Monday, April 30, 2012

Depois de ter saído de casa em cima da hora para a missa de ontem, encontrei o Anoop na rua. Ele me disse que haveria missa em inglês (English Mass) na igrejinha em frente, e missa no rito Malabar em malayalam na igreja da Paróquia.
Ah, é. Sou da paróquia de São Tomé Apóstolo, aqui. Tem uma imagem de Sao Tomé com o Evangelho na mão, evangelizando a Índia. Resolvi de ir na Missa em malayalam, que era meia hora antes, pra ver como era, e depois ir pra missa em inglês.
O tal de rito Malabar é bacana, viu? Todo cantado, o tempo todo. Só não é cantado as leituras e a pregação, claro. O resto, tudo cantado, e cantado em escala tâmil, toda louca. Mas, como estava me sentindo um intruso, e como acho falta de respeito entrar no templo alheio sem participar, fazendo do lugar um zoo, saí na hora do Evangelho e fui pra missa em inglês.
Mas não era a missa em inglês (Mass in English), mas a missa inglesa (English Mass), ou seja, Rito Romano. Mas em malayalam.
Boiei total, foi uma missa inteira em oração de línguas. So entendi o Amem, e sabia que que estava acontecendo porque era o mesmo rito, claro. Então rezei o credo e o pai nosso e as orações fixas em português, cercado de malayalam por todos os lados.
Feito isto, fui na casa do Marco entregar a ele um presente raro: água gelada. Oh, sim!! Tenho água gelada! Quem tem água gelada todos os dias não consegue fazer idéia de como isso é bom.
Depois, internet e depois dormir. Dormi igual um não sei o que, até 9 horas, e levantei, tomei café e banho (a água voltou) e fui pro mercado, comprar uns trem. Comprei banana, uns biscoitos, pepsi, legumes, leite. E também umas caixinhas de som de computador muito baratas (20 real), uns potinhos, uma escova de lixo e uma escova de chão (eles não usam vassoura, e sim um espanador gigante para varrer. Depois que tu ajunta o lixo, vem com um pazinha e uma escova macia e o recolhe). E uma extensão que aguentasse a geladeira. As caixinhas foram inauguradas tocando Madredeus, que é lindo demais. Como pode essa muié aguentar essas notas tão agudas sem nem sair do lugar, hein? E o sotacão português, que delícia! E as caixinhas em si? Oh my god, outstanding! Fora do normal de boas, e nem tô Johnny Five não, hein. Sao assim maiorezinhas não têm aquele som de pato que a maior parte das nossas daí tem. São coisa boa mermo. Comprei a intermediária, tinha uma por 23 reais que era cheia de apetrechos... mas não preciso dela pra ser feliz, e nem dessa, por sinal. Se quiser quebrar e queimar e explodir, por mim tudo bem, que a felicidade nunca mora do lado de fora.
Lavei minha toalha, os dois sufá de prártico e escovei o chão do banheiro, lavando tudo muito lindo. Quando me preparava pra lavar os azulejos... cabou a água traveiz. Eita, trem!!! Aí, o que fazer? Mandar uma mensagem pro Anoop (o Sebastião daqui) e fazer outra coisa. Ouvir música, escrever no blog, ler... O plano de deixar a casa linda, maravilhosa, cheirosa um espelho de tão limpa vai ter que ser cumprido amanhã!
Mas acho que ainda haverá tempo de arrumar até que venha uma visita. A espera pela visita gera a casa limpa, que gera a possibilidade de ser visitado. Quando se vai a alguém de casa bagunçada, é invasão, porque a gente quer pôr tudo no lugar, e a pessoa quando a gente vai embora arruma tudo e depois nos liga, dizendo: "Agora podes me visitar, que arrumei tudo!"
Fiz o meu punjal pra Sagrada Face (que consiste em acender o incenso pro seu Deus e orar, cumprimentando-o e submetendo-se) e fui lá pra fora pra entrar na internet na Biblioteca. Mas... a ligação de força da Biblioteca e do apartameto é diferente, e aí lá a luz acabou, e acabou também a gasolina do gerador. Hahahahahaha!!! Muito engraçado, de verdade. Acho graça desses trem agora.
E vim pra cá, pra entrar pela internet 3g+, que é boa pra daná mas num é de grátis, ora pois.
Enquanto andava pelo plano na rua, depois do mercado, cansei-me. O mercado está como que a 500 metros daqui. Mas cansei-me. Meu dedo anelar direito ficou até meio dormente.
A gente não faz idéia da dor que é carregar uma sacola até que isso seja necessário. Fiquei pensando em quantas sacolas meu pai e minha mãe e a Teresa e a Barbara, Robert e todo mundo carregou pelos miúdos e pelos enormes. Que zica, isso. Carregar sacolas é uma coisa muito péssima, mas muito péssima mesmo. Verdadeiro ato de amor. E maior ato de amor ainda teve uma certa pessoa, que se ofereceu pra carregar comigo, e trouxe até aqui. Não sei o nome dele. Não fala inglês e nem portugues e  nem nada que eu saiba. Mas ele me amou com o olhar, e me ajudou. Que coisa linda, mas muito linda, é carregar a sacola de alguém... Se você quiser, eu pego uma sacola, só pra te acompanhar, disse ele. Foi isso que eu entendi. O nome disso? Quer saber? Ainda não sabe? Para quem entende e conhece, não existem essas separações...
Enquanto isso, vou passando as músicas pro HD externo, pois elas estão em 6 DVDs, e ficar caçando o DVD que vc quer é um pouco chato. E amanhã termina o ciclo "história da igreja da índia" e começa o ciclo "escrever artigo pra revista". O editor da revista me pediu um artigo. Vê se pode. Vou ter que escrever um bonito, né? Fiquei sabendo que eles acham massa pq eu conversei com o editor em italiano e com os padres em inglês, com o Marco em espanhol e com os africanos eu já consigo falar umas coisas de francês, além de saber um tico de tâmil, além de conversar mais ou menos (do jeito que vai saindo) em alemão com um outro padre daqui. Me têm (assim me contou meu amigaço Anoop) como um grande poliglota.
Mas gente... nem é o caso. Só arranho esses trem tudo. Mas pelo jeito, ninguém arranha nenhuma dessas línguas por aqui, eles sabem é Tamil, Persa, Malayalam, Sanscrito, Latim... o negócio todo é o exotismo, né. O exótico nos encanta.

O Exótico se dissolveu em mim, e nem sei quem sou. Todos os dias, me atiro como quem nada teme, e me esborracho desfeito e soluto, derramo-me pelos olhos internos e externos, em solidão, e me colhe as lágrimas.
Fala-me coisas lindas, olha-me com candura e compreensão, por muitos olhos. Por uns, me reconhece como igual, ou quase isso, sendo um intermédio de um e outro. Entre o escuro e o claro, sou reconhecido por ambos como um deles, ao mesmo tempo que me demonstram que não sou. Pelos iguais, sou tido como exótico, ironicamente somos todos a mesma luz, temos as mesmas propriedades, mas somos outros, sem dúvida alguma. E eu, exótico no meio do exótico, reconheço em todas as palavras estranhas, a única língua que é o Amém. Seja feito, que aconteça, que se modifique tudo em todos, em mim e também a partir de mim, que desisti completamente de achar que eu seja alguma coisa com muita propriedade além da mudança.
Ele se levantou, e num gesto e entre sorrisos acalmou-me.
A tempestade era eu.

Sunday, April 29, 2012

Hoje eu tenho a impressão de enfim ter relaxado, ficado à vontade.
Dormi até umas 10:30 da manhã, e dado o adiantado da hora, decidi por ir na missa da tarde, que em teoria se dá às 15:30.
Aí levantei, tomei um banho no bloco dos padre (que a água não tinha voltado) e pelas uma e meia saí.
Não quis cozinhar aqui, porque não sabia se a água tinha voltado, então era melhor não arriscar não ter como lavar las panelitas.
Saí láááá pela Hosur Road, que é a rua da frente. Existe uma outra saída aqui perto, que dá na Christ School Road, mas o convento de Santo Antônio é na Hosur, então fui pra lá, porque de um jeito ou de outro, por dentro ou por fora do campus, ia ter de fazer isso.
Minha gente... que calor.
O Marco tinha aparecido aqui lá pelas 9:00 dizendo que ia dormir até a água voltar, então fui almoçar eu comigo mesmo.
Pedi um troço aleatório no "Mango Tree", que é um restaurante no caminho da igreja. E pedi um Maaza, que é um refrigerante de manga da Coca Cola daqui.
O tal de Maaza é uma porcaria. Grosso, açucarado e quase sem gás. Não lembra em nada refrigerante nenhum do Brasil.
E o prato que eu pedi veio com umas pimentas malaguetas vermelhonas enooooormes enfiadas lá no meio.
Como eu sou um cabra corajoso, encarei. Uma delícia, tirando a queimação na garganta. Minha língua e minha boca nem sentem mais nada, depois dessas três semanas. E nem os intestinos, que fazem o processo muito tranquilamente de tudo.
Saí dali umas duas e meia e fui pra igreja. O calor tinha aumentado, até me senti meio zonzo na hora que saí do restaurante, que tem um ar condicionado. Quando cheguei na igreja, descobri que a missa é 17:30. Essa igreja fica a vinte minutos de caminhada daqui. Mas vinte minutos de caminhada debaixo do sol, meu povo. Debaixo de muito sol.
Voltei semi-conformado e pra a nossa alegria a água voltou. Na cozinha tem bastante, no banheiro ela tá chegando devagar. Deve ser ar nos canos. Com o tempo, resolve-se quase sozinho, bastando abrir tudo e esperar o dilúvio. Quando funciona, o chuveiro é muito bom! Água quentinha durante o dia, e de noite geladinha. Ou seja, não tem água quente/água fria. Se precisar desesperadamente de água quente, basta pegar o seu baldinho e com alegria enche-o numa torneira de água quente que fica no corredor. Muito prático! Ai você entra em casa com o seu balde e toma banho de caneca!
De noite, ontem, encontrei o pe Viju, que tava voltando de caminhar. A primeira vez que eu vejo um padre de roupa de gente comum. Normalmente, eles tão ou de "roupa de padre", que é essa roupa social que todos os padres do mundo combinam de usar. Ou estão de batina. E a batina deles é branca. Aí fica esse monte de padre disfarçado de papa rodando pra cima e pra baixo, andando de lambretinha... É muito curioso.
Eu resolvi de escrever agora, as 16:30 da tarde, porque não tem nada pra fazer. O plano de buscar ficar mais íntimo de Deus na Índia até agora tem se mostrado um sucesso porque não tenho televisão, nao tenho rádio, não mora quase ninguém no prédio. O que dá pra fazer é sair e tentar encontrar algum dos padres ou seminaristas que moram aqui que estiverem à toa. Ou estudar ou dormir, escrever ou rezar.
Moro com um Amigo bacana que nunca sai da minha cola, fica sempre em volta, e realmente é um enorme consolo, porque fala português. E ai eu fico aqui assim. Até gosto daqui. Tem sido um aprendizado muito bom. Mas como eu sinto saudade... saudade até do que não presta, tipo a reunião do Judac das três horas. Acho que fui na igreja nessa hora atrás de vocês. Mas vocês não tavam lá.
Vim andando debaixo do sol meio zonzo de calor e sede, e quando cheguei aqui, achei cada um nas gotinhas de água que começam a aparecer. Enchi os dois baldes do bem. Tomei uma água gelada. Que luxo, uma garrafa de água gelada... Tenho dentro de mim também baldes e garrafas de muitas lembranças, erros, choro, riso, acerto, brincadeiras... Se eu pudesse trocar cada um dos acertos que tive sozinho por vinte erros com vocês, eu trocaria. É muito pesada, a solidão. E ao mesmo tempo, muito construtiva. Quis por muito tempo fazer um retiro de silêncio no JUDAC, quem se lembra?
Tô fazendo aqui, um prolongado. Só escuto passarinhos. Cucos, aqui tem cucos. E corvos e pombos e esquilos e águias. Escuto todos eles, e Uma voz. Só Uma. E ela é o silêncio. Que revoltante me é agora, assim, lembrar-me da ave-maria que insistem em rezar depois da comunhão. Ou do canto de Ação de Graças ou de sei lá o que.
Tem que deixar a pessoa sozinha, pra aprender a ouvir Essa voz. Ela é real e irresistível. Tão irresistível que vai me fazer sair debaixo do sol de novo, daqui a pouco, só pra encontrá-lo assim muito brevemente, frágil e solúvel, a se desmanchar em mim.
Boa semana a todos.

