Hoje é a festa do Corpo de Cristo.
Para nós, cristãos católicos,
pensar o Corpo de Cristo nos remete imediatamente à categoria da
Eucaristia. Mas isto é suficiente? Numa festa como esta, acho
que cabem três perguntas:
- O que é Cristo?
- Cristo tem corpo?
- Como é o corpo de Cristo?
Cristo significa “o ungido” em
grego. Na verdade, é a tradução para grego do hebraico Messias,
que soa como “Maxiáh”. Cristo soa como “Khrísthos”. Este H
é um sopro que você põe na sílaba, e o th é o mesmo do inglês,
com a língua no dente como em “through”. Note que a própria
sonoridade da palavra nos remete a um vento, uma coisa para além da
concretude meramente histórica.
Cristo é a nossa aspiração, por isto
a palavra sobre ele é aspirada, soprada. Aspiração não é pra
dentro, aqui neste caso. É o ventinho que sai de dentro da gente pra
fora. E é chamado de aspiração, curiosamente, mesmo sendo pra
fora.
Cristo é algo que a gente aspira, que
a gente deseja, mas deseja não para dentro, mas para fora. Para além
de si.
A pessoa histórica de Jesus não se
chamava Jesus Cristo. Cristo não é o sobrenome de Jesus. Como o
bar-Timeu ou o Shimon bar-Yonah, Jesus provavelmente era conhecido
como Yehoshua bar-Youssef, ou na opinião especialmente de Lucas,
Yehoshua bar-Myriã. Ou seja, Jesus filho de José ou Jesus filho de
Maria. O filho de Timeu, aquele cego, é alguém de quem não sabemos
o nome, e isto é inclusive de suma importância para entender a
passagem que conta a sua história. E o Simão filho de Jonas é um
dos Doze, conhecido nas bocada como Pedro. Claro, impossível
esquecer de outro caso, o de bar-Talmay; o Bartolomeu. Outro
sem-nome. Yehoshua bar-Youssef, Mashiah. Jesus filho de José, o
Messias. Devia ser assim que os antigos o chamavam.
Depois, quando decidiu-se falar aos
povos de língua grega, não fazia mais sentido dizer de José,
porque ninguém saberia quem era. Ficou sendo Iesous Khristhos; daí
o nome “Jesus Cristo” que entrou para a posteridade. E o correto
seria chamá-lo de Jesus, o Ungido.
Então tá.
Cristo=Khristos=Mashiah=Ungido. Mas todo mundo é ungido! O ungido é
que é a questão. A língua hebraica não conhece o artigo definido.
Então não é corqué-coisa Mashiah, mas Mashiah. Como decidir se
este ungido é mais um entre muitos ou O ungido?
Ao longo da história, as seguintes
figuras judias já foram proclamadas como sendo O ungido:
Menahem ben Judá participante na revolta contra Agripa II
Simon bar Kokhba (morto em 135 d.C.)
Moisés de Creta (século V)
Abraham Abulafia (nascido em 1240 )
Nissim ben Abraham (cerca de 1295)
Isaac Luria (1534- 1572), notável cabalista
Sabbatai Zevi (1626 - 1676)
Barukhia Russo (Osman Baba), sucessor de Sabbatai Zevi
Jacob Querido (morto em 1690), dizia ser a reencarnação de Sabbatai Zevi.
Israel ben Eliezer (1698 - 1760), conhecido como Baal Shem Tov, fundador do hassidismo
Menachem Mendel Schneerson (1902 -1994)
Jesus filho de José e de Maria (6a.C.-˜33d.C)
Claro,
sem contar os que foram, dentro do Cristianismo, proclamados como uma
espécie de novo messias, às vezes até mesmo no sentido de
reencarnação de Jesus Cristo:
Aldebert (século
VIII)
Tanchelm
da Antuérpia (c. 1110)
Ann
Lee (1736-1784)
Hong
Xiuquan (1812-1864),
clamava ser o irmão mais jovem de Jesus.
Haile
Selassie (1892-1975),
messias do Movimento
do Rastafari.
Sun
Myung Moon (1920-),
fundador da Igreja
da Unificação.
David
Koresh (1959-1993).
Jacobina
Mentz Maurer (1841-1874)
Maria
Devi Christos (1960-),
fundadora da Grande
Irmandade Branca.
Inri
Cristo (1948-), brasileiro que
se proclama a reencarnação de Jesus Cristo.
Matayoshi
Mitsuo,
autoproclamado messias japonês que
concorreu para a Câmara dos Deputados do Japão com o nome "Jesus
Cristo". Recebeu sete mil votos e não se elegeu.
