscadeiro, tava emendando o terceiro namoro direto, sem pausa pra pensar.
Todo avanço meu era um recuo dela. Um belo dia, cerquei a pobrezinha e dei um ultimato. Como sou irresistível, ela topou.
E, quando fez...
Agnaldo, entre uma padrice e outra, me ligou.
"Um amigo meu me ofereceu a casa dele em Guarapari de graça. Vamos?"
Fomos.
Houve uma ressaca.
Eu, menino ensolarado, espantava a chuva onde quer que a gente fosse. Castelhanos, Iriri, Piúma.
Mas em Guarapari mesmo, coitados da gente... Ali era só ressaca. Ondas enormes.
Um belo dia, o Guinaldo dormindo feito um leitão, roncando que só, uma chuva começou.
O mar se levantou, bravo. Arrancou pedaço de calçada, derrubou árvore. Foi um desmadre.
A luz acabou.
Peguei o Ananias pra jogar paciência (a versão do Linux é muito melhor, vocês precisam tentar!!) e de repente, me vi pensando.
Meu Deus. E eu aqui. Recém namorante. E eu aqui. Ai ai ai. Que burrice. Porque ela não veio? Porque? Porque?
E escrevi.
Agnaldo suspirava sonhando, talvez pensando na Bia, que sempre foi o seu amor irrealizado e confesso. O suspiro dele entrou no poema, misturado ao ritmo da destruição lá fora, que curiosamente trazia paz...
No dia seguinte, pegou pra jogar ele também paciência, o Ananias. Tava lá, na janela que abriu na reinicialização do sistema (gente, o Linux faz isso, igual o MacOs! Vocês precisam tentar!!!) o poema, faltando pontuar. Ponto é uma coisa que a gente escolhe depois. Ou nem escolhe.
Me olhou com uma cara chocada.
"Meu kit Santo Antônio fez efeito retardado... você vai casar com essa aqui, e eu vou celebrar. É uma das coisas mais lindas que eu já li. Parece até que foi escrito durante a lua de mel aqui. E ela nem está aqui."
Ela estava.
Tá aqui também, essa nêga danada que me persegue sei lá como.
Leia com respeito. É um dos que mais me envergonho. Mas é pra ela. Hoje é aniversário dela!
É sobre como o mar pode ser feminina, e destruidora mesmo que suave.

(Sem título)


E veio a noite, e ocultou as ondas.
Ouviu-se só o ruído inundando aos poucos as vias desavisadas...
A maré destruiu todo caminho diverso, as possibilidades todas, 
restou só ouvir as ondas, sem ver os seus contornos.

Ouviu-se os gemidos, os arfares, o recuo e o avanço do oceano negro
Silenciou-se a voz da terra faminta, em fruição
Terra molhada, maré resfolegante, tudo fez-se som
Sem traço de engano, susto ou medo.

As palavras calaram-se nos gemidos
As vozes decidiram falar sem dizer
Os ouvidos se encharcaram um no hálito doutro.

No sobe e desce do oceano negro 
No molha e seca da terra sedenta
Fez-se paz, fruto e amor.

Tuesday, August 21, 2012

Começo de despedida

Derrubado, sempre, te abraço ao rés-do-chão
E aqui, sentindo o gosto de tua poeira em minha pele
O cheiro de meu suor em tua água
A fome de mim mesmo na tua ausência
Eu abro mão de ti.

Levanto-me, sacudo a poeira, empacoto tudo
Meto em minha mala.

Dirijo-me anestesiado a um lugar relativo, mas importante
o lugar de onde eu saí
Pensando no fundo da minha saudade antecipada:

Quando poderei voltar aqui, donde hoje saio?

Friday, August 17, 2012

Os ricos construíram-te igrejas e templos, ó Amado!
Mas sou pobre e impotente, que posso eu te construir?

Minhas pernas são como colunas
Meus braços como naves laterais
O coração, pulsante, é a música a ti dedicada que em mim retumba

No fundo mais escuro de meu ventre, que nem tenho,
faço-te este espaço, para que venha nascer em mim e de mim.

