Opa!
Ontem faltou água no prédio. Nós falamos com o síndico Anoop, que disse "ok", lá pelas onze da manhã.
À noite, o jeito foi tomar banho de caneca, porque não tinha água nenhuma. Quer dizer, tinha na cozinha (beeeem timidamente) e no quarto do Frederico (que já pegou esse nome), mas não tinha no banheiro.
Entonces, banho de caneca. E, naturalmente, água de beber havia, porque existe uma coleçao de quatro garrafas que é cheia todo dia, e que vai-se embora em um dia só. Bebo uns 3,5 litros, e os outros um litro e meio uso para cozinhar.
É muito difícil lavar a cabeça com caneca. Não fica assim uma Brastemp.
Brastemp, aliás, não te pertence mais. Num lugar onde a luz vai e volta toda hora (ontem foram 5 vezes), como ter uma máquina de lavar ou uma geladeira? Que uso isso pode ter? Ambos estragariam com os picos de luz, e as coisas dentro da geladeira se apodreceriam, não é? Suspeito que devem ter geladeiras a gás (sim, isso existe inclusive no Brasil, usadas para camping por aí.) e o Marco aposta que usam mini-geradores a diesel em casa. Como poderia ser essa hipótese dele, não sei. A pessoa teria de ligar ou desligar o troço toda hora, e teria de viver enfumaçada. Mas ele é um cara experimentado na precisança, hã. Descobri ontem à noite, enquanto olhávamos o vôo dos morcegos, como acontece também na UFJF, que ele nasceu no Sonora.
| Oh, meu Deus, como resolver o problema dessas coisas apodrecendo? |
O Sonora, minha gente, e um deserto do tamanho da Inglaterra. Por isso ele não liga pras baratas e pra falta de água ou luz. E, quando era pequeno e vivia numa fazenda no meio do Sonora (provavelmente de produção de poeira), tinham um gerador a diesel. Se não descobrirmos, vou perguntar ao Bharath, para quem liguei e que deve vir aqui amanhã ou sábado, e pelo jeito sozinho. Eu nem conheço a Marciléia, mas já to com medo dela. Mas que coisa estranha, visitar sozinho...
| Pelo Emaús feminino que começa hoje! Reza também, ok? |
De qualquer modo, vou ao hipermercado comprar uma cadeira, que é pra ele ter onde sentar-se. E, se houver como, na próxima visita dele lhe oferecerei um frango com quiabo, arroz, feijão e angu. O Marco poderá participar, claro... mas ainda não foi informado das minhas habilidades culinárias (que são pra lá de boas, na minha opinião). Dureza será achar o fubá, que ainda não vi. E igualmente dificultoso será cozinhar tudo, já que tenho só uma boca no cooktop. Acho que vou roubar o do Marco emprestado. Ou ele faz o arroz ou sei lá o que. O caso é que em tempo de guerra, urubu é frango! E assim sendo, a gente ficou amigo porque é muito cômodo e fácil falar sobre os questionamentos e dificuldades, que são parecidos porque "desde la patagónia hasta el desierto de sonora somos todos un unico pueblo, y las divisiones entre nuestros payses son meramente artificiales", como dizia Che Guevara. Mas provavelmente, ele dizia isso em Espanhol e não em Portunhol, que deveria ser adotado como língua oficial do Mercosul.
Nada de baratas. Se morreram todas, e na verdade espalhei barata morta pelo edifício todo. Descobri que o padre que ficou sem graça era o morador antigo do meu apartamento, e aí fiquei com mais pena ainda, porque acho que ele acha que eu sabia disso, então estava achando ele nojento. Coitado!!! Ainda bem que brinquei sobre a existencia de baratas no Brasil. Mas comentar que não eram bichos de estimação foi realmente um soco no estômago. Ilustrando aqui, ó, temos o dispositivo anti-baratas instalado nos orifícios de ventilação.
| Dispositivo anti-cucarachas, no quarto do Frederico. Que muderno! |
A dedetização parece muito eficiente, porque alguns cupins conseguiram entrar no apartamento, mas morreram. Ou seja, o negócio dura mesmo. Ademais, não há que se ter medo disso! A civilização do Sul da Índia tem uns 5000 anos, e portanto as maneiras de eles lidarem com os problemas artrópodes devem ser diferentes, mas necessariamente eficientes, não é?