José
Luis de Jesus Miranda -
fundador da "Creciendo en Gracia" auto-proclamado "Jesus
Cristo Hombre".
E
isto sem contar os profetas e reis de Israel, que como recebiam Unção
para o cargo, eram também, muito justamente, chamados de Messias.
E
aí? Quais são os qualificativos deste tal Jesus filho de José,
para que ele seja O Ungido, que a gente tem certeza de que não é
outro? Ou melhor, que os outros são apenas ungidos mas não O?
Bem,
para ser um Messias, um Ungido, o candidato precisa atender alguns
pré-requisitos:
a)
crer em Deus. (todos da lista passaram)
b)
ter projetos de libertação. (idem)
c)
criticar a religião organizada, em favor da experiencial, como os
profetas. (metade já caiu. A maior parte dos Messias posteriores a
Jesus de José organizaram cultos em torno de si, em atitudes anti
proféticas. O profeta sempre aponta para além de si.)
d)
ser capaz de governança, como é o caso dos reis (agora caíram mais
alguns. Trata-se de capacidade de gerência de pessoal, muitas vezes
divergente, em um mesmo projeto comum. Política propriamente dita,
em sua forma mais nobre. Muitos aqui só aceitavam como discípulos
determinados círculos de pessoas, demonstrando incapacidade de gerir
diferenças)
E
para ser O ungido, o que a pessoa precisaria ter? Simples: a
capacidade de realizar em sua própria pessoa todas as quatro coisas
relacionadas acima, e de maneira total e definitiva, de modo que se
torne automaticamente necessário qualquer outro Messias, pois tudo
já estaria solucionado. Portanto, O messias precisaria de ter um
poder divino pessoal. Todos clamam sobre si este poder na lista
acima. E é impossível provar que Jesus fosse Deus. De verdade. O
máximo que a gente pode admitir é que os que conviveram mais de
perto com Ele atestavam isto, como é o caso de João em seu
Evangelho e de Paulo, que convoca todos a adorar “O nosso grande
Deus e Senhor Jesus Cristo”.
Aqui
muita gente implica e diz que Paulo comeu um artigo, o hó, artigo
definido grego, e que a frase seria “o nosso Grande Deus e o Senhor
Jesus Cristo”. Mas isso não faz muito sentido, pois no início da
frase o autor demonstra conhecer o artigo definido. E além disto,
estamos falando de Paulo, que foi discípulo de Gamaliel e que deu nó
em pingo d'água a vida toda, com uma capacidade de verbalização
(vide suas pregações) fora do comum. Era definitivamente alguém
que se expressava muito bem em grego, portanto não faz sentido
pensar que ele cometeria um lapso tão grande. Como não faz sentido
pensar que algum copista tenha decidido omitir o artigo. A carta de
Paulo não foi copiada uma só vez. Precisaríamos admitir que muitos
copistas e tradutores para muitas línguas em muitas épocas
combinaram de maneira telepática entre si de todos omitirem o artigo
e assim gerar uma interpretação que conviesse a todos. E esse todos
seria em uma época histórica onde já existiam disputas de poder
dentro da igreja. Portanto, todo mundo estaria unido em torno de uma
causa comum que simplesmente não existia.
Bem,
então estabeleçamos isto: Os mais próximos de Jesus o viam como
Deus. Um destes mais próximos é João ou algum outro discípulo
direto (não se tem muita certeza), que conviveu com a pessoa de
Jesus de José diretamente. E outra, um cara que NUNCA viu Jesus de
José: Paulo.
Interessante
notar que o nome do qual Paulo abdica, Saulo, significa “Rei”ou
“pessoa real” ou... “ungido para a realeza”. E ele adota o
nome “Paulo” que significa “o pequenino”.
Saulo,
que foi criado a vida inteira sabendo-se ungido, e inclusive
combatendo os hereges cristãos na base da pedrada, como fez com
Estêvão, diante do testemunho daqueles que perseguia e de uma
experiência provavelmente mística com Deus (porque como todo bom
messias que atende a) b) c) e d) Saulo acreditava em Deus), ele
percebe que ele não é o ungido, mas que este é Outro. E que,
diante deste Outro, ele é pequenino.
É
deste tipo de Unção que O Ungido necessita para poder ser validado:
aquela que anula todo o valor pessoal egoísta em favor do
reconhecimento do Cristo, do Ungido, como o único capaz e realmente
valioso.
Isto
é Cristo: alguém que existe para além de Jesus de José, mas que
encontre neste Jesus de José sua plena expressão, expressão total
do impossível de expressar totalmente, porque infinito.
