Friday, June 29, 2012


A gente às vezes quer um biscoito recheado. Desses Nabisco.
Aí só tem cream-cracker. A gente come o cream-cracker e é horrível.
O outro não quer nada. Aí ganha um cream-cracker.
E é delicioso, o mais delicioso de todos os alimentos da terra.
O segredo é não querer nada.
Quando não se quer nada, tudo é ganho. Quando se quer, tudo é perda.
Se o que quer o Nabisco ganha um Nabisco, mata uma vontade, mas não aprecia o Nabisco.
Aí que quem quiser aproveitar as coisas da vida, tem que não querer nada.
Só quem está livre de desejo está vivo de verdade.
Para dar ao Nabisco, ao Cream-cracker, ao copo d'água, à lata de diet coke, à caminhada, ao pulo, ao jogo de futebol, ao Winnig Eleven no Playstation, a calça, a saia, a cueca, o banho, o cheiro do sabonete, tudo depende de nada.
É que para as coisas serem, precisa haver um espaço de não-ser onde a realidade da coisa possa brotar.
Aí fica assim a condição para apreciação do algo: criar dentro de si um nada. 
Quando for comer um biscoito, não se preocupe em apreciá-lo. Deixe-o ser. Let it be. 
Quando sentir uma dor, não lute contra ela: deixe-a ser. O sofrimento a respeito da dor é o que a torna mais dolorida.
Quando ganhar um sorvete muito gelado, destes que trincam o dente, não o queira apreciar e nem queira se preocupar em não se preocupar em apreciar. Apenas tome.
É assim, simples demais.
Tão simples, que se torna extremamente complicado.

Thursday, June 28, 2012


"Matière et Esprit : non point deux choses, - mais deux états, deux faces d'une même Étoffe
cosmique, suivant qu'on la regarde, ou qu'on la prolonge, dans le sens où … elle se fait, - ou
au contraire dans le sens suivant lequel elle se défait.
« Se faire », ou « se défaire » : expressions terriblement vagues encore…mais suffisantes..
pour me fixer..dans une...option …dont les caractéristiques majeures peuvent se définir en
ces simples mots : le primat de l'Esprit ; ou, ce qui revient au même, le primat de l'Avenir.
A strictement parler.. le simple fait d'avoir vu s'évanouir la prétendue barrière séparant
le Dedans et le Dehors des choses, - ou même de constater que, la cloison une fois sautée, un
courant s'établit, expérimentalement et tangiblement, allant du moins au plus conscient
dans la Nature, - ce fait, je l'avoue, ne suffirait pas, à lui seul, pour établir rigoureusement
une supériorité absolue de l'Animé sur l'Inanimé, - de la Psychè sur le Soma…
Ces diverses questions, qui devaient inévitablement se poser à moi dans la suite (et que,
au moins à mon usage personnel, j'ai conscience d'avoir résolues), il est remarquable
qu'elles ne m'apparurent pas au premier moment. Soit par sursaut d'évidence instinctive -
l'évidence que je ne saurais me tromper en conférant au mouvement cosmique qui venait de
m'apparaître un maximum de valeur créative et d'inaltérabilité, - soit par anticipation
obscure des conditions ou exigences psychiques de l'Evolution (telles que me les révélerait
plus tard l'étude de l'Énergie Humaine), je ne m'arrêtai pas sérieusement un seul instant à
l'idée que la Spiritualisation progressive de la Matière, à laquelle me faisait si clairement
assister la Paléontologie, pût être autre et moindre chose qu'un processus  irréversible.
L'Univers en gravitation tombait vers l'Esprit comme sur sa forme stable, en avant.
Autrement dit, prolongée, approfondie, pénétrée jusqu'au fond, suivant  son  vrai  sens,  la
Matière, au lieu de s'ultra-matérialiser comme je l'aurais d'abord cru, se métamorphosait
au contraire irrésistiblement en Psychè. Non point métaphysiquement, mais génétiquement
considéré, l'Esprit, loin d'être l'antagoniste ou l'antipode, devenait le coeur même de la
Tangibilité que je cherchais à atteindre."

Teilhard de Chardin - Le Coeur de la Matiére, pp35-36.
Meu novo fão. Doido de pedra!
Se você tiver com preguiça de entender o Francês, pode colar aqui http://translate.google.com/ , do lado esquerdo e pedir a tradução.
Mas assim... mata a beleza do texto. Muito embora conserve a loucura!
Lembrando que a loucura é a voz... Isso.

Wednesday, June 27, 2012

De todas as coisas que Deus podia ter escolhido par representar a oração, escolheu o incenso.
Quis o incenso.
Fácil entender porque! Acenda um incenso ao seu deus e descobrirá.
A fumaça se desprende como mágica, perfumando o ambiente.
Começa a evoluir sobre si mesma, revoltosa contra a mesmice da atmosfera.
Vai se doando, se misturando, se esmaecendo e sumindo.
Claro, porque incenso só faz sentido, naturalmente, aceso!
A fumaça que sobe ao céu, perfumando tudo em seu caminho, é imagem da oração do amante de Deus, subindo aos poucos e perfumando tudo ao seu redor, fazendo as pessoas e os outros bichos e seres experimentarem o perfume que dele brota quando o devoto se acende e se deixa derreter em brasa por amor.
Se perde.
Quando da criação do Levítico, houve uma reunião entre Aquelas Pessoas.
E o Filho logo se adiantou.
"Põe aí que é pra acender incenso no meu altar."
"Incenso? Eu tô louco em você por acaso, meu Filho?"
"É verdade, eu mesmo! Porque incenso? Ponha que é pra espalhar perfume"
"Bom, eu-vocês dois não vão encarnar. Eu é que vou. E, com a minha-nossa capacidade de ser no tempo estando fora dele, eu concordo, e vocês também, já que somos um, que a fumaça que dele se desprende é uma das coisas mais belas que eu poderei ver, quando homem."
"Então é pra gente-eu fazer(mos) isso em função da Encarnação?"
"Tsc! Como se tudo que a gente-eu tivesse feito até agora não fosse em função da Encarnação."
Foi assim.
O Universo, por sinal, não é co-existente do ponto de vista temporal com Deus porque houveram muitas destas reuniões, para escolher a cor das frutas, a quantidade de estrelas, o cheiro de ovo podre, as diferentes intensidades de dor de barriga em função do quão estragado ou pouco saudável foi o que se comeu (uma verdadeira f(x), no caso), e o gosto de sucrilhos.
Aí levou tempo, muito embora o tempo não existisse. Bem, então não levou nada. Mas levou.
Foi assim. Me contaram.

E, para descontrair, tá aqui uma foto do modelito Índia tirado láááá em Kodaikanal.

Monday, June 25, 2012

Mmmm...!!!
Hoje eu estudei tamil (pra compensar que em Kodaikanal não o fiz) o dia inteiro. Meu cérebro ficou doendo. JURO! Sabe quando a sua cabeça fica inchada? pois é.
Mas foi maneiro pra caramba! Já decorei praticamente todo o alfabeto, tendo que consultar raramente a tabela.
E na hora do almoço, o Dinesh (que é tamil) me perguntou "And how's your tamil?" e eu respondi "Tamil kachka andraayam" e ele me deu parabéns!
"O Tamil parece estar chegando em mim".
Tirei onda!!!
O Marco perguntou pro Dinesh na hora "Ele tá falando tamil  mesmo?" E o Dinesh. "Sim, está! E na forma lírica". Bem, isso foi acidente... queria dizer que eu estava chegando lá, mas inverti a ordem dos termos na oração e com isso paguei de poetinha.
Hahahahahahahaha!!!!
Mas hoje eu queria partilhar um texto que escrevi pro Blog, e que ficou curto e eu queria aumentar. Nem lembro se eu postei isso aqui antes. Ando esquecido, sabe? Idade.
Então lendo-o de novo, me pareceu suficiente. Ó, encerrando a conversa:

A dor da Cruz era outra.
Olhando ali aos pés sua mãe e seu amigo, o que doía era a saudade o colo e das piadas às três da madrugada em noites de alegria insone.
A dor da Cruz era a vontade de morrer assistido pelos seus e pelo menos aos oitenta.
E a coragem da cruz é a dor da qual poderia abdicar, se quisesse.

