Olá, meus amigos blus.
Estou na Índia desde ontem de madrugada (cheguei as 4:30 da manhã) e tive um dia pra lá de cheio e estressante...
Na verdade, eu chorei umas 5 vezes.
Depois de uma jornada que durou uma hora, mais ou menos, de táxi, cheguei no hotel. É um hotel que eu reservei pela internet, pagando muito pouco. E, como paguei muito pouco, é bem simples.
Bom, as pessoas cujos comentários eu li diziam que era uma maravilha, então eu topei. Um hotel 3 estrelas... E quando cheguei lá... Que muquífo! Não tinha ar condicionado no quarto, e estamos no mes mais quente aqui em Bangalore. Então era impossível dormir. Desci, pedi um upgrade, e me colocaram num quarto com ar condicionado. Maravilha. É limpo, a cama é confortável, tem um cofre, frigobar, vista para a rua... e por apenas 700 rúpias por dia, algo em torno de 28 reais.
E então, depois de descobrir como ligava para o Brasil, começou a choradeira...
A primeira foi assim que eu me vi totalmente sozinho no hotel. Liguei pra minha mae e pra Gisele, minha namorada que ficou lááááááá no Brasil.
E depois disso, sozinho no quarto e morrendo de medo, chorei. Chorei muito, mas muito mesmo. Deitado na cama, pensei em Jesus, o exilado do Pai. Me entreguei a Ele, pedi para que fizesse sentido ou para que doesse menos, sei lá. O fato é que dormi ate umas duas da tarde. Só acordei porque o Room Service tava batendo na porta, cheio do sotaque sul-indiano.
Tomei um banho e desci no restaurante do hotel para comer alguma coisa. Pedi por algo "with no spices", que na minha opinião significa sem pimenta.
Mas veio uma coisa (masala de cogumelos) CHEIA de pimenta. Na verdade, tinha mais pimenta que cogumelo naquilo. Pedi também um pão recheado. Esse era muito gostoso... Comi, comprei uma garrafa de água e rapei fora. Achei que ajudaria a me colocar no fuso horário da Índia se eu desse uma volta.
Então fui para a Universidade, que dista uns 10 km do hotel. Fui de auto risckshaw, aquela coisinha que tem um motor de moto ou de moedor de cana (sei lá) propulsionando-o.
Ao chegar na universidade, uma coisa não me surpreendeu: o fato de o meu orientador daqui, o prof Kurian Kachappilly, não estar por aqui. Ele havia viajado, e me avisou disso. Avisou também que era pra eu procurar um tal padre Thomas, que me ajudaria.
O caso todo é que o padre Thomas não estava. Viajou para o Kerala, pelo que disseram, e só volta dia 12/04. Então eu fiquei pensando "e agora"? E fui saindo.
E encontrei um camaradinha cujo nome eu esqueci. Ele me perguntou meu nome e eu desabei a chorar... Estava muito cansado, sem referência, sem poder fazer nada a não ser esperar até sei lá que dia para me colocar "ok" na universidade e talz.
E aí o que ocorre... o meu contato não tava aqui e eu nào tinha outro! O duro foi explicar isso tudo em inglês e chorando, tudo ao mesmo tempo.
O cara foi indiano. Disparou: "e por acaso o fato de você poder me encontrar e eu entender o que você está sentindo e falando já não é um ganho?" E foi me levando. Dizendo "come, come with me! come with me!"
Eu o segui porque aqui é cheio de polícia para entrar, e na verdade não dá para entrar na universidade sem identificação ou convite. E o cara se apresentou... era simplesmente um dos professores da faculdade de direito. Andando, encontramos um dos padres aqui da congregação (o Kurian, meu orientador daqui, é padre) e ele chamou outro, que chamou outro... E por fim o reitor, o administrador e o vice diretor da universidade estavam me rodeando. Eu pedia desculpa o tempo todo. Mas de vez em quando meu olho enchia d'água meio sem explicação.
Expliquei o que estava ocorrendo e o reitor me disse logo "calma. estamos preparando o quarto para o estrangeiro. deve ser você". Ele estava acabando de vir do shopping, onde havia comprado um microondas para aparelhar uma das quitinetes da residencia acadêmica aqui. Residência esta, por sinal, que tem 400 quartos.
Mas, pegunta daqui, pergunta dali... era uma quitinete para um camarada que chega do México amanhã. Nada de quarto pa nóis. Meu quarto mesmo só está reservado (ou prometido) a partir do dia 20. Enfim, parecia que estava de volta a estaca zero.