Então
o festa do Corpo de Cristo pode ser a festa de Jesus de José? Certamente. Mas
para além deste corpo material do Cristo, há outro?
Os
místicos dizem que Deus tem um corpo de pura energia, formado pelas
orações a ele dirigidas. Este Deus é chamado, reconhecido, como um
Deus pessoal. Sabe aqueles pedidos recorrentes, aqueles louvores
constantes, que tu fazes a Deus? Estas orações formam a imagem que
tu tens a respeito dEle. É meio óbvio.
Se
a tua experiência com Deus é de que ele providencia tudo na sua
vida, teu Deus é providente. Se é de alguém que te consola, ele é
teu consolador. E, quando for pregar, anunciar este teu Deus, você
dirá: “o nosso Deus é providente e consolador!” Mentira.
O
teu Deus é providente e consolador.
Mas
não fique triste. Tudo bem você ter um Deus pra você. Deus não
liga, e até acha legal. A Bíblia está repleta de Deuses pessoais:
O Deus de Isaac, de Abraão, de Jacó, de Moisés... você que lê a
Bíblia já encontrou isso lá muitas vezes. E também El Shaddai (o
Senhor que me protege) ou El-Elion ( o Deus único) ou Elohim (o
Deuses) ou El-al (o Senhor que está acima de tudo)... Acho muito
divertido quando escuto música evangélica e aí o cantor canta do
fundo do peito “Oh, meu Senhor El-Shaddai” e coisas do tipo. Será
que o cara experimentou Deus como seu defensor? Que bonito pensar
nesta tradição que se perpetua, desde o tempo de David e companhia
ltda. Mas é deprimente ouvir por exemplo “O nome do Senhor é
Jeová, está na Bíblia e Ele só revela aos escolhidos” ou “é
El” ou qualquer coisa assim. Mentira. Jeová é justamente o engodo
que os massoteras enfiaram na escrita consonantal do nome de Deus
para que ninguém nunca pudesse saber. Colocaram nas consoantes YHVH
as vogais de “O Senhor” que são AdOnAY. E aí deu YOHVAYH, que
por questões fonéticas do hebraico, língua na qual não existem
vogais (elas são representadas por pinguinhos, e a escrita com
pinguinhos não é usada em Israel, mas só na Europa pelos que teêm
o hebraico como segunda língua) acaba soando como YEOVAH. Quando uma
pessoa diz Jeová, ela está provando que não sabe hebraico e que
caiu na armadilha dos massoretas. Mais ainda, está provando que não
sabe sequer que o J em hebraico é I. Nada contra testemunhas de
Jeová, caro leitor. Tem duas em Juiz de Fora que são muito minhas
amigas, e as recebo sempre com muita alegria na minha casa. Mas, por
favor, não venha me falar que o nome de Deus é Jeová. O nome de
Deus é YHVH, algo que não pode ser dito. Sem alguma letra de
abertura seguindo o yud (Y), o yud não soa. E, como não sabemos
quais são as vogais (não sabemos mesmo, nunca se soube), podemos
chutar Iehovah, Iahveh, Iihvuh, Iehvah... Iuhvih... qualquer coisa.
Em
hebraico, lê-se a palavra porque se a conhece da língua falada. Aí,
diante de um DVD, o cabra não pensa em um disco de vídeo. Mas em
David. E, diante de um BRH, ele pensa em Baruch (Bendito). E, ao
judeu (religião) não hebreu (nacionalidade) que não sabe a língua
falada, foi inventado o sistema de pinguinhos indicativos de vogal,
para que a pessoa pudesse ler e ficar feliz, e assim ir aprendendo a
língua. Diante do YHVH, colocaram o AOAI, que lê-se... Adonai, e
abaixando a cabeça na hora, como se dizendo “este é o nome de
Deus, o Senhor, o qual não conheço e ao qual me submeto”.
Este
Deus tem corpo? Não. Não tem sequer nome.
O
providente tem corpo, porque é dizível. O consolador, também, pelo
mesmo motivo. O amigo, tem. Esses Deuses têm corpos. Agora, o Deus
indizível não tem.
E
agora? Se Jesus é o Cristo e se O Cristo é Deus, Jesus não tem
corpo? Não, prezado! Jesus tem. Cristo é que não tem.
Ele
está no meio dos Apóstolos sempre, e aparece com um corpo e depois
desaparece, perdendo o corpo. O Ressuscitado é a chave para entender
o mistério do corpo divino.