Ó Senhor que assistiu o encontro das águas e sobre elas pairou
Vem, entra, habita e santifica
Este teu pequeno e feio
Santuário.

Thursday, August 16, 2012

Ai ai.
Só uma coisa a dizer, e o Frederico é o único que pode entender a profundidade desta prece:

"Civilização, por favor se estenda para além dos portões de Dharmaram Vidya Kshetram e Christ University. Amém.
P.S.: Se possível, faça com que tenha água e energia, para que eu possa ao menos planejar de escovar os dentes após o almoço. Amém de novo."

Wednesday, August 15, 2012


15 de Agosto.
Dia da Independência da Índia
Dia de Nossa Senhora da Gloria
Dia do Aniversário da Dona Grurinha, o Gramur.

Comprei uma bandeira da Índia ontem. Queria comprar desde que cheguei aqui, mas não encontrava. Mas ontem foi fácil, porque hoje é o dia, né… aí espalharam isso por aí, por tudo que é canto.
Insistem em dizer que a roda de oito raios, no centro da bandeira, é o chackra de nao sei o que. De Ashoka, acho.
Mentira.
Na verdade, ele é também o tal de chackra, mas olhando a história da composição da bandeira, que deve muito ao São Gandhi (canonizado recentemente na versão católica dos princesos), você observará que alguns bons três modelos propostos durante a revolução de paz que Gandhi foi incluíam um tear, e a roda do tear situada bem no centro da bandeira.
É que uma das coisas que os buscadores da verdade (Ou "satyagrahis", como o grupo que seguia os ensinamentos era conhecido… termo inventado por um sobrinho do Gandhi, e não por ele mesmo, na época da África do Sul… enfim. vamos acabar com este parêntese neo-barroco) faziam era comprar apenas tecidos feitos na Índia. Mas as fábricas eram proibidas. Só existiam teares artesanais. Todo o algodão colhido na Índia era enviado à Inglaterra, que os tecia e enviada de volta à Índia e o vendia! Assim, roubava o algodão comprando-o a preço de banana e o revendia a preço de damasco, lucrando duplamente. Bem…
Uma vez Gandhi fez um discurso. Uma coisa que ele insistia era a higiene. Não pode ter condição de lutar um povo doente. Então ele insistia em que todo mundo andasse limpo. Mas em um destes discursos, onde insistia neste ponto, havia uma mulher cujo saree era muito muito sujo.
Kasturbai, a esposa de Gandhi e que nomeia muitas ruas na Índia… ruas que normalmente fazem esquina com as MGRoad, ou seja, Mahatma Gandhi Road… Kasturbai foi ter com a mulher. "Olha, seu saree tá sujo, muié. Vai lavar isso aí."
A mulher chamou Kasturbai para segui-la. Foram até a casa da tal mulher. Uma choça de madeira, telhado de palha. Terra batida. Entraram.
Umas pedras formavam um fogão improvisado. Nada para comer. Era só isto que havia na casa, além de umas tábuas ao canto, onde dormia a família. 
A mulher olhou nos olhos de Kasturbai, e com lágrimas nos olhos dela (ou seja, de Kasturbai) disse: "Se o Mahatma me der outro saree, terei prazer em lavar este".
As pessoas não podiam comprar os tecidos da Inglaterra. E Gandhi precisava desesperadamente de incrementar o nível de higiene e saúde daquele povo. Este era o seu método.
Saiu à cata dos antigos artesãos. Convenceu-os a fazer tecidos. Comprava-os e revendia-os mais barato, muitas vezes. Com o tempo, os tecelões (weavers) formaram cooperativas por muitas partes da Índia. Os preços caíram. As pessoas podiam ter ao menos dois sarees. E, claro, aderiram ao projeto político genial daquele homem apaixonado pela verdade, que dizia que a Verdade era Deus. Deve ter aprendido isso nas leituras de Upanishads, Vedas, Gita, Biblia, Ramayana, Quram que fez ao longo da vida. A Verdade era Deus. E vender algodão e comprá-lo de volta não era algo que pudesse ser feito, porque era mentira. Nada podia adquirir um valor tão absurdo assim de maneira tão inexplicável. Não faz sentido. É mentira. Então não, não compro os teus tecidos. Santo Gandhi. Rezem pra ele.
Bem… no centro de muitas bandeiras propostas na época, inclusive dois modelos com a faixa ocre em cima e uma verde abaixo, com uma branca separando-as, exatamente a mesma ordem das faixas atuais… no centro delas, figurava um tear.
Mas claro… claaaaaro… 
Gandhi era mal visto por muitos.
