Sunday, April 15, 2012

Domingo!

Olá, pessoas.
Antes de tudo, quero dizer que choro quando leio dos comentários de vocês aqui, com tantas verdades pessoais de cada um.
Choro de emoção, de saber que sou pelo menos único na vida de vocês, e por isso sentem um pouco minha falta. Mas choro também porque eu queria muito abraçar cada um, dar um beijo, um tapa na bunda e passar um cartão. Mas não dá pra fazer isso, então eu fecho os olhos e envio amor. Bom, é isso.
Hoje, eu acordei e nem pensei nas coisas que têm de ser resolvidas. Essas coisas são o registro na Universidade, que já está sendo feito mas que só fica pronto amanhã. Também amanhã, o Pe Saju (vice reitor de Filosofia) vai me dar uma resposta definitiva sobre se eu posso ou não morar dentro da Universidade. Se eu não puder, até que não tem taaaanto problema, porque já vi muitos anúncios nos murais de lá sobre apartamentos para alugar. E isso seria bom, também: ter um apartamento pa nóis fazer uma ilha de Brasil. E também, se não registrar e não puder ficar, vou aí distribuir os meus abraços. Quero que todo mundo saiba que estou me esforçando o máximo para ficar, claro. Mas que em última instância, não depende de mim. Enquanto isso, fica aumentada a sensaçao de isolamento, porque eu não tenho um celular que funcione... o governo só pode liberar o uso dele assim que eu adquira um endereço permanente. Tambem não tenho plano de saúde e nem conta bancária na Índia, que dependem desse registro também. E, se eu não adquirir isso tudo, a CAPES manda eu voltar, e suspende a bolsa.
De qualquer maneira, eu insisto tanto que já devo ser até considerado parcialmente chato por alguns aqui. Mas não ligo... conto causos de vocês, explico como é o jeito brasileiro de fazer comida (eles acharam incrível o fato de cozinharmos o arroz inteiro (aqui é cozido um bolo feito de farinha de arroz) com água em vez de com... iogurte. Mas é bom pra caramba!), de considerar o côco algo doce (eles comem com sal e pimenta, ralado e cozido) e coisas assim. Então eu acho que sou um chato para alguns, mas contrabalanço com simpatia e beleza, que tenho de sobra.
Alguns ficaram sabendo muito recentemente que eu não sou indiano. Disseram, espantados e surpresos, que pareço alguém do Norte da Índia, com esse tom de pele, cabelos e olhos puxados Faz sentido, né Bárbara?. E, enquanto isso, as coisas vão sendo resolvidas, sob o quanto de pressão eu consigo colocar sem ser totalmente antipático.
Mas... de volta a hoje. Eu acordei, depois de ter dormido quase ininterruptamente (acordei no meio da noite uma vez, às quatro, mas acho que foi por causa do caminhão ali de baixo cujo dono sai de casa essa hora). Eram 9 e meia, e então decidi que ia na missa das onze.
A missa das onze foi uma das possibilidades escolhidas porque as outras são em malayalam, canará ou tâmil, e em culto Siro-Malabar. Então assim... eu ia boiar total. Pedi ao secretário do seminário para anotar um local onde houvesse missas em inglês, e ele anotou do Convento de Santo Antônio, dos franciscanos. Tem missa em inglês as 6:00, 9:30, 11:0 e 17:00. Aí eu fui lá na das onze.
Como o lugar é bonito! Não tirei fotos porque tava muito lotado o local, então preferi não chamar a atenção. A missa lá, claro, é em rito latino, esse que usamos no Brasil, então foi bem fácil de acompanhar.
Cantando, tinha um violão, uma menina e um moço. Mas que humilhação! Não saíram da nota nem por um segundo, e o cara do violão tocava andamentos malucos numa boa. A maior parte das músicas parecia americana-inglesa, sabe? Cantaram na comunhão... How Grear Thou Art; ou seja... Quão Grande És Tu. A mesma melodia, o mesmo andamento. So com uma pausa estranha no meio da estrofe.
Não consegui rezar o pai nosse em inglês, mas tudo bem. Com o tempo eu devo ir aprendendo, acho.
De qualquer jeito, foi legal ver como ajeitaram a traduçao de coisas da missa para o inglês. O Tomai e Comei, por exemplo, é "Take it and eat from it", o que seria "tomai este pão e dele comei", o que faz um sentido bem mais profundo que a nossa tradução, né? Tudo lindinho, e claro que eu tive que me controlar grande parte da missa pra não dar um chilique e ficar chorando feito uma criança perdida. Na saída, muitos mendigos... coisa triste. Uma mãe com um bebê no colo pedia dinheiro, eu dei a ela 10 rupias, e também a um menino e para a coleta. 30 rupias no total... menos de um real. Que vergonha, né? Na semana que vem, vou dar mil pra cada um! Ou não...
A hora da paz é muito diferente. Todo mundo vira de frente pro outro e faz um gestinho. Nada de dar mãos, abraços, nada. Dura menos de 5 segundos.
Na saída da igreja, Babu estava esperando.
O Babu (Báábu que fala. Vocal longa e aberta e vogal fechada curta) é tipo um cafetão de riquixás, que fica em frente o hotel muitas vezes. Ele fecha os preços e me manda motoristas que falam inglês, por 20 rupias. Por isso, quando eu pego o riquixá de volta pro hotel da universidade, pode custar menos de 100, que é o preço do Babu. Pode custar 80, 85... E, se a hora for de tráfego intenso, acaba custando mais, porque o troço pára e eles até desligam o motor. Aí fica por 130, 150.