Sunday, June 24, 2012

- Isso que a senhora está pedindo não faz o menor sentido.
- E desde quando meus pedidos têm de fazer sentido, menino? Desde quando alguma coisa que eu vivi tem ou teve algum sentido? Eu quero!
- Ah, mamãe! Tenha dó! Pra que?
- É um menino longe de casa. Sem companhia. Sem língua. Sem ninguém pra conversar. Tenho certeza de que você tem isso por aí.
- E o que tem a ver a falta de companhia com isso!!!! Não faz o menor sentido! Tem vezes que eu me pergunto como meu pai pôde escolher você, que nem sempre é razoável! ISSO NÃO FAZ SENTIDO!
- Escuta aqui, seu moleque! Baixa esse topete que eu ainda sou a sua mãe. Nada vai mudar isso! E é por isso que seu pai me escolheu, se quer saber. Acho que ele sabia que eu iria ficar viúva cedo, e você seria um cabeça dura! Aí me escolher pra te amolecer, nessa sua cabeça de pensamentos perfeitos e equações quadráticas. Nem sempre dois e dois são quatro, meu filho! Aliás, na maior parte das vezes, não é. Matemática é tudo mentira! EU QUERO DAR ISSO DE PRESENTE PRA ELE!
- Mamãe, como ousa!!!??? A Matemática é a ordem universal, a ordem que Deus colocou no Universo.
- Ah, é?
- É claro!
- E como você sabe?
- Porque eu sou um Grande Matemático.
- Ah, tá... (sentou-se em uma cadeira na sala do filho, um homem ocupadíssimo). Então me explica umas coisas da minha vida que nunca fizeram sentido?
- Tudo faz sentido. Você que não consegue saber porque não pensa matematicamente, como eu!
- Jóia, jóia... E como pode Deus ser um mais um mais um e ser igual a UM?
- Eu não consigo explicar isso. É mistério.
- Ah, então agora a matemática foi por água abaixo. Ou isso ou Deus está em desordem matemática.
- Não está. Não é o caso da minha experiência neste assunto.
- Então um mais um mais um na maioria das vezes é três, mas na VEZ, a vez que une todas as outras, que é a realidade divina, é UM. É isso?
- É, pode ser que seja.
- É uma exceção à regra matemática simples da soma?
Suspirou fundo, como se já soubesse perdida a discussão.
- É mamãe... é isso. Uma exceção à matemática.
- Então você quer dizer que na experiência mais seminal da sua vida, você sabe que a matemática não é assim tãããão exata? Porque assim, espero que sim! Criei meu filho para fazer na vida dele uma experiência completa de Deus, desde que fiquei grávida. Julguei ser minha responsabilidade. Não me decepcione. Sou sua mãe, já disse. Dobra essa língua!
- Ok, ok... Sim, mamãe! Na minha experiência de vida mais básica, mais seminal, eu sei que um mais um mais um não é três, o que só pode significar que a matemática, neste único caso, é inexata para explicar o todo. Ou insuficiente. Mas NESTE caso!
- Aham... e você que diz conhecer a verdade sobre todas as coisas... Tem outra situação onde eu me lembro muito bem de exceções matemáticas.
- Ah, mamãe. Pare! Tenho muito o que fazer! Você sabe o que significa ser rei?
- Claro, eu sou a rainha mãe! Mas pois sim! Você!
- Eu? Como assim?
- Uai! (ela é mineira, tenho certeza) Vê bem... você tem vontade de fazer duas coisas ao mesmo tempo?
- Claro que não! Só faço uma vontade, que é a de Deus! Você me ensinou isso!
- Então em você tem uma vontade?
- Sim!
- Mas você é duas coisas ao mesmo tempo. Tem duas naturezas pessoais. Quer dizer que uma delas não tem vontade própria, e a outra é um fantoche?
- Não, mamãe! Eu sou duas naturezas mas tenho uma só vontade!
- Mas não deviam ser duas? São duas naturezas!!!
- Mamãe: deveriam! Mas não são. Não dá pra explicar em termos de 1+1 são dois! Procure entender!!!
- Eu entendo, meu filho. Entendo sim.
Levantou-se da cadeira, foi pra trás dela, apoiou os cotovelos no respaldo do encosto.
- Então, Senhor do Universo, como você mesmo acaba de concluir, um mais um não são dois. E por isso mesmo, um mais um mais um não são três? Correto?
- Não... são duas exceções, eu admito!
- Ah! Você está aprendendo minha matemática!
- Mamãe, tudo bem, mas o que isto tem a ver com ele estar longe de casa e não ter com quem falar e tal?
- É difícil de te explicar em termos de um mais um ou dois mais dois, filho! Mas tenho certeza que você entende!
- Não, eu não entendo! Não sei o que tenho a ver com isso!
- Às cinco. E de boa qualidade.
- O que? Eu nunca fiz isso antes, mãe! Fazem sei lá... uns dois mil anos que não vou em oficina nenhuma! Não lembro mais nada de carpintaria!!! E este trabalho seria pra um luthier, sei lá!
- Psssshhh!!! Você sabe muito bem que estou certa! Que nunca exagero. Em pouco tempo ele vai cantar usando este violão como se fosse na língua dele!
- Mas que absurdo!!! Violão é professor de língua agora?
- A linguagem da música, filho! Ô meu Deus! Que cabeça matemática!
- Mãe... eu não tenho tempo...
- Claro que não! Aqui é a Eternidade! Ninguém aqui tem!
- E como eu vou fazer um violão? Ele não está na eternidade!
- Ah, dá seus pulo! Faz uns milagrinho aí...
- Mamãe!!! Como pode?
- O que foi? Eu não faço milagres, meu filho! Só peço! E sei muito bem que você fez. Esqueceu daquele casamento?
- Mamãe!!! Eu não vou poder chegar lá agora com um violão na mão pra dar pra esse seu "novo filho". Ele não vai sequer saber que foi coisa minha.
- É claro que vai. E não é novo. Tem já 30 anos e um golinho que me deram ele em consagração. Põe em algum lugar que ele possa ver que ele vai saber que é coisa sua.
- Mas ele é humano... homem... mente matemática...
- Mas ele me leva no coração dele! Eu sopro umas coisas...
- Tá bom, tá bom!!! Eu faço!!! Ponho o violão lá. É só isso?
- Por enquanto é. Depois eu volto. Aliás, depois nada, porque aqui é tudo ao mesmo tempo. Maior barato, a eternidade. Por isso, faz até mais sentido que você faça essa coisa de plantar esse violão lá... Ele vai sentir sabor de eternidade nele, você vai ver.
- DUVIDO!!!
- Há! Conheço meu gado!
- É... tô vendo... 2 mil anos sendo convencido pela senhora a dar de tudo pra todo mundo!
Ela foi saindo da sala.
- Ok, ok... tô indo ao purgatório buscar uns amigos.
- Ai ai... que escolha maluca eu fui fazer! - disse ele, curiosamente como se fosse um corinho de três vozes.
Da porta, ela olhou, lançou um sorriso e soltou:
- Filho, Pai e Esposo meu, a propósito: Louvado Sejas!
**************************
Bom, essa é a história do meu violão.
E essa aqui é outra.
Para detalhes, olhe meu perfil no Facebook, tá? Não vou postar a mesma coisa em dois lugares!
Aqui um link, ó --> http://www.4shared.com/mp3/ERf-XfOf/Hari_Kraista.html
A letra do Mantra do Facebook:

हरी हराया नामा  क्रिस्ता एम्मनुएल्ल नामा
Hari haraya namah Kraista Emmanuella namah
Oh, transcendente, dou-te o Louvor devido a vós, Cristo Emanuel
पादरी दूल्हा  नौकर नामा
Padari, Dul'ha. Naukara Nama
Ao pastor, o Noivo, ao Servo adoro porque devo fazê-lo

बेटा नबी भोर नामा
Beta, Nabi, Bhor, Nama
Rendo-me ao Filho, ao Profeta, à Alvorada
श्री-बच्चा मस्तरा मदन मोहना
Sri-Bacca, Mastara, Madana Mohana
Ao Senhor feito criança, ao Mestre, ao Todo-Desejável.
पवित्र बढ़ाई सांत्वना चुना
Pavitra, Barha'i, Santvana, Cuna
Ao Santo, ao Carpinteiro, à Consolação, o Escolhido
सितिक्सका दोस्त रजा प्रकासा
Cikitsaka, Dosta, Raja, Prakasa
o Médico, o Amigo, o Rei e Luz, louvor seja dado!


भगवाना भेरा का बच्चा मसीहा नामा
Bhagavana, Bherakabacca, Masiha Nama
A Deus, o Cordeiro, o Messias adoro
अभयारण्य मैं रोटी जीवन
Abhayaranya, Maim, Roti, Jivana
O santuário, o Eu Sou, o Pão e a Vida.
बंदरगाह उपहार महाराजा नामा
Bandaragaha, Upahara, Maharaja, Nama
A porta, o Dom, o Rei todo poderoso, Louvor.
मार्ग सत्य बढ़या विशेशागना
Marga, Satya, Barhya Visheshagna
Ao Caminho, verdade, o Ressurrecto, O Onisciente.

Saturday, June 23, 2012


Se há uma coisa que sempre quis fazer e nunca tive força de vontade o suficiente para cumprir, é acordar todos os dias antes do sol nascer, só pra não perder jamais o espetáculo que se dá nesta ocasião.
De um tempo pra cá; pouco tempo, é bem verdade; esta vontade ficou ainda mais patente dentro de mim. E também por fora, que não acredito nessa baboseira infantil de espírito e alma, e tampouco que meu cérebro pense. Minhas melhores idéias só surgem após alguma caminhada, treino, viagem, natação, banho de sol, beijo na boca ou seja lá o que for. Meu corpo inteiro pensa, sente, quer, deseja, reza, transcende... Não tenho alma, dessas separadas, esvoaçantes e com mania de retorno a corpos diferentes do meu. Minha alma é tão minha, mas tão minha, que é física, que é meu corpo!
Por isto meu desejo de alvoradas. O nascer do sol também não é nascer “só do sol” (como se o sol pudesse ser tido como “só isso aí”, mas vá lá...) mas é também Renascer de Esperança, Espetáculo de Luz que transforma tudo.
Por sinal, quando eu fico acordado até tarde (o que nem é raro, diga-se de passagem), vez por outra sou surpreendido pelo sol nascendo e então penso “puxa, já está cedo”. O nascer do sol é essa coisa assim mágica, transformadora. Transforma o meu “tarde”, num instante, em inegável e universal “cedo”.
Ah, como eu queria fazer o contrário, e tenho tão pouca força de vontade... Dormir mais cedo (ou seria tarde do dia anterior?) pra acordar mais cedo. Porque aí eu não seria surpreendido pelo sol... não! Acordar deliberadamente, todos os dias, mais cedo, seria minha expressão de Confiança, de Esperança na Transformação, de Ansiedade pelo Novo. Nada de glamour. Nada de passar a noite em claro esperando o sol nascer. Dormir, chegar antes da hora pra apreciar o nascimento. Isso sim é que seria uma vida digna, completa, cheia de sentido... 
Pois é. Mas durmo tarde... lá pelas duas. 
Acho que Alguém teve pena da minha vontade, ontem. Porque a construção sem sentido, sem nexo, que me faz tossir sem parar por alergia ao cimento que nunca cessa de ser comprado e gasto neste quartinho de nada que está ali no quintal, recém construído e ainda pleno de poeira... essa construção irritante! Me deu uma lição. Passou a abrigar canários.
Ontem, os canários se reuniram e cantaram, cantaram, cantaram. Acordei com aquele doce barulhinho, parece até com vozinha de criança. Os canários me acordaram, cinco minutos antes da alvorada. 
Eu espero que eles se acostumem comigo. E que eu não me acostume com eles, que eles sempre me surpreendam e me acordem, dessa maneira tão doce, sutil e meiga.
Há um deles que é especial. Tem um canto tímido, meio engasgado, meio de esgueio. E jura-me que é atirado, pelinha, que não posso dar-lhe alpiste algum ou agarrará pra sempre no meu quintal. Acho que vou botar-lhe alpiste é cá na janela, pra ele freqüentar meu quarto... Mas sem arapucas e alçapões, isso não se faz.
Ele me canta como se me perguntasse se acordo ou não, se aprendo o tempo dele ou se fico assim todo trouxa acordando tarde. Bichinho danado. Parece que na minha pergunta, eu mesmo sou-lhe a resposta. Me encanta...
Nunca fui bom em crônicas, este blog tem sido um desafio.
Fosse uma dissertação, vá lá, eu teria algum treino.
Ou fosse verso, maravilha, eu tenho algum costume.
Mas crônicas... chronos feito texto... libertar em texto o que vou sentindo e vivendo ao longo do tempo? Desafiador!
De todo modo, fica a lição: Ainda que sua construção não faça sentido e lhe incomode, fale dela aos canários, que algum há de se habituar a acordar-te para a alvorada, que não tarda, sempre vem. Sempre cedo, nunca tarde. 
Preciso aprender a acordar mais cedo. É que descobri-me precisado do meu canário. Preciso cevar esse bicho danado aqui, preciso criar nele o hábito da minha janela, pra eu ver o Mundo com esses olhinhos e esse canto entre eu e Ele. E logo. Antes que esse canário troque de construção.