É que o Deus da maior parte das pessoas é uma grandiosa mentira. Uma coisa de três pessoas. Ou três sujeitos com três esposas. Ou sabe-se lá mais o que. Às vezes, um antigo soldado que foi pouco a pouco sendo divinizado, como o nosso Xangô ou o Rama. Ou um tal "Senhor dos Exércitos", que é a divindade que protegia, no maior bairrismo que só pode ser mentira, o exército de Israel. Ou um Jesus Cristo que desencarnou. Não se fala muito disto, mas eu falo porque sou teólogo, e nós somos um povo herético, problemático e pecador público. Além de sepulcros caiados. Bem. Essa gente acusa, aponta o dedo. Tô apontando o meu agora.
O Deus verdadeiro, o homem todo verdadeiro, que Gandhi admirava demais e dizia não entender como os cristãos podiam não ter entendido nada… Bem, esse trabalhava. Não era padre. Não era bispo. Tinha poeira nos pés. Dormia em pedras. Vez ou outra, tinha um piriri louco, principalmente quando comia trigo colhido em dias de sábado. Contava piadas. Enchia os pacová dos discípulos com apelidinhos. Era irônico. Morreu. Sangrou. Era tudo verdade. Era o único homem 100% verdadeiro que jamais houve… Bem. 
Ele foi substituído por uma outra versão, que depois de ressuscitado se tornou um chato. Não deixa ninguém fazer nada que seja natural. Esse Jesus desencarnado, só porque ressuscitou (na verdade é uma má compreensão da ressurreição, logo logo chegamos lá), condena casais divorciados a nunca mais participar do seu corpo e sangue. Também diz que não pode tomar pílula anticoncepcional de jeito nenhum. Camisinha, então… só pode ser coisa do "Inimigo de nossas almas", seja quem for.
Vez ou outra, só porque já não pode morrer, vestem-lhe um colete cheio de explosivo plástico e outros explosivos, o doutrinam no Talebã e o soltam pelas igrejas. Pobre Cristo desencarnado. Explode mil vezes, proibindo de tudo! Não pode beber nada alcoólico (o Cristo encarnado parece ter feito um monte de vinho, que deve ter sido jogado fora, já que ninguém o podia tomar), não pode o casal planejar de forma alguma a família, condena as mães solteiras (o encarnado era filho, tecnicamente, do outro, muito embora fosse Deus. O que agrava a situação, porque era o Totalmente Outro. Traição transcendental ao pobre José, um bocoió de marca maior…), distribui nos grupos jovens e cursilhos kits com um litro de álcool, um isqueiro bic e uma boa quantidade de lenha… para queimar os hereges! Não frequenta igreja evangélica, odeia macumba (que é uma delícia, gente… vamos combinar…), quando vem a Índia bota fogo nos templos alheios… Ah, mas é um chato este Jesus Talebã! Pena que já não o podemos matar.
Mas o Jesus que eu conheço… ele aplaude toda relação sexual, gozando em cada um dos corpos e lençóis o prazer do encontro. Ri alto, aos ouvidos dos amantes. É o seu travesseiro.
Mora no fundo dos copos de Brahma com limão, no vermelho dos molhos de galinha à cabidela… Não é que ache que tudo pode, que é um grandioso bunda-lelê nem nada.
É que em cada oportunidade, em cada imagem de candomblé e em cada pecado humano (seja pecado lá o que for…) ele se esconde, se revela aos amantes da vida. Ele é encarnadaço. Diríamos até encardido.
Jesus ressuscitado é encardido de morte. E morte é uma das roupas da Vida.
E por isto mesmo mora em toda pequena morte. Sejam aquelas lindas mortes dos monges ou nas mortes horrorosas da escravidão das mulheres, crianças, pobres. E na ainda mais terrível morte que reside nas pulseiras de ouro, nas faces da República das notas de 50. Nos beija-flores da nota de um real, que nem mais existem, ele é a flor que falta.
Morre em cada uma destas nossas ilusões, gritando aos ouvidos: compra um saree para os pobres!
"Feliz día da Independência indiana, padre!!!"
"Não! Não comemoro isto! Comemoro o dia da Assunção!"
Pausa. Morte. Jesus ali, escondido. E, da boca do herege mexicano, falou:
"Mas você só pode comemorar o dia da Assunção porque houve uma independência! Caso contrário, seria condenado a muitos apedrejamentos pelos hindus! Esqueceu-se desta relação? Porque acha que a independência foi neste dia?"
Ali, encardido no sangue de Gandhi, com os cabelos molhados pelas lágrimas de Kasturbai e nu pela falta de outra roupa, cantou lá de trás da favela Jesus Cristo. A Verdade.
E, queira Deus, a Mãe foi assunta. Vestida de roupa limpa, face brilhante, coroa na cabeça. Jesus é filho da mulher verdadeira. A que teve medo e por isto foi se esconder na casa de Isabel. Mas que por ela foi acolhida como a mãe da salvação. Poderia ter apressado o casamento.
Poderia ter se casado, na maior cara de pau, apressadamente. E se o filho nascesse antes do tempo, diria "ah, ele nasceu um pouco antes do tempo…"
