Friday, June 22, 2012


Então... só pros muuuuito doido:
Tinha um Zé Ruela (Hiraniakashipu) que enchia o saco desse pobre desse moleque aí. Aí o Vishnu (que se encarnou como Krishna também, aí embaixo) ficou puto nas calça com aquilo, pois o Ruelão queria até derrubar tudo, num ataque de pelanca. Pode-se dizer que ele fosse um semi-demônio. Era um Rakshasa. E o pecado dele era ser ateu, e por isso quis derrubar o templo onde o devoto Prahlada (esse menininho bonitinho do filme) fazia a sua adoração. Prahlada tinha como seu Deus o Senhor Vishnu.
O problema todo é que Prahlada é filho do Hiraniakashipu, que tentou matar o moleque muitas vezes, mas foi impedido porque Vishnu o revestiu de poder e o protegeu a vida toda. Muito embora nascido Rakshasa, ele era devoto de Deus, ora.
Quando Vishnu viu que não ia ter jeito, encarnou como Narasimha (homem com cabeça de leão), desceu à terra e arrancou as tripa do manezão na unha. Porque??? Porque o Brahma tinha concedido ao Harianakashipu a imortalidade, que só poderia ser tirada por alguém que não fosse nem deus, nem homem e nem animal.
Narasimha não é nada disso!!! Que golpe de esperteza, hein Vishnu?
Dali, resolveu sair pelo mundo e dar um jeito, porque os homens tavam muito malvados.
O moleque ficou pensando... e agora, José?
E todos os deuses vieram em seu auxílio e  Brahma falou com ele: "olha, mostre a sua devoção, que é pra ele perceber que ainda existem almas puras na terra e desista de destruir geral e esculhambar o universo."
Até porque o Brahma, que preside a Trimurti (algo como o Pai, talvez), sabe que o papel do Vishnu não é o de destruir o mundo, mas de preservá-lo e tentar endireitá-lo pelo amor, não pela força.
O garoto cantou. E viu a força destrutiva do Senhor se trasfigurar diante dos seus olhos na força criadora, o ator das atitudes de criação. Algo como... isso! o Filho.
O Shiva, que é a força renovadora do mundo (só sobrou um pra você chutar o paralelismo) casou-se com a irmã de Vishnu, Parvati. E, para conquistar o seu coração (que era humano, pois Parvati é Shakti encarnada, do mesmo jeito que Meenakshi também é), os deuses insistiram que ele dançasse.
E à medida que dançava, deu dinamismo ao ciclo de mortes e nascimentos, a Samsara (que muita gente chama de "roda da reencarnação", numa clara exibição de desconhecimento dos Vedas e dos Upanishads), que girou e desde então gira (os deuses são eternos, e portanto as suas atitudes são igualmente eternas), dando ao mundo o seu dinamismo.
Shiva tentou persuadir o cunhado pra parar com aquilo e tal. Mas nada adiantou.
Atendendo Brahma, Prahlada cantou. E foi agraciado com a contemplação de Vishnu em sua forma real e virou rei, por graça de Vishnu.
A música que ele cantou foi:

Namasté Sarasimha

() (1)
नमस्त नरसिंहाय
Namas-té Sarasimhaya
Eu reconheço Deus em ti, Sarasimha

प्रह्लादाह्लाद-दायिन
prahládáhláda-dáyine
Que enche de júbilo (ou rejubila-se com, não tenho muita certeza) Prahlada

हिरण्यकशिपोर्वक्ष-
hiraṇyakaśipor vakṣaḥ-
no peito de Hiraniakashipur

शिला-टङ्क-नखालय
śilā-ṭańka-nakhālaye
As unhas são como cinzel moldando a pedra.
(pausa para comentário: muita gente traduz como "as unhas de Sarasimha são como cinzéis que moldam a pedra no peito de Hiraniakashipur". Muito comum essa tradução entre os Hare-Krishna. Mas repare que o possessivo referente a Sarasimha (Sarasimhaya) não está em lugar nenhum aqui. Leia este verso ou misticamente (talvez as unhas do Hiraniakashipur sejam os tais cinzéis, ao ver Sarasimha e percebendo que Deus existe) ou fundamentalisticamente (Deus matou o cara). 

() (2)
इत नृसिंह परत नृसिंह
ito nṛsiḿhaḥ parato nṛsiḿho
Em todo lugar da terra, Narasimha está

यत यत यामि तत नृसिंह
yato yato yāmi tato nṛsiḿhaḥ
Em todos os lugares e em todos os tempos encontro escondido sutilmente Narasimha.
(yato - por toda a parte / de muitas formas; yami - vejo debaixo; tato - em outros tempos. Esse verso é complicadinho)


बहिर्नृसिंह हृदय नृसिंह
bahir nṛsiḿho hṛdaye nṛsiḿho
Narasimha habita o meu coração e o lado de fora

नृसिंहमादिं शरण प्रपद्य
nṛsiḿham ādiḿ śaraṇaḿ prapadye
Obedeço Narasimha e ofereço-me à origem de todas as coisas


Bacana... Note que aqui o moleque dá o pulo do gato que lhe merece a coroa: percebe que para além a imagem que ele faz de Deus (um justiceiro que mata o que lhe acusava e queria morto), ele se rende não a Narasimha (o ISCKON traduz isso aqui como sendo a Narasimha, mas falta o... isso!  O -ya, portanto ele se oferece a ninguém), mas a uma impessoalidade. Não tem nada com possessivo para que ele se ofereça a. O que leva o possessov é o prapadye. Que é "todo". Ou seja, ninguém, pois o todo é sempre união de Deuses e Deusas, é a própria cópula dos deuses. É uma ação, um... motor do universo (Aristóteles me emprestou essa).
Chega.
Veja o vídeo.
Falado em Telugu, cantado em Sânscrito.






2 comments:

Glorinha said...

Ma que coisa linda! Adorei. Há grande beleza nas roupas e nas figuras representadas. A voz é de um tom tão agudo!Parece que vai lá nos confins do Universo. Julim, te agradeço pela atenção com que tem selecionado coisas tão legais para a gente poder ver.Obrigada!

Banana said...

Jubão, após uns dias longe do seu brógui, volto a todo vapor e só posso lhe dizer que faço minhas as palavras de um famoso filósofo sãopetrino: "A saudade tááá demaaaaiissss!!!!"
Beijokas,