Friday, June 22, 2012


Então... só pros muuuuito doido:
Tinha um Zé Ruela (Hiraniakashipu) que enchia o saco desse pobre desse moleque aí. Aí o Vishnu (que se encarnou como Krishna também, aí embaixo) ficou puto nas calça com aquilo, pois o Ruelão queria até derrubar tudo, num ataque de pelanca. Pode-se dizer que ele fosse um semi-demônio. Era um Rakshasa. E o pecado dele era ser ateu, e por isso quis derrubar o templo onde o devoto Prahlada (esse menininho bonitinho do filme) fazia a sua adoração. Prahlada tinha como seu Deus o Senhor Vishnu.
O problema todo é que Prahlada é filho do Hiraniakashipu, que tentou matar o moleque muitas vezes, mas foi impedido porque Vishnu o revestiu de poder e o protegeu a vida toda. Muito embora nascido Rakshasa, ele era devoto de Deus, ora.
Quando Vishnu viu que não ia ter jeito, encarnou como Narasimha (homem com cabeça de leão), desceu à terra e arrancou as tripa do manezão na unha. Porque??? Porque o Brahma tinha concedido ao Harianakashipu a imortalidade, que só poderia ser tirada por alguém que não fosse nem deus, nem homem e nem animal.
Narasimha não é nada disso!!! Que golpe de esperteza, hein Vishnu?
Dali, resolveu sair pelo mundo e dar um jeito, porque os homens tavam muito malvados.
O moleque ficou pensando... e agora, José?
E todos os deuses vieram em seu auxílio e  Brahma falou com ele: "olha, mostre a sua devoção, que é pra ele perceber que ainda existem almas puras na terra e desista de destruir geral e esculhambar o universo."
Até porque o Brahma, que preside a Trimurti (algo como o Pai, talvez), sabe que o papel do Vishnu não é o de destruir o mundo, mas de preservá-lo e tentar endireitá-lo pelo amor, não pela força.
O garoto cantou. E viu a força destrutiva do Senhor se trasfigurar diante dos seus olhos na força criadora, o ator das atitudes de criação. Algo como... isso! o Filho.
O Shiva, que é a força renovadora do mundo (só sobrou um pra você chutar o paralelismo) casou-se com a irmã de Vishnu, Parvati. E, para conquistar o seu coração (que era humano, pois Parvati é Shakti encarnada, do mesmo jeito que Meenakshi também é), os deuses insistiram que ele dançasse.
E à medida que dançava, deu dinamismo ao ciclo de mortes e nascimentos, a Samsara (que muita gente chama de "roda da reencarnação", numa clara exibição de desconhecimento dos Vedas e dos Upanishads), que girou e desde então gira (os deuses são eternos, e portanto as suas atitudes são igualmente eternas), dando ao mundo o seu dinamismo.
Shiva tentou persuadir o cunhado pra parar com aquilo e tal. Mas nada adiantou.
Atendendo Brahma, Prahlada cantou. E foi agraciado com a contemplação de Vishnu em sua forma real e virou rei, por graça de Vishnu.
A música que ele cantou foi:

Namasté Sarasimha

() (1)
नमस्त नरसिंहाय
Namas-té Sarasimhaya
Eu reconheço Deus em ti, Sarasimha

प्रह्लादाह्लाद-दायिन
prahládáhláda-dáyine
Que enche de júbilo (ou rejubila-se com, não tenho muita certeza) Prahlada

हिरण्यकशिपोर्वक्ष-
hiraṇyakaśipor vakṣaḥ-
no peito de Hiraniakashipur

शिला-टङ्क-नखालय
śilā-ṭańka-nakhālaye
As unhas são como cinzel moldando a pedra.
(pausa para comentário: muita gente traduz como "as unhas de Sarasimha são como cinzéis que moldam a pedra no peito de Hiraniakashipur". Muito comum essa tradução entre os Hare-Krishna. Mas repare que o possessivo referente a Sarasimha (Sarasimhaya) não está em lugar nenhum aqui. Leia este verso ou misticamente (talvez as unhas do Hiraniakashipur sejam os tais cinzéis, ao ver Sarasimha e percebendo que Deus existe) ou fundamentalisticamente (Deus matou o cara). 

() (2)
इत नृसिंह परत नृसिंह
ito nṛsiḿhaḥ parato nṛsiḿho
Em todo lugar da terra, Narasimha está

यत यत यामि तत नृसिंह
yato yato yāmi tato nṛsiḿhaḥ
Em todos os lugares e em todos os tempos encontro escondido sutilmente Narasimha.
(yato - por toda a parte / de muitas formas; yami - vejo debaixo; tato - em outros tempos. Esse verso é complicadinho)


बहिर्नृसिंह हृदय नृसिंह
bahir nṛsiḿho hṛdaye nṛsiḿho
Narasimha habita o meu coração e o lado de fora

नृसिंहमादिं शरण प्रपद्य
nṛsiḿham ādiḿ śaraṇaḿ prapadye
Obedeço Narasimha e ofereço-me à origem de todas as coisas


Bacana... Note que aqui o moleque dá o pulo do gato que lhe merece a coroa: percebe que para além a imagem que ele faz de Deus (um justiceiro que mata o que lhe acusava e queria morto), ele se rende não a Narasimha (o ISCKON traduz isso aqui como sendo a Narasimha, mas falta o... isso!  O -ya, portanto ele se oferece a ninguém), mas a uma impessoalidade. Não tem nada com possessivo para que ele se ofereça a. O que leva o possessov é o prapadye. Que é "todo". Ou seja, ninguém, pois o todo é sempre união de Deuses e Deusas, é a própria cópula dos deuses. É uma ação, um... motor do universo (Aristóteles me emprestou essa).
Chega.
Veja o vídeo.
Falado em Telugu, cantado em Sânscrito.