Enfim, Babu é esse cara. Hoje de manhã ele foi o motorista, me levou na missa e tal. Quando eu saí da igreja, ele esperava do outro lado da rua lendo um jornal em árabe. Eu entrei no riquixá, sentei-me e ele perguntou porque demororou tanto, e eu expliquei que sou cristão latino (isso aqui significa católico romano). Ele fez uma balançadinha, que indica "ok" por aqui. E então eu perguntei se ele lê árabe. Ele disse que sim, e eu falei que sabia uma frase em árabe, e ele falou para que eu dissesse. Falei "Ash-hadu Allah hallah illah; Ash-hadu Muhammadam raçul-ullah" Ele abriu um sorriso enorme e perguntou se eu sabia o que significava, e eu disse "Eu asseguro que não existe Deus senão o Único, e que Maomé é o seu Profeta". E ele perguntou se eu acreditava no que dizia. Eu disse que sim, que acreditava que só existe um Deus e que Maomé é um dos profetas, mas que eu seguia o profeta Jesus. Ele ficou satisfeitíssimo e disse "You honor my rikshaw with this answer, sir!" (Você honra o meu ruiquixá com esta resposta). Disse a ele que queria ir no mercado, e indiquei o que fica perto da Universidade. Só que a Universidadade fica tipo assim... na Lapa. Na área mais top da cidade com maior investimento em Tecnologia da Informação da Ásia. Então é óbvio que seja tudo meio caro ali, muito embora pra gente seja barato. E ele disse "Não, esse é muito caro. Vou levá-lo em um lugar tão bom quanto este, mais muito mais barato." E me levou no India Big House Bazar, que eu já tinha ouvido falar mas não sabia o que era. É uma versão miniaturizada do Carrefour. Comprei água, frutas e uns biscoitinhos, por um terço do preço do outro mercado. E aí depois, ele me trouxe de volta ao hotel, disse que tinha um restaurante "para os crentes em Deus", isto é, que serve frango e peixe na rua da frente.
Eu perguntei quanto era. Ele ficou comigo, me levando, buscando e esperando do lado de fora dos lugares, por três horas. E ele disse que não era nada, porque tinha sido uma honra. Não é de cair o queixo? Como hoje não tem tráfico nenhum, dei a ele 100 rupias pela ida, 100 pela volta e mais 100 pelo tempo que ele ficou esperando, e ele ficou todo feliz.
Depois, fui no restaurante, e pedi comida chinesa. Frango alguma coisa e yakimeshi (aquele arroz imperial do China in Box). Imediatamente e por toda a eternidade, o China in Box caiu no meu conceito. Garotada... que troço delicioso!!!! Absolutamente uma das melhores coisas que já comi na vida! E por doze reais, incluíndo uma cerveja sem álcool (só os cristãos tomam álcool, então não tem nada alcoólico nos lugares chiques, só nos muito fuleiros, tipo do lado dos lixões /sim, eu passo por dois lixões indo pra universidade. Em um tem vacas pastando no lixo, no outro bodes. Nem os urubus sobrevivem ao calor/, porque a maior parte dos que tomam álcool são os dalits, que vivem nestes espaços) e um litro de água, para aproveitar a viagem. Água é uma coisa preciosa aqui.
Ela é mantida nos reservatórios subterrâneos por seis meses, e depois recebe um tratamento que inclui fervura, osmose reversa, raios ultra-violeta, filtragem por areia, ozonização e filtragem por carvão. Aí é engarrafada e vendida. Chama-se packaged drinking water, e é o tipo de água que existe para beber. Contém uma quantidade pequena de sal, quase não dá pra notar. Mas contém sim.
Por isso, todos estão ansiosos pela chuva, como eu já citei noutro lugar. Eu não. Eu tô morrendo de medo, porque ontem deu uma ventania que prenuncia as chuvas, de acordo com eles. São os ventos subindo as montanhas e trazendo umidade. Bangalore está a 1000 metros acima do nível do mar, a meia altitude de uma cadeia de montanhas que corre em duas serras pelo meio (no sentido norte-sul) e que separa o interior, mais seco que aqui, do litoral, que é bastante parecido com o nosso.
Agora estou aqui, escrevendo no blog para evitar a depressão e a fadiga, mas meio comemorando de ter encontrado e feito bons contatos, já. Assim fica mais facil. Mas morro de saudades, queridos. E fico assim, em branco, esperando o dia de voltar a ver vocês!
Mas agora, mais atento. Quando você tem um vidro verde na janela, tudo parece verde. Se for amarelo, tudo fica amarelo. Se for de descrença e desespero, tudo é desesperador e nada vale a pena. Mas e for um vidro divino e iluminado, tudo é luminoso e divinal. Esta é a diferença entre a comunidade antes e depois de todos crerem pra valer na ressureição, nas leituras de hoje.
Na primeira, todos são descritos como tendo um só coraçao e uma só alma. O evangelho conta que Tomé não acreditou de primeira. Portanto, ele era o coraçao diferente, atrapalhando a unidade. E depois que creu, veio... para cá! Para a Índia, chegando no ano de 52.
Então vamos todos juntos crer que tá sendo bom eu aqui, pra que fique bom, e nós sejamos um lago de águas puras e bebíveis, ao invês de um mar salgado, que vai e vem, empurra e puxa, sem ter uma direção única?
Caso contrário, vamos ter que ser osmosizados reversamente, filtrados, fervidos, ultravioletados, ozonizados, carbonizados... dá muito trabalho. Por isso, vamos ficar todos em branco, para que o nosso coraçao se encontre em sintonia e nenhum queira me puxar ou empurrar. Vamos nos mover juntos. Rezem por minha alma pecadora...
Um abração!