Com a falta de água, o bom e velho senso prático se instalou na forma de pessoas buscando água nas torneiras externas. Aliás, eles sempre buscam, o dia todo. Acho que moram em casas onde não há agua nunca. E, se pode-se buscar água na torneira que fica a 200 metros de casa, pra que reinvidicar rede de abastecimento?
Penso que são os que moram em umas casinhas no meio do campus, donde saem chaminés. Vi alguns pegando lenha no finalzinho da tarde, também. Assim, pegam água e atendem ao iPhone, na maior naturalidade. Porque necessidade de rede de água não há, mas de falar com os amigos, isso sim. E falo sério... Nenhuma necessidade me parece tão natural quanto a socialização.
De manhã, quando saio do edifício, as criancinhas (muitas, umas lindezinhas de fofas) gritam "Morning, Father", e estendem as mãozinhas. Como quando eu era pequeno o padre Pimenta me dava umas balinhas no colégio, acho que o karma agora é dar a elas. Digo a elas que não tenho nada, mas elas falam alguma coisa em Malayalam e sempre que me vêem, estendem de novo a mão. Fome, não passam. São gordinhas e agitadas e limpas, o que só pode indicar que têm acesso a essas coisas mais fundamentais da vida. De tarde, vào pra creche. Os mais novinhos ficam andando atrás dos irmãos mais velhos (que estão de férias) lampadando. A foto que tirei retrata isso. O menino ficou bizulentando a menina (que deve ter uns 13 anos) e enchendo e esvaziando a garrafinha dele, ajudando pra caramba (na opinião dele, é claro) enquanto ela demonstrava paciência, mas sem esconder tentativas de disciplina.
| Duas coisinhas que pegam água pra mamãe. |
Enquanto isso, na parede da sala fica o protector natureba de citronela, que retrata perfeitamente a minha adesão ao indian lifestyle: sou parte do contraste.
Recebo propagandas o tempo todo no celular, e me inscrevi por um real (30 rupias ao todo) para receber todos os dias um verso do Corão, um da Bíblia e um do Bhagavad Gita. Você sabia que o mundo foi gestado no ventre de Deus, e é ele quem sustenta tudo? Tá lá no Bhavagad Gita, e eu bem que tinha essa impressão há muito tempo. Por sinal, essa é uma das conseqüências do Zim Zum, da Cabala Judaica, que influencia diretamente o Pentecostalismo Cristão através do Hassidismo. Somos todos um único povo, e as divisões entre nós são meramente artificiais.
Mas ao mesmo tempo, desde que as criamos, reais. E negá-las não é a melhor forma de resolvê-las. Nunca vou saber o que é preconceito racial, porque não tenho raça. Mas tenho que ouvir e tentar entender e me revoltar e denunciar o índio que tiraram a força do STF ontem porque ele protestou que os Índios não são citados no julgamento sobre cotas raciais nas universidades federais do Brasil. E tenho que sentir dor ao ouvir o relato da Dona Preta, minha mãe zero-dois, que disse ouvir as pessoas apontando as vezes e dizendo "Alá a macumbeira. Tinha que chamar "Preta" mesmo..." e etc.
Temos o privilégio, na nossa casa e no Brasil, de sermos nada, e o desafio é saber que o algo existe... É necessário, a partir do nosso nada, da afirmação do nosso processo crioulo e dinâmico, apontar o dedo na cara e dizer "olha, isso é racismo, Raças não existem." Mas ao mesmo tempo, como prova da não existência, forçar os que se acham alguma coisa (os "brancos" e os "afro-descendentes", que geneticamente são todos a mesma coisa mas juram que não, portanto são necessariamente diferentes já que assim se afirmam) a conviverem juntos. E é um absurdo tirarem os nossos avós de dentro da sala, porque eles querem ser ouvidos. Mas olha aqui, vovô, você não sabe de mais nada, então vai lá pra fora e cala a boca. Aqui quem manda somos nós, que roubamos a sua terra.
Quem aí sabe que essa história de Puris bonzinhos é mentira, além da Cecília? E que os índios, muito embora em menor número, foram sim escravizados até o século XIX? E que hoje continuam escravos, escravos da União, que resolveu a situação tirando eles de dentro das salas oficiais, legando a todos um pedaço de terra que juridicamente não é Brasil e isolando a realidade deles, como se não existissem?