Thursday, June 21, 2012


Ok. O trem parou no fim do mundo, minha gente. Uma tal de estação Krishnarajapurm. Assim mesmo, que acaba a palavra: prm. 
Pra chegar lá, peguei o tal trem em Madurai às 12 hs, ele chegou auqi às 21:48. ou seja, atrasou 3 minutos, porque no time-table dele diz que ele chega em Bangalore 21:45.
Bangalore é grande, beeeem grande. Entre o Rio de Janeiro e São Paulo: 8 milhões de habitantes.
E essa estação fica a 27 km daqui da Universidade. Isso, de tuc-tuc, é uns 40 minutos.
No trem, conheci um missionário sem igreja enjoado. De cada 5 palavras que ele falava, uma era Iesucristu. Esse é o nome do Rapaz aqui por estas bandas. Ele estava na cabine do lado, tentando converter um hindu.
Na minha (são 4 por cabine) estávamos eu, uma moça muçulmanda grávida e um pai e filho hindus.
De acordo com a Bíblia, o moço vai viver muito, porque ele honra o pai dele. Aliás, este é o único dos dez mandamentos que “rende” alguma coisa. Todos os outros são “faz isso, não faz aquilo” e pronto. Este é “honra teu pai e tua mãe e teus dias serão longos sobre a terra”. Láááá no Deuteronômio, depois você lê pra conferir.
E a moça grávida era fisioterapeuta e tá no oitavo mês.
E o missionário lá. Iesucristu, beaelkalnasbe bbebamn euebama uebuba Iesucristu.
Bem. Depois de comer uma janta pra lá de salgada no trem, uma coisa incrivelmente MUITO salgada mesmo, o trem chegou em 40 minutos em Bangalore. Era veggie dal com chapatti.
Eu fui a única pessoa que guentou comer, todo mundo da minha cabine e do lado jogou um tanto fora. Eu não, porque é feio jogar comida fora. Ainda mais quando se paga 37 rupias por ela.
Vim pra cá, desempacotei minhas bugingangas (posto aqui uma foto da galera) e depois fui no mercado comprar biscoito, pão, requeijão... essas coisa, né?
E uma toalha de banho tb. Pq na Índia, minha gente, não se emprestam toalhas. E foi muito custoso enxugar ao longo desses 10 dias com a toalhinha de mão. Então agora ficam as duas, assim uma estará sempre seca à espera da viagem.
Comprei também uma mochila enorme ate com rodinhas, quase uma mala mesmo. Meia mala daquela q eu trouxe do Brasil. É que ela quebrou, e eu viajei usando duas mochilas, o que não foi nada prático, tinha que ficar olhando me estressando, nhenhenhe. Aqui você põe um cadeado no trem da sua mala no seu banco. Mas e quando se tem duas mochilas, que não cbem embaixo do banco? Bem, aí vc pendura uma delas em cima de você no ganchinho do beliche e viaja caquele trem balançando em volta de você, e morrendo de medo de ela cair e quebrar tudo!
Aí essa malinha queeu comprei é to tamanho indianoi pra caber embaixo do banco. Feita especificamente pra isso!
Meu amigaço árabe/kashmir de madurai me mandou uma mensagem desejando que eu tivesse feito boa viagem. Que bonitinho!
E de tarde eu resolvi  uma coisa que por increça que parível foi ficando grave! calcanhar rachado!
O meu direito estava tão rachado que doía, e sangrou uma vez em Shembaganur. Enfiei o pé na água ontem de noite por meia hora, e consegui arrancar placas de pele morta com a unha. Coisa incrível.
Aí fui no mercado, comprei um creme védico para pés, um negócio que parece um ralador de queijo e uma dessas lixas que eu sempre roubava da Aninha ou da Cecília. Não roubava da Barbara pq ela, no caso, também roubava de alguma das duas fornecedoras. Coisa de grupo B.
Enfiei o pe na água por uns quinze minutos e lixei. Meia hora cada pé. Ficou lindo!!! e saiu muita pele morta mesmo. Cornos! Mas é normal... Porque a gente aqui anda muito! Aí acaba calejando mesmo.
Somando a isso o fato de a Aninha ter casado há uns dois anos e levado embora meu suprimento de lixas podais, fazia beeem muito tempo que não lixava, né!! Mas agora já tenho meu póprio equipamento!
Varri, passei um pano, talz. Casa limpa e cheirosa...
Ah é! Uma coisa muito importante!!
Meus nós dos dedos ralaram outro dia, de tanto lavar roupa, lá em Kodaikanal. Fiquei pensando nas mãos das mães e pais do Brasil.
Que coisa.
Ter filho/marido/esposa é dar o sangue mesmo, inclusive fisicamente, lavando roupa.
E não venha me falar de máquina! 
Máquina é pus fraco.

Ganesh, filho de Meenakshi (que é uma das formas de Parvati) com Shiva.

Kirshna, irmão de Parvati, que deu a mão dela a Shiva,
seu companheiro com Brahma na Trimurti, a "Trindade Hinduísta".
Krishna é uma encarnação (Avatar) de Vishnu, o Deus da manutenção da ordem cósmica.

Meenakshi, esposa de Shiva, Deusa da terra, da fecundidade.
É uma das formas de Parvati.
Repare que ela usa uma cordinha transversal no tronco: Ela é brâmane!

Shiva Nataraja - o senhor da dança, esposo de Parvati.
Shiva é um Deus que raramente encarna.
Ele desce à terra em sua forma divina, mesmo.
Os seus avatares costumam ser terríveis, como monstros.
Aqui, ele dança em frente a Samsara (a roda de mortes, colocada ali atrás, tá vendo?)
e assim derrota o demônio Apasmara, desordeiro terrível. Em sua dança,
Shiva reorganiza o balanço do Universo.
Ele tem essa cara relaxada porque não é apaixonado, é equilibrado.
Nata - Dança. Raja - Senhor.
De onde vem, por exemplo, Maharaja - Marajá:
Mahal - Palácio. Rajá- Senhor.
Maharaja - Rei!
(o Senhor que mora no palácio).
Mas chega de aula de sânscrito hoje.

Tuesday, June 19, 2012


Olá, pessoal! Vou contar conforme descobri:
Há muito tempo atrás, houve uma querela nos céus.
Indra, deus responsável pela atmosfera, matou um demônio. Mas sabe, não se deve matar ninguém. Por isso, Shiva o expulsou do céu.
Ele caiu no meio de uma floresta e chorou e chorou de saudade de Deus (ou Shiva, como preferir).
Aí decidiu descobrir quem era o dono, o deus principal daquela floresta, para pedir-lhe ajuda. Com o tempo, láááááá no meiozão da floresta, encontrou um Shiva Lingam, e acabou descobrindo que, por sorte (ou azar) o Deus daquela floresta era Shiva mesmo.
Então honrou aquela imagem de Deus, e convidou as pessoas a fazerem o mesmo. Com o tempo, Shiva recebeu tantas orações que acabou considerando o pecado de Indra perdoado, e o readmitiu aos céus.
Então um dos reis dos homens descobriu (não me perguntem como) toda a história e acabou encontrando o Lingam no meio da terra, e em volta dele construiu um templo, há quatro mil anos.
Era um tempo de madeira.
Muuuuuito tempo depois, 2900 pra ser mais preciso, chegaram bárbaros monotéistas do norte e queimaram o templo, para destruir a divindade.
Mas não resolveu nada, porque o Lingam era de pedra. Por isso, estes tais guerreiros, liderados por um dos descendentes do principal profeta deles, um tal de Muhammad, construíram eles mesmos o seu templo, que chamam de "mesquita". O deus que lá é cultuado é chamado de Allah, e não de Shiva.
E os reis do lugar resolveram reconstruir o templo em torno do mesmo altar de Shiva, agora em Pedra. E fizeram também um santuário para a sua esposa, Meenatshi, para que o Deus ficasse mais feliz. 
Como as mulheres é que mandam na casa, Meenatshi por fim ganhou mais importância que  Shiva naquela casa de oração, e por isto entra-se pelo lado dela, saúda-se ela primeiro, e depois se vai ao marido, muito embora ele seja o real onipotente local. Fizeram uma torre de pedra bem maneira pra poder enfeitar o templo. E outra. E outra. E outra. E outra. Cinco no total, construídas ao longo dos últimos 1200 anos, representando 33 milhões de divindades. Isso mesmo! 33 milhões! Seja nas torres seja nos pilares de pedra do templo (não existem dois iguais), se você tiver paciência pra contar, você vai achar os 33 milhões.
Eventualmente, um italiano veio pra cá e causou a maior confusão. Trouxe mais um Deus, como se não houvessem suficientes.
Na verdade, descobriram que era o mesmo Deus que morava na mesquita branca e linda. Mas por algum motivo daqui que ninguém conseguia entender, eles brigavam entre si. Ele se vestiu com as roupas de todo mundo, e foi conversar com o rei, que naquela época estava construindo um palácio novo. O rei deixou que ele fizesse outro templo, praquele Deus novo. E até deu terras pra ele.
E, depois de mais 400 anos, um moço do Brasil veio aqui, pra ver do que se tratava. O itinerário que ele fez foi por ordem de novidade. Foi pra lugares cada vez mais velhos!
Saiu do templo construído pelos discípulos do italiano. Ele tá hospedado lá.

Passeou pelo palácio do rei, tomou bênça dele no trono
Erguido pelo Rei Perumal Nayk, no ano de 1636.







Foi na mesquita, fez lá uma reza.

Erguida no século X por um tataraneto do Maomé, vindo de Omã.

Foi no templo, jogou uma cinza na cabeça do Ganesh.

Shiva Lingam, aquela preta láááá no fundo. 4 mil anos de idade . Coisatôa.

As cinco torres do templo e mais outras torres de outros templos


Torre do ano 800.

E ali, pertinho do templo, fui na loja de um Kashmir que achou que ele fosse também kashmir.
Conversaram sobre os desezinhos que o kashmir vendia.
Descobriram-se um cristão e um muçulmano. Conversaram sobre a Bíblia e o Corão.
Os muçulmanos devem, por dever de fé, crer e ler a Bíblia, se puderem.
Os cristãos não. São um pouco mais auto-suficientes e têm medo de ler o Corão. Mas o moço do Brasil leu.
Ele comprou Ganesh, Krishna, Shiva e Parvati. E também peças de seda e lã de cabrito pras pessoas que ele gosta no Brasil. Comprou também um tapete que muda de cor dependendo do ângulo da luz,  até conheceu o tapeceiro que fez!

E, conversando com o moço muçulmano sobre o Deus em comum deles que o italiano não soube entender, ganhou no final um caminho de mesa de presente, um abraço, o email do moço kashmir e um convite insistente para voltar e almoçarem juntos comida kashmir. Até trocaram celulares. Ele lembra muito um primo do moço brasileiro. 

Jan Moovon

Na volta, o moço foi pra trás da igreja de riquixá, desses puxados por gente! 




O riquixêro.
Dei a ele mil rúpias, pq os outros de Bangalore não fazer força nenhuma e cobram 100...
E eles não dão preço aqui em Tamil Nadu, você pode dar um lance inicial.
E jantou e pensou e escreveu. E deve tá dormindo a uma hora dessas.