Mas não foi esse o final da história. O reitor, chamado Padre Stephen, me disse "você precisa de um celular para podermos falar contigo". E me levou ao shopping center aqui perto. Uma coisa enorme... talvez o dobro do Independendia Shopping, em Juiz de Fora. Comprei um celular, um nokia novinho em folha modelo bem basicão, por 40 reais.
Depois fomos comprar o chip SIM para a bagaça. E aí eu precisei de preencher um papel cheio de perguntas, porque o governo registra todos os compradores de chips pré pagos, a mao e no papel, fazendo o chip ficar travado por uns 3 dias. De volta a universidade com o padre stephen, umas 3 horas depois, ele me levou para um passeio pelo campus. ENORME. Do tamanho da UFJF, mas todo coberto de construções e plano.
E de novo, a choradeira. Ele me perguntou o que eu fazia no Brasil, como era minha família... e, morrendo de saudade, não teve outro jeito senão chorar de novo por vocês. Lembrei do arroz com feijão. Lembrei do pão francês. E, sobretudo, dos meus irmãos lindos e maravilhosos. Até comecei a gostar mais dos meus cunhados (talvez). E da Gisele... ah, que saudade. Eu ia contando e chorando, e de vez em quando até os soluços.
E ele foi indiano, de novo. Soltou um "mas você não deve chorar tanto. Veja as coisas boas. Veja as árvores em volta de você. Olhe para mim, que nem te conhecia e te dei três horas do meu dia e te quero aqui dentro conosco, em um de nossos apartamentos. Quem você conhece que já esteve em uma cidade feito Bangalore, ou mesmo na Índia? (bem, eu só conheço o Dilip e o Miro, por acaso... mas vamos voltar a fala dele) Onde mais você acha que vai encontrar um ambiente tão romântico como este que temos aqui?". Parei de chorar por um tempinho.
E fomos andando, até a capela. Capelinha humilde, do tamanho da igreja de Sant'ana. Redonda, com um cristo iogue sentado ilustrando a parede... Uma coisa totalmente do outro planeta, claro... Pedi para ficar na capela, para rezar. Só de pensar na reza, desabei de novo. Pensar em Jesus, por quem, afinal, eu vim. Se Ele não tivesse me escolhido no meio da faculdade de Biologia para virar teólogo, onde eu estaria? Se Ele não tivesse me escolhido para ser crismado e espalhar, assim a presença dEle pelo mundo, onde eu estaria? Se Ele não tivesse me nutrido com o pão eterno e me levantado do chão quando eu me arrastava no pecado e mergulhado em mim mesmo, lá pelos dezesseis anos... onde eu estaria? E se Ele não tivesse me apresentado o irmão Mário, jesuíta; o Padre Ângelo, jesuíta; o padre Cabada, jesuíta; Valdivino, Adroaldo, Guy, Pimenta... todos estes jesuítas, que me fizeram semi-jesuíta desde os 6 anos. Onde eu estaria? E se Ele não tivesse me chamado para ser cristão, naqueles slides que meu pai projetava na parede e nas histórias que minha mãe me contava, nas rezas de noite, quando eu intercedia pela Olívia Palito... onde eu estaria? Se eu não tivesse sido batizado, onde eu estaria? E se eu tivesse nascido em outra família, onde? E se eu não tivesse nascido...?
Enfim, nascer é sair para o mundo, abandonar uma relação com a nossa mãe na qual a gente não é nada além de parasita. Assim que terminaram as matérias sobre parasitas na Biologia da UFJF, assim que o Senhor me fez entender o que eu era, Ele me chamou. E, como das outras vezes antes, eu disse sim. Se eu choro agora, lembrando dessas coisas que eu descrevo, imagina na hora que o padre me botou na capela e eu olhei para aquela portinha do lado da luz vermelha que guarda minha origem e meu destino...?
Mas eu não pude ficar. Era já tarde (7 da noite) e eu sou um firangue, um estrangeiro com uma cara danada de estrangeiro e corte de cabelo de cristão. Dentro de pouco tempo, eu vou deixar só o bigode... pra me disfarçar de indiano. E existe gente louca em todo lugar. Entào, seguindo este conselho sobre segurança do padre Stephen, fui pro hotel. Comprei 25 reais de crédito para Skype e liguei pra Gisele. E foi uma choradeira enorme, de mim e dela. Depois de chorar por uns 10 minutos com ela, eu pude me recuperar. E falei normalmente, descrevendo este lugar. Partilho com todos: as ruas são um caos. E as lojinhas, lojões e instituições (desde o hotel até aqui a Universidade) são limpos, cheirosos. As lojinhas que se dependuram em umas escadas engraçadas têm cheiro de flor e incenso. Mas um incenso sem fumaça.