Saturday, April 28, 2012

Primeiro, uma coisa que eu escrevi e queria poder escrever de novo.
Aquele que a amava apavorou-se.
Seria mesmo verdade o que afirmavam os homens que ali permaneceram?
Sempre soubera que sua amada realmente despertava atenção dos transeuntes e até mesmo dos ali estabelecidos, mas... uma prostituta?
Ele duvidou, não quis acreditar, decidiu reescrever a história dos dois.
A verdade é que ela havia esperado por demais, em sua (dela) opinião. Não suportando mais a demora, muito embora convidasse de volta todos os dias em pensamento e orações e expectativas, cedeu. Ele não podia crer, no entanto. Continuou a escrever no chão de ambos, a que agora retornava, a história de um amor mais profundo e verdadeiro.
Mas os homens, transeuntes e moradores daquele lugar chamado "todos os lugares" decidiram e acharam por bem travestirem-se de amantes, mas minúsculos. O Amante, aquele que a amava, permanecia numa longa viagem por sabe-se lá onde.
Ela cedeu, ela cedeu. Deixou que dela fizessem posse, passou a receber para se dar. Deu-se toda, gastou-se toda, acabou-se toda e por inteiro. Eram já sete os amantes/maridos que tivera até aquela data, onde o Amante, o Maiúsculo, retornara. Ele chorou.
Sentiu enorme dor por saber que culpa nela não havia.Não podia culpá-la. Propôs-se a beber do mesmo copo que ela, enquanto tentava, entre lágrimas, suor e sangue, reescrever, recomeçar a história dos dois.
Mas os homens dali, aqueles que dela haviam se apossado e dela feito mercadoria, a culpavam de tudo. Como a possuíssem, sentiam-se totalmente autorizados a dizer e fazer e tratar dela como lhes conviesse, como se ela se tivesse assim feito. O triste de toda aquela situação é que ela não se havia feito prostituta. Ela nunca pagara nada a si mesma. Nunca havia pago ninguém. Era passiva, saudosa e fraca. Simplesmente, em sua saudade, fraqueza e falta tornara-se sem querer objeto, execrado objeto dos corações emperdenidos que ali havia. À noite, entre um e outro dos sete, que eram todos, chorava e lembrava e orava e pedia de volta o seu Grande Amado. Ele retornou, então, e nessa situação se encontravam. Ele de novo queria beber da água dela.
Mas ela julgava seu copo sujo, e não sabia se assim deveria proceder. Dar-se de volta, sem ao menos ser perdoada em algum ritual? Sem ao menos um sofrimento, uma auto-flagelação, uma confissão pública que fosse?
Tranquilizou-a.
Disse que sabia que os outros todos não eram seus maridos, mas que sabia quem o era. Eu sou, lhe disse. Me dou a você. Se não queres me dar da tua água, toma da minha.
E escreveu no chão, reescrevendo a história. Deu-lhe o frescor do Recomeço.
Os todos, os sete, os transeuntes, os estabelecidos, os confortáveis, os mentirosos, todos. Os quatrocentos e noventa. Todos. se revoltaram. Disseram-lhe: És um bobo! Não percebes o que ela lhe causou? Não enxergas quem ela é? Não sabes o que ela testemunha, ou contra-testemunha, diante, acima, do lado, abaixo e em todas as posições conosco?
Ele então levantou-se. Olhou-os nos olhos. Se espantaram, não podiam crer em tanta dignidade. Era o jardineiro fiel, era o-que-se-levanta. Tudo se condensava naquele momento.
"Vós todos - disse-lhes- deitastes com ela. Com minha amada. Com minha esposa. Com meu motivo, minha promessa, meu porquê. Culpa nela não há, posto que vosso é o objeto. A culpa é vossa. Vede a história que escrevo nesta terra vossa. Transformo o vosso chão, porque sou a nova História. Palavras que vos escrevo não serão jamais apagadas. Nunca mais objeto, nunca mais passividade, nunca mais usufruto, nunca mais pagamento, nunca mais. Perdôo-vos todos, se vos perdoarem. E, para que vos perdoem a si mesmos, assumi o que fizestes, e não mais a acuseis."
Tremeram, olhos no chão. Estava ali escrito, com sangue, a História.
Levantou-a.
"Vede, minha amada, eu nada tenho contra ti. Vá em paz."
Ela foi e contou aos sete e a todos que o Rei havia voltado. E voltou-se para Ele.
(sobre Madalenas, Samaritanas e Prostitutas, Cruz e Jardineiro)

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 Se você quiser, pode parar por aqui... Shifting Subject.


 Agora, os causo do dia!
Aí eu liguei pro Bharath e perguntei:
Aqui, como é que vocês fazem com as geladeiras?
E ele respondeu: elas são feitas com mais isolamento, e têm um estabilizador interno.
Tava no mercado, desfilando com o meu pão integral debaixo do braço e me perguntando como que eles podiam vender geladeiras, já que elas iriam parar.
Uma geladeira indiana modelo "pau pra toda obra" segura as coisas dentro dela congeladas por até... 8 horas. Isso mesmo.
Se for uma geladeira com freezer, passadas 5 horas você abre o freezer e lá dentro tem um controle que faz o ar beeeem frio descer. Assim, se faltar luz por mais de 5 horas, você redistribui manualmente o frio, fazendo com que as coisas no freezes fiquem a uns -4 graus (normalmente é -12 a -16) e a geladeira embaixo fique um tico mais fria, pero no mucho. Em torno de 10 graus.
Maneiro, esse povo. Pensam em tudo pra solucionar os problemas da rede. Perguntei ao Anoop porque toda hora a energia acaba, e ele me explicou que é por causa dos gatos e das árvores.
Aí fico assim abismado. Têm geradores em casa e geladeira com no-break, mas não têm rede elétrica direito.
Fui olhar os preços das geladeira. Comprei uma por 230 real, com freezer. Uma barganha... Foi entregue hoje com 4 horas de atraso (as 20 ao invés das 16).
E, para ilustrar bem a coisa toda, na hora em que estava sendo entregue, tava sem luz. Hahueuhauea.
Me entregaram a coisa a luz de velas, dei 50 rupias de gorjeta e eles foram embora, os dois moços.
Aí eu fui tomar banho na casa dos padre. O cano, sabem? Arrebentou de novo. Aí arrumaram, e ele arrebentou lá embaixo na obra. Então vão arrumar amanhã até as 2. Ou seja, 6.
Nisso, o Anoop me arrumou uma chave do quarto de um padre, cujo bloco é o de frente pra esse aqui.
Gente... o voto deles é de miséria. Tem uma cama, uma privada e um chuveiro e só. Não tem armário, porque eles não têm roupas. As roupas são entregues por um deles, indistintamente, hã. Fiquei abismado... E entendi mais e julguei menos.
Tirei umas fotos das casinhas dos sudras que moram aqui dentro do campus, bem como do cemitério e da geladeira.
O cemitério é pequeninho, de dentro estao enterradas 85 pessoas. Provavelmente, restos já muito decompostos ou cinzas. Mas o legal mesmo é que, pelos sobrenomes, dá pra ver que têm todas as castas, juntas. Na morte, aqui também, são todos iguais. E isso já é um ganho enorme pra Soteriologia daqui, vcs nem imaginam. Significa que as diferenças e a necessidade de superaçao acabaram, e todos estão em pé de igualdade diante do senhor do karma. Ou seja, estão salvos.
Nessa terra de contrastes, a congregação que é dona disso aqui é tao rica, mas tão rica, que doou boa parte dos terrenos deles para outras congregações fazerem seus conventos. Todos têm a média de tamanho da casa dos dominicanos, lá no Serro Azul. E a casa (o campus, a universidade, o seminário, a igreja etc) dos CMI (essa congregaçào onde estou) são dois seminários santo antonio. E eles vivem em um quartinho com o chão de cimento alisado, não tem roupas e tem um banheirinho pequeninho. Mas pelo menos lá tem água, só pra contrastar.
Também só pra constrastar, além da geladeira comprei, por 20 reais, o sofá que tá na foto, que é pro Bharath sentar-se amanhã (em teoria ele vem aqui amanhã)
Sufá de prártico

Casinha dos sudras. O legal é que ela chama "Holstein Dharmaram Block" Três línguas numa só placa.

Geladeira, que teve que ficar no quarto do Frederico porque a tomada não chega na parede. Mas depois eu ponho ela na sala.

Da boa, ó.

Com todas as coisas, pra não chamar barata. Amanhã posso comprar outras, já que agora tem onde guardar. Uhul! Vou comer pão com manteiga, depois de três semanas. Uhul!

Friday, April 27, 2012


Opa!
Ontem faltou água no prédio. Nós falamos com o síndico Anoop, que disse "ok", lá pelas onze da manhã.
À noite, o jeito foi tomar banho de caneca, porque não tinha água nenhuma. Quer dizer, tinha na cozinha (beeeem timidamente) e no quarto do Frederico (que já pegou esse nome), mas não tinha no banheiro.
Entonces, banho de caneca. E, naturalmente, água de beber havia, porque existe uma coleçao de quatro garrafas que é cheia todo dia, e que vai-se embora em um dia só. Bebo uns 3,5 litros, e os outros um litro e meio uso para cozinhar.
É muito difícil lavar a cabeça com caneca. Não fica assim uma Brastemp.
Brastemp, aliás, não te pertence mais. Num lugar onde a luz vai e volta toda hora (ontem foram 5 vezes), como ter uma máquina de lavar ou uma geladeira? Que uso isso pode ter? Ambos estragariam com os picos de luz, e as coisas dentro da geladeira se apodreceriam, não é? Suspeito que devem ter geladeiras a gás (sim, isso existe inclusive no Brasil, usadas para camping por aí.) e o Marco aposta que usam mini-geradores a diesel em casa. Como poderia ser essa hipótese dele, não sei. A pessoa teria de ligar ou desligar o troço toda hora, e teria de viver enfumaçada. Mas ele é um cara experimentado na precisança, hã. Descobri ontem à noite, enquanto olhávamos o vôo dos morcegos, como acontece também na UFJF, que ele nasceu no Sonora.
Oh, meu Deus, como resolver o problema dessas coisas apodrecendo?