Falsificaria a verdade. Colheria, mais tarde, a decepção. Aconteceu muitas vezes, com muitas meninas pobres, engravidadas por quem não era seu marido. Algumas casaram-se com o engravidador. Deu errado. Outras, se casaram com outro mais adequado. Deu errado. Outras assumiram criaram o filho. Deu errado.
Em outros casos, tudo deu certo.
Algumas crianças são filhas de ninguém. Crianças sem pai. Às vezes, como foi o caso de Jesus, o encardido, são adotadas por um pai amoroso. Outras tem família, mas preferem ir pra rua, porque a família é só mentira. Outras estão esperando, tristes, chorosas, no orfanato, enquanto outros casais, mentirosos e sem coração, insistem em engravidar outra mulher com o proprio óvulo e espermatozóide, dão a ela 17000 rupias (uns 700 reais) e, quando a criança nasce, a sequestram. Não sei em que fase do processo mora mais mentira.
Mas Jesus, escondido nas mentiras, espera ansioso. E muitas mais vezes, dá tudo certo, contrariando toda a perspectiva. Ele mesmo é uma destas exceções…
Mas aí o casal vai à igreja para que sacramentalmente todos fiquem sabendo que eles reconhecem naquele serzinho lindinho e inofensivo o filho de Deus. Querem batizá-lo. Querem que seja parte do mesmo corpo, que é também o deles.
"Ah, não posso! Não batizo filho de mãe solteira. Têm que se casar. Não pode ser a madrinha não-católica! Não pode ser não cristã! Muito menos kardecista!"
"Porque, padre…?" Pergunta aquele casal de José e Maria; Gandhi e Kasturbai; Nathália e Agenor; Guilherme e Vanessa.
"Porque Deus odeia o Allan Kardec, tem horror a evangélico, condena os que fazem sexo fora ou antes do casamento, tem alergia a galinha preta de macumba… Jesus é um cara seletivo! Não se mistura com qualquer um!!!"
"Como sabe disto, padre?"
"Ah, o Espírito Santo me fala todas as vezes isto toda vez que vou lá na gaiola onde o prendi lhe fornecer alpiste para o almoço. Tem sido assim desde que o peguei em uma arapuca usando pipoca de arroz como isca."
"Feliz día da independência, padre…"
E os pobres, coitados, saem da igreja com o filho. Desesperados porque agora é um pagão. A criança adoece. O levam a uma benzedeira/ialorixá. Ela abre o menino pra seu Orixá de cabeça. É Oxalá.
Quem pode negar que essa criança agora está batizada? E se fosse Xangô ou sei lá mais quem? E se fosse levada direto lá a criança? Porque Jesus não baixaria, com marcas de flagelo nas costas, calos de grilhão no pescoço, nariz amplo e sorriso branco? E com uma roupinha mais adequada pra ocasião, uma saia toda de palha, da cabeça aos pés?
Ou porque não todo azul, tocando flauta em um destes templos/terreiros/igrejas que existem cá por este lado?
Porque o batismo não poderia vir a esta criança, nascida sem pai conhecido como Ele é, pelas lágrimas da mãe, ao ver o filho tão doente e sem saber porque?
Ele não é Universal…?
Ah, a realidade...
Tecida no coração dos pobres pelo amor à verdade, ela é capaz de libertar uma multidão de mendigos (A Índia) da senhora mais rica do mundo (a Inglaterra).
Hoje é o dia em que celebro a minha mãe, que me criou para ser independente, que no aeroporto da Serrinha segredou baixinho à Gisele: "Criei ele pra este dia, mas não estou acreditando agora que ele chegou…" 
Que se sente desconcertada por que "tenho habilidade pra diferença", como ela mesmo diz. Não sabe que é nas eternas discussões entre ela e o Zeca que eu entendi que amor só existe na diferença?
Que me desconcerta com a verdade.
Minha mãe do Céu, Maria, é pra mim a prova de que a Gloria, que completa o nome dEla, é tão assunta como ela.
Lavou meus panos quando eu era pequeno. Segurou minha mão quando o médico me deu a primeira anestesia geral da minha vida. Segurou-se pra não chorar (eu bem me lembro do rosto dele neste dia…) quando me arrastaram com toda a força para a segunda anestesia, a segunda cirurgia.
E se a muitos parece estranho que esta história tão comprida seja só para falar parabéns, que pena. É que, pra mim, é pura verdade.
Dona Glorinha, senhora verdadeira, mãe de muitos, adotiva de dois inclusive, parabéns. Ao adotar esses dois, você foi outro José.
E ao me mostrar que o Pai de todo mundo é o Zeca, mas também é Outro Muito Diferente, ganhou muitos outros filhos… uns 45000? Mais? menos? Todos?
Se um dia eu tiver uma filha, vou ensiná-la ser uma mãe tão boa quando você é.