Os
relatos do Evangelho não dão conta de que Jesus atravessasse
paredes, mas de que Ele aparecesse entre as paredes. Não é que o
povo na rua visse Jesus andando e aí entrando no Cenáculo
atravessando as paredes. É que aqueles que estavam lá dentro,
amedrontados, de repente viam Jesus, que aparecia mesmo no meio deles
e era tocado e tudo o mais. E depois Jesus desaparecia. Cristo ia
embora? Não! Jesus é o Cristo, mas Cristo não é Jesus. Cristo
existe antes de Jesus de José, e assume-se como humano no corpo de
sua mãe, como ensina Lucas e Mateus. E, depois de sua morte, este
corpo que ele assumiu de uma vez por todas é ressuscitado e
transformado em outra coisa. Não é mais um corpo carnal, nem
material e nem espiritual. É transcendente, ou seja: é todas estas
coisas e nenhuma delas. Porque, aliás, quando se é mais de uma
coisa não se é nenhuma. Este é o drama do “Ser ou não Ser” do
Hamlet. Tudo o que a gente é é justamente o não ser de todas as
coisas que não somos. Porque eu sou Julinho na Índia, não sou
Eduardinho em Portugal! Para ser, o indivíduo precisa não ser, e
assim ir sendo, sempre em processo.
O
corpo do ressuscitado não sofre processos. Ele é tudo. Material,
Humano, Espiritual, Divino. Em uma palavra, Transcendente.
E,
se cada humano, cada pessoa, foi glorificada pela encarnação, cada
partícula foi santificada pela materialização. E cada
anti-partícula igualmente o foi pela “fisicalização” ou
“cosmologização”. Cada ser e cada não ser agora é chamado à
santidade.
Este
Cristo, este Deus, tem corpo? Não. Ele é o Todo.
Cada
lágrima que escorre é experiência daquelas lágrimas divinas. Cada
frio que se sente é experiência daquele vento e daquele corpo. Cada
grão de trigo que se parte é experiência daquela terra. Cada
desconforto é experiência daquele coração. Cada choque é
experiência daqueles elétrons. Cada coisa é experiência daqueles
glúons. Cada sensação de peso é experiência daqueles bósons de
Higgs.
A
festa do Corpo de Cristo é a festa da perda do Corpo em favor do
todo.
E
a hóstia, a Eucaristia, é símbolo disto.
Não
me venham os puristas me dizerem que sacramento é presença real e
não sei o que.
Sacramento
é definido há muito tempo como “sinal visível da presença...”
muito bem! Invisível. Então temos que, em primeiro lugar, é SINAL,
SÍMBOLO. O visivel é só adjetivo da inconcretude da abstração de
que se trata a palavra “sinal”. Mas não é um sinal em si mesmo,
com valor próprio. É sinal visível DA presença invisível.
É sinal de algo que está presente, mas não pode ser. Sinto cheiro
de Cristo, presente no cenáculo sem poder ser visto, até que
aparecesse. Olhar para a Eucaristia na festa de Corpus Christi é
contemplar aquele pão na mesa daquela estalagem de Emaús, quando
Jesus sumiu assim que reconhecido.
Celebrar
a festa do Corpo de Cristo é, em primeiro lugar, admitir que não,
nós não o reconhecemos! Ele estava aqui o tempo todo, falando com a
gente, debatendo idéias, falando de si mesmo, na estrada da nossa
vida, e não o conhecemos. Mas... assim que o percebemos, Ele sumiu!
Cristo
não quer ser reconhecido. Quer ser procurado. Sugiro, por sinal,
mudar o nome de Corpus Christi para “Festa do Pique-Esconde”.
E
agora, fora de brincadeira: Aquele sinal visível, a hóstia, entra
em mim. Eu a digiro. Eu a aniquilo, eu a consumo, eu a assimilo.
A
hóstia, o indizível, o caminho, a partilha, o profeta, o rei, o
sacerdote, a vítima, o pequenino, o ungido, a energia, o nada, o
algo e o tudo só podem ser encontrados e vivenciados no mistério da
comunidade dos que não o viram, e por isto podem atestar: Ele está
aqui, e o meu Corpo é dELe.
Não,
não tem conclusão nenhuma.
2 comments:
Oi, teólogo! Adorei suas explicações, muito interessantes e esclarecedoras... E meu Deus é esse Jesus aí e aqui, onipresente, salvador, é o meu Deus do impossível, do que ainda não entendo, mas que creio, que me consola, me levanta e me preenche, porque me ama!!!
Como pode Deus tornar-se tão pequeno assim, pra fazer tão Grande Obra dentro em mim? Mistério de Amor que se esconde neste pão...
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