O Sonora, minha gente, e um deserto do tamanho da Inglaterra. Por isso ele não liga pras baratas e pra falta de água ou luz. E, quando era pequeno e vivia numa fazenda no meio do Sonora (provavelmente de produção de poeira), tinham um gerador a diesel. Se não descobrirmos, vou perguntar ao Bharath, para quem liguei e que deve vir aqui amanhã ou sábado, e pelo jeito sozinho. Eu nem conheço a Marciléia, mas já to com medo dela. Mas que coisa estranha, visitar sozinho...

Pelo Emaús feminino que começa hoje! Reza também, ok?


De qualquer modo, vou ao hipermercado comprar uma cadeira, que é pra ele ter onde sentar-se. E, se houver como, na próxima visita dele lhe oferecerei um frango com quiabo, arroz, feijão e angu. O Marco poderá participar, claro... mas ainda não foi informado das minhas habilidades culinárias (que são pra lá de boas, na minha opinião). Dureza será achar o fubá, que ainda não vi. E igualmente dificultoso será cozinhar tudo, já que tenho só uma boca no cooktop. Acho que vou roubar o do Marco emprestado. Ou ele faz o arroz ou sei lá o que. O caso é que em tempo de guerra, urubu é frango! E assim sendo, a gente ficou amigo porque é muito cômodo e fácil falar sobre os questionamentos e dificuldades, que são parecidos porque "desde la patagónia hasta el desierto de sonora somos todos un unico pueblo, y las divisiones entre nuestros payses son meramente artificiales", como dizia Che Guevara. Mas provavelmente, ele dizia isso em Espanhol e não em Portunhol, que deveria ser adotado como língua oficial do Mercosul.
Nada de baratas. Se morreram todas, e na verdade espalhei barata morta pelo edifício todo. Descobri que o padre que ficou sem graça era o morador antigo do meu apartamento, e aí fiquei com mais pena ainda, porque acho que ele acha que eu sabia disso, então estava achando ele nojento. Coitado!!! Ainda bem que brinquei sobre a existencia de baratas no Brasil. Mas comentar que não eram bichos de estimação foi realmente um soco no estômago. Ilustrando aqui, ó, temos o dispositivo anti-baratas instalado nos orifícios de ventilação.
Dispositivo anti-cucarachas, no quarto do Frederico. Que muderno!


A dedetização parece muito eficiente, porque alguns cupins conseguiram entrar no apartamento, mas morreram. Ou seja, o negócio dura mesmo. Ademais, não há que se ter medo disso! A civilização do Sul da Índia tem uns 5000 anos, e portanto as maneiras de eles lidarem com os problemas artrópodes devem ser diferentes, mas necessariamente eficientes, não é?
Com a falta de água, o bom e velho senso prático se instalou na forma de pessoas buscando água nas torneiras externas. Aliás, eles sempre buscam, o dia todo. Acho que moram em casas onde não há agua nunca. E, se pode-se buscar água na torneira que fica a 200 metros de casa, pra que reinvidicar rede de abastecimento?
Penso que são os que moram em umas casinhas no meio do campus, donde saem chaminés. Vi alguns pegando lenha no finalzinho da tarde, também. Assim, pegam água e atendem ao iPhone, na maior naturalidade. Porque necessidade de rede de água não há, mas de falar com os amigos, isso sim. E falo sério... Nenhuma necessidade me parece tão natural quanto a socialização.
De manhã, quando saio do edifício, as criancinhas (muitas, umas lindezinhas de fofas) gritam "Morning, Father", e estendem as mãozinhas. Como quando eu era pequeno o padre Pimenta me dava umas balinhas no colégio, acho que o karma agora é dar a elas. Digo a elas que não tenho nada, mas elas falam alguma coisa em Malayalam e sempre que me vêem, estendem de novo a mão. Fome, não passam. São gordinhas e agitadas e limpas, o que só pode indicar que têm acesso a essas coisas mais fundamentais da vida. De tarde, vào pra creche. Os mais novinhos ficam andando atrás dos irmãos mais velhos (que estão de férias) lampadando. A foto que tirei retrata isso. O menino ficou bizulentando a menina (que deve ter uns 13 anos) e enchendo e esvaziando a garrafinha dele, ajudando pra caramba (na opinião dele, é claro) enquanto ela demonstrava paciência, mas sem esconder tentativas de disciplina.

Duas coisinhas que pegam água pra mamãe.


Enquanto isso, na parede da sala fica o protector natureba de citronela, que retrata perfeitamente a minha adesão ao indian lifestyle: sou parte do contraste.
Recebo propagandas o tempo todo no celular, e me inscrevi por um real (30 rupias ao todo) para receber todos os dias um verso do Corão, um da Bíblia e um do Bhagavad Gita. Você sabia que o mundo foi gestado no ventre de Deus, e é ele quem sustenta tudo? Tá lá no Bhavagad Gita, e eu bem que tinha essa impressão há muito tempo. Por sinal, essa é uma das conseqüências do Zim Zum, da Cabala Judaica, que influencia diretamente o Pentecostalismo Cristão através do Hassidismo. Somos todos um único povo, e as divisões entre nós são meramente artificiais.
Mas ao mesmo tempo, desde que as criamos, reais. E negá-las não é a melhor forma de resolvê-las. Nunca vou saber o que é preconceito racial, porque não tenho raça. Mas tenho que ouvir e tentar entender e me revoltar e denunciar o índio que tiraram a força do STF ontem porque ele protestou que os Índios não são citados no julgamento sobre cotas raciais nas universidades federais do Brasil. E tenho que sentir dor ao ouvir o relato da Dona Preta, minha mãe zero-dois, que disse ouvir as pessoas apontando as vezes e dizendo "Alá a macumbeira. Tinha que chamar "Preta" mesmo..." e etc.
Temos o privilégio, na nossa casa e no Brasil, de sermos nada, e o desafio é saber que o algo existe... É necessário, a partir do nosso nada, da afirmação do nosso processo crioulo e dinâmico, apontar o dedo na cara e dizer "olha, isso é racismo, Raças não existem." Mas ao mesmo tempo, como prova da não existência, forçar os que se acham alguma coisa (os "brancos" e os "afro-descendentes", que geneticamente são todos a mesma coisa mas juram que não, portanto são necessariamente diferentes já que assim se afirmam) a conviverem juntos. E é um absurdo tirarem os nossos avós de dentro da sala, porque eles querem ser ouvidos. Mas olha aqui, vovô, você não sabe de mais nada, então vai lá pra fora e cala a boca. Aqui quem manda somos nós, que roubamos a sua terra.
Quem aí sabe que essa história de Puris bonzinhos é mentira, além da Cecília? E que os índios, muito embora em menor número, foram sim escravizados até o século XIX? E que hoje continuam escravos, escravos da União, que resolveu a situação tirando eles de dentro das salas oficiais, legando a todos um pedaço de terra que juridicamente não é Brasil e isolando a realidade deles, como se não existissem?
Corre-se o risco de, ao longo do tempo, se não olharmos para o "outro" e não o reconhecermos como "igual", de chegarmos a crueldade do especifismo, corrente em países da África (alguns) e na Índia, onde (no caso africano) os pigmeus são considerados outra espécie, a inclusive caçados e comidos, ou (no caso da Índia) contados como burros de carga, escudos humanos ou semi-deuses, dependendo da referenciação que um faz ao outro.
Já passaram pra pensar nisso? Eu, por exemplo, não gosto da Gisele porque "não ligo pra essa coisa de cor". Eu gosto porque eu ligo, e acho lindo gente preta, desde muito pequeno. Então eu gosto dela porque ela é diferente, e quando a gente se encontra, se torna diálogo, se torna não-dois, sempre. Nunca que vamos ser um. Nunca! Somos só não dois, e não um, e não existe contradição nisso. Aliás, a gente é muito melhor que nós. Porque Nós são conjugados no plural, e a gente é no singular, mas sabendo que é plural.
Bom, chega de divagação. É que me revolta pensar que, se a gente não abre o olho pra tentativa de engambelamento que estão fazendo aí, negando num discurso muito fofucho que as diferenças não existem, não estamos educando ninguém para a realidade do não-dois, do não-um, do processo e do crioulo.
Eu sou um Crioulização, e não um crioulo, porque nem a idéia de definição e conceito me cabe. Fico assim eterno nada, sempre em branco, até quando eu enfim e tornar um não-existente e um diluido no Real, que está aqui no existente, mas não é o existente. O real não existe... ô luta.
O que existem são baratas, citronelas, mexicanos, fauna exótica (ontem vi um morcego do tamanho de um gato comendo um côco de noite), desertos, cinco nascentes (conheço cinco nascentes no São Pedro, desde a UFJF até a BR040, achem-nas), frio, calor, cartões magnéticos para portas onde faltam luz, baldes de água e chuveiros que voltaram a funcionar (era um cano quebrado, disse o Anoop), fogões moderníssimos elétricos para os dias de blackout, geladeiras baratas e inúteis, e uma cama sem ninguém, pra quem quiser vir aqui!
Ah...e comida apimentada feito o quinto dos inferno, não podia me esquecer.
Adoçando tudo, essas lindezinhas de crianças que balbuciam o tempo todo, sem saber falar.
Ou melhor, eu que não sei as ouvir.

Thursday, April 26, 2012

Primeiro, andar.


- Já vou.
- Será? Eu quero ver! O mundo, eu sei, não é esse lá! Por onde andar? 
- Eu começo por onde a estrada vai e não culpo a cidade, o Pai. Vou lá andar e o que eu vou ver...
- Eu sei lá!
- Não faz disso esse drama, essa dor: é que a sorte é preciso tirar pra ter. Perigo é eu me esconder em você. E quando eu vou voltar? Quem vai saber? Se alguém numa curva me convidar eu vou lá, que andar é re-conhecer o olhar.
- Eu preciso andar um caminho só. Vou buscar alguém que eu nem sei quem sou. Eu escrevo e te conto o que eu vi e me mostro de lá pra você. Guarde um sonho bom pra mim.