Monday, June 18, 2012

Ontem de noite eu fui apresentado pos padre, né.
E um deles se ofereceu pra me levar na Arul Anandam College, que é de Ciências Humanas.
O sobrinho dele é o diretor do Departamento de História e fez o Doutorado justamente no Roberto Nobili e companhia limitada.
Topei na hora, claro. Combinamos 9 e meia.
Oito e quinze da manhã ele me aparece na porta e diz: Vamos das nove e quinze?
Claaaaaaro!!!
Depois de 5 minutos, apareceu.
"Olha, vamos 9 horas. E ele pediu pra vc dar uma palestrinha sobre o Brasil."
Eta trem, hein! Tive meia hora pra preparar.
Falei de improviso, sobre coisas mais básicas, pq ninguém sabe absolutamente nada. Fomos de moto. Quarenta minutos no meio da doideira completa!!! Sem capacete, sem nada. Principalmente, sem eira nem beira.
Dei minha palestinha, falei sobre as línguas, sobre os povos indígenas (eles acham que fala-se portugues ou ingles), sobre a economia, o mais basicão...
Bem, depois conversei com os pessuau do departamento de história. O diretor realmente manja bastante coisa da história toda, e a tese dele é linda. Até peguei uma cópia!
Depois ele nos convidou pra almoçar na casa dele. Comi carne de bode, inclusive o fígado. Não se iluda... DELÍCIA!!!!
Ruim foi a coalhada com água. Sem açúcar nem nada.
E uma frutinha meio granulada que parece jaca. Sombha. Boa... boa... boa mesmo!
Depois do almoço, e da conversa e de não sei mais o que, era 16:15 já.
Aí eu vim embora, né!
Na moto do padre penossíssimo! vou tacar uma foto dele aqui, ó!
Esse penoso serzinho, agora aposentado, era o padre dos refugiados da guerra do Sri Lanka...



E amanhã eu ponho fotos da cidade, dos templos e talz.
E chega, que hj to com muito pigriça.


Sunday, June 17, 2012


Pessoal, hoje vivi uma aventura.
Peguei um ônibus em Kodaikanal, a uns 6 km do seminário, de vim pra Madurai, a 120km mais ou menos.
Agora… peeeense!!! peeense num 532!!
Agora tira a porta dele!
Agora adicione uma confusão!
Criança gritando, um senhorzinho vomitando pela porta (inexistente) na estrada, um muçulmano do seu lado honradíssimo por ser cumprimentado com "Asalam Aleikon", uma secretária da escola internacional de Kodaikanal com um inglês absolutamente perfeito e envergonhador, que dá informações sobre tudo na estrada…
Agora substitua o muçulmano por um senhorzinho peidolhão!
E de novo, substitua e coloque um outro moço que não fala inglês (igual aos anteriores) mas que ri o tempo todo pra você, e te cumprimenta com Namaskaram Swami. (acho que tá escrito na minha testa assim: doutorando, ou ele ouviu eu falando I am on PhD pra senhorinha da direita).
Agora sacuda o ônibus por todo o percurso.
Isso mesmo! A criança gritalhona cairá e gritará no seu ouvido, o vômito do senhorzinho (tadiiiinho!!!) vai espirrar pra dentro da escada, você cai em cima da secretária, o muçulmano cai em cima de vc dizendo "sorry brother"… Coisa linda! Deliciosa! Sério: depois de uns 20 km, passado o susto, comecei a adorar o percurso!
Paisagens maravilhosas, dos east ghats! Montanhas enoooooormes! e um campo de arroz láááááá embaixo, ao lado de uma represa.
E, nesta parada no mirante, todo mundo se sentindo autorizado a ir pelo caminhozinho e dar uma cagada no meio do mato, ou mijar! Eu também fui lá fazer um pips, no meio do mato. Claaaaro!!!
E outras pessoas enquanto isso tomam água de côco, inclusive o senhorzinho, que com mais motion, tem outra motion sickness e vomita a água de côco!
Antes disso, quase perca o ônibus, pra tudo ficar mais legal!
E mande uma mensagem pro reitor de Madurai dizendo que está chegando.
Ele responderá "Welcome".
E quando você chegar, você ilustríssimo "Scholar from Brazil who is studying Tattuvapogara Swami" (conhecido nas bocada como Roberto Nobili, fundador desta casa), seu nome estará no quadro de avisos escrito "Welcome! Mr Julio Eduardo S R Simões", e o seu quarto é….
Provavelmente o melhor da casa, que é o do Provincial.
Três ventiladores (um exagero absurdo), colchão de mola de madeira (o de Kodaikanal era uma cama de tábua. Tábua mesmo, no duro. E o travesseiro devia ser de pedra), banheiro com água quente e fria ,chuveiro, uma mesa de gente importante (dessas enormes com um vidro por cima cheeeia de gavetinhas chaveadas), enfim… uma coisa linda!!! Posto fotos amanhã, pq existe um processo para fazê-lo que não estou lá muito disposto agora. Eu sacudi sem parar por 120 km, me dá um desconto.
E ponha todo mundo ao seu redor, perguntando coisas, querendo te levar nos lugares. O superior de Oryur aparece e te convida pra ir lá. Vc diz que tem que voltar pra Bangalore e que possivelmente seu irmão vai vir te visitar e por isso não sabe se vai poder ir e tal e ele responde "venham vocês dois!".
E incrível: nas conversas, conclua que está valendo a pena: você se tornou capaz de contar pros donos e discípulos do Tattuvapogara Swami coisas que eles não sabem. 
Ai, como eu tô bandida!!!

Saturday, June 16, 2012

Tu me amaste primeiro, e como um relâmpago, consumiste meu coração.
Eu, pobre e pequeno, vaguei noites a fio a procura de uma resposta
mas ocorreu-me no tempo oportuno que a resposta era a sua companhia
da qual fugi, mergulhando no breu do mundo.

Perdi minha fala, deste-me outra.
Esqueci minha casa, construiu-me abrigo.
Encantei-me com o outro, descobri-te o mesmo.
Fui a um casamento, pediste-me a mão.

Eu te disse sim, amado. Eu te digo sim.
Meu sim é maior que eu mesmo, maior que minhas realizações
maior que minha fome, que sacias em tua grande mesa.

E eu, que mal tenho coragem de olhar-te nos olhos
estendo em minha alma, sobre o meu altar, uma toalha e espero
que me faças digno de ter o direito de obedecer-te.

Friday, June 15, 2012




Lendo, lendo, lendo.
Ler, pensar, rezar, tudo isso faz mal pra cabeça. Amar então... ui, que dor!
Recentemente, escolhi um vocativo pra mim mesmo.
Princeso.
É que não existem estórias sobre príncipes encantados, e eu me sinto encantado. Mas não aceito ser um mero Julim encantado. Falta glamour. Então, princeso, que assim incluo o que eu sou e o que me sinto. Menino do sexo masculino e mesmo assim à espera de um príncipe, um Salvador.
Bem, mas se por um lado faz mal, por outros nos enche de percepções e aumenta nossa compreensão.
Eu não entendia  Teresinha do Menino Jesus, essa doida, que queria ser sacerdote, missionária, doutora, mártir, santa... que coisa mais estranha.
Mas aí eu fui lembrando que quando eu fui no Convento da Tia Mariarosa eu fiquei querendo ser Freiro. Padre não. Padre me parecia uma coisa muito chata e seca.  Queria ser freiro.
Igual eu sou princeso.
Mas enfim... só consigo ser freiro dentro de mim mesmo, porque não existem freiros nisso que chamam de mundo real (mas que cá pra nós, de real não tem nada!)
Aqui, lendo esses diários, fiquei pensando: que desperdício. Que pessoal louco. Vir pro fim do mundo, pro alto dos morro frio da Índia pra morrer, igual o João de Brito, que morreu de morte matada. Ou o padre Saulière, que morreu de morte morrida, mesmo, outro dia mesmo. Em 1967. Ele fez uns bizu aqui, era botânico, descobriu umas planta nos mato aqui em volta...
Enfim.
Desperdício.
E que desperdício igualmente enorme de Roberto Nobili Conde de Nápoles com a Marquesa Sforza, que tiveram um filho que mandaram pra escola e que acabou virando padre. E fez o noviciado no navio a caminho da Índia, tendo renunciado antes ao cargo em favor do Vicenzo Nobili, que era só um menino.
Padre Roberto Nobili era o Júnior. Era o filhinho querido da mamãe e do papai. E desperdiçou uma inteligência ímpar comendo arroz uma vez por dia, vestido de laranja sentado numa almofada esquisita no meio de Madurai.
E esses moços aqui, hoje? Prakash, Peter, Martin, Janegathan, Iriairajaj. Moços novos. Tudos padres. E a minha mãe e meu pai? Desperdiçaram a vida inteira um com o outro. E o Marcello e a Fabiana. E o Robert e a Barbara.
Eta.
A vida é, todo dia, um parto. Tem dia que a gente acorda querendo ser princeso. E freiro. E pai. E matemático. E biólogo, e teólogo. E querendo saber tamil, e nheengatu.
E o parto é sair da segurança do sonho e abraçar a dureza e a dor da realidade, que significa sempre abrir mão de todo o resto.
E agora?
Entendo perfeitamente a Teresinha.
Ter de escolher é uma coisa triste, mas alegre, claro.
Mas ainda bem que, mesmo que a gente escolha alguma coisa, a gente pelo menos pode querer tudo ao mesmo tempo.
A vontade é livre.
A escolha, não.
Bem... Teresinha do Menino Jesus, agora somos amigos.

Thursday, June 14, 2012

Give me your heart and Iĺl love beyond my own, beyond my soul, beyond my fear.

Let me hear you call and I shall go, beyond our love to the ones you know.

If I just knew you, I wouldn't be under these shadows that surround me so.

Without any prepare you dwelt my soul.  I shall go.

I took your advice and love you so, beyond my fear.

Shall we dance, my beautiful night?

Wednesday, June 13, 2012

Eu, pequena flor diurna, ouvi passos em meio a escuridão.
Neguei-me no entanto a mostrar pétalas ou exalar perfume, preferindo a covardia dos inaptos.
Passos largos, pesados. Mais próximos. À porta.
Abre-te, florzinha minha. Abre-te, amada.

Tímida, mostrei o canto da pétala mais queimada, desprovida de qualquer coloração.
É minha pétala preferida!
Susto. Medo. Noite. A porta estremeceu à batida de seus cabelos.
Minhas pétalas, a porta. Fechada.