Depois, tomei um banho e liguei pro meu pai. Se vocês tivessem idéia de como me arrependo de ter sido rude e grosso com ele tantas vezes... Falei com ele que morro de saudade, que ele faz falta. Que ele ia gostar. E ia mesmo. E garanto a todo, que a Índia a dois deve ser muito legal. Já é legal sozinho, mas o sozinho é que não é legal. Depois, liguei pra minha mãe, que já tava na escolinha. Me segurei pra não chorar nem com ele e nem com ela. Falei com a Cecília. Ela já conseguiu usar o fusca até a gasolina acabar e ele parar no sinal... Então dei instruçoes mais detalhadas de quanta gasolina por e etc.
Fiquei muito reconstruído de falar com esse povo. Tudo melhorou muito. E eu jantei (na verdade tomei um chá com um pão local que se parece uma pizza, e que tem formato de pizza e que leva gergelim e salsinha - vamos encarar a realidade: é uma pizza, eles que não estão a fim de admitir) e fui pra cama.
Mas pra ajudar, ainda não estou no fuso local. Estou completamente fora do horário... E, como o padre Saju, o vice-qualquer-coisa daqui tinha marcado comigo entre oito e nove da manhã, foi um pouco preocupante quando lá pelas 1 hora eu me vi acordado.
Não entendia nada. O jetlag, esta disfunçao fisiológica que a mudança de fuso causa, é muito desconfortável. Eu tive ondas de calor e frio, alternadamente. E mais o stress da saudade e tudo o mais... chorei de novo. Quando tudo parecia resolvido, chorei de novo. Rezei o terço duas vezes pra tentar dormir, e nada... Entre essas rezas, eu pedi sentido.
E, nessas ondas de calor e frio e sei lá mais o que, eu JURO. Apareceu uma luz. Eu de olhos fechados, vi um brilho ou qualquer coisa. Fragmento de sonho? Delirio pelo stress? Coisa de Deus? Tudo isso. Nessa luz, eu me vi naquele barquinho onde Jesus dormia, sobre as ondas... E até senti o balanço. E eu dizia pro Senhor: "acorda, véi! Acorda que o troço tá feio pro meu lado..." Ele me olhou com um olhar sonolento, e me chamou pra deitar ao lado dele. E eu deitei no barco com Jesus. Quando dei por mim, percebi que o travesseiro eram as coxas, o colo, de Maria. E me lembrei. Me lembrei que os padres aqui são "Carmelitas de Maria Imaculada". E que eu fui consagrado no dia do meu batismo a... Imaculada Conceiçao Aparecida. Eu ali deitado, sem conseguir dormir, totalmente alerta, tive essa consciência. É real.
Dormi talvez umas 3 horas ao longo da noite. De manhã, as oito e meia, liguei para o Padre Saju e avisei que ia me atrasar. Tomei um café da manhã cheio de coisas cujo nome e composiçao desconheço, alem de um pão redondo e oco típico aqui do sul da India e um pão de arroz. tinha também pao de forma. Com manteiga. Uma coisa incrivelmente deliciosa, na minha opinião. Comprei uma garrafa de água e... tuctuc para a universidade. 100 rupias, custa este itinerário. Padre Saju me recebeu muito bem, me pôs dentro da Biblioteca aqui. Linda biblioteca, enorme e com títulos totalmente desconhecidos. Tem aqui um funcionário por minha conta, chamado Sreejee ou algo parecido com isso. Fala-se Xridji. Gente bonissima, nem olha pra mim muito embora deva estar escutando o meu nariz puxando enquanto eu choro mais um pouquinho.
Tenho medo de Jesus querer que eu simplesmente durma com ele no colo da mãe por seis meses. Preferia que ele acordasse e acalmasse tudo. Mas quem sou eu para me negar o benefício de dormir abraçado com o Senhor? Você conhece alguém que já dormiu com Jesus em uma barqueta na Índia? Morra de inveja.
O caso é que o convite, o meu convite, sempre foi para me esquecer de mim e me lançar todo. Então, por isso, eu garanto: peço o mínimo possível por mim. Só mesmo quando cedo a tentaçao. Simplesmente agradeço, louvo pelas vidas dos padres que me acolheram em meu choro e rogo que ele enxugue as lágrimas que devem estar rolando ao chão da pátria amada.
Entendo, finalmente, que aqui as aves não gorjeiam como aí. Tem corvos. E um passarinho estranho que só faz gritar uma música estranha.
Vim aqui, amigos, para ser indiano. Para entender o que é o ser cristão indiano. E começo a entender. O povo daqui é todo loucaço e místico. Os padres pela manhã me advertiram, olhando no fundo dos meus olhos: "Quando fores rezar, não peça por si mesmo". Eu saí de mim. Nem sei quem sou. Lancei-me. E durmo, agitado e agarrado ao colo da mãe junto ao peito de Jesus. E você?
