Wednesday, August 15, 2012


15 de Agosto.
Dia da Independência da Índia
Dia de Nossa Senhora da Gloria
Dia do Aniversário da Dona Grurinha, o Gramur.

Comprei uma bandeira da Índia ontem. Queria comprar desde que cheguei aqui, mas não encontrava. Mas ontem foi fácil, porque hoje é o dia, né… aí espalharam isso por aí, por tudo que é canto.
Insistem em dizer que a roda de oito raios, no centro da bandeira, é o chackra de nao sei o que. De Ashoka, acho.
Mentira.
Na verdade, ele é também o tal de chackra, mas olhando a história da composição da bandeira, que deve muito ao São Gandhi (canonizado recentemente na versão católica dos princesos), você observará que alguns bons três modelos propostos durante a revolução de paz que Gandhi foi incluíam um tear, e a roda do tear situada bem no centro da bandeira.
É que uma das coisas que os buscadores da verdade (Ou "satyagrahis", como o grupo que seguia os ensinamentos era conhecido… termo inventado por um sobrinho do Gandhi, e não por ele mesmo, na época da África do Sul… enfim. vamos acabar com este parêntese neo-barroco) faziam era comprar apenas tecidos feitos na Índia. Mas as fábricas eram proibidas. Só existiam teares artesanais. Todo o algodão colhido na Índia era enviado à Inglaterra, que os tecia e enviada de volta à Índia e o vendia! Assim, roubava o algodão comprando-o a preço de banana e o revendia a preço de damasco, lucrando duplamente. Bem…
Uma vez Gandhi fez um discurso. Uma coisa que ele insistia era a higiene. Não pode ter condição de lutar um povo doente. Então ele insistia em que todo mundo andasse limpo. Mas em um destes discursos, onde insistia neste ponto, havia uma mulher cujo saree era muito muito sujo.
Kasturbai, a esposa de Gandhi e que nomeia muitas ruas na Índia… ruas que normalmente fazem esquina com as MGRoad, ou seja, Mahatma Gandhi Road… Kasturbai foi ter com a mulher. "Olha, seu saree tá sujo, muié. Vai lavar isso aí."
A mulher chamou Kasturbai para segui-la. Foram até a casa da tal mulher. Uma choça de madeira, telhado de palha. Terra batida. Entraram.
Umas pedras formavam um fogão improvisado. Nada para comer. Era só isto que havia na casa, além de umas tábuas ao canto, onde dormia a família. 
A mulher olhou nos olhos de Kasturbai, e com lágrimas nos olhos dela (ou seja, de Kasturbai) disse: "Se o Mahatma me der outro saree, terei prazer em lavar este".
As pessoas não podiam comprar os tecidos da Inglaterra. E Gandhi precisava desesperadamente de incrementar o nível de higiene e saúde daquele povo. Este era o seu método.
Saiu à cata dos antigos artesãos. Convenceu-os a fazer tecidos. Comprava-os e revendia-os mais barato, muitas vezes. Com o tempo, os tecelões (weavers) formaram cooperativas por muitas partes da Índia. Os preços caíram. As pessoas podiam ter ao menos dois sarees. E, claro, aderiram ao projeto político genial daquele homem apaixonado pela verdade, que dizia que a Verdade era Deus. Deve ter aprendido isso nas leituras de Upanishads, Vedas, Gita, Biblia, Ramayana, Quram que fez ao longo da vida. A Verdade era Deus. E vender algodão e comprá-lo de volta não era algo que pudesse ser feito, porque era mentira. Nada podia adquirir um valor tão absurdo assim de maneira tão inexplicável. Não faz sentido. É mentira. Então não, não compro os teus tecidos. Santo Gandhi. Rezem pra ele.
Bem… no centro de muitas bandeiras propostas na época, inclusive dois modelos com a faixa ocre em cima e uma verde abaixo, com uma branca separando-as, exatamente a mesma ordem das faixas atuais… no centro delas, figurava um tear.
Mas claro… claaaaaro… 
Gandhi era mal visto por muitos.
É que o Deus da maior parte das pessoas é uma grandiosa mentira. Uma coisa de três pessoas. Ou três sujeitos com três esposas. Ou sabe-se lá mais o que. Às vezes, um antigo soldado que foi pouco a pouco sendo divinizado, como o nosso Xangô ou o Rama. Ou um tal "Senhor dos Exércitos", que é a divindade que protegia, no maior bairrismo que só pode ser mentira, o exército de Israel. Ou um Jesus Cristo que desencarnou. Não se fala muito disto, mas eu falo porque sou teólogo, e nós somos um povo herético, problemático e pecador público. Além de sepulcros caiados. Bem. Essa gente acusa, aponta o dedo. Tô apontando o meu agora.
O Deus verdadeiro, o homem todo verdadeiro, que Gandhi admirava demais e dizia não entender como os cristãos podiam não ter entendido nada… Bem, esse trabalhava. Não era padre. Não era bispo. Tinha poeira nos pés. Dormia em pedras. Vez ou outra, tinha um piriri louco, principalmente quando comia trigo colhido em dias de sábado. Contava piadas. Enchia os pacová dos discípulos com apelidinhos. Era irônico. Morreu. Sangrou. Era tudo verdade. Era o único homem 100% verdadeiro que jamais houve… Bem. 
Ele foi substituído por uma outra versão, que depois de ressuscitado se tornou um chato. Não deixa ninguém fazer nada que seja natural. Esse Jesus desencarnado, só porque ressuscitou (na verdade é uma má compreensão da ressurreição, logo logo chegamos lá), condena casais divorciados a nunca mais participar do seu corpo e sangue. Também diz que não pode tomar pílula anticoncepcional de jeito nenhum. Camisinha, então… só pode ser coisa do "Inimigo de nossas almas", seja quem for.
Vez ou outra, só porque já não pode morrer, vestem-lhe um colete cheio de explosivo plástico e outros explosivos, o doutrinam no Talebã e o soltam pelas igrejas. Pobre Cristo desencarnado. Explode mil vezes, proibindo de tudo! Não pode beber nada alcoólico (o Cristo encarnado parece ter feito um monte de vinho, que deve ter sido jogado fora, já que ninguém o podia tomar), não pode o casal planejar de forma alguma a família, condena as mães solteiras (o encarnado era filho, tecnicamente, do outro, muito embora fosse Deus. O que agrava a situação, porque era o Totalmente Outro. Traição transcendental ao pobre José, um bocoió de marca maior…), distribui nos grupos jovens e cursilhos kits com um litro de álcool, um isqueiro bic e uma boa quantidade de lenha… para queimar os hereges! Não frequenta igreja evangélica, odeia macumba (que é uma delícia, gente… vamos combinar…), quando vem a Índia bota fogo nos templos alheios… Ah, mas é um chato este Jesus Talebã! Pena que já não o podemos matar.
Mas o Jesus que eu conheço… ele aplaude toda relação sexual, gozando em cada um dos corpos e lençóis o prazer do encontro. Ri alto, aos ouvidos dos amantes. É o seu travesseiro.
Mora no fundo dos copos de Brahma com limão, no vermelho dos molhos de galinha à cabidela… Não é que ache que tudo pode, que é um grandioso bunda-lelê nem nada.
É que em cada oportunidade, em cada imagem de candomblé e em cada pecado humano (seja pecado lá o que for…) ele se esconde, se revela aos amantes da vida. Ele é encarnadaço. Diríamos até encardido.
Jesus ressuscitado é encardido de morte. E morte é uma das roupas da Vida.
E por isto mesmo mora em toda pequena morte. Sejam aquelas lindas mortes dos monges ou nas mortes horrorosas da escravidão das mulheres, crianças, pobres. E na ainda mais terrível morte que reside nas pulseiras de ouro, nas faces da República das notas de 50. Nos beija-flores da nota de um real, que nem mais existem, ele é a flor que falta.
Morre em cada uma destas nossas ilusões, gritando aos ouvidos: compra um saree para os pobres!
"Feliz día da Independência indiana, padre!!!"
"Não! Não comemoro isto! Comemoro o dia da Assunção!"
Pausa. Morte. Jesus ali, escondido. E, da boca do herege mexicano, falou:
"Mas você só pode comemorar o dia da Assunção porque houve uma independência! Caso contrário, seria condenado a muitos apedrejamentos pelos hindus! Esqueceu-se desta relação? Porque acha que a independência foi neste dia?"
Ali, encardido no sangue de Gandhi, com os cabelos molhados pelas lágrimas de Kasturbai e nu pela falta de outra roupa, cantou lá de trás da favela Jesus Cristo. A Verdade.
E, queira Deus, a Mãe foi assunta. Vestida de roupa limpa, face brilhante, coroa na cabeça. Jesus é filho da mulher verdadeira. A que teve medo e por isto foi se esconder na casa de Isabel. Mas que por ela foi acolhida como a mãe da salvação. Poderia ter apressado o casamento.
Poderia ter se casado, na maior cara de pau, apressadamente. E se o filho nascesse antes do tempo, diria "ah, ele nasceu um pouco antes do tempo…"
Falsificaria a verdade. Colheria, mais tarde, a decepção. Aconteceu muitas vezes, com muitas meninas pobres, engravidadas por quem não era seu marido. Algumas casaram-se com o engravidador. Deu errado. Outras, se casaram com outro mais adequado. Deu errado. Outras assumiram criaram o filho. Deu errado.
Em outros casos, tudo deu certo.
Algumas crianças são filhas de ninguém. Crianças sem pai. Às vezes, como foi o caso de Jesus, o encardido, são adotadas por um pai amoroso. Outras tem família, mas preferem ir pra rua, porque a família é só mentira. Outras estão esperando, tristes, chorosas, no orfanato, enquanto outros casais, mentirosos e sem coração, insistem em engravidar outra mulher com o proprio óvulo e espermatozóide, dão a ela 17000 rupias (uns 700 reais) e, quando a criança nasce, a sequestram. Não sei em que fase do processo mora mais mentira.
Mas Jesus, escondido nas mentiras, espera ansioso. E muitas mais vezes, dá tudo certo, contrariando toda a perspectiva. Ele mesmo é uma destas exceções…
Mas aí o casal vai à igreja para que sacramentalmente todos fiquem sabendo que eles reconhecem naquele serzinho lindinho e inofensivo o filho de Deus. Querem batizá-lo. Querem que seja parte do mesmo corpo, que é também o deles.
"Ah, não posso! Não batizo filho de mãe solteira. Têm que se casar. Não pode ser a madrinha não-católica! Não pode ser não cristã! Muito menos kardecista!"
"Porque, padre…?" Pergunta aquele casal de José e Maria; Gandhi e Kasturbai; Nathália e Agenor; Guilherme e Vanessa.
"Porque Deus odeia o Allan Kardec, tem horror a evangélico, condena os que fazem sexo fora ou antes do casamento, tem alergia a galinha preta de macumba… Jesus é um cara seletivo! Não se mistura com qualquer um!!!"
"Como sabe disto, padre?"
"Ah, o Espírito Santo me fala todas as vezes isto toda vez que vou lá na gaiola onde o prendi lhe fornecer alpiste para o almoço. Tem sido assim desde que o peguei em uma arapuca usando pipoca de arroz como isca."
"Feliz día da independência, padre…"
E os pobres, coitados, saem da igreja com o filho. Desesperados porque agora é um pagão. A criança adoece. O levam a uma benzedeira/ialorixá. Ela abre o menino pra seu Orixá de cabeça. É Oxalá.
Quem pode negar que essa criança agora está batizada? E se fosse Xangô ou sei lá mais quem? E se fosse levada direto lá a criança? Porque Jesus não baixaria, com marcas de flagelo nas costas, calos de grilhão no pescoço, nariz amplo e sorriso branco? E com uma roupinha mais adequada pra ocasião, uma saia toda de palha, da cabeça aos pés?
Ou porque não todo azul, tocando flauta em um destes templos/terreiros/igrejas que existem cá por este lado?
Porque o batismo não poderia vir a esta criança, nascida sem pai conhecido como Ele é, pelas lágrimas da mãe, ao ver o filho tão doente e sem saber porque?
Ele não é Universal…?
Ah, a realidade...
Tecida no coração dos pobres pelo amor à verdade, ela é capaz de libertar uma multidão de mendigos (A Índia) da senhora mais rica do mundo (a Inglaterra).
Hoje é o dia em que celebro a minha mãe, que me criou para ser independente, que no aeroporto da Serrinha segredou baixinho à Gisele: "Criei ele pra este dia, mas não estou acreditando agora que ele chegou…" 
Que se sente desconcertada por que "tenho habilidade pra diferença", como ela mesmo diz. Não sabe que é nas eternas discussões entre ela e o Zeca que eu entendi que amor só existe na diferença?
Que me desconcerta com a verdade.
Minha mãe do Céu, Maria, é pra mim a prova de que a Gloria, que completa o nome dEla, é tão assunta como ela.
Lavou meus panos quando eu era pequeno. Segurou minha mão quando o médico me deu a primeira anestesia geral da minha vida. Segurou-se pra não chorar (eu bem me lembro do rosto dele neste dia…) quando me arrastaram com toda a força para a segunda anestesia, a segunda cirurgia.
E se a muitos parece estranho que esta história tão comprida seja só para falar parabéns, que pena. É que, pra mim, é pura verdade.
Dona Glorinha, senhora verdadeira, mãe de muitos, adotiva de dois inclusive, parabéns. Ao adotar esses dois, você foi outro José.
E ao me mostrar que o Pai de todo mundo é o Zeca, mas também é Outro Muito Diferente, ganhou muitos outros filhos… uns 45000? Mais? menos? Todos?
Se um dia eu tiver uma filha, vou ensiná-la ser uma mãe tão boa quando você é.

2 comments:

Teresa said...

Poxa!!!! Sem palavras!

Glorinha said...

É...hoje eu chorei!
Você é desconcertante!
Obrigada, eu te amo muito, seu diferente!
Beijos saudosos!