Oração sem sujeito... só predicado. Medo é isso, predicativo de sujeito inexistente.
Terror. Lágrima. A porta.
Em um estupro de minha desvalia, bravamente abri um olho.

Luz à porta. Calor, neste frio alívio.
Fogo.
O Sol bateu à minha porta, e vencido o medo, bailamos nossas núpcias.

Tuesday, June 12, 2012

Oi!
Ontem eu não publiquei porque não tinha acesso a internet. Na verdade, tinha, mas longe do quarto!  E aqui é graaaaaaande pra caramba.
Tem duas redes sem fio aqui (que é uma faculdade de fisolofia dos jesuítas e onde fica o arquivo que estou consultando, detalhes mais à frente), e me deram a senha justamente da que não pega no bloco onde fica o quarto que me deram. A rede que pega, não me deram senha!
E, até há uns 20 minutos atrás, o 3g tb não funcionava! Resolveu funcionar de repente. Acho que é a reconfiguração de Roaming ou sei lá.
Pra auxiliar, o padre Fulano (esqueci o nome dele), que é o tesoureiro da casa, me deu de manhã um cabo (que só funciona no Ananias) e me pediu pra não usar a internet que me deram a senha. E que não ia me dar a senha da sem fio que pego do quarto. E que era pra eu usar o cabo direto no roteador.
Gente, que diferença faz? Direto no roteador ou pelo sinal sem fio, é a mesma rede!! Mas não. Tinha que consultar o superior, que não estava aqui. Ou seja... voto de obediência. Talvez misturado com algum outro voto pessoal de exclusão de todo e qualquer pensamento lógico. Maaaas, tudo bem.
Consegui instalar Skype no Ananias, então vou usar ele lá na salinha onde fica o roteador no meio da noite. Pedi permissão para usar, me deram. Então no meio dia do Brasil (oito e meia da noite aqui) eu vou lá e fico lá uma hora, acho.
Falando agora sobre o lugar aqui, o Sacred Heart College: é lindo!!! Está no distrito de Shembaganur, que  está por sua vez no município de Koidakanal. E a incríveis oitenta quilômetros da estação de trem mais próxima. Na estação de Koidakanal Road (que é a 86 km de Koidakanal, já que daqui lá são 6km), tive uma grande emoção: Li pela primeira vez na vida um placa em tâmil!! Estava escrito, insuspeitamente, Koidakanal Road. Ou seja, கொடைக்கானல் ரோடு. Mas sem essas bolinhas que o Google Chrome idiota está colocando, ok? Abstrai.
Bem, peguei um táxi e vim pra cá. 50 pau, o táxi. Caro, porém barato. 50 km, gente. Em Juiz de Fora, 50 reais provavelmente dariam pra ir de São Pedro a Benfica, no máximo. Aqui fui muito bem recebido pelo Ministro (que é um cargo que toda casa jesuíta tem) e fui informado de coisas interessantes.
"Coloque o lixo na caixa de madeira com cadeado, porque os macacos pegam ele." Ahhh, tá...
"As telas na janela são por conta dos macacos" Aham.
"Pode andar de dhoti (que é uma saia) pela casa, mas não vá ao refeitório de saia" Beleza. Em Bangalore pode. Sim eu tenho uma saia. Não, não vou colocar foto tão cedo. Vergonha do zoto. Sei lá quem lê isso aqui? Nas estatísticas aparece que gente dos EUA, Paraguai e Alemanha lê meu blog. Por sinal, me ofereceram de botar umas propaganda aí, preu ganhar um jabá.  De vez em quando clica em alguma aí, faiz favô.
Peculiares, as regras. No mínimo.
Bem, o diretor do arquivo histórico chegou na hora do almoço (eu cheguei aqui 9 horas) e as tres ele me levou pra ver o acervo. Me pôs na mão folhas de palmeira com textos em tâmil. Não são usadas mais desde o século XVIII. Ou seja, devem ter uns 300 anos pelo menos.
Depois, uma cópia manuscrita da tradução original em português arcaico do catecismo em língua tamul do padre Roberto Nobili, feita pelo seu secretário / discípulo em 1661. Tem trechos bacanas, tipo 
"Este mysterio de malde opera ja o monstro inhumano do Herege Holandes, cujo orgulho, e soberba Luçiferina sopea neste estado de V. Mgde. o sagrado, profanando templos, e rendendo praças". 
Este é um acréscimo do Baltasar da Costa, o tal discípulo de Nobili, em uma introdução que colocou puxando o saco do "Muy Grande e muy Poderoso El-Rey Affonso VI de Portugal e cia." A batata dos jesuítas já estava assando aqui na Índia em 1610, e os adeptos do padroado acusavam o Nobili de ser muito bonzinho com os indianos, deixando eles ter cultura. Nada de cultura, senhor Nobili. O negócio é todo mundo ser portuguesão, ok?
Bem, é um texto muito bacana, e o mais importante: fonte. É um texto traduzido diretamente do original na época dos acontecimentos. A primeira parte trata da natureza de Deus, que Nobili desenvolve a partir das Escrituras. Bíblia? também. O grosso é Vedas e Ágamas. Esta é a beleza do approach do Nobili.
A casa em si é de 1895, feita em estilo francês (porque os padres que vieram pra Índia no século XIX eram franceses) e em madeira. As colunas são de alvenaria (nada de concreto), algumas paredes também. Mas a maior parte é madeira. Deus proteja o chão dos cupins, por favor. Quando a gente anda no terceiro andar, o telhado inteiro range. Será que vou ser premiado com um tombaço? Espero que não.
Aqui, a toda hora, tomam água morna. A temperatura não passou nesses dois dias de 20 graus, e chegou a dez. Estamos no verão indiano. Em Bangalore, 35 graus direto. Mas aqui está a 2150 metros de altitude, o dobro de Bangalore e mais um golim, já que lá é 1000 metros.
Aqui encontrei indianos de tudo que é canto e um Dominicano. Ou seja, da República Dominicana. Falei com ele em espanhol, e parece que as conversas com o Marco ajudaram mesmo, porque ele disse que tô enganando bem! Discutimos um pouco de teologia sistemática. É bom porque minha tese é tão complicada que nem eu sei o que é. Mas é sobre os jesuítas do século XVII que viveram aqui, e cujos textos foram postos na minha mão.
Bom, e aí é isso. Vou colocar umas fotos aí embaixo, e pronto. Acho que falam mais.
E batam palmas pra elas, porque me esforcei muito para que ficassem boas. Sou péssimo fotógrafo!!

Vim aqui pra isso.

Continuo aqui por Ele

Frente do College

João de Brito. Morreu aqui perto, teve a cabeça decepada. Por isso o ramo (símbolo dos mártires) e a espada (tipo de morte que teve)

As macadada onipresente, fazendo macaquices. No caso, são macacos Rhesus, os que foram usados como cobaias no estudo sobre o fator Rh (e que por isso chama Rh. Rh de Rhesus.) Gênero Macaca, se não me engano.

Panorama do terceiro andar, fundos




Sunday, June 10, 2012



Hoje estou me sentindo assim... assim... indiano!
No exato momento, escrevo de dentro do trem, indo para MADURAI (e não Goa, como tem sido divulgado à meia boca) para ficar lá por dez dias.
Na verdade, pego amanhã mesmo um ônibus para Shembaganur, distrito de Kodaikanal, onde tem o Sacred Heart College, onde os arquivos históricos dos jesuítas de Madurai estão localizados.
Roberto Nobili chegou a Madurai no ano de 1607, e ficou abismado pelo fato de não haverem conversões lá.
Desde aquela época, e na verdade desde antes, Madurai é conhecida como “Atenas do Oriente”, porque é o berço ou lugar de divulgação de muitos pensamentos ou pensadores.
A coisa toda de não haverem conversões era o medo que os portugueses, que patrocinavam a missão, causavam. Eram selvagens. Comiam carne, se relacionavam com muitas mulheres, faziam comércio... não tinham medo de pegar no pesado! Como poderiam ser considerados civilizados? Eram tidos como absolutamente selvagens e imerecedores de qualquer atenção da parte dos pensadores que moravam em Madurai. E eles eram maioria. Na verdade, até mesmo os servos dos professores eram eles mesmos brâmanes, alunos em formação.
Até hoje, os “estudados” indianos se gabam desta escravidão. Outro dia desses um padre me perguntou como eu fazia quando a cantina fechava, e eu disse que cozinhava. Ele disse “não precisamos cozinhar aqui, porque temos servos”. Sim, a palavra que ele usou foi “servants” que se não me engano, tem somente a acepção de servo mesmo. São os sudras. Condenados a servir. E algozes dos mestres, que por conta desta cultura de servidão, nunca se tornam independentes tampouco.
Mas estou me achando indiano porque recebi a confirmação da passagem na última hora, como convém aqui nesta pequena latitude norte, e arrumei tudo em menos de meia hora. Lavei as vasilhas, guardei todas dentro dos potes, guardei os livros, as roupas que estavam espalhadas, joguei um desinfetante no banheiro. E taquei tudo na mochila. Ananias, Ananão, roupas, dongles etc etc. E fui pra estação assim sem eira nem beira, sem papel nenhum!
Cheguei lá e achei a plataforma de primeira. Um lugar extremamente mal frequentado, me pareceu a estação. Cheiro muito ruim, de cocô. E de xixi. E muitos pedintes e etc. Ninguém se importa. Depois, entrei no trem, achei meu lugar... moleza. Um beliche. Somos quatro dentro da cabine, em teoria. Na prática, estamos apenas três. Aí conversamos, lemos, mexemos nos computadores. Passo despercebido. Se assustaram quando peguei o passaporte para o inspetor. “Você não é indiano? Mas até tem um pouco de sotaque! Achamos que fosse do Norte”. É, sempre tive facilidade pra macaquear sotaque alheio. O trem é bacana. Dá pra olhar o mundo pela janela, muito embora o ar condicionado delicioso e suave. Limpo. Tem comida. BELEZA!!!
De manhã, pedi muito a Deus que não morresse de medo. É que a última viagem que fiz foi traumática! Estava mesmo com medo! Ah, é. Foi pra cá. E, na hora de sair, mais pedição. Conversamos, parece que Ele me deu mesmo tranquilidade. Meu maior medo era ter dor de barriga e ter de ir no banheiro aqui no trem. Medo. Medo disso. Que coisa boba.
Acordei cedo hoje, e fiz um vídeo bacana pra mandar pro JUDAC dos véio, eu que sou da equipe ultra-externa de intercessão. Mas o vídeo ficou com 250 MB. Reduzi para 50MB, mas não consegui upar pro youtube. A banda de upload não está lá essas coisas. Não tem problema. Em Setembro eu falo tudo pessoalmente... Ou talvez coloque no facebook, sei lá.
Bem, exatamente agora o senhorzinho mais idoso aqui foi se deitar, numa clara indicação indireta (ele está falando “it's ok, it's ok” pra mim aqui) de que o pessoal dorme mesmo. Não é encontro de igreja, com todo mundo conversando sem parar até as 4.
Queria terminar dizendo que quando comunguei na missa, encerrando minha oração de três dias pelo Judac, participei do olhar dele sobre o Ceflã. Ele abriu seus braços bonitos e abraçou todos. Eu fui abraçado junto. Uma parte de mim ficou com vocês, e por favor não me devolvam, porque eu vo-la dei.
Um queijo e um beijo grande.
E, a quem interessar possa, recomendo ouvir isso aqui: http://www.youtube.com/watch?v=2jn8tRVGErg
Aviso... forte sotaque português. Sim, eu escuto música portuguesa. Muita. Escuto de tudo um pouco, e muito! Menos as músicas que eu tenho de aprender, claro. Essas não têm graça.
Namaskaram!