Sunday, August 12, 2012

Bem, bem...
O repórter errou a Universidade. E interpretou um pouco a minha fala, mas tá valendo.
Tô na mídia. Sorry, periferia.

http://www.navhindtimes.in/goa-news/goa-was-centre-power-church-says-prof-sim-es

Friday, August 10, 2012

Em Goa.
Uma palestra de uma hora cravada, em inglês, sobre as relações entre padroado, jesuítas e poder político m Tamil Nadu.
Antes, no dia anterior, um passeio por Goa Velha com Marco Ornellas e Maria de Lourdes, uma recém conhecida que morou no Brasil e é cantora de ópera na Itália.
Depois da palestra, que foi no dia seguinte e que portanto foi hoje, um jantar em um lugar chiquérrimo.
É.
Eu poderia ter outros dois dias feito estes.

Wednesday, August 08, 2012

Em um dia que nunca amanheceu,
abriu uma janela que nunca houve,
olhou de dentro de sua casa que não existe
para o lado de fora, que tampouco há, e gritou:

Salve, janela!

Monday, August 06, 2012

Corrigindo o Masnavi

A mariposazinha, desejosa de conhecimento, observava atenta sua mestra.
Ela lhe explicou:
- Amamos o fogo, criança. Vê aquela lamparina acesa? Ai, como a desejo.
Uma das alunas levantou vôo, rodou em torno da chama.
- Ele é luminoso, o nosso amado fogo.
- Não! (retrucou a mestra) Ainda não entendeste a natureza do amado...
Outra, mas ousada, em um adejo circundou de perto o fogo, retornou.
- Sua luz é tão intensa que quase me cegou. E também pude sentir o seu calor.
Um meneio de cabeça da mestra fez com que todas entendessem que não. Não era aquela a natureza do amado.
Por isto, mais uma delas em um salto alcançou a proximidade com o objeto de sua veneração.
- Ah, o amado! Chamuscou-me as patinhas e uma de minhas antenas nem mais existe. Ah! O amado!!!
- Tsc!
Apenas este som fez a mestra. E, num único passo, atirou-se dentro do fogo, consumindo-se. Tornou-se fogo.
Aquela primeira mariposazinha, enfim, julgou entender, muito embora não houvesse mais mestra.
E foi-se pôr ao lado do amado.
- Amado desta alma de falena... que lindo és! Entendi tudo! Sua natureza é impossível de entender, pois nos consome se de ti nos aproximamos! Que maravilha! Quero consumir-me em Ti! Quero tornar-me consumo!
Uma voz, como um trovão, emanou do fogo.
- TOLA! Minha natureza é uma falta de vós tão maior que a vossa, que sou eterno consumo. Eu sou o Amor que tens por mim, o Amado que amas  e o Amante que te ama. Não há distinções entre o que sou e o comichão que sentes no fundo de ti.

Sunday, August 05, 2012

Saturday, August 04, 2012



Vazio, como um copo, eu te espero, amado meu
enche-me e adapte-se por caridade à minha forma
e a minha decadência preenche.

Eu sei que assim eu ficarei vazio
e é isto que eu desejo:
Sumir.
Tudo é ruptura nesta represa que eu sou.
Rompe-me.

E por minhas fendas e rachaduras nutre o mundo.

Concluindo:

