Saturday, June 02, 2012


Avancei para águas mais profundas. Comecei a estudar teologia sistemática. Na verdade, dizem que eu sou Mestre nisso. Mas eu sou um Nicodemos, do qual Jesus diria: “É, tu é Mestre, mas não manja nada.”
Se a gente fosse explicar rapidamente (e levei uma boa meia hora bolando explicação que na última hora “alguém” mudou pra esta que agora segue), eu diria que a Teologia é uma casa de quarto, cozinha e banheiro.
A gente entra nela pela cozinha. É ali que a gente se alimenta, bebe água, inventa pratos diferentes. Mas é uma casa de três cômodos, lembre-se. Então aí é o lugar onde a gente também guarda os ingredientes. Os ingredientes da fé, os dogmas. Dogmas são chatos. São chatos porque são assim muito profundos e esquisitos. São chamados de “verdades da fé” por muitos, como se em fé houvesse alguma verdade. Na realidade, preferiria chamar os dogmas de “formulações sobre a verdade” esta sempre inacessível. Por isto os dogmas são inúteis. Inúteis demais da conta, não servindo pra nada. Dizem coisas do tipo “Deus é um, em três”. E em três o que, você peguntaria. E Agostinho de Hipona (que é o Agostinho mais famoso de vários, e que morreu em 431) tenta ajudar e diz: “Não sei o que são. Na falta de uma palavra para dizer desta realidade misteriosa que não pode ser dita, diria eu que são 'pessoas'. Mas não são pessoas mesmo. É três.” Claro que ele usa outras palavras. Mas me segredou outro dia que se tivesse de dizer de novo, faria assim em uma de suas palestras pras freirinhas do Santa Catarina (que certamente estariam interessadas em ouvi-lo e organizariam o evento, pois estamos falando do Santo Agostinho, né gente.).
Na cozinha desa casa, igualmente se diz que Jesus é um dos três de Deus, que como é Deus, é um e os três ao mesmo tempo, pois entre Ele (o três) não existe separação, já que é um. E, como se não bastasse, fala a cozinheira olhando pra sua cara enquanto prova o sal num mingau de fubá: “E também é homem e Deus ao mesmo tempo, distintamente e sem misturar essas suas realidades divina e humana.” E, se você a pergunta “como assim?”, ela lhe oferece uma colherada do mingau e nunca mais toca no assunto. Se você insistir, o Chicó aparece e diz “não sei, só sei que é assim”.
A inutilidade dos dogmas reside justamente neles não dizerem muita coisa, do ponto de vista de um conhecimento.
Entrando por outra porta, podemos ir ao quarto. O quarto é onde você passa a maior parte do tempo, porque é onde estão tuas coisas. É o lugar da teologia moral. Aqui, com a luz daqueles ingredientes e misturas ingeridas na cozinha do dogma, você pode decidir como vai viver a tua vida. Se vai fazer isso ou aquilo, se seria bom assim ou assado. Mas é o lugar onde você vive, sabe? Então você decide não na reflexão, mas na ação. A teologia moral é o campo da teologia que te faz agir de acordo, e não exatamente pensar sobre isso. É extremamente útil, pois te faz comer mais ou menos, escolher entre galinha ao molho pardo ou frango com quiabo (afinal, pode-se ou não comer sangue animal?), te deita na cama sozinho, com uma moça ou com várias, te casa e te divorcia, te resolve. É útil. E, por isso mesmo, horrorosa. Porque nada aqui é processo, tudo é fim. São predefinições, ou configurações, que você aplica, clicando em um botão como se faz no Windows, e reconfigura, redefine, faz-te agir de outro modo. É um cômodo, na minha opinião, extremamente sem graça.
E temos o banheiro, a teologia sistemática. Ele fica por dentro da casa, entre a cozinha e o quarto, em clara afronta aos manuais de arquitetura. É o lugar da reflexão. É aqui que se mistura o inútil ao útil. Os sabonetes, já pensou? São inúteis! Pelo menos o perfume deles o é.
Porque se a idéia do banho ou do lavar mão e rosto for limpar, servia um sabão neutro, daqueles amarelados, e inclusive sairia mais barato. Mas não! A inutilidade colorida e perfumosa do sabonete nos encanta, e fazemos questão de utilizá-lo em todas as atividades ligadas à limpeza do corpo. O sabonete é a união entre a utilidade (a detergência do sabão) com a inutilidade (o corante rosa, o creme hidratante, o perfume de chá verde com limão e flor de bambu ou algo parecido). Por sinal, já que citamos, o melhor hidratante é água, obviamente. Hidratar é colocar hydros no corpo. E essa palavra significa... água. Por isto, é duvidoso que o seu sabonete com óleo de amêndoas seja hidratante, embora prometa. É, na verdade, dissecante, porque repele a água já que é óleo. Agora, se você tomar água lá na cozinha, aí sim vai estar hidratado, cheio de hydros. Mas... sem gracinha. Insípida, inodora... Muito melhor o suco que a cozinheira sabe fazer, de uvas frescas!
E o que dizer do shampoo? Ou da toalha bordada? Pra que bordar? E do livro e da revista, papéis inúteis diante do utilíssimo papel higiênico, este sim essencial para outro tipo de atividade desempenhada no toalete.
O banheiro é o lugar onde a cozinheira e o agente (o cabra que mora no quarto e que age) se encontram para pensar. Não, não é bubice. Eles são o fiel.
Uma opção do fiel, daquele que tem fé, é sempre passar pelo lado de fora da casa. Assim, ele pega as verdades prontas do dogma e, do lado de fora, enquanto anda, pede a graça de Deus para se transformar em agente. E entra magicamente pela porta do quarto de bigode e tudo.
Outra opção é fazer a experiência do banheiro. É ali que, diante da transformação da água e da comida em cocô e xixi; mas também em sebo no nariz, cheiro de subaco, bafo de cebola e outros fluidos interessantes pensamos que a verdade da fé apodreceu em nós.
E, ao cheiro do sabonete, ao prazer do toque deste objeto/instrumento inútil em nossa pele abrigo, entendemos que aquele alimento se fez receptor de olfato, de tato, olhar... Se fez em um cabelo mais sedoso, em uma pele hidratada, na beleza e no gozo do ser humano. Se fez até naquele tremilique gostoso que se tem ao final do xixi. E na sensação de leveza que procede da explosão de amor que às vezes ocorre quando se tem uma bad defecation.
Ali, enquanto a cozinheira se experimenta isto, ela se tranforma no agente, aos poucos. Também é agente de transformação as poesias que lhe vêem à mente durante o banho, a música que ela canta alto, os amores que recorda e por eles chora. A saudade de casa (todos estamos de passagem, sempre, depois de certa Idade), a lembrança do sorriso do filho da vizinha, o moço bonito que ela vê pela janela e cujos passos ouve, vez ou outra, em algum lugar que ela não sabe onde é. E, sem que ela perceba, ela é esse moço bonito (o agente), que se esforça por fazer bem a barba (inutilidade pura, diga-se de passagem) pra poder sorrir pra cozinheira linda que passa, uniformizada, pela sua janela, e cujo canto e voz e riso divisa (sim, isso quer dizer ver, mas o meu moço vê pelos ouvidos, dá licença?) ao longe, e ao mesmo tempo perto.
Ele lê poesias do Camões sentado ao vaso, celebrando a delícia de uma comida que ele sabe que comeu, mas não entendeu do que é feita. Claro, faz isto pelas manhãs e antes do banho, porque não é nojento. Escova bem os dentes, bochecha Listerine, se põe à janela do quarto-atitude esperando sua amada passar.
O banheiro, a sistemática, é o lugar de transformação do útil em inútil em vice-versa. Do sabão em sabonete, do detergente em shampoo, do papel higiênico em poema, da palavra em verso, da lágrima em força, do rosto em riso, do cheiro em perfume.
Na época de Jesus, ele amava os agentes na cozinha e as cozinheiras deitadas. Eram os pecadores.
Muitas vezes, a gente se aproxima da Bíblia, do Catecismo, do Manual de dogmática, como um agente (acho que ele é um contador) na cozinha. Aí, faz tudo errado. Quer saber as medidas exatas de cada ingrediente, quanto de água se deve pôr no coador de café a cada derrame, qual a temperatura exata da água para fazer chá, quanto tempo a manteiga deve ficar fora da geladeira antes do café da manhã. Quer ver, enfim, alguma utilidade no Dogma. Jesus os achava divertidos. Nicodemos era assim. “Que? Nascer de novo? Cumé que faz?” e Jesus ofereceu-lhe uma colherada de mingau de fubá: “O vento sopra onde quer, e você não sabe nem de onde vem e nem pra onde vai.” Coitado do Nicodemos. Até hoje vejo a carinha dele, querendo entender e continuando na mesma.
Outras vezes, Jesus entrava na casa da fé (ele tem a chave de todas as nossas casas-de-fé) e encontrava a cozinheira esparramada na cama, raspando com o dedo uma lata de leite moça e deixando pingar, chamando barata. Ele ria dela. Deitava na cama com ela, e a cama se transformava em gramado, e os dois adivinhavam as formas das nuvens. Assim, aos poucos, ele ia roubando a lata, trocando a roupa de cama por outra, enquanto ia conversando com ela ao mesmo tempo (ah, é. Ele é ao menos três, lembra?). Quando ela percebia, tinha se tornado bebê em seus braços, semi adormecida. Ele beijava-lhe a testa e a punha para dormir. Assim era aquela moça na beira do poço. Ela se dirigiu a Ele como se manjasse: “Como é que você quer beber do mesmo copo que eu? Não sabe que não pode, não pode, não pode????” Ela tava no campo do dogma, tadinha. Mas não tinha entendido que dogmas não são pra servir pra alguma coisa, são só pra se comer deles, e deixar que parte dessa comida apodreça e vire cocô, outra parte seja resto eliminado como um xixi. E outra parte vira unha, brilho no olhar, voz que canta. Dogma não é pra servir pra alguma coisa.
Muitas vezes, Jesus estava no quarto do agente e passava a cozinheira. Ele odiava, MUITO, quando ela chegava na janela e ficava falando: “Ih... não esquenta cabeça com isso não! Não precisa contar tudo direitinho não! Chuta mais ou menos quanto deve ser que acaba dando certo!” Como se contar e cozinhar fosse a mesma coisa. E também não gostava do contador de pé no alpendre da cozinha, dizendo “Cuidado!!! Não põe tanto pó de trindade assim não, vai desandar o ensopado de eucaristia!”. A estes, Jesus pôs o nome de “Tentador”. Tentador é alguém que enfia o bedelho no serviço alheio, como se entendesse. Os fariseus eram grande tentadores, porque ao ver o cabelo de Maria de Betânia (ou Madalena, até hoje não se sabe) cozinhando os pés de Jesus, enquanto pingava aos poucos lágrimas, cozinhando o seu Alimento como se faz com peito de frango; gritavam para dentro de si (esse é pior grito que existe): “Vai queimar! Vai queimar!”
E também as fariséias gritavam na janela do contador coisas parecidas.
A vida espiritual completa só acontece no banheiro. Uma definição bonita que eu já li sobre Escatologia, que é a parte da Sistemática que trata do fim do mundo, é que o mundo já acabou, mas ainda não. Quer dizer, o desafio da pessoa que queira viver o Céu é ser do Céu e viver nele agora, enquanto não vive de fato completo. Mas viver completamente, mesmo que incompleto.
Se eu pudesse um dia explicar pra alguém se existe compatibilidade entre Teologia e Espiritualidade, escreveria este texto! Oh, sim. Fui eu que o escrevi, de fato. E acho que ele explica, mas ainda não explica.
O mais importante é lembrar que, se quisermos ser amados por Jesus, temos que ser ou o reprovável contador na cozinha, ou a reprovável cozinheira no quarto. A estes, os errados, Jesus ama muita.
Ou então, outra opção seria a de ser o ousado, que sempre vai ao quarto pelo banheiro (e vice-versa) e deixa-se transformar.
Agora, se formos o contador no alpendre da cozinha, sem querer entrar; ou a cozinheira na janela do quarto, somos medíocres. Medíocre tem a ver com o Meio. Tem a ver em estar no meio do caminho, em fazer a média. Tem a ver com não se arriscar.
Fazer o caminho por dentro, no banheiro, é assumir a própria mediocridade e assim ser transformado. Fazer o caminho por fora é fingir que sabe, que o que se tem é o suficiente.
Assim, transformamos o cristianismo numa religião de produção, e dispensamos a Graça, que é o grande distintivo desta religião. Graça é o Camões no banheiro, e o sabonete verde. É uma disposição de Deus em favor de nossa transformação.
Quando a gente faz tudo certinho, dentro das normas, não somos salvos. Somos medíocres.
A freira que segue a norma à risca é medíocre. O leigo que obedece o padre é medíocre. O bispo que manda e desmanda em todo mundo é pura mediocridade.
Mas a freira que internaliza a lei, o leigo que ama o padre e o bispo que é pai, estes são santos.
O menino e a menina que vai no JUDAC na equipe de sei lá o que e tem ido em todas as reuniões porque é assim que tem que ser é medíocre.
Mas a menina e o menino que levam aquela barriga cheia nessa cozinha do JUDAC pro banheiro do mundo, que está entre a igreja e o seu quarto, sua casa, este é santo.
Quem estiver a fim de pregar Dogmas nos quartos ou nos banheiros ainda não entendeu nada.
O mundo não é o lugar onde o Dogma tem de ser proclamado, nem mesmo juridicamente. O Dogma, esta coisa inútil, é só matéria prima pra poesia durante o banho. Quando, tomada de amor, a alma chora e se declara ao perceber que o toque da água morna na pele é linda misericórdia divina.
Da mesma forma, regra moral é matéria para aquele moço, que lendo o poema de Camões enquanto faz cocô descobre que trair a esposa é errado não porque é e ponto. Mas porque Dinamene comeu a alma do poeta, e a traição que ele a impôs, ao deixá-la se afogar para salvar o Lusíadas, é o motor angustiante de boa parte da lírica. Aí ele percebe, sentado no vaso e no meio daquele fedor-fuafa que não pode deixar seu lindo poema de amor (que é a sua vida de casado) se afogar num oceano de paixões por outros versos.
Assim, quando ele sai na rua, não olha para outras cozinheiras. E a cozinheira, de alma devorada pela saudade do céu, nem se dá conta de que seus potinhos de trindade , como o coentro e o açafrão, são inúteis, e só servem para conferir o inútil sabor e cor.
Em teoria, este texto deveria servir para ajudar a transformação de quem o lê. Esta era a intenção inicial.
Mas ficarei igualmente feliz se ele for útil como uma calculadora ou inútil como água de rosas.

1 comment:

Glorinha said...

Nossa, quanta coisa bonita e legal!
Tô aprendendo a cada dia muita coisa, pode acreditar! Comentei com a Fabiana hoje sobre esse conteúdo e ela disse que achou tudo muito e inteligente. Beijocas da mãe coruja e saudosa.