Friday, June 08, 2012

Os dias se fizeram semanas.
Semanas, meses.
Na verdade, não se fizeram coisa nenhuma.
Continuou cada dia sendo só um dia e cada semana sendo só cada semana.
E cada mês, cada mês.
É que a cada manhã, tudo se renova, e os dias nascem ignorando o passado.
Os filhos fazem a mesma coisa! E os pintinhos.
Tudo que nasce, ignora.
Nunca vi, acho que nunca verei.
O quê, nem sei.

Thursday, June 07, 2012



Hoje é a festa do Corpo de Cristo. Para nós, cristãos católicos, pensar o Corpo de Cristo nos remete imediatamente à categoria da Eucaristia. Mas isto é suficiente? Numa festa como esta, acho que cabem três perguntas:

  1. O que é Cristo?
  2. Cristo tem corpo?
  3. Como é o corpo de Cristo?

Cristo significa “o ungido” em grego. Na verdade, é a tradução para grego do hebraico Messias, que soa como “Maxiáh”. Cristo soa como “Khrísthos”. Este H é um sopro que você põe na sílaba, e o th é o mesmo do inglês, com a língua no dente como em “through”. Note que a própria sonoridade da palavra nos remete a um vento, uma coisa para além da concretude meramente histórica.
Cristo é a nossa aspiração, por isto a palavra sobre ele é aspirada, soprada. Aspiração não é pra dentro, aqui neste caso. É o ventinho que sai de dentro da gente pra fora. E é chamado de aspiração, curiosamente, mesmo sendo pra fora.
Cristo é algo que a gente aspira, que a gente deseja, mas deseja não para dentro, mas para fora. Para além de si.

A pessoa histórica de Jesus não se chamava Jesus Cristo. Cristo não é o sobrenome de Jesus. Como o bar-Timeu ou o Shimon bar-Yonah, Jesus provavelmente era conhecido como Yehoshua bar-Youssef, ou na opinião especialmente de Lucas, Yehoshua bar-Myriã. Ou seja, Jesus filho de José ou Jesus filho de Maria. O filho de Timeu, aquele cego, é alguém de quem não sabemos o nome, e isto é inclusive de suma importância para entender a passagem que conta a sua história. E o Simão filho de Jonas é um dos Doze, conhecido nas bocada como Pedro. Claro, impossível esquecer de outro caso, o de bar-Talmay; o Bartolomeu. Outro sem-nome. Yehoshua bar-Youssef, Mashiah. Jesus filho de José, o Messias. Devia ser assim que os antigos o chamavam.

Depois, quando decidiu-se falar aos povos de língua grega, não fazia mais sentido dizer de José, porque ninguém saberia quem era. Ficou sendo Iesous Khristhos; daí o nome “Jesus Cristo” que entrou para a posteridade. E o correto seria chamá-lo de Jesus, o Ungido.

Então tá. Cristo=Khristos=Mashiah=Ungido. Mas todo mundo é ungido! O ungido é que é a questão. A língua hebraica não conhece o artigo definido. Então não é corqué-coisa Mashiah, mas Mashiah. Como decidir se este ungido é mais um entre muitos ou O ungido?
Ao longo da história, as seguintes figuras judias já foram proclamadas como sendo O ungido:

          Teudas (44-46) na província da Judéia;
          Menahem ben Judá participante na revolta contra Agripa II
          Simon bar Kokhba (morto em 135 d.C.)
          Moisés de Creta (século V)
          Abraham Abulafia (nascido em 1240 )
          Nissim ben Abraham (cerca de 1295)
          Isaac Luria (15341572), notável cabalista
          Sabbatai Zevi (1626 - 1676)
          Barukhia Russo (Osman Baba), sucessor de Sabbatai Zevi
          Jacob Querido (morto em 1690), dizia ser a reencarnação de Sabbatai Zevi.
          Israel ben Eliezer (1698 - 1760), conhecido como Baal Shem Tov, fundador do hassidismo
          Menachem Mendel Schneerson (1902 -1994)
          Jesus filho de José e de Maria (6a.C.-˜33d.C)

Claro, sem contar os que foram, dentro do Cristianismo, proclamados como uma espécie de novo messias, às vezes até mesmo no sentido de reencarnação de Jesus Cristo:

          Aldebert (século VIII)
    Tanchelm da Antuérpia (c. 1110)
    Ann Lee (1736-1784)
    Hong Xiuquan (1812-1864), clamava ser o irmão mais jovem de Jesus.
    Haile Selassie (1892-1975), messias do Movimento do Rastafari.
    Sun Myung Moon (1920-), fundador da Igreja da Unificação.
    David Koresh (1959-1993).
    Jacobina Mentz Maurer (1841-1874)
    Maria Devi Christos (1960-), fundadora da Grande Irmandade Branca.
    Inri Cristo (1948-), brasileiro que se proclama a reencarnação de Jesus Cristo.
    Matayoshi Mitsuo, autoproclamado messias japonês que concorreu para a Câmara dos Deputados do Japão com o nome "Jesus Cristo". Recebeu sete mil votos e não se elegeu.
    José Luis de Jesus Miranda - fundador da "Creciendo en Gracia" auto-proclamado "Jesus Cristo Hombre".

E isto sem contar os profetas e reis de Israel, que como recebiam Unção para o cargo, eram também, muito justamente, chamados de Messias.
E aí? Quais são os qualificativos deste tal Jesus filho de José, para que ele seja O Ungido, que a gente tem certeza de que não é outro? Ou melhor, que os outros são apenas ungidos mas não O?
Bem, para ser um Messias, um Ungido, o candidato precisa atender alguns pré-requisitos:

a) crer em Deus. (todos da lista passaram)
b) ter projetos de libertação. (idem)
c) criticar a religião organizada, em favor da experiencial, como os profetas. (metade já caiu. A maior parte dos Messias posteriores a Jesus de José organizaram cultos em torno de si, em atitudes anti proféticas. O profeta sempre aponta para além de si.)
d) ser capaz de governança, como é o caso dos reis (agora caíram mais alguns. Trata-se de capacidade de gerência de pessoal, muitas vezes divergente, em um mesmo projeto comum. Política propriamente dita, em sua forma mais nobre. Muitos aqui só aceitavam como discípulos determinados círculos de pessoas, demonstrando incapacidade de gerir diferenças)

E para ser O ungido, o que a pessoa precisaria ter? Simples: a capacidade de realizar em sua própria pessoa todas as quatro coisas relacionadas acima, e de maneira total e definitiva, de modo que se torne automaticamente necessário qualquer outro Messias, pois tudo já estaria solucionado. Portanto, O messias precisaria de ter um poder divino pessoal. Todos clamam sobre si este poder na lista acima. E é impossível provar que Jesus fosse Deus. De verdade. O máximo que a gente pode admitir é que os que conviveram mais de perto com Ele atestavam isto, como é o caso de João em seu Evangelho e de Paulo, que convoca todos a adorar “O nosso grande Deus e Senhor Jesus Cristo”.

Aqui muita gente implica e diz que Paulo comeu um artigo, o hó, artigo definido grego, e que a frase seria “o nosso Grande Deus e o Senhor Jesus Cristo”. Mas isso não faz muito sentido, pois no início da frase o autor demonstra conhecer o artigo definido. E além disto, estamos falando de Paulo, que foi discípulo de Gamaliel e que deu nó em pingo d'água a vida toda, com uma capacidade de verbalização (vide suas pregações) fora do comum. Era definitivamente alguém que se expressava muito bem em grego, portanto não faz sentido pensar que ele cometeria um lapso tão grande. Como não faz sentido pensar que algum copista tenha decidido omitir o artigo. A carta de Paulo não foi copiada uma só vez. Precisaríamos admitir que muitos copistas e tradutores para muitas línguas em muitas épocas combinaram de maneira telepática entre si de todos omitirem o artigo e assim gerar uma interpretação que conviesse a todos. E esse todos seria em uma época histórica onde já existiam disputas de poder dentro da igreja. Portanto, todo mundo estaria unido em torno de uma causa comum que simplesmente não existia.