Thursday, August 02, 2012

Os deuses da Índia são cheios de lados, olhos, braços e algumas vezes, pernas.
O meu preferido, por ser o mais esquisito, é o Shiva.
Descrito como "o Senhor das Feras" na civilização de Haruppan, ele é aquele rapazinho da Yoga.
Raramente toma avatares.
Os deuses indianos não encarnam. Não, não. Eles tomam avatares, numa espécie de possessão.
Pois é. O Shiva não curte muito isso não.
Ele aparece em carne e osso, nu e cru, quando dá na cabeça dele. Dizem que ele mora na cordilheira dos Himalaias... Claro, isso não é unânime. Nada é unânime na Índia. Outros dizem que ele não mora em lugar nenhum. E outros dizem que ele é onipresente.
O que me encanta nesse tal de Shiva é que ele é um deus que dança.
É o Deus que e o Fred (não o Simões, mas o Nietzsche) procurávamos.
O livro sobre dança clássica na Índia, chamado Bharath Natya Shastra, emanou diretamente de Shiva. O Bharath foi anotando o que ele lembrou. Mas toda dança e toda arte emana dele, Shiva. O senhor da Dança, ou Natya-raja. Nataraja, a corruptela que sai daí. Lembre-se do Mahal-raja, ou Maharaja, de um mês ou mais atrás! Curso intensivo de sânscrito, hein...
Bem... Shiva dança.
E, quando dança, move o ciclo de nascimentos e mortes.
Tem muitos braços, tantos quantos ele deseja. Cada braço, cada mão nos corpos sutis dos deuses, são potencialidades ou atributos desses deuses. Assim, quanto mais coisas o deus fizer, mais braços "brotam" dele, na representação.
Outra forma de Shiva, além do Nataraja, é a do Sadhguru, o Santo Mestre. É ele sentado, com cinco faces. Uma para cada ponto cardeal e uma para o alto. É que ele é muito, mas muito másculo. E estava vigiando a mulher dele um dia. Aí ela tava incomodada, queria privacidade. E fugiu pra lá e pra cá. Mas para cada lugar que ela ia, ele criava uma face para poder vê-la. E sentou-se no chão, no mais raso, abaixo do qual ninguém poderia descer. Aí ela fugiu pro topo dos céus. Mas ele fez em si uma face voltada pra cima. E a olhou, e a vigiou.
Sentado, este Santo Mestre ensina sobre a sua onipresença e sobre a maior ilusão, que é a solidão. A esposa de Deus não pode ficar sozinha, e está sempre sendo vigiada por Ele.
Mas este Santo Mestre é um perigo! Não se iludam!! Ele tem um olho no meio da testa, sempre. Todas as formas de Shiva o têm.
Quando perturbado, ele te olha com este olho. E este olho é o da destruição. E a quem ele olha, é destruído.
É assim que ele arrancou a cabeça de seu filho Ganesh, tendo que a repor com uma cabeça de elefante. Ganesh, mais tarde, deve até ter ficado agradecido. É que os elefantes são mais sábios que os homens, e por isto ele foi capaz de escrever os Vedas, que contém toda a sabedoria e que não podem ser lidos por qualquer pessoa.
Você sabia que 95% das editoras da Índia não publicam nenhum trecho dos Vedas? E que os livros védicos, quando se os encontra, não estão em destaque? E que tem que ser assim?
Quando os deuses encontram uma alma digna de ler estes livros, emana de Ganesh, pelo mundo (ele é um meio/elefante, mega mundano...) uma cópia para aquela pessoa. Se não há essa pessoa, então não há Vedas pra ela.