Esteja atento à voz do Vento, ela te chama sem cessar.
Talvez agora seja o teu momento, talvez teu tempo é o de esperar.
Mas não tenha medo se tua vida contra Este sopro tiveres de lançar.
Pois se lhe lanças tua vida, a vida Dele
Conquistará.
Namaskaara. Rezem por mim. Eu saúdo o Deus que mora em vocês, e O adoro contemplando-os em minha saudade.
Lembre-se de que este é um blog em branco, de onde não deves aproveitar nada senão o exemplo do vazio e do dispor-se às mãos do Escritor.
12 comments:
Já encontrou o Prabhu Deva?
Aaaii, Julinho! Tô com uma saudade... Até molhei a tela do meu iPad com minhas lágrimas. Não ligue de ser um chorão, não, tá? Chorar é bão; eu que o diga... Mas é que vc está na fase do "choque", e olha que legal: já tem até um amiguinho...( o que te levou pro shopping).
Daqui a pouqinho vc já vai estar bem mais tranquilo, a tempestade vai passar...
Manda uma foto sua de bigode, tá? Hahahahaha, essa a gente não pode deixar de ver!!!!
TE AMO!!!! Mil beijokas, e mande sempre notícias! Que Deus proteja o seu apendicite!!
Oi amigo de livre arbitrio! Chorei ao ler seu post, aproveita bastante ai.
Ê Julim, heim? Colocou todo mundo pra chorar com você, né????
Aproveita muito a oportunidade que vc está tendo! Depois que passar essa adaptação, vc vai entender muito melhor as coisas.
Estamos todos com saudade!
E que Deus proteja seu apendicite!!!! hahahahaha!
Cecília
Olha que legal: ontem no grupo de oração, em adoração, recordamos do nosso barquinho e de Jesus dormindo nele enquanto o mar está agitado. Lembrei muito de vc! Te adoro! Beijos. Fabs.
Força, meu filho, Deus já está dando sinais de que está providenciando tudo o que você vai precisar nesse tempo de tribulação.
Tá muito mais difícil pra mim do que eu imaginei essas coisas de Índia em minha vida. Toda essa aflição vai ser compensada, você vai ver. A adaptação é sempre um processo doloroso, mas compensador porque traz crescimento.
Deus te abençôe!
Ai Julim, que pena. chorei tanto. Tô rezando por você cumpadi. Te amo.
Quem diria que imaginar aquela cara de batata passando por tudo isso seria emocionante...
Um abraço cabeça!
Julinho, agora que aprendi a post a comment, tô aqui...dando opinião...minha opinião é:
é assim mesmo.
Essa é a frase que eu mais ouvi na minha vida quando ganhei o henrique e estava costurada e ele só sabia gritar e depois com o umbigo remendado e com o intestino reformado...das tripas, coração. É assim mesmo (com vozinha de Tereza) ...
as dificuldades fazem parte e vão passar logo, aproveita muito as diferenças pra vc se conhecer, a gente se conhece na diferença mesmo...QUEM NÃO SE ARRISCA NÃO PODE BERRAR como já dizia o poeta.
e viver tem seus riscos, daqui a pouco cê tá de volta com um bafão de pimenta aqui e morrendo de saudade dessas pessoas aí que são legais e dos amigos seus daí que vc ainda nem conhece...bjo deus te abençoe.
se Jesus é o príncipe da paz quem pode roubá-la de mim?
Oi, Julim!
Ai que penaaaa!!!
Olha, qdo vc se sentir só, canta baixinho essa música aí...que vai passar,tá?!
Te amo, bj no coração!
Quando não dá pra explicar
Quando não dá pra entender
É preciso acreditar
Que há um Deus sempre a nos ver
Só ele sabe a nossa dor
E é capaz de transformar
Cada lágrima que cai
Em sementes de um novo amanhã
Bem maior que tudo
Bem maior que o mundo
Está sempre junto a mim
Este amor que não tem fim
Ah, agora que descobri esse negócio de blog vai ser uma farra! Fiquei só a fungar com seus comentários e de todos daqui... Mas isso é fácil porque sou chorona assumida mesmo...Estou aqui atribulada porque como não estava devidamente informada, agora tenho serviço acumulado de ler tudo de todos! Olha meu querido, vivenciar o diferente não é fácil, mas... compensa! Com certeza! Já pensou o quanto você já está mais crescidinho agora? Imagine a riqueza de todas as suas experiências, sejam elas boas ou nem tanto... Um bj
Post a Comment