Corre-se o risco de, ao longo do tempo, se não olharmos para o "outro" e não o reconhecermos como "igual", de chegarmos a crueldade do especifismo, corrente em países da África (alguns) e na Índia, onde (no caso africano) os pigmeus são considerados outra espécie, a inclusive caçados e comidos, ou (no caso da Índia) contados como burros de carga, escudos humanos ou semi-deuses, dependendo da referenciação que um faz ao outro.
Já passaram pra pensar nisso? Eu, por exemplo, não gosto da Gisele porque "não ligo pra essa coisa de cor". Eu gosto porque eu ligo, e acho lindo gente preta, desde muito pequeno. Então eu gosto dela porque ela é diferente, e quando a gente se encontra, se torna diálogo, se torna não-dois, sempre. Nunca que vamos ser um. Nunca! Somos só não dois, e não um, e não existe contradição nisso. Aliás, a gente é muito melhor que nós. Porque Nós são conjugados no plural, e a gente é no singular, mas sabendo que é plural.
Bom, chega de divagação. É que me revolta pensar que, se a gente não abre o olho pra tentativa de engambelamento que estão fazendo aí, negando num discurso muito fofucho que as diferenças não existem, não estamos educando ninguém para a realidade do não-dois, do não-um, do processo e do crioulo.
Eu sou um Crioulização, e não um crioulo, porque nem a idéia de definição e conceito me cabe. Fico assim eterno nada, sempre em branco, até quando eu enfim e tornar um não-existente e um diluido no Real, que está aqui no existente, mas não é o existente. O real não existe... ô luta.
O que existem são baratas, citronelas, mexicanos, fauna exótica (ontem vi um morcego do tamanho de um gato comendo um côco de noite), desertos, cinco nascentes (conheço cinco nascentes no São Pedro, desde a UFJF até a BR040, achem-nas), frio, calor, cartões magnéticos para portas onde faltam luz, baldes de água e chuveiros que voltaram a funcionar (era um cano quebrado, disse o Anoop), fogões moderníssimos elétricos para os dias de blackout, geladeiras baratas e inúteis, e uma cama sem ninguém, pra quem quiser vir aqui!
Ah...e comida apimentada feito o quinto dos inferno, não podia me esquecer.
Adoçando tudo, essas lindezinhas de crianças que balbuciam o tempo todo, sem saber falar.
Ou melhor, eu que não sei as ouvir.
6 comments:
lindo texto. lindas fotos. bjo.
As fotos indicam o inevitável: a gambiarra começa a tomar poder do recinto.
Concordo com a Bárbara: lindo texto.
muito profundo!Um abraço.
E a gambiarra está no seu quarto, Fre... rs
Julim, adorei as crianças!! Estão até parecendo os Maxakali pedindo bala e depois ficando paradinho pra foto! Queria muito ir aí pra ocupar a cama e poder ver tudo isso de perto. Como não posso, fico aqui me contentando com o brógui.
Mas uma coisa eu não entendi: moram pessoas dentro do campus? Como assim? Quem são elas? Eu não sei se perdi esse capítulo, pq acompanho o blog por atacado, já que infelizmente não dá tempo de ler todo dia, mas me esclarece aí... E os padres? São missionários? Pode??
Vou precisar dessas informações praquele meu pós-doc...rs
Beijos!
Beijos!
Adorei a reflexão sobre o "nós" e o "a gente", tava falando isso com uma aluna minha, detalhe: na aula de inglês... rsrs! Mas ela gosta de se perder comigo, aí a gente vai...
Gostei muito das fotos!!! Que cor linda dessas crianças!!
A Cecília tá achando que eu tô te enrolando só porque eu concordo com o Marco no negócio de pensar bem! Vê? Pensa, hein! Hahaha!!
Te amo, te quero, te adoro, lá, lá, lá... rsrs!!
Um beijo, nego!
Oi, Julim!
Legal ler e acompanhar seu pensamento e suas reflexões!São sempre surpreendentes!!!
E sobre suas dificuldades aí, que é claro, também são passageiras e ínfimas perto desta sua inesquecível aventura, posso dizer só uma coisa: É assim mesmo!!!(Oi, Bárbara!) srsrs
E vejo que vc já está colocando seu "jeitojuliex" em tudo, só achei que esse quarto era pra sua irmã preferida...kkkkk
Viva intensamente toda essa realidade!
Um beijo e até amanhã ( ou já seria hoje?)
"A espantosa realidade das coisas
É a minha descoberta de todos os dias.
Cada coisa é o que é,
E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,
E quanto isso me basta."
Alberto Caeiro
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