A maior parte dos hindus nunca leram os Vedas. Lêem algumas mitologias. Escutam alguns contos do brâmane e dos sacerdotes do templo, que os devem guiar (e não manipular) para uma vida digna. Assim, em uma nova vida, eles poderão nascer em outra forma e desfrutar a sabedoria védica, se for vontade de Deus. Se estiverem preparados.
O olho de Shiva, que é destruição, é a sabedoria dele. Quando ele te olha, você se vê no fundo do seu olho que vê além dos olhos normais. E ali, preso no fundo dos olhos de Deus, o conhecimento sobre Ele te destrói. E, destruído, provavelmente será salvo e não renascerá.
Afinal, como poderia renascer alguém que não existe mais, porque foi destruído?
Mas o olho de Shiva é justo. Portanto, se não estiveres santo, irás pro inferno, e terás de renascer milhares de outras vezes! Por isso a cautela sobre a quem olhar, pelos brâmanes e a sabedoria védica, por parte de Shiva e Ganesh, que no final das contas são a mesma coisa.
Coisa essa que não se sabe nem o que é e nem se sabe de alguma coisa.
No RigVeda está escrito
"sobre o nascimento do mundo, seus caminhos e seus desígnios, só Ele, o criador e observador do mundo, sabe algo. A não ser que nem Ele mesmo saiba."
A sabedoria dos Vedas consiste nisso:
O acesso a Deus, a morada no fundo de seu olho, é ruptura total com tudo. É ruptura com a necessidade de conhecimento.
Se conheceres aquele que é, porque conhecer alguma outra coisa? E pra que?
Prezados.
Eu sou a esposa de Deus. Ele me olhou. Ele me vigiou. Eu quis fugir dele, por todos os lados, para todas as direções. Para cima e para baixo. No baixo mais baixo de tudo, eu o encontrei, encarnado de forma radical. No alto mais alto de todos os altos, ele me viu. Não pude me desviar de seu olhar. Deixei que ele me olhasse. Ele arrancou minha cabeça. Ele destruiu meu conhecimento. No lugar, pôs a que mais lhe aprouve, uma que fosse a mais terrena possível para que eu pudesse entender a sua grandeza e o seu assento no fundo do mundo. Quando procurei alguma coisa que pudesse descrever o que experimentei, arrancou um de meus dentes e me deu como caneta. Escrevo minha história com aquilo que sou, e nada mais. Veio dançar comigo. Enquanto dançava, me deixou escolher qual lado eu desejava. O da direita, o da meditação, do celibato, da pureza ritual, ou o da esquerda, o do esparramar-se pelo mundo, de comer alimentos proibidos, de casar-se mil vezes, de não me preocupar com pureza nenhuma, mas ser o seu assento mais baixo.
Nenhum dos dois lados dele me pareceu bom. E eu o abracei. Ele parece me acariciar com uma de suas mãos esquerdas. E dançamos felizes.
Ele não tem forma. Seu nome é Jesus. Não é Shiva. Shiva é um apelido do qual aos meus ouvidos ri, dizendo: "Nem fiz nenhuma possessão, como um demônio, nem apareci como sou!! Encarnei! Anuncia!"
O olhar de Deus recaiu sobre mim, e o mundo ficou pequeno demais. E, se o mundo é pequeno dessa maneira, ao ponto de caber na ponta de um alfinete, eu nem existo mais!
Fui.
Parti.
Rompi.
Transbordei.
A todos que não podem entender o que isto significa, rezem. Sinceramente, é que ainda não estão preparados.
E a todos que queiram saber o que é isto?
Rezem.
E abracem Aquele que É.