(Sobre as conversas que puxavam no Brasil)

Wednesday, April 25, 2012

E aí?
De ontem pra hoje, não dormi muito bem. Pode ter sido o café na hora de dormir, pode ter sido sei lá o que.
O caso é que hoje estou meio zumbi, meio querendo dormir mas não podendo. Fui no mercado e comprei um tupperware gigante, tipo uma caixa, pra guardar as coisas dentro. Achei necessário.
E acertei na mosca. Ou melhor, na barata.
Mal coloquei tudo lá dentro e liguei meu protector na parede, deitei um pouco, pra ver se dormia um tiquinho muito embora a bateção de marreta em tudo que é parede do prédio.
Dormi nada... e de repente ouvi um barulhinho. Levantei e olhei pro travesseiro, e lá estava ela... o terror tropical... a cucaracha! Uma barata de proporções ituanas. Levantei em 25 milésimos de segundo, invocando a profissão mais antiga da terra, sobre a qual poetizei tão belamente antes deste ocorrido. Lasquei-lhe o sprayzinho de citronela que comprei, de repelente. Ela ficou tonta, tonta, tonta. Mas nada de morrer. Peguei o desodorante e um isqueiro e tchaaaaaaaaaaaa!!! Maçariquei-a ao óbito.
Então pus-me a refletir sobre o ocorrido e decidi vedar tudo que é buraco que existisse no apartamento. Fiz umas buchas de papel higiênico e enfiei nos buraquinhos de tijolos (saídas de ventilação mesmo, perto do teto, de tijolos colocados na horizontal nesta intenção), que foram colocados lá com o objetivo de atrair a fauna artrópode para dentro dos apartamentos.
E fucei o apartamento inteiro, procurando ocos. Achei-os no banheiro. A porta é de plástico, e é oca por dentro. Soquei de todo jeito aquele trem, e acabei descobrindo outra amiga. Matei-a com aplicação direta de energia cinética, ou seja, uma pisada fenomenal.
Não sei se elas entraram aqui pelos buraquinhos que eu vedei, mas sei que não há outros buracos e nem lugares pra esconder. Por isso, fui lá pra fora ver pra onde dava o poço de ventilação.
Enquanto estava lá fora olhando com ar inquisitivo, um padre se aproximou e perguntou o que eu tava fazendo. Disse que achei uma barata, e ele pareceu envergonhado. Eu o tranquilizei, pra não ficar chato, dizendo: "Calma, no Brasil também tem baratas" e, assim que ele notou que sou um cara tranquilo, emendei: "mas é obvio que não são os meus bichos de estimação preferidos". Ele foi pro quarto dele, e por sorte imensa apareceu o síndico da parada aqui, que se chama Anoop. Provavelmente, parente do Snoop.
Ele trouxe um sprayzinho que promete matar "even hidden coucrages" e espalhou pelo quarto. Eu quase aceitei. Tive que ficar meia hora fora do quarto, e quando voltei não tinha nada no chão.
Pra ajudar bastante, a companhia resolveu trocar os fios de alta tensão, e tava tudo sem energia. Falei com o Marco que encontrei "cucarachas", e ele disse na maior calma: "é, tem mesmo. Na minha cozinha não tem, só no banheiro. Já achei três." Não sei se ele sabe que baratas voam e andam, e podem chegar à cozinha, mas enfim...
Não me admira que tenha encontrado baratas, dada a quantidade absurda de lixo nas ruas e ao farto de eu estar no meio de um campus todo ajardinado. Saí pra ver se achava um k-othrine da vida em algum lugar pra dar uma guaribada da boa aqui...
Na saída, encontrei uma freira, perguntei-lhe com o que se viram cá por essas bandas, e ela disse que era um giz. Aquele famoso giz mágico chinês, tão ligados? E um padre estava saindo pra cortar cabelo na hora, ficou sabendo o que era e me falou para acompanhá-lo, que ele sabia onde tinha.
Na farmácia. Isso mesmo, na farmácia vende-se o tal giz. E num mercadinho ali perto, um troço tipo um baygon, mas que dura por um mês. Nada de k-othrines. Como o que tem é esse, comprei o giz e o spray e voltei pra casa. No caminho, comprei um guarda-chuva, porque começou a chover as 15:30 e não parou mais. Quando cheguei de volta, as 18:00, contei corpos. Cinco amiguinhas jaziam no chão.
Como para cada uma que se vê existem 10 que não foram ainda vistas, isto me dá 50 baratas nas redondezas. O caso é que o prédio é construído com os banheiros ligados a um duto de ventilação que corre o prédio todo. Ou seja, uma coisa porca, de onde vêm as baratas de um apartamento pro outro passeando e variando o cardápio de privada em privada e de cozinha em cozinha.
Vedei o raio do duto de ventilação com um durex de correio, cinco camadas. Feito isto, desliguei os ventiladores e exatamente agora estou espirrando o negócio que dura um mês pelo apartamento todo, empesteando geral. Espero não contar mais corpos pela manhã. Se contar, vou chamar o Snoop de novo e dizer "colé?"
Curiosamente, disse ao Marco que tenho mata cucarachas e ofereci, mas ele não quer. Prefere as baratas aos efeitos danosos do inseticida, ele diz.
A força, que havia voltado, caiu de novo. Todo dia cai.
Assim vou sair por uma hora, esperando o efeito do inseticida, e a próxima linha será depois disto feito. Tenho esperança de a luz voltar neste intervalo...
A luz voltou!! Fiquei no apartamento do Marco durante a uma hora, e para o alivio geral da nação, não há mais corpos. Conversamos sobre a filha dele, que é bailarina, sobre a Gisele, sobre casamento. Ele é divorciado, e me recomenda de não casar sem ter absoluta certeza. Ë possível que ele tenha sofrido com o sofrimento da ex-mulher e filha e tudo o mais, né? Falei com ele que a Índia é linda, mas ainda me faz mal.
Me faz mal de um jeito bom, porque me põe a pensar sobre muita coisa. Como pode ser algumas coisas? Acabei descobrindo com o padre que me levou a passear até o cabelereiro que estes apartamentos onde estamos são pra pesquisadores, e são assim grandes para que possam vir com suas famílias. Bem, bem. Mas ocorre que moram em apartamentos como este, ou menores, famílias inteiras de sudras e dalits, e neste predio aqui onde estou. Faz-me mal pensar a respeito, mas eles (os sudras) parecem não pensar assim. Sentem-se honrados, talvez (estou especulando) só de dividir a mesma vizinhança. Curvam-se diante de mim, que por mim só andava descalço, que o terreno onde eles pisam é sagrado. A um deles, um velhinho simpático, disse eu que ele é o mais sábio de todos no campus. Ele se surpeendeu, e disse "eu? mas como?" E eu lhe expliquei. Você criou seus filhos, você deve ter passado fome e necessidade por eles, você os sustenta com o seu suor. Você entende o que é uma casa. Os padres casam os outros, mas nunca poderão entender isto. Você é o mais sábio porque sabe do que a vida é feita. Os olhos dele ficaram luzidios. Nunca se havia percebido sábio, talvez.
Perdi o dia todo arrumando, limpando, dedetizando a casa. Já está marcada a próxima aplicação de veneno: 25 de maio. É a vida, né? Barato, mas com baratas.
Choro de pensar no meu Amor, que se esconde de uma maneira tão profunda nos olhos destes terrenos sagrados que me cercam, sejam os padres, sejam os servos, seja o Marco, sejam as baratas ou o inseticida, sejam vocês, sejam os pernilongos ou o cabelereiro ou o moço que me vendeu a fita adesiva, que disse ter vindo do Rajastão e ter viajado por cinco dias de camelo para chegar a estação de trem ou algo parecido. Não entendi direito, porque foi em hindi... Mrr mrr é pesado. rrrt é direita. mayerdae é pare... poucas coisas sei em Kannada, mas pelo menos sei o Namaskará, ao qual as pessoas sempre respondem com satisfação.
"Me curvo diante de ti porque em ti reconheço uma fagulha do Divino". Namaskará.
A vocês todos, neste finalzinho de dia cheio de leves decepções, muito cansaço e a alegria de me perceber mais íntimo do Mais Íntimo que minha própria respiração, Namaskará. Estejam vazios.

Reset

Aquele que a amava apavorou-se.
Seria mesmo verdade o que afirmavam os homens que ali permaneceram?
Sempre soubera que sua amada realmente despertava atenção dos transeuntes e até mesmo dos ali estabelecidos, mas... uma prostituta?
Ele duvidou, não quis acreditar, decidiu reescrever a história dos dois.
A verdade é que ela havia esperado por demais, em sua (dela) opinião. Não suportando mais a demora, muito embora convidasse de volta todos os dias em pensamento e orações e expectativas, cedeu. Ele não podia crer, no entanto. Continuou a escrever no chão de ambos, a que agora retornava, a história de um amor mais profundo e verdadeiro.
Mas os homens, transeuntes e moradores daquele lugar chamado "todos os lugares" decidiram e acharam por bem travestirem-se de amantes, mas minúsculos. O Amante, aquele que a amava, permanecia numa longa viagem por sabe-se lá onde.
Ela cedeu, ela cedeu. Deixou que dela fizessem posse, passou a receber para se dar. Deu-se toda, gastou-se toda, acabou-se toda e por inteiro. Eram já sete os amantes/maridos que tivera até aquela data, onde o Amante, o Maiúsculo, retornara. Ele chorou.
Sentiu enorme dor por saber que culpa nela não havia.Não podia culpá-la. Propôs-se a beber do mesmo copo que ela, enquanto tentava, entre lágrimas, suor e sangue, reescrever, recomeçar a história dos dois.
Mas os homens dali, aqueles que dela haviam se apossado e dela feito mercadoria, a culpavam de tudo. Como a possuíssem, sentiam-se totalmente autorizados a dizer e fazer e tratar dela como lhes conviesse, como se ela se tivesse assim feito. O triste de toda aquela situação é que ela não se havia feito prostituta. Ela nunca pagara nada a si mesma. Nunca havia pago ninguém. Era passiva, saudosa e fraca. Simplesmente, em sua saudade, fraqueza e falta tornara-se sem querer objeto, execrado objeto dos corações emperdenidos que ali havia. À noite, entre um e outro dos sete, que eram todos, chorava e lembrava e orava e pedia de volta o seu Grande Amado. Ele retornou, então, e nessa situação se encontravam. Ele de novo queria beber da água dela.
Mas ela julgava seu copo sujo, e não sabia se assim deveria proceder. Dar-se de volta, sem ao menos ser perdoada em algum ritual? Sem ao menos um sofrimento, uma auto-flagelação, uma confissão pública que fosse?
Tranquilizou-a.
Disse que sabia que os outros todos não eram seus maridos, mas que sabia quem o era. Eu sou, lhe disse. Me dou a você. Se não queres me dar da tua água, toma da minha.
E escreveu no chão, reescrevendo a história. Deu-lhe o frescor do Recomeço.
Os todos, os sete, os transeuntes, os estabelecidos, os confortáveis, os mentirosos, todos. Os quatrocentos e noventa. Todos. se revoltaram. Disseram-lhe: És um bobo! Não percebes o que ela lhe causou? Não enxergas quem ela é? Não sabes o que ela testemunha, ou contra-testemunha, diante, acima, do lado, abaixo e em todas as posições conosco?
Ele então levantou-se. Olhou-os nos olhos. Se espantaram, não podiam crer em tanta dignidade. Era o jardineiro fiel, era o-que-se-levanta. Tudo se condensava naquele momento.
"Vós todos - disse-lhes- deitastes com ela. Com minha amada. Com minha esposa. Com meu motivo, minha promessa, meu porquê. Culpa nela não há, posto que vosso é o objeto. A culpa é vossa. Vede a história que escrevo nesta terra vossa. Transformo o vosso chão, porque sou a nova História. Palavras que vos escrevo não serão jamais apagadas. Nunca mais objeto, nunca mais passividade, nunca mais usufruto, nunca mais pagamento, nunca mais. Perdôo-vos todos, se vos perdoarem. E, para que vos perdoem a si mesmos, assumi o que fizestes, e não mais a acuseis."
Tremeram, olhos no chão. Estava ali escrito, com sangue, a História.
Levantou-a.
"Vede, minha amada, eu nada tenho contra ti. Vá em paz."
Ela foi e contou aos sete e a todos que o Rei havia voltado. E voltou-se para Ele.
(sobre Madalenas, Samaritanas e Prostitutas, Cruz e Jardineiro)