5 comments:

Teresa said...

Oi, "cristijuliano" ...rsrsr cada dia emoções novas!!!! Que os nossos vidros sejam sempre "luminosos e divinais" ... e com certeza os seus já são "resplandescentes"!!!
Agora, prá mim, "Quão grande és Tu" nas vozes do Kyrie...não tem igual!kkkk Beijo no coração! Te amo!

Bárbara said...

Julinho,
sobre águas, acabo de voltar de São Lourenço e tomei umas águas com gosto estranho...Robert tá com dor de barriga O DIA TODO por causa disso...(creio que é psicológico, sabe como ele é hipocondríaco)
Sobre o fato de vc ser parecido com um indiano...que os do norte são mais brancos e com sua(ou seja, a minha) cara , a gente já sabia, faz realmente todo sentido. Leio seus textos e tenho vontade imensa de estar aí aprendendo e vendo, e até que passaria por uma indiana,vejam só, era só usar uns paninhos, como era a nossa teoria...ou alguém poderia pensar que eu era oriunda das montanhas e estepes da mongólia.
Sobre a missa em ingles, legal esse fato de as leituras serem as mesmas em todo lo mundo...dá uma sensação de unidade...
Sobre o cara do táxi, chorei ao ler o relato. o mundo precisa de experiencias de tolerancia religiosa. Que bonitinho ele. Aposto que chegou em casa e contou pros parentes , todo felizinho.
Sobre a mãe com o bebê, será que não dava pra eu adotar os dois?...que pena.
Convida o mexicano pra ir com você na missa e já tô vendo que c vai cantar nesse ministério aí...daqui a pouco c tá animando a missa e brigando com o conselho ...rsrs prepara os salmos antes para evitar as dores de barriga...tô até vendo esse Pepe mexican boy aí rezando para a madre de guadalupe con Usted.
BEIJO. LEMBRE-SE DE MIM ...sua irmã favorita.

Gisele Reis Simões said...

Tá sendo muito bom seu diário de viagem!!!
Lindas as suas reflexões...
Um beijo com saudade!

Maria Maria said...

Julim, como eu já tinha te falado no skype, tô aqui me atualizando com seu blog, após um fim de semana fora da civilização. Legal que vc já está se adaptando melhor. Todo mundo sempre vai pra uma experiência dessa achando: "uau! pudim de leite condensado!!!"(né, Fre?), como podemos ver pelo seu post: projeto índia (a propósito, eu não sou otária, o fusquim tá quebrando mó galho!), mas quando topa com a realidade, acaba tendo um choque. Mas passa... tudo passa! E daqui há pouco vc já vai estar aí com seus amigaços dalits (seja amigo deles, tá?)sem ligar pra gente todo dia, sem escrever no blog todo dia, aí a mãe vai começar a achar que vc foi atropelado por um tuc-tuc, ou que se afogou no rio Ganges, e por aí vai....
Vou lá ler os outros posts e comentar neles tb pra dar mais ibope!!!!! Aliás, depois vc me conta se é legal ter um blogue com ibope.... nada comparável ao tempo em que eu lia o seu, vc lia o meu e a Joana lia os de nós dois... 2 leitores no máximo pra cada um! huahuahauhuahahuahua!
Beijos!

Roiíces de um Minotauro said...

É...
Mas eu vou ligar pra casa todo dia ou a mãe pira, tadinha.
E pra Gisele, porque eu to assim meio que gostando dela, sabe?