Os deuses da Índia são cheios de lados, olhos, braços e algumas vezes, pernas.
O meu preferido, por ser o mais esquisito, é o Shiva.
Descrito como "o Senhor das Feras" na civilização de Haruppan, ele é aquele rapazinho da Yoga.
Raramente toma avatares.
Os deuses indianos não encarnam. Não, não. Eles tomam avatares, numa espécie de possessão.
Pois é. O Shiva não curte muito isso não.
Ele aparece em carne e osso, nu e cru, quando dá na cabeça dele. Dizem que ele mora na cordilheira dos Himalaias... Claro, isso não é unânime. Nada é unânime na Índia. Outros dizem que ele não mora em lugar nenhum. E outros dizem que ele é onipresente.
O que me encanta nesse tal de Shiva é que ele é um deus que dança.
É o Deus que e o Fred (não o Simões, mas o Nietzsche) procurávamos.
O livro sobre dança clássica na Índia, chamado Bharath Natya Shastra, emanou diretamente de Shiva. O Bharath foi anotando o que ele lembrou. Mas toda dