Thursday, June 07, 2012



Hoje é a festa do Corpo de Cristo. Para nós, cristãos católicos, pensar o Corpo de Cristo nos remete imediatamente à categoria da Eucaristia. Mas isto é suficiente? Numa festa como esta, acho que cabem três perguntas:

  1. O que é Cristo?
  2. Cristo tem corpo?
  3. Como é o corpo de Cristo?

Cristo significa “o ungido” em grego. Na verdade, é a tradução para grego do hebraico Messias, que soa como “Maxiáh”. Cristo soa como “Khrísthos”. Este H é um sopro que você põe na sílaba, e o th é o mesmo do inglês, com a língua no dente como em “through”. Note que a própria sonoridade da palavra nos remete a um vento, uma coisa para além da concretude meramente histórica.
Cristo é a nossa aspiração, por isto a palavra sobre ele é aspirada, soprada. Aspiração não é pra dentro, aqui neste caso. É o ventinho que sai de dentro da gente pra fora. E é chamado de aspiração, curiosamente, mesmo sendo pra fora.
Cristo é algo que a gente aspira, que a gente deseja, mas deseja não para dentro, mas para fora. Para além de si.

A pessoa histórica de Jesus não se chamava Jesus Cristo. Cristo não é o sobrenome de Jesus. Como o bar-Timeu ou o Shimon bar-Yonah, Jesus provavelmente era conhecido como Yehoshua bar-Youssef, ou na opinião especialmente de Lucas, Yehoshua bar-Myriã. Ou seja, Jesus filho de José ou Jesus filho de Maria. O filho de Timeu, aquele cego, é alguém de quem não sabemos o nome, e isto é inclusive de suma importância para entender a passagem que conta a sua história. E o Simão filho de Jonas é um dos Doze, conhecido nas bocada como Pedro. Claro, impossível esquecer de outro caso, o de bar-Talmay; o Bartolomeu. Outro sem-nome. Yehoshua bar-Youssef, Mashiah. Jesus filho de José, o Messias. Devia ser assim que os antigos o chamavam.

Depois, quando decidiu-se falar aos povos de língua grega, não fazia mais sentido dizer de José, porque ninguém saberia quem era. Ficou sendo Iesous Khristhos; daí o nome “Jesus Cristo” que entrou para a posteridade. E o correto seria chamá-lo de Jesus, o Ungido.

Então tá. Cristo=Khristos=Mashiah=Ungido. Mas todo mundo é ungido! O ungido é que é a questão. A língua hebraica não conhece o artigo definido. Então não é corqué-coisa Mashiah, mas Mashiah. Como decidir se este ungido é mais um entre muitos ou O ungido?
Ao longo da história, as seguintes figuras judias já foram proclamadas como sendo O ungido:

          Teudas (44-46) na província da Judéia;
          Menahem ben Judá participante na revolta contra Agripa II
          Simon bar Kokhba (morto em 135 d.C.)
          Moisés de Creta (século V)
          Abraham Abulafia (nascido em 1240 )
          Nissim ben Abraham (cerca de 1295)
          Isaac Luria (15341572), notável cabalista
          Sabbatai Zevi (1626 - 1676)
          Barukhia Russo (Osman Baba), sucessor de Sabbatai Zevi
          Jacob Querido (morto em 1690), dizia ser a reencarnação de Sabbatai Zevi.
          Israel ben Eliezer (1698 - 1760), conhecido como Baal Shem Tov, fundador do hassidismo
          Menachem Mendel Schneerson (1902 -1994)
          Jesus filho de José e de Maria (6a.C.-˜33d.C)

Claro, sem contar os que foram, dentro do Cristianismo, proclamados como uma espécie de novo messias, às vezes até mesmo no sentido de reencarnação de Jesus Cristo:

          Aldebert (século VIII)
    Tanchelm da Antuérpia (c. 1110)
    Ann Lee (1736-1784)
    Hong Xiuquan (1812-1864), clamava ser o irmão mais jovem de Jesus.
    Haile Selassie (1892-1975), messias do Movimento do Rastafari.
    Sun Myung Moon (1920-), fundador da Igreja da Unificação.
    David Koresh (1959-1993).
    Jacobina Mentz Maurer (1841-1874)
    Maria Devi Christos (1960-), fundadora da Grande Irmandade Branca.
    Inri Cristo (1948-), brasileiro que se proclama a reencarnação de Jesus Cristo.
    Matayoshi Mitsuo, autoproclamado messias japonês que concorreu para a Câmara dos Deputados do Japão com o nome "Jesus Cristo". Recebeu sete mil votos e não se elegeu.
    José Luis de Jesus Miranda - fundador da "Creciendo en Gracia" auto-proclamado "Jesus Cristo Hombre".

E isto sem contar os profetas e reis de Israel, que como recebiam Unção para o cargo, eram também, muito justamente, chamados de Messias.
E aí? Quais são os qualificativos deste tal Jesus filho de José, para que ele seja O Ungido, que a gente tem certeza de que não é outro? Ou melhor, que os outros são apenas ungidos mas não O?
Bem, para ser um Messias, um Ungido, o candidato precisa atender alguns pré-requisitos:

a) crer em Deus. (todos da lista passaram)
b) ter projetos de libertação. (idem)
c) criticar a religião organizada, em favor da experiencial, como os profetas. (metade já caiu. A maior parte dos Messias posteriores a Jesus de José organizaram cultos em torno de si, em atitudes anti proféticas. O profeta sempre aponta para além de si.)
d) ser capaz de governança, como é o caso dos reis (agora caíram mais alguns. Trata-se de capacidade de gerência de pessoal, muitas vezes divergente, em um mesmo projeto comum. Política propriamente dita, em sua forma mais nobre. Muitos aqui só aceitavam como discípulos determinados círculos de pessoas, demonstrando incapacidade de gerir diferenças)

E para ser O ungido, o que a pessoa precisaria ter? Simples: a capacidade de realizar em sua própria pessoa todas as quatro coisas relacionadas acima, e de maneira total e definitiva, de modo que se torne automaticamente necessário qualquer outro Messias, pois tudo já estaria solucionado. Portanto, O messias precisaria de ter um poder divino pessoal. Todos clamam sobre si este poder na lista acima. E é impossível provar que Jesus fosse Deus. De verdade. O máximo que a gente pode admitir é que os que conviveram mais de perto com Ele atestavam isto, como é o caso de João em seu Evangelho e de Paulo, que convoca todos a adorar “O nosso grande Deus e Senhor Jesus Cristo”.

Aqui muita gente implica e diz que Paulo comeu um artigo, o hó, artigo definido grego, e que a frase seria “o nosso Grande Deus e o Senhor Jesus Cristo”. Mas isso não faz muito sentido, pois no início da frase o autor demonstra conhecer o artigo definido. E além disto, estamos falando de Paulo, que foi discípulo de Gamaliel e que deu nó em pingo d'água a vida toda, com uma capacidade de verbalização (vide suas pregações) fora do comum. Era definitivamente alguém que se expressava muito bem em grego, portanto não faz sentido pensar que ele cometeria um lapso tão grande. Como não faz sentido pensar que algum copista tenha decidido omitir o artigo. A carta de Paulo não foi copiada uma só vez. Precisaríamos admitir que muitos copistas e tradutores para muitas línguas em muitas épocas combinaram de maneira telepática entre si de todos omitirem o artigo e assim gerar uma interpretação que conviesse a todos. E esse todos seria em uma época histórica onde já existiam disputas de poder dentro da igreja. Portanto, todo mundo estaria unido em torno de uma causa comum que simplesmente não existia.

Bem, então estabeleçamos isto: Os mais próximos de Jesus o viam como Deus. Um destes mais próximos é João ou algum outro discípulo direto (não se tem muita certeza), que conviveu com a pessoa de Jesus de José diretamente. E outra, um cara que NUNCA viu Jesus de José: Paulo.
Interessante notar que o nome do qual Paulo abdica, Saulo, significa “Rei”ou “pessoa real” ou... “ungido para a realeza”. E ele adota o nome “Paulo” que significa “o pequenino”.

Saulo, que foi criado a vida inteira sabendo-se ungido, e inclusive combatendo os hereges cristãos na base da pedrada, como fez com Estêvão, diante do testemunho daqueles que perseguia e de uma experiência provavelmente mística com Deus (porque como todo bom messias que atende a) b) c) e d) Saulo acreditava em Deus), ele percebe que ele não é o ungido, mas que este é Outro. E que, diante deste Outro, ele é pequenino.

É deste tipo de Unção que O Ungido necessita para poder ser validado: aquela que anula todo o valor pessoal egoísta em favor do reconhecimento do Cristo, do Ungido, como o único capaz e realmente valioso.
Isto é Cristo: alguém que existe para além de Jesus de José, mas que encontre neste Jesus de José sua plena expressão, expressão total do impossível de expressar totalmente, porque infinito.

Então o festa do Corpo de Cristo pode ser a festa de Jesus de José? Certamente. Mas para além deste corpo material do Cristo, há outro?

Os místicos dizem que Deus tem um corpo de pura energia, formado pelas orações a ele dirigidas. Este Deus é chamado, reconhecido, como um Deus pessoal. Sabe aqueles pedidos recorrentes, aqueles louvores constantes, que tu fazes a Deus? Estas orações formam a imagem que tu tens a respeito dEle. É meio óbvio.

Se a tua experiência com Deus é de que ele providencia tudo na sua vida, teu Deus é providente. Se é de alguém que te consola, ele é teu consolador. E, quando for pregar, anunciar este teu Deus, você dirá: “o nosso Deus é providente e consolador!” Mentira.

O teu Deus é providente e consolador.

Mas não fique triste. Tudo bem você ter um Deus pra você. Deus não liga, e até acha legal. A Bíblia está repleta de Deuses pessoais: O Deus de Isaac, de Abraão, de Jacó, de Moisés... você que lê a Bíblia já encontrou isso lá muitas vezes. E também El Shaddai (o Senhor que me protege) ou El-Elion ( o Deus único) ou Elohim (o Deuses) ou El-al (o Senhor que está acima de tudo)... Acho muito divertido quando escuto música evangélica e aí o cantor canta do fundo do peito “Oh, meu Senhor El-Shaddai” e coisas do tipo. Será que o cara experimentou Deus como seu defensor? Que bonito pensar nesta tradição que se perpetua, desde o tempo de David e companhia ltda. Mas é deprimente ouvir por exemplo “O nome do Senhor é Jeová, está na Bíblia e Ele só revela aos escolhidos” ou “é El” ou qualquer coisa assim. Mentira. Jeová é justamente o engodo que os massoteras enfiaram na escrita consonantal do nome de Deus para que ninguém nunca pudesse saber. Colocaram nas consoantes YHVH as vogais de “O Senhor” que são AdOnAY. E aí deu YOHVAYH, que por questões fonéticas do hebraico, língua na qual não existem vogais (elas são representadas por pinguinhos, e a escrita com pinguinhos não é usada em Israel, mas só na Europa pelos que teêm o hebraico como segunda língua) acaba soando como YEOVAH. Quando uma pessoa diz Jeová, ela está provando que não sabe hebraico e que caiu na armadilha dos massoretas. Mais ainda, está provando que não sabe sequer que o J em hebraico é I. Nada contra testemunhas de Jeová, caro leitor. Tem duas em Juiz de Fora que são muito minhas amigas, e as recebo sempre com muita alegria na minha casa. Mas, por favor, não venha me falar que o nome de Deus é Jeová. O nome de Deus é YHVH, algo que não pode ser dito. Sem alguma letra de abertura seguindo o yud (Y), o yud não soa. E, como não sabemos quais são as vogais (não sabemos mesmo, nunca se soube), podemos chutar Iehovah, Iahveh, Iihvuh, Iehvah... Iuhvih... qualquer coisa.

Em hebraico, lê-se a palavra porque se a conhece da língua falada. Aí, diante de um DVD, o cabra não pensa em um disco de vídeo. Mas em David. E, diante de um BRH, ele pensa em Baruch (Bendito). E, ao judeu (religião) não hebreu (nacionalidade) que não sabe a língua falada, foi inventado o sistema de pinguinhos indicativos de vogal, para que a pessoa pudesse ler e ficar feliz, e assim ir aprendendo a língua. Diante do YHVH, colocaram o AOAI, que lê-se... Adonai, e abaixando a cabeça na hora, como se dizendo “este é o nome de Deus, o Senhor, o qual não conheço e ao qual me submeto”.

Este Deus tem corpo? Não. Não tem sequer nome.
O providente tem corpo, porque é dizível. O consolador, também, pelo mesmo motivo. O amigo, tem. Esses Deuses têm corpos. Agora, o Deus indizível não tem.
E agora? Se Jesus é o Cristo e se O Cristo é Deus, Jesus não tem corpo? Não, prezado! Jesus tem. Cristo é que não tem.

Ele está no meio dos Apóstolos sempre, e aparece com um corpo e depois desaparece, perdendo o corpo. O Ressuscitado é a chave para entender o mistério do corpo divino.

Os relatos do Evangelho não dão conta de que Jesus atravessasse paredes, mas de que Ele aparecesse entre as paredes. Não é que o povo na rua visse Jesus andando e aí entrando no Cenáculo atravessando as paredes. É que aqueles que estavam lá dentro, amedrontados, de repente viam Jesus, que aparecia mesmo no meio deles e era tocado e tudo o mais. E depois Jesus desaparecia. Cristo ia embora? Não! Jesus é o Cristo, mas Cristo não é Jesus. Cristo existe antes de Jesus de José, e assume-se como humano no corpo de sua mãe, como ensina Lucas e Mateus. E, depois de sua morte, este corpo que ele assumiu de uma vez por todas é ressuscitado e transformado em outra coisa. Não é mais um corpo carnal, nem material e nem espiritual. É transcendente, ou seja: é todas estas coisas e nenhuma delas. Porque, aliás, quando se é mais de uma coisa não se é nenhuma. Este é o drama do “Ser ou não Ser” do Hamlet. Tudo o que a gente é é justamente o não ser de todas as coisas que não somos. Porque eu sou Julinho na Índia, não sou Eduardinho em Portugal! Para ser, o indivíduo precisa não ser, e assim ir sendo, sempre em processo.

O corpo do ressuscitado não sofre processos. Ele é tudo. Material, Humano, Espiritual, Divino. Em uma palavra, Transcendente.
E, se cada humano, cada pessoa, foi glorificada pela encarnação, cada partícula foi santificada pela materialização. E cada anti-partícula igualmente o foi pela “fisicalização” ou “cosmologização”. Cada ser e cada não ser agora é chamado à santidade.

Este Cristo, este Deus, tem corpo? Não. Ele é o Todo.

Cada lágrima que escorre é experiência daquelas lágrimas divinas. Cada frio que se sente é experiência daquele vento e daquele corpo. Cada grão de trigo que se parte é experiência daquela terra. Cada desconforto é experiência daquele coração. Cada choque é experiência daqueles elétrons. Cada coisa é experiência daqueles glúons. Cada sensação de peso é experiência daqueles bósons de Higgs.

A festa do Corpo de Cristo é a festa da perda do Corpo em favor do todo.
E a hóstia, a Eucaristia, é símbolo disto.
Não me venham os puristas me dizerem que sacramento é presença real e não sei o que.
Sacramento é definido há muito tempo como “sinal visível da presença...” muito bem! Invisível. Então temos que, em primeiro lugar, é SINAL, SÍMBOLO. O visivel é só adjetivo da inconcretude da abstração de que se trata a palavra “sinal”. Mas não é um sinal em si mesmo, com valor próprio. É sinal visível DA presença invisível. É sinal de algo que está presente, mas não pode ser. Sinto cheiro de Cristo, presente no cenáculo sem poder ser visto, até que aparecesse. Olhar para a Eucaristia na festa de Corpus Christi é contemplar aquele pão na mesa daquela estalagem de Emaús, quando Jesus sumiu assim que reconhecido.

Celebrar a festa do Corpo de Cristo é, em primeiro lugar, admitir que não, nós não o reconhecemos! Ele estava aqui o tempo todo, falando com a gente, debatendo idéias, falando de si mesmo, na estrada da nossa vida, e não o conhecemos. Mas... assim que o percebemos, Ele sumiu!
Cristo não quer ser reconhecido. Quer ser procurado. Sugiro, por sinal, mudar o nome de Corpus Christi para “Festa do Pique-Esconde”.

E agora, fora de brincadeira: Aquele sinal visível, a hóstia, entra em mim. Eu a digiro. Eu a aniquilo, eu a consumo, eu a assimilo.
A hóstia, o indizível, o caminho, a partilha, o profeta, o rei, o sacerdote, a vítima, o pequenino, o ungido, a energia, o nada, o algo e o tudo só podem ser encontrados e vivenciados no mistério da comunidade dos que não o viram, e por isto podem atestar: Ele está aqui, e o meu Corpo é dELe.

Não, não tem conclusão nenhuma.

2 comments:

Teresa said...

Oi, teólogo! Adorei suas explicações, muito interessantes e esclarecedoras... E meu Deus é esse Jesus aí e aqui, onipresente, salvador, é o meu Deus do impossível, do que ainda não entendo, mas que creio, que me consola, me levanta e me preenche, porque me ama!!!

Banana said...

Como pode Deus tornar-se tão pequeno assim, pra fazer tão Grande Obra dentro em mim? Mistério de Amor que se esconde neste pão...