Bem, então estabeleçamos isto: Os mais próximos de Jesus o viam como Deus. Um destes mais próximos é João ou algum outro discípulo direto (não se tem muita certeza), que conviveu com a pessoa de Jesus de José diretamente. E outra, um cara que NUNCA viu Jesus de José: Paulo.
Interessante notar que o nome do qual Paulo abdica, Saulo, significa “Rei”ou “pessoa real” ou... “ungido para a realeza”. E ele adota o nome “Paulo” que significa “o pequenino”.

Saulo, que foi criado a vida inteira sabendo-se ungido, e inclusive combatendo os hereges cristãos na base da pedrada, como fez com Estêvão, diante do testemunho daqueles que perseguia e de uma experiência provavelmente mística com Deus (porque como todo bom messias que atende a) b) c) e d) Saulo acreditava em Deus), ele percebe que ele não é o ungido, mas que este é Outro. E que, diante deste Outro, ele é pequenino.

É deste tipo de Unção que O Ungido necessita para poder ser validado: aquela que anula todo o valor pessoal egoísta em favor do reconhecimento do Cristo, do Ungido, como o único capaz e realmente valioso.
Isto é Cristo: alguém que existe para além de Jesus de José, mas que encontre neste Jesus de José sua plena expressão, expressão total do impossível de expressar totalmente, porque infinito.

Então o festa do Corpo de Cristo pode ser a festa de Jesus de José? Certamente. Mas para além deste corpo material do Cristo, há outro?

Os místicos dizem que Deus tem um corpo de pura energia, formado pelas orações a ele dirigidas. Este Deus é chamado, reconhecido, como um Deus pessoal. Sabe aqueles pedidos recorrentes, aqueles louvores constantes, que tu fazes a Deus? Estas orações formam a imagem que tu tens a respeito dEle. É meio óbvio.

Se a tua experiência com Deus é de que ele providencia tudo na sua vida, teu Deus é providente. Se é de alguém que te consola, ele é teu consolador. E, quando for pregar, anunciar este teu Deus, você dirá: “o nosso Deus é providente e consolador!” Mentira.

O teu Deus é providente e consolador.

Mas não fique triste. Tudo bem você ter um Deus pra você. Deus não liga, e até acha legal. A Bíblia está repleta de Deuses pessoais: O Deus de Isaac, de Abraão, de Jacó, de Moisés... você que lê a Bíblia já encontrou isso lá muitas vezes. E também El Shaddai (o Senhor que me protege) ou El-Elion ( o Deus único) ou Elohim (o Deuses) ou El-al (o Senhor que está acima de tudo)... Acho muito divertido quando escuto música evangélica e aí o cantor canta do fundo do peito “Oh, meu Senhor El-Shaddai” e coisas do tipo. Será que o cara experimentou Deus como seu defensor? Que bonito pensar nesta tradição que se perpetua, desde o tempo de David e companhia ltda. Mas é deprimente ouvir por exemplo “O nome do Senhor é Jeová, está na Bíblia e Ele só revela aos escolhidos” ou “é El” ou qualquer coisa assim. Mentira. Jeová é justamente o engodo que os massoteras enfiaram na escrita consonantal do nome de Deus para que ninguém nunca pudesse saber. Colocaram nas consoantes YHVH as vogais de “O Senhor” que são AdOnAY. E aí deu YOHVAYH, que por questões fonéticas do hebraico, língua na qual não existem vogais (elas são representadas por pinguinhos, e a escrita com pinguinhos não é usada em Israel, mas só na Europa pelos que teêm o hebraico como segunda língua) acaba soando como YEOVAH. Quando uma pessoa diz Jeová, ela está provando que não sabe hebraico e que caiu na armadilha dos massoretas. Mais ainda, está provando que não sabe sequer que o J em hebraico é I. Nada contra testemunhas de Jeová, caro leitor. Tem duas em Juiz de Fora que são muito minhas amigas, e as recebo sempre com muita alegria na minha casa. Mas, por favor, não venha me falar que o nome de Deus é Jeová. O nome de Deus é YHVH, algo que não pode ser dito. Sem alguma letra de abertura seguindo o yud (Y), o yud não soa. E, como não sabemos quais são as vogais (não sabemos mesmo, nunca se soube), podemos chutar Iehovah, Iahveh, Iihvuh, Iehvah... Iuhvih... qualquer coisa.

Em hebraico, lê-se a palavra porque se a conhece da língua falada. Aí, diante de um DVD, o cabra não pensa em um disco de vídeo. Mas em David. E, diante de um BRH, ele pensa em Baruch (Bendito). E, ao judeu (religião) não hebreu (nacionalidade) que não sabe a língua falada, foi inventado o sistema de pinguinhos indicativos de vogal, para que a pessoa pudesse ler e ficar feliz, e assim ir aprendendo a língua. Diante do YHVH, colocaram o AOAI, que lê-se... Adonai, e abaixando a cabeça na hora, como se dizendo “este é o nome de Deus, o Senhor, o qual não conheço e ao qual me submeto”.

Este Deus tem corpo? Não. Não tem sequer nome.
O providente tem corpo, porque é dizível. O consolador, também, pelo mesmo motivo. O amigo, tem. Esses Deuses têm corpos. Agora, o Deus indizível não tem.
E agora? Se Jesus é o Cristo e se O Cristo é Deus, Jesus não tem corpo? Não, prezado! Jesus tem. Cristo é que não tem.

Ele está no meio dos Apóstolos sempre, e aparece com um corpo e depois desaparece, perdendo o corpo. O Ressuscitado é a chave para entender o mistério do corpo divino.

Os relatos do Evangelho não dão conta de que Jesus atravessasse paredes, mas de que Ele aparecesse entre as paredes. Não é que o povo na rua visse Jesus andando e aí entrando no Cenáculo atravessando as paredes. É que aqueles que estavam lá dentro, amedrontados, de repente viam Jesus, que aparecia mesmo no meio deles e era tocado e tudo o mais. E depois Jesus desaparecia. Cristo ia embora? Não! Jesus é o Cristo, mas Cristo não é Jesus. Cristo existe antes de Jesus de José, e assume-se como humano no corpo de sua mãe, como ensina Lucas e Mateus. E, depois de sua morte, este corpo que ele assumiu de uma vez por todas é ressuscitado e transformado em outra coisa. Não é mais um corpo carnal, nem material e nem espiritual. É transcendente, ou seja: é todas estas coisas e nenhuma delas. Porque, aliás, quando se é mais de uma coisa não se é nenhuma. Este é o drama do “Ser ou não Ser” do Hamlet. Tudo o que a gente é é justamente o não ser de todas as coisas que não somos. Porque eu sou Julinho na Índia, não sou Eduardinho em Portugal! Para ser, o indivíduo precisa não ser, e assim ir sendo, sempre em processo.

O corpo do ressuscitado não sofre processos. Ele é tudo. Material, Humano, Espiritual, Divino. Em uma palavra, Transcendente.
E, se cada humano, cada pessoa, foi glorificada pela encarnação, cada partícula foi santificada pela materialização. E cada anti-partícula igualmente o foi pela “fisicalização” ou “cosmologização”. Cada ser e cada não ser agora é chamado à santidade.

Este Cristo, este Deus, tem corpo? Não. Ele é o Todo.

Cada lágrima que escorre é experiência daquelas lágrimas divinas. Cada frio que se sente é experiência daquele vento e daquele corpo. Cada grão de trigo que se parte é experiência daquela terra. Cada desconforto é experiência daquele coração. Cada choque é experiência daqueles elétrons. Cada coisa é experiência daqueles glúons. Cada sensação de peso é experiência daqueles bósons de Higgs.

A festa do Corpo de Cristo é a festa da perda do Corpo em favor do todo.
E a hóstia, a Eucaristia, é símbolo disto.
Não me venham os puristas me dizerem que sacramento é presença real e não sei o que.
Sacramento é definido há muito tempo como “sinal visível da presença...” muito bem! Invisível. Então temos que, em primeiro lugar, é SINAL, SÍMBOLO. O visivel é só adjetivo da inconcretude da abstração de que se trata a palavra “sinal”. Mas não é um sinal em si mesmo, com valor próprio. É sinal visível DA presença invisível. É sinal de algo que está presente, mas não pode ser. Sinto cheiro de Cristo, presente no cenáculo sem poder ser visto, até que aparecesse. Olhar para a Eucaristia na festa de Corpus Christi é contemplar aquele pão na mesa daquela estalagem de Emaús, quando Jesus sumiu assim que reconhecido.

Celebrar a festa do Corpo de Cristo é, em primeiro lugar, admitir que não, nós não o reconhecemos! Ele estava aqui o tempo todo, falando com a gente, debatendo idéias, falando de si mesmo, na estrada da nossa vida, e não o conhecemos. Mas... assim que o percebemos, Ele sumiu!
Cristo não quer ser reconhecido. Quer ser procurado. Sugiro, por sinal, mudar o nome de Corpus Christi para “Festa do Pique-Esconde”.

E agora, fora de brincadeira: Aquele sinal visível, a hóstia, entra em mim. Eu a digiro. Eu a aniquilo, eu a consumo, eu a assimilo.
A hóstia, o indizível, o caminho, a partilha, o profeta, o rei, o sacerdote, a vítima, o pequenino, o ungido, a energia, o nada, o algo e o tudo só podem ser encontrados e vivenciados no mistério da comunidade dos que não o viram, e por isto podem atestar: Ele está aqui, e o meu Corpo é dELe.

Não, não tem conclusão nenhuma.