Tuesday, April 24, 2012

Oi gente!
Este é um dia para se comemorar, e estou comemorando muitíssimo!
Acordei, tomei café no hotel, terminei de socar umas coisas dentro da mala e fiquei esperando a hora (11:30) de vir pra cá. Para despedir do ar condicionado, o liguei beeeeem forte (20 graus) e fiquei lá, curtindo.
Depois, quando eram 11:30, desci, paguei a conta do telefone na recepção (4 reais para umas ligações que fiz pro Brasil) e pedi um táxi pra cá. O táxi cobrou 600 rupias, então enfiei tudo (uma mala, duas mochilas e eu) dentro de um dos riquixás do Babu, que me trouxe aqui por 250 rupias. Me deu o telefone dele, para caso eu precise de alguma coisa.
Chegando aqui, uma mulher que não sabe falar inglês me trouxe no apartamento, o 101. Claro que já passava de meio dia, e claro que não estava pronto. Alguns eletricistas estavam ajustando o ventilador. Deixei minhas coisas no apartamento do Marco (o 201) e fomos almoçar, para comemorar minha chegada.
Comemos num restaurante em frente o shopping, coisas com metade da pimenta, porque pedi assim. Uma maravilha.
Quando voltamos, os eletricistas haviam ido embora, então peguei as coisas, desempacotei tudo e arrumei. Quando eram 17:00, e o sol já estava mais baixo, fomos no carrefour bisurado que tem aqui perto.
Comprei duas panelas, macarrão (um miojo daqui, mas vem 5 pacotes por dois reais), corn flakes, pao, tomatinhos, cenoura, vagem, arroz, feijão (que só existe em lata, já cozido, e na seção de comidas exóticas), uma faca e uma espátula de cozinhar, leite longa vida (que vem em pacotinhos de meio litro, muito bonitinhos), incenso (pra espantar os mosquitos até amanhã, quando busco o protector no outro mercado, pois lá eu vi e nao quero usar repelente o tempo todo porque fede), fio dental (finalmente encontrei!), panos de prato, açucar, ovos, nescau (maltesers, que ele chama), nescafé (pasmem, é nescafé mesmo), sal, alho, esponjas, detegente... enfim, tudo quanto há.
Paguei a fábula de... 4000 rupias. 80 dólares, uns 150 reais. Bem carinho, né? Mas é pro mes todo. Comprei uma caneca bonitinha, claro. Quem me conhece mais de perto sabe que eu gosto de canecas, até das feias.
Aí vim pra cá, e arrumei tudo, to aqui brincando de casinha todo feliz e contente. A sensação de estabilidade é muito tranquilizadora, e o perigo é a gente se apegar demais a isto, né? Um pouco de estabilidade não faz mal a ninguém.
Agora à noite vou dormir melhor, tenho a impressão. Aqui tem muitas árvores, é bem mais escuro e bem mais silencioso por causa disso. As árvores dos jardins seguram a luz e o som lá pra fora.
Acendi uns incensos, são muito cheirosos. Não têm nenhuma lembrança de fumaça no cheiro que soltam, só de flor. Uma beleza que só.
O engraçado é que este, no final, é um apartamento de dois quartos. Tirei a sorte grande. O outro quarto tem uma cama, també, só faltando o colchão. Um verdadeiro convite pros corajosos que quiserem vir. Estão todos convidados, mas um de cada vez. Ou tragam colchões infláveis do Brasil, que por enquanto não vi nada parecido por aqui.
Amanhã um médico vem me ver, do plano de saúde. Quer medir minha pressão, pesar, não sei mais o que... Acho que vai ser divertido, porque não sei o nome de doenças em inglês. Assim, se ele falar que minha unha é torta, posso entender que tenho apendicite (o meu sonho dourado).
Agora, eu vou tomar um café com leite, comer um paozinho integral e usar minha internet supercalifragilistisespialidoucious pra ligar pra casa e pra Gisele.
Um abraço a todos vocês, e permaneçam aqui do meu lado.

Aqui um vídeo do apartamento, ó:

http://youtu.be/zvwkaRBOhQE


Monday, April 23, 2012

Trouxe pra cá o livro "o céu em uma flor silvestre", do Rubem Alves, que fala sobre as experiências que podemos ter a partir das estéticas. Foi um presente de Páscoa da Fabiana, minha amiga querida de quem tenho tanta saudade.
Fez-me tão bem essa leitura, que enviei um e-mail ao Rubem Alves, comentando o fato.
E ele respondeu. Fiquei aqui, todo besta. Fã é assim.
Gente, aí vocês param de ler esse blog ridículo e vão ler Rubem Alves, tá? Ele gosta de ipês amarelos e aprecia quando os livros dele fazem boa companhia (é o que ele me diz no email)
Namaskara!
Amanhã! Amanhã é o dia em que eu vou, ao meio dia, pro meu apartamentico aqui em Bangalore. É um quarto e sala, nem é uma kitinet é nada. Totalmente mobiliado, no meio do campus. O Henrique Duque morreria de inveja.
Hoje, tomando isto como pretexto, não fiquei muito tempo na Universidade não. Fui de manhã, futriquei nas prateleira da Biblioteca Central e peguei lá uns 10 livros, dos quais selecionei 5 e levei pro czirocz. Aí era uma hora da tarde, eu comi um sanduíche vegetariano (que é feito de pepino quente, verdadeiro desafio ao paladar tupiniquim) e vim pro hotel.
O pretexto é que eu ia arrumar as coisas. Mas que o que! Estudei um monte de história, depois vi um filme com o Nicolas Cage na TV e nisso eram 7 horas, pelo que desci e jantei copiosamente.
Comi lá um Nargis Kofta, aloo chatpatta e dois nan. O nan é um pãozinho ázimo simpático, enquanto o Nargis Kofta é um refogado pastoso de legumes com gengibre, cebola, cenoura, vagem, batata e uma pimentinha pra desentupir a nareba. O Aloo Chatpatta é feito de batata (ou batata doce) com cebola, açafrão e algo mais, sendo um prato mais sólido, onde os legumes estão em pedaços.
A comida indiana se come assim: você pega o prato mais sólido, que é chamado de starter (entrada) e o come. Depois você pega o prato mais pastoso e passa no pão de sua preferência, enrola e manda brasa. Vi muitos nativos misturando o prato pastoso no sólido, e realmente fica bem interessante, isso também.
O açafrão é uma coisa que te pinta por dentro. Sua escova de dentes fica amarelada, sua urina e seu “output” também ficam. E o gengibre, a pimenta e as cebolas devem fazer muito bem. Diz a medicina tradicional chinesa que eles tonificam os pulmões, nariz, garganta. E sabem quantas vezes eu fiquei de nariz entupido aqui, até hoje? Nenhuma. Pode ser, é claro, devido a falta de umidade no ar. Mas pode ser por causa dos temperos também.
Agora, como sempre depois dessas refeições, eu sinto o ar quente entrando e saindo pelo nariz, e se tiver alguma coisa lá dentro com certeza sai. É assim. Acho que alguns têm razão, de quererem vir pra cá. É realmente único, e maravilhoso.
Ontem comecei a planejar minha primeira viagem pra fora daqui, pra província jesuíta de Madurai. Ocorre que os trens levam horas a fio pra chegar lá, os aviões também (não tem vôos diretos) e carro ou ônibus, nem pensar). Vou de trem diurno, se tiver jeito. Assim, pago menos que o avião, levo o mesmo tempo e ainda aproveito a paisagem. 50% da população indiana é rural. Não sei onde eles estão, já que aqui é uma cidade enorme e ruidosa. Devem estar na beira dos trilhos...
Hoje também consegui mandar mensagens pelo celular. Foi uma epopéia. Depois de ler por 10 dias o manual e de fuçar o Google inteiro, resolvi ligar pra operadora. Aqui, cada aparelho deve ser configurado a mão num tal de SMSC, o centro telefônico de cada operadora que envia as mensagens. Não é automatizado, como no Brasil. Ponto pa nóis.
Estou muito animado com a mudança amanhã, e já está tudo no lugar. Foi fácil arrumar tudo, porque não tirei a maior parte das roupas da mala, e mandei lavar as que estavam fora. Paguei R$2,50 por isso, e elas foram lavadas e passadas, tudo no mesmo dia, que foi ontem. Fiquei me achando muito esperto. A maior parte do tempo eu fico sendo o véio pelado, só de cueca no quarto desfrutando o ar condicionado a 27 graus, que é pra eu não resfriar com uma mudança muito agora de temperatura. Amanhã, no campus, nao vai ter mais ar condicionado e nem tv a cabo. Mas eu vou no mercado comprar umas coisas pra cozinhar lá, meramente por economia e pao-durice, sobretudo numa terra onde (descobri) a bolsa da CAPES corresponde a um terço do salário da presidente da Índia. Um absurdo fosso monetário.
Só é pena que essa riqueza da Índia, que consegue colocar tudo a um preço tão baixo, só seja possível devido ao fato de 43% da população ser pobre ou miserável. Uma pena. E eu nem posso votar aqui, muito embora ache que não adiantaria nada poder votar, já que todo mundo aqui vota e continua o status quo.
Sei lá se a Índia tem solução. Sei lá se precisa de solução, também. Por um lado de ideologia e sociedade indiana, tá tudo às mil maravilhas. Mas é claro que muito dessa ideologia é manipuladora! É óbvio que os deuses não castigam os pobres, pois se assim fosse os santos seriam das altas classes, e muitos dos santos hindus são de classes baixas ou dalits (os dalits não são uma classe no sentido de casta, mas são tão castigados que não podem nem mesmo participar da sociedade).
Hoje estava pensando na liberdade única de que gozam os dalits, por sinal. Eles não casam arranjado, comem carne, fumam, bebem bebidas alcoólicas, casam e se divorciam na maior... E alguns até ficam ricos! Vai ver que as castas os reprimem por pura inveja.
Enquanto estava aqui no hotel, pude notar que muitos dos funcionários do hotel são sudras (servos), enquanto o caixa e o gerente são vaishyas. A gente sabe porque os sudras usam o sinalzinho vermelho na testa, e os vaishyas (comerciantes) usam preto ou dourado. É incrivel, mas os sudras não conversam com os vaishyas e vice versa. Tem um muçulmano que trabalha aqui que conversa com todos... E o Babu, que invade o hotel e conversa com todo mundo, avacalhando tudo. E tem eu, que cumprimento todo mundo. Eles sorriem muito quando eu faço isso. Não sei se estão acostumados a serem respeitados. Ficam me chamando de sir sir sir sir sir, o que é muito estranho...
Bom... hoje foi assim, esse dia de semi ansiedade e preparação para o settlement. Amanhã tem mais, ou menos. Depende do ponto de vista.

Sunday, April 22, 2012

Dois domingos.
Hoje eu acordei as 9 horas, porque é domingo. Combinei de ir co’s primo na missa das onze,e assim eu o fiz após tomar meu substanciosíssimo café da manhã. Mas os primo não apareceram na missa. Gozado, porque eles andam com rosários no pescoço e tudo o mais. Deve ter ocorrido algo, né.
Saí da igreja e fui no mercado que fica dentro do shopping, porque aí eu pude aproveitar e almoçar no xópen mesmo. Chama shopping Forum, e tanto ele quanto a igreja são perto da Universidade. Também tem lá por perto o Big Bazaar, uma espécie de Bretas ou Bahamas, e um Star Bazar, que tem 3 andares: o primeiro é mercado (comida, frutas, limpeza etc) o segundo é roupas e o terceiro é tecnologia. Ou seja, um troço gigante, uma espécie de Carrefour melhorado. Mas fui no do xópen, né. Chama More for You, e tem algumas coisinhas. estava atrás de frutas (maçãs e bananas, porque a pêra daqui é horrível, então comprei a “Brazilian Style Gala Apple”, que acho que é style só e não a Gala mesmo. Sei que a Embrapa tem um centro de pesquisa aqui, então devem ter ensinado os indianos a plantar maçã no calor, igual a gente faz aí.
Comi numa coisa que nunca poderia comer no Brasil: KFC, Kentucky Fried Chicken. Um frango frito indecente de gostoso. É o restaurante onde os muçulmanos e cristãos vão no shopping, porque os vaishnava (adoradores de Vishnu como Deus principal ou único, em sua forma eterna (Vishnu) ou em suas encarnações (Krishna, Rama e etc)  raramente comem frango, e são na maioria lacto-vegetarianos, como é o caso do pessoal que é dono aqui do hotel; por isso o cardápio daqui é lacto-vegetariano. Algumas seitas comem carne de frango e de leite entre os vaishnava, mas esses aqui não, pelo que a gente poderia remontá-los provavelmente à idade média, por volta do século XIII e na região um pouquinho mais ao Norte e Noroeste. Aqui ocorreram sempre muitas migrações, algumas vezes violência. Em Bangalore mesmo, na década passada, teve um arranca rabo entre as religiões locais. Morreu gente, explodiram bombas... Por isso, hoje todo mundo quando entra em tudo que é lugar é revistado. E a polícia, quando pára turistas, pede o passaporte e é sempre muito amável, para tranquilizar o estrangeiro de que está tudo bem por aqui. A mim nunca pararam, como não parariam a Marciléia, mas outros me contaram disso. Hoje, por sinal, chegou um russo aqui. Me perguntou onde ficam os templos de Krishna e Shiva. E eu tive de explicar pra ele que essa zona da cidade é muçulmana, na maioria. Tem uns templinhos aqui e ali... Mas os hindus compõem 25% da populaçào da cidade, enquanto os cristãos (latinos e siríacos) compõem20%, os muçulmanos 50%, os sikhs 3% e outros (budistas, ateístas, agnósticos etc) 2%. Ele pareceu não saber disso. Acho que veio pra cá achando que era Rikshek, sei lá. Ou Srivilliputtur. Nesses lugares é templo pra tudo que é canto que se olha, shivaítas. Em outras cidades você encontra muitos Vaishnavas. A maioria dos hindus é vaishnava, e quase ninguém mais adora o Brahma, um Deus esquecido, coitado. Virou até nome de cerveja. É que ele não tem forma, nunca encarnou, nunca faz nada. Tá dormindo há alguns milhões de anos e qualquer dia desperta pra recriar o mundo. Aí o Shiva vai querer destruir tudo de vez e o Vishnu vai querer manter tudo do jeito que está. Eles vão chegar ao acordo do recomeço e pronto.
Por conta disso, a gente entende o papel dos deuses. O Vishnu é esse princípio que mantém o mundo como está, buscando remendá-lo, ensinando. Por isso ele se encarna tanto. Já foi Rama, Krishna, Buda, Jesus...
O Shiva não é muito de conversa. Ele fica olhando o mundo gerido pelo Vishnu de olhos quase fechados, mas de vez em quando resolve intervir. A intervenção dele resulta sempre na renovação, pela destruição, do mundo. Os cultos ligados a ele propõem um distanciamento do status quo, seja pela meditação profundamente calma (a ioga) seja pela meditação enérgica, essa sim uma ruptura e destruição de tudo ao redor. Essa meditação enérgica, chamada de “mão esquerda de Shiva”. é o exercício da sensualidade (kama sutra, sexo tântrico, culinária, lutas, taichi etc). E o Shiva sempre ensina (quando resolve falar alguma coisa, porque é um cara calado) que a realidade do mundo é diferente dele.
O Vishnu não, normalmente ensina que é a mesma coisa, e que as diferenciações são aparências. Portanto, todos somos Deus.
Para o Shiva, todos participamos de Deus, mas não o somos, porque Deus criou em si um espaço para o outro.
E o Brahma, esse Deus dorminhoco, não tem muita vez. Os cultos ligados a Ele querem romper coma ilusão do um e do dois, buscando o não-dois, o encontro entre o Eu e o Todo.
O engraçado é que, muito embora o culto ligado ao Brahma seja uma coisa menos em voga, a idéia central influencia e determina os outros cultos, que ficam tentando resolver o problema do Maya, da ilusão. Maya é “ilusão” em sânscrito, e é necessário resolver o problema do mundo como maya, porque de alguma maneira tanto considerar o mundo como Deus ou considerar o mundo como partícipe de Deus é ilusão. A realidade é a superação da ilusão, e não a preocupação acerca dela.
Ouvir a palavra de Vishnu e ser obediente dela, ou ouvir os ágamas sobre Shiva e disciplinar-se a partir deles são ambas devoções aos canais de graça. O que o brahmanismo propões é esquecer os canais da graça, e mergulhar na graça em si mesma. Muito louco.
Tudo isto por causa do Evangelho de hoje, que diz que Jesus abriu-lhes a consciência para que compreendessem as Escrituras. Louco, hã? Só a reuniào da Graça, do Canal da Graça e do Mestre da Graça, ocorrida em Jesus, foi capaz de superar o problema da ilusão, e devolver o estado de não-mistério ao mundo.
Gozar o mundo é gozar a graça, mas também em uma maneira radical é negar a graça, que está no mundo mas não é dele. O mundo é real, mas também é ilusão. Jesus de Nazaré, o filho de Maria, é Deus real, mas também é ilusão. Porque o Jesus que experimentamos hoje supera aquele Jesus terreno, mas também o é. Aliás, só pode superar porque É. Se não incluísse, como poderia estar para além do objeto superado?
Compreender a Escritura é entender como Pedro entende e demonstra na primeira leitura. Ele diz aos judeus “vocês mataram a Jesus porque eram ignorantes”. Mas não culpa os judeus. Não há culpa em ser ignorante.
Uma história que persegue a gente muito é a do menino que entrou na cozinha. E aí ele viu uma cesta de Brazilian Style Gala Apples, cheinha, e pensou “vou comer um, ninguém vai notar porque não tem ninguém aqui”.
As nossas catequistas costumam terminar a história assim: O menino pegou a maçã, mas Deus o viu fazendo isso e por isso ele teve de confessar.
E um outro final, que ninguém oferece, é esse: O menino pegou a maçã, e Deus o viu fazendo isso. Então encarnou-se de menino Jesus, foi lá e pegou outra, e os dois comeram as maçãs juntos, entre outras traquinagens. Isso é superar o pecado.
É incluir, participar, ir junto. Se fôssemos olhar do ponto de vista positivista, igual fazem as catequistas, Jesus é um grande pecador, porque inflige todas as leis possíveis. Come com pecadores, é amigo de prostitutas, xinga o zoto (chamando de “bando de filho da p____a” coma expressão suavidada “filhos de uma geração adúltera”), dá chilique no templo no meio da reza alheia, zomba dos bispos da época, responde mal a mãe dEle (que é a própria Nossa Senhora, o que deve multiplicar o pecado por um milhão), pratica medicina sem diploma, rouba a plantação dos outros colhendo trigo em pleno feriado... É um fanfarrão, esse tal de Jesus Cristo. Verdadeira mão esquerda de Shiva.
Mas Jesus vai além da lei. Ele vai à Lei, ao coração de todas as leis, porque Ele é a Lei do Pai. E deixa pra nós de lembrança um Deus Brahma, um dorminhoco desaparecido... que quando acordar, o trará de volta.
E precisamos ter a mente aberta para entender a escritura do mundo... tudo que o mundo é saiu da boca de Deus, que disse Faça-se isso e aquilo e mais aquilo ali. E agora, de sacanagem, faz um castor com bico de pato e perna de ganso e ferrão venenoso. Mas poe o ferrao nas pernas de trás. E quero de dê leite e bote ovos e que tenha sensor elétrico e que coma camarões.
Quando os espermatozóides são lançados ao encontro dos óvulos em todas as espécies, seja por fecundação interna ou externa, mas especialmente externa, porque o numero de espermatozóides é maior, Jesus fica lá no meio, bem miudinho, como a gente fica nas marés esperando ondas. E sobe nas costas de algum deles, como quem sobe num golfinho e o guia. É a minha explicação pra essa parte da escritura do  “ser ou não ser”. Aliás, eu só sou agora o que sou porque precisamente deixei de ser o que poderia. Portanto, sou muitos não-seres.
Estas estão sendo as minhas pensações, buscando entender as escrituras. Acho que só podem ser entendidas quando a gente pára de se preocupar de entender o mundo e começa a apreciar o cheiro de flor no meio do cheiro de lixo. E a festa e a alegria das bactérias pelo chorume que escorre dos caminhões. Elas acham cheiro de merda uma beleza, e odeiam as flores.
Só pode entender o mundo, para Rubem Alves, quem brinca de bolinha de gude. E extrapolo-o, dizendo que se ao invés de sínodo de não sei o que por um ano em Juiz de Fora o bispo houvesse distribuído petecas, bolinhas de crica, pipas e luvas do homem aranha e feito os padres brincarem junto com as pessoas que estivessem interessadas, fechando a Gil Horta não para um Carnaval de Cristo mas sim para uma rua de lazer, estaria muito melhor. E só ia precisar de uma semana, ao invés dessa enrolação que ocorre há dois anos falando sobre um documento que poucos leram ou vão ler, e os que leram (é o meu caso) todos acham que é puro chover no molhado. Ah, bispo, eu te amo. Te acho bonitinho, aprecio o seu sim. Mas não de esqueça de que ele foi um sim pro Menino, e não pra igreja, essa véia coroca.
Por sinal, nesse mesmo blog meu, acho que tem um texto antigo sobre isso, ó: http://arroelices-cia-ltda.blogspot.in/2010_11_01_archive.html . Pode ler, se quiser.
Abriu-lhes a mente para que entendessem as escrituras.
Abriu-lhes a mente para que entendessem as escrituras.
Abriu-lhes a mente para que entendessem as escrituras.