Wednesday, August 01, 2012


Frederico foi embora.
E eu fiquei aqui, ó!!!
1) Lavei o apartamento, que tava empoeirado que só;
2) Lavei umas roupas, porque estão se acumulando exponencialmente;
3) Fui cortar o cabelo;
4) Daqui a pouco vou comprar passagens pra Goa e começar a escrever a minha palestra que é daqui a oito dias, lá.

Ontem eu tinha ido cortar o cabelo. Mas não consegui, porque terça feira é dia de feriado para los peluqueros. Pe Bose que me informou isso. Ele também queria cortar o cabelo… 
Encontrei com ele ali fora, ontem de noite enquanto o Frederico dava uma descansada para o vôo dele. Tivemos uma produtiva mesa redonda teológica entre eu mesmo, Bose (direito canônico), Jim e Joby (teologia sistemática) A questão era se o clero casado tem ou não tem mais poder que o clero celibatário.
E se todo mundo precisa casar ou não, e se o casamento é um direito ou uma obrigação. E se o sexo está dentro do casamento ou o casamento dentro do sexo.
Eu que levantei umas questões dessas aí. Perguntei se o casamento de Maria e José foi válido, já que dizem que eles não faziam sexo.
E questionei se Maria Magdalena foi ou não foi a primeira discípula a ver o Ressuscitado.
E se Pedro e um monte dos apóstolos era ou não era casado.
Foi tão legal conversar umas coisas dessas debaixo da sombra de uma árvore de Bangalore. 
Aí fiquei pensando, num sabe?
Como é que pode, hein? Como pode uma pessoa se divertir e sentir prazer em discutir um assunto desses no fim do mundo, minha gente? É a tal de vocação, ao que parece.
Hoje, no almoço, o editor da revista teológica veio pedir desculpa pra gente, porque ela ainda não foi impressa. Ficou todo mundo olhando pra minha cara e pra cara do Marco, como se fôssemos escritores dignos do Nobel. Quando o troço for impresso, eles mudam de opinião…
Mas já está na gráfica. Oba, meu Lattes vai ficar lindo com um artigo, um book report e uma conferência citados em inglês e na Índia. A prova que todo mundo precisa pra saber que não fico aqui à toa olhando o ar passar ou a grama crescer.
Sinceramente, as férias que eu tirei com o Fred foram muito boas, mas muito boas mesmo! Mas agora tem que retomar os estudos todos, né? Vadiei descaradamente estes 15 dias… hahahahahaha!!!
Logo depois de cortar o cabelo, hoje, tomei uma bênção de cosimento, inadivertidamente. O barbeiro conversou comigo em hindi o tempo todo, sendo que nem ele e muito menos eu fala o negócio direito. Só sei que as coisas foram acontecendo e eu fui topando. Sei o nome dos trem, pelo menos, e sei "sim e não"

"yajur coco oil?"
"Yah!"
"coolin andha parachute?"
"parachute!"
"kannada massage?"
"yah!"
"amchachka coolin massage?"
"neh!"

O resultado desse diálogo travado entre muitas risadas de ambos foi uma massagem no couro cabeludo, um cosimento de pescoço, estalação de orelha e coluna pra todo lado, um monte de cascudo de tudo que é ângulo (a tal de kannada massage)  e o barbeiro aprendendo a falar "cosimento"  e eu "parachute yajur coco kannada massage".
Convenhamos, ele saiu na vantagem. Cosimento é uma palavra só.
A diferença é que no cosimento o/a benzedeiro fala uns troço, e nessa massagem aqui ele apalpa, se concentra, relaxa, dá um peteleco e NHEEEEEEM! Estala tudo. Nem sabia que orelha estalava…
To me sentindo ótimo. E tô lindo, com o meu midiusaiz bharatstailh haircut.