Wednesday, April 25, 2012

Reset

Aquele que a amava apavorou-se.
Seria mesmo verdade o que afirmavam os homens que ali permaneceram?
Sempre soubera que sua amada realmente despertava atenção dos transeuntes e até mesmo dos ali estabelecidos, mas... uma prostituta?
Ele duvidou, não quis acreditar, decidiu reescrever a história dos dois.
A verdade é que ela havia esperado por demais, em sua (dela) opinião. Não suportando mais a demora, muito embora convidasse de volta todos os dias em pensamento e orações e expectativas, cedeu. Ele não podia crer, no entanto. Continuou a escrever no chão de ambos, a que agora retornava, a história de um amor mais profundo e verdadeiro.
Mas os homens, transeuntes e moradores daquele lugar chamado "todos os lugares" decidiram e acharam por bem travestirem-se de amantes, mas minúsculos. O Amante, aquele que a amava, permanecia numa longa viagem por sabe-se lá onde.
Ela cedeu, ela cedeu. Deixou que dela fizessem posse, passou a receber para se dar. Deu-se toda, gastou-se toda, acabou-se toda e por inteiro. Eram já sete os amantes/maridos que tivera até aquela data, onde o Amante, o Maiúsculo, retornara. Ele chorou.
Sentiu enorme dor por saber que culpa nela não havia.Não podia culpá-la. Propôs-se a beber do mesmo copo que ela, enquanto tentava, entre lágrimas, suor e sangue, reescrever, recomeçar a história dos dois.
Mas os homens dali, aqueles que dela haviam se apossado e dela feito mercadoria, a culpavam de tudo. Como a possuíssem, sentiam-se totalmente autorizados a dizer e fazer e tratar dela como lhes conviesse, como se ela se tivesse assim feito. O triste de toda aquela situação é que ela não se havia feito prostituta. Ela nunca pagara nada a si mesma. Nunca havia pago ninguém. Era passiva, saudosa e fraca. Simplesmente, em sua saudade, fraqueza e falta tornara-se sem querer objeto, execrado objeto dos corações emperdenidos que ali havia. À noite, entre um e outro dos sete, que eram todos, chorava e lembrava e orava e pedia de volta o seu Grande Amado. Ele retornou, então, e nessa situação se encontravam. Ele de novo queria beber da água dela.
Mas ela julgava seu copo sujo, e não sabia se assim deveria proceder. Dar-se de volta, sem ao menos ser perdoada em algum ritual? Sem ao menos um sofrimento, uma auto-flagelação, uma confissão pública que fosse?
Tranquilizou-a.
Disse que sabia que os outros todos não eram seus maridos, mas que sabia quem o era. Eu sou, lhe disse. Me dou a você. Se não queres me dar da tua água, toma da minha.
E escreveu no chão, reescrevendo a história. Deu-lhe o frescor do Recomeço.
Os todos, os sete, os transeuntes, os estabelecidos, os confortáveis, os mentirosos, todos. Os quatrocentos e noventa. Todos. se revoltaram. Disseram-lhe: És um bobo! Não percebes o que ela lhe causou? Não enxergas quem ela é? Não sabes o que ela testemunha, ou contra-testemunha, diante, acima, do lado, abaixo e em todas as posições conosco?
Ele então levantou-se. Olhou-os nos olhos. Se espantaram, não podiam crer em tanta dignidade. Era o jardineiro fiel, era o-que-se-levanta. Tudo se condensava naquele momento.
"Vós todos - disse-lhes- deitastes com ela. Com minha amada. Com minha esposa. Com meu motivo, minha promessa, meu porquê. Culpa nela não há, posto que vosso é o objeto. A culpa é vossa. Vede a história que escrevo nesta terra vossa. Transformo o vosso chão, porque sou a nova História. Palavras que vos escrevo não serão jamais apagadas. Nunca mais objeto, nunca mais passividade, nunca mais usufruto, nunca mais pagamento, nunca mais. Perdôo-vos todos, se vos perdoarem. E, para que vos perdoem a si mesmos, assumi o que fizestes, e não mais a acuseis."
Tremeram, olhos no chão. Estava ali escrito, com sangue, a História.
Levantou-a.
"Vede, minha amada, eu nada tenho contra ti. Vá em paz."
Ela foi e contou aos sete e a todos que o Rei havia voltado. E voltou-se para Ele.
(sobre Madalenas, Samaritanas e Prostitutas, Cruz e Jardineiro)

2 comments:

Gisele Reis Simões said...

E vc falando de quem faz Letras, né?
Vc escreve bem demais!!!
Lindo esse...

Banana said...

Hhmm, que bunito!