Saturday, April 21, 2012

Tudo bem que hóstias sejam sacramentos.
Devem até ser, também.
Mas o ovo de chocolate e os bombons que a Aninha e a Gisele me deram são muito sacramentais.
Comi cada um deles e fiquei pensando nelas.
Do mesmo jeito, o seguro de saúde, que comprei por 7600 rupias para o ano todo e a casa que consegui, dentro do campus, são sacramentos.
Sacramentos do Monte Sinai (ou monte de sinais, já que agora tem muitos) e sacramento aí de casa, e da minha casinha no Neo.
Em Londres, quando o avião vai descendo, você consegue ver vários Neos. Minha casa é em estilo londrino. Sorry.
Fico espantado com o preço baixérrimo de tudo aqui, até hoje. O aluguel será 160 reais, com eletricidade e água incluídos. E o seguro saúde, ou plano de saúde (como queira) foi 286, válido pro ano todo.
Se eu comesse todos os dias no Mac Donalds, café da manha, almoço e jantar, o mês inteiro, gastaria 350 reais por mês. É muito pouco. No Brasil, gastaríamos 1620. Portanto, 4,6 vezes mais caro.
Então...hoje respiro tranquilo e fundo e calmo pela primeira vez na Índia, parece. Tenho casa pra morar, seguro de saúde e, para os padrões locais, sou milionário. Nada mal.
Agora é esperar o primeiro depósito da CAPES aqui na Índia, e até lá segurar bastante a onda. Mas tô tranquilo! É impossível gastar dinheiro na Índia. As contas que eu tenho que pagar no Brasil (cartões de crédito e a prestação da casa) devem ser o dobro do que eu gasto aqui. É impressionante!
Então gente. Como sacramento é sinal visível de presença invisível, espero que seja verdade que vocês todos estejam vindo pra cá pra aproveitar os preços...
Que dia vocês chegam?
Até lá, vou aprendendo a rezar o terço. Reparei que nunca tinha feito isso direito. Contemplar mistérios. Tem jeito, sabiam?
Dá pra você ficar ao lado da manjedoura, junto com os pastores. Dá pra você acolher Maria e José no seu curral. Dá pra ser a manjedoura, sob o mais belo de todos os pesos e alimentos. Dá pra olhar pra Jesus pregado na cruz, dá pra ouvir os Apóstolos falando sua língua. Enfim, dá pra contemplar mesmo, diante dos olhos, tudo o que se passou.
Quando eu soube que a Gisele e nem ninguém ia vir pra cá comigo, fiquei desesperado. Tentei que tentei persuadir essa bonequinha preta de casar mais eu e vir aqui de lua de mel ou sejá lá o que. Mas ela não veio...
Aí depois da fase do desespero, pensei: “Então tá. Vou usar os meus cinco meses lá para desenvolver a intimidade com Deus, que vai ser a única companhia”. Claro que é verdade isso, sempre.
Existe uma única coisa viva no Universo, que é Deus. E Ele se encarna e reencarna de muitas maneiras, sempre. Todos somos fagulhas, manifestações, obra de Sua Palavra, que quando sai da boca dEle recria o mundo. Portanto, o desafio é saber que existe Gisele, Mãe, Pai, Marco (mexicano doido), Stephen, St Anthony’s Friary, Intaka (um congolês), Mustafá (um egípcio cujo nome merece eterna citação), Saju e etc. Existimos, todos. Até eu mesmo existo.
Mas a contemplação do Mistério e dos Mistérios fazem a gente entender que essas coisas todas que existem só o fazem porque há um Algo que É. E esse algo não pode ser visto.
A impossibilidade de ver Deus no existente é a prova mais cabal de que Ele seja Deus. Porque Ele ascendeu e esperamos a Sua volta. Se o víssemos o tempo todo, Ele não teria ascendido. E esperamos porque Ele enviou o Espírito para que entendêssemos no corriqueiro da vida, na nossa linguagem humana, que Ele vai voltar. Desconfiei por muito tempo de que Jesus fosse voltar algum dia. Desacreditei mesmo. Hoje não... fico ansioso esperando que volte, ou que me chame, tenho a morte como irmã mais velha e amiga. Quem mais que esta amiga poderia me dar a Graça enorme de poder experimentar o Ser de Deus sem precisar me dar o trabalho sequer de existir, mas simplesmente gozar eternidade, que é o ser sendo nAquele que É?
Então... estou aprendendo a rezar o terço, e recomendo vivamente. É ótimo. Mas claro, não aprenda a rezar terço nenhum... aprenda a sua reza. Ou não é verdade que não existe Deus fora e além de Deus e que Muhammad é o seu profeta? Quem pode negar que isso seja verdade? E quem pode negar que a Vida do mundo é Deus, e portanto é Ele quem se encarna e reencarna, sempre? E quem pode negar que Jesus é o Deus mais próximo que alguém pode ter, porque roeu unha, teve caganeira, fome, frio, sede, desejo, cabelo nas orelhas, meleca e subaco suado?
Eu, pra mim, escolhi este Deus Jesus Cristo. Quem sou eu pra me afastar dEle, que veio assim pra tão perto de mim? Qual é a parte (o terço, o quarto, a metade, cinco oitavos...) que você quer contemplar?
Desculpa pela viagem, mas hoje a estação é esta. Ando sobre a água. Nada de dormir. Vamos os dois assim abraçados e graves como convém a um Deus e seu amigo, apontando as ondas crispadas e sabendo que tudo vale a pena; partilhando o segredo de saber que o grande mistério do mundo é que no mundo não há mistério.
Ah, sim, eu leio Alberto Caieiro. Ele é ótimo... alvo.

Friday, April 20, 2012

Olá pessoas! Nem parece que esta é a minha segunda sexta feira aqui Hoje, no Brasil, é dia de Bavária, pra alegria do Marcello, que adora comprar essa porcaria nas promoções do Bahamas. Ainda bem que não estou aí para ter de tomar esse purgante! Estou na terra da Kingfisher, uma cerveja com gosto de groselha.
Tudo aqui é mega adoçado, do café à coca-cola e passando pela fanta laranja, que é muito mais amarelada, doce e com metade do gás. Ou seja, uma dilícia, na opinião dos locais.
O padre Stephen insistiu muito para que eu dissesse aos meus pais e amigos que eles deviam conhecer a Índia, que aqui  “tem muitos padres legais” segundo ele mesmo. E também perguntou se no Brasil tem freiras, se em Juiz de Fora tem freiras e quantas são. Respondi que devem ser umas 6 pra cada padre. Ele ficou abismado. Encontrei com ele saindo da Universidade, ele procurando o motorista meio fulo da vida e xingando um pobre dum seminarista que estava andando de moto de chinelo e sem capacete em Malayalam. Coitado do menino... mas comigo ele é doce, e ficou muito desgostoso de saber que ainda não estou morando lá dentro, e que amanhã deve ser o dia dessa mudança. Falou que ia falar com o padre Francis, o dono das residências acadêmicas. E, quando eu falei que pagaria até o dobro pra ficar lá dentro (o dobro ainda seria muito barato, cerca de 180 dólares), ele riu e disse que não quer dinheiro e que não me quer lá dentro pra pagar nada, que por ele eu ficava de graça. O que ele quer é “acolher o alien”, nas palavras dele mesmo.
Ele é o dono do complexo todo, o administrador da congregação. Enfim... amanhã, se tudo der certo, estou mudando pra lá. Mas como as coisas costumam se enrolar por aqui, até terça no máximo eu mudo ou pra lá ou pra uns apartamentos quarto e sala que tem lá em frente, porque perdi a esportiva e vou resolver no peito e na raça.
Disseram-me hoje aqui que as chuvas de Bangalore são fracas. Bom, quem disse isso foi o pessoal do estado do Kerala, onde chove por dois meses direto e onde algumas precipitações duram até duas semanas. Então chuva fraca pode ser muito bem uma que dure uns quatro dias, né? E me surpreenderam muito com a informação de que a partir de Julho Bangalore fica fria. E fria mesmo, com temperaturas de até 10 graus. Peeeeeense num ambiente de contrastes!! Isso explica muitos dos contrastes. Um lugar onde fica sem chover por 4 meses mas chove por 4 dias, e depois de um calor seco de 43 graus (estou sendo injusto, hoje está 41) faz um frio, dois meses depois, de 10 graus. Por isso que tudo aqui é contraste, se for verdade que a geografia influencia a cultura...
Na hora do almoço de hoje, comi pizza da Domino’s com o Marco, que cismou que a gente tem que comer num restaurante vegetariano indiano aqui perto. Vamos encarar qualquer dia desses, porque o lugar tem fila, então isso deve indicar que é bom. Veremos. De qualquer jeito, não tem perigo os restaurantes, o perigo é a comida de rua e a água. Então vamos encarar. Comi uma pizza mexicana, que ele disse que estava mesmo parecendo mexicana. Eu pedi uma margherita, ele essa mexicana. Trocamos uma fatia. A pizza mexicana é neopentecostal, fogo puro! Mas como arde, meu Deus! O comi só uma fatia, o Marco comeu 3. No final, os olhos dele lacrimejavam e o nariz escorria, e ele ria, todo feliz. Tudo é cultura, minha gente... o negócio arde bem mais que a comida indiana, e ele estava refestelado por poder sofrer, lembrando da terra natal.
A pizza aqui, com coca cola, custa 10 reais, a de 20 cm. Até barato, mas cara pros padrões indianos. E os copos de todos os restaurantes são pequetitinhos, de uns 75 ml. Uma coisa muito engraçada, pra todo lugar há estes copos. E eles bebem pouco refrigerante. A moça ficou espantada de cada um pedir uma garrafinha. Deve ser porque todo mundo (inclusive eu) bebe uns três litros de água por dia, então não sobra espaço pra outra coisa.
Hoje resolvi filmar o finalzinho do trajeto até o hotel. Ficou até bom, e o link segue no final desta postagem.
Peço a todos que façam uma reza braba (a Bárbara, que me ligou as seis da manhã daí pro meu celular já a fez, então está dispensada) pela minha conseguição de morar dentro do campus, que ainda está enrolada e na minha opinião incerta, mas aqui ninguém tem certeza de nada.
E pelos africanos. Hoje um rapazinho indiano ficou imitando um gorila quando o Intaka, o primo do Congo, passou. Eu olhei pra ele com muita cara de censura, e como já ando sendo apontado pelo Campus, ele parou na hora e ficou meio sem graça. Mas que coisa absurda, preconceito com a gente até aqui! O pessoal da África, quando eu passo, faz escândalo na maior intimidade, acena, dá tchauzinho, vem abraçar. O Marco acha engraçado, porque no México essas coisas não acontecem, señor. Somos tão africanos! Minha bisavó postiça, matrimoniada com o bisavô Julio que o diga. E as suas bisavós também. E esse bocó aqui fazendo coisa ridícula. Humpf! Feio! Boldati!
Me despeço assim rapidinho... hoje não aconteceu muita coisa, só o muito trivial mesmo.
Curtam o vídeo, com fundo musical e tudo!
Destaco que os ônibus, tão desiguais entre si, são todos urbanos. E que a quantidade de coisinha de três rodas andando pela rua é gigante. Na verdade, na cidade tem 2 milhoões e 300 mil veículos, dos quais um milhão e oitocentos mil são de duas ou três rodas. Li no Bangalore Mirror anteontem. Se aparecerem propagandas, clique nelas pra eu ganhar um dinheirinho (sério mesmo, meus vídeos do youtube são monetizados).
http://www.youtube.com/watch?v=0IBGbGo0NuI&feature=youtu.be

Thursday, April 19, 2012

Celularizado e monetarizado.

Olá, pessoal!
Hoje o dia começou comigo em grande valentia e ousadia.
Acendi dentro de mim a escada de luzes (aquela coisa que eles acendem no começo da missa e que é usado no hinduísmo, lembram? Chama isso, e é aceso sempre um número ímpar de pavios, ligados a uma bacia que contem óleo de côco) e desci as escadas do hotel.
Como só se vive uma vez, e como só se vive na Índia um dia de cada vez, resolvi encarar um full south indian breakfast.
Tirei uma foto, que ilustra lá pelo meio do post, que resolvi fazer ele mais atrativo agora que sou um fenômeno midiático.
De qualquer forma, peguei minha bottled water a que tenho direito pelas regras do hotel e parti rumo à vida. Acabei descobrindo por acaso que a minha cara de indiano pode ser usada a meu favor, e muito a meu favor. Se eu conseguir sair sem o Babu me ver, eu chego na avenida principal de Bangalore, perto do Minerva Circle, andando só uns 50 metros. Aí, eu entro no riquixá e solto um "Bangalore Hosur Road! Christ College! Near Dairy Flyover" com bastante fingimento de sotaque e eles me levam USANDO O TAXÍMETRO, ou riquixímetro. E aí, ao invés de 100 rupias, como estamos na avenida principal e não tem que dar uma certa volta que daria se eu pegasse em frente o hotel; e ainda como o cara não fala inglês, dá uns 50 pau. Ou seja, 2,30 reais (que eles chamam aqui, divertidamente, de Brazilian Dollars). Agora, se o Babu me vir, eu fico com pena dele e dou a ele as 20 rupias que ele curte pelo motorista que fala inglês e pelo chamado pelo rádio etc.
Aliás, acostumem com isso. É rupííías, e não rúúúúpia. Sei que na verdade é rúpias mesmo, mas o pessoal aqui fala rupí,(rupee), então pra mim tá fazendo muito mais sentido falar rupias. Enfim... o Babu me viu, e gastei 50 rupias a mais.
Cheguei lá, fui direto no banco, e me deram... um cartão? Um mini cartão, nesse lugar muderno chamado índia onde as portas têm cartões ao invés de chaves? Nããão!!! Uma cadernetinha! Um caderno mesmo, no duro, escrito Savings Bank Pass Book. Isso é o cartão, usado pra fazer depósitos. Pra fazer saques, ele também pode ser usado, ou o cartão, que será enviado para a sua casa, correto? Nãããão! Ele tem de ser buscado na agência em 14 dias. Uma das coisas mais incríveis da cultura daqui é quando você pede por algo que eles não têm na loja.
A maioria do pessoal que trabalha no banco é vaishya, e portanto tem um dever cármico de ter as coisas pra satisfazer o carma alheio. Quando ele não tem, é uma desonra. Assim, o Sibi (o gerente) ficou desesperado e começou a rodar pela agência com o meu caderninho na mão, quando eu pedi pelo cartão, porque eu perguntei se era de chip. E não era. Assim, vou receber em 14 dias 2 cartões, por mais que eu falasse "tudo bem, tudo bem, eu fico com o magnético, não tem problema nenhum..." Nada. Se eu quero o de chip, vou ter o de chip, SIR!
Feito isso, fui na Biblioteca catar uns livros para tirar czerocz, que é o nome do xerox. Eu quase rio quando falo o nome, mas me esforço bastante. O czerocz é muito caro pros padrões indianos, mas muito caro mesmo. São duas rupias a folha, que é uns 06 centavos do Brazilian Dollar. Pra comparar, o quarterão daqui, no Mac Donald's (que é uma coisa que não chama quarteirão, e sim Veg, mas que leva basicamente a mesma combinaçao de queijo, molho e bife, com a exceção do "bife" ser um amontoado de legumes prensado e frito a milanesa - uma dilícia) é 100 rupias, o que é 3,15 reais. Se fosse seguir a proporção, o czerocz tinha de ser 1 centavo. Mas... enfim... Deixei lá os livros pra pegar amanhã e fui pra biblioteca estudar.
Posso dizer com certeza que essa semana aqui, da qual aproveitei uns 4 dias até agora, me ensinou mais sobre História dos cristãos indianos que os dois anos que lutei com isso no Brasil. Aliás, é pra isso que eu to aqui, né?
Já acho que é 95% certo o São Tomé esteve MESMO na Índia do século I, que morreu em Mylapore, perto de Chennai e que fundou a igreja cristã indiana, que fugiu daquela região por perseguição religiosa e se estabeleceu na costa sul oeste, no Kerala. Chennai fica na costa sul leste. Já pensou que coisa incrível? O túmulo está em Chennai, vou visitar qualquer dia desses. Mas uma parte considerável dos ossos foi transferida para Edessa, na Síria, lá pelos idos do século VII, quando os cristão siríacos implantaram a hierarquia num modelo siríaco aqui. Por isso que os ritos são chamados de Siro-Malabar e Siro-Malankara. Porque o Patriarca Malabar e o Patriarca Malankara têm, além dos elementos Malabar (Kerala) e Malankara (Chennai) elementos sírios, que foram assimilados quando da expansão do império sírio, que trouxe com ele a hierarquia cristã síria. Não é moleza?







De qualquer modo, tem se justificado a vinda aqui, do ponto de vista acadêmico. Lá pelas três, sem ter almoçado (o South Indian Full Breakfast, devido aos seus componentes, é uma coisa que empaçoca as pessoas) o Marco apareceu e comentou "Você tá se sentindo cansado especialment hoje?" "Tô. O que será que é isso?" "Não sei... acho que vou embora." E rapou fora pro kitinet dele, que já é aqui dentro e talz. Aí eu pensei... é melhor dar uma volta.
E saí pra compra o USB 3G Dongle e resolver o negócio do Celular, porque agora que eu tenho uma conta, eu posso ter um celular. E, assim que tiver celular, posso ter plano de saúde. E, de posse de tudo isso, vou pro Dharmaram, pra morar lá dentro, e portanto não vai ter internet de noite pra ligar pelo Skype, portanto era legal ter um 3G, que sai mais barato que usar o celular. O celular é pra me ligarem, pra me encontrarem, pra me mandarem mensagens... Na verdade, ligar pelo celular é BEM barato também, mas pelo Skype é mais ainda, né.
Aí começou o sofrimento. Sair na rua é sempre um sofrimento, devido à desordem em seu estado mais fundamental...
Fui no peito e na raça buscar nossa taça e evitando o cara da aircell do shopping. Ao entrar no shopping, tem que ser revistado, então preferi dar a volta pela rua. E também, ontem eu fui no shopping tentar comprar esse tal de 3g Dongle. Mas o cara não tinha. E se armou um circo.
Terminou com ele me colocando no telefone com um cara daqui do estado de Karnataka e com certeza falante de kannada (ou canará) tentando me explicar onde era a outra loja da aircell (que vende celulares da Airtel), perto do shopping. Mas o problema é o seguinte.
O pessoal que fala Tamil ou Malayalam têm um sotaque muito tranquilo de entender. Os que falam árabe, trocam o R pelo L igual o cebolinha em algumas palavras, mas também dá pra se virar. Mas o pessoal que fala kannada... só Jesus na calça, e de cuecão porque Ele é adulto. É um sotaque muito esquisito, eles trocam fonemas consonantais... ih, é uma luta. Por exemplo, eles falam to Inchtall, e isso é o Install. E tem o cantado próprio do kannada que eles jogam em cima do inglês, que é muito doido, também, um stacatto em 150 bpm ou algo em torno disso. Não dá pra entender. Aí quando a pobre criatura tentou me explicar pelo telefone pela terceira vez onde era o negócio, eu fui falando ok fingindo que tava entendendo e anotando e depois fui embora, subi uma escada rolante, achei um Subway, comi um vegetariano (são 5 opções vegetarianas no cardápio, 3 com aves (frango ou peru), não existe o de almôndega e tem só um tipo de queijo) e desci pela outra, fugindo do cara da aircell. Depois vim embora pro hotel.
Mas hoje eu tava querendo comprar é o vodafone. POrque vodafone? POrque o roaming é de graça. A Airtel (olhei na internet depois) também opera na Índia toda, mas cobra o roaming do 3g. A vodafone opera na Índia toda dados e voz e não cobra o roaming 3g, o que já é uma economia. Agora... enquanto o 3g dongle da Airtel custa 1000, o da vodafone custou 2995. Ou seja, 1000 rupias a mais. Mas funciona por 60 dias e tem uma velocidade totalmente absurda.
Lá, preenchi outros papéis de cadasto, iguais os que já tinha preenchido antes, mas para os quais faltava o comprovante de endereço. O outro SIM é da BNSL, que é a companhia de celular do governo. Mas... ele não funciona! Aí o cara da loja falou que não ia ter jeito de liberar porque faltava comprovante de endereço e não sei o que e eu joguei o SIM fora e comprei o da vodafone, que já está funcionando. Meu número é 00xx919742970583. Um número gigante... Isso porque o código da Índia
e o 91. O resto todo é o celular. Celular não tem DDD, e sim dígitos a mais.
Trouxe pro hotel todo alegre os negócio, e liguei pro Pe Saju pra dizer que pus ele como contato na Índia. Isso é o que a vodafone pede em lugar do comprovante de endereço.
E, na hora que coloquei o chip no celular, ele já funcionou. E, na hora que coloquei o chip no USB dongle, funcionou também, e absurdamente rápido. Uma internet de altíssima qualidade, não essa vergonha que tem em Juiz de Fora.
No caminho de volta, vi Jesus na rua, várias vezes. E fiquei com raiva dessa parte da Índia, acho que em definitivo.
É muita miséria. Uma quantidade absurda de pessoas absolutamente miseráveis, sujas, para as quais as pessoas não olham por serem dalits ou sei lá o que. E das quais eu não consigo tirar os olhos, reconhecendo Alguém.





Alem disso, tem a miséria existencial própria daqui, que talvez seja ainda mais profunda. É muito bagunçado e esquisito. As pessoas têm determinados pactos sociais estranhíssimos. O trânsito, ninguém repeita, todo mundo faz o cada um por si na maior cara de pau. O outro pode existir ou não, dependendo se ele é do seu grupo. As meninas de burca preta debaixo do sol, perto da mesquita. As mulheres carregando crianças em uma mão e trouxas de roupa na outra na garupa de motos, sentadas de lado. Não consigo entender como que eles conseguem suportar contrastes tão profundos, de verdade... É muita zona, muita desordem, e quando eu entro na loja da vodafone... ar condicionado, um inglês excelente do guardinha, equipamentos de ultimíssima geração. Passo pelo shopping e quando saio dele, os motoristas de riquixá, provavelmente shudras, assediam com receio, sem ousar olhar nos olhos.
A teologia própria do Hinduísmo prevê que eles sejam olhados nos olhos e que eles podem ser deuses encarnados, provando o coraçao dos homens. E também prevê que tudo seja limpo... E não essa zona. Tem banhos rituais! Tem até banho público na cidade, pra garantir que todo mundo fique limpo. Mas o que o que o que...
A cidade é uma desordem tão gigante, que dá pra ficar com nervoso. Tem lugares, tipo atrás de alguns transformadores (os transformadores são no chão por aqui) que o pessoal faz cocô e xixi! Aí dá muito nervoso, porque pelos ideais de civilização britânico, tâmil ou árabe, era pra ser bonito... e era, até uns 50 anos atrás!
E depois, Bangalore se transformou numa zona, onde nenhuma das lógicas de civilização consegue dar jeito.
Aí, fazer o que? Só rir, de um cara carregando uma carcaça de jetski nas costas, ou do outro cuja peça da moto caiu no meio da rua, ou da fumaça pesada jogada pra cima memos pelas mais aparentemente inofensivas autoriquixá.
E pasmar-se, porque o convite é estar no mundo sem ser dele, construindo um jardim de flor em volta de si mesmo para que todos se sintam convidados a se aproximar. Algo mais ou menos assim...



Repararam como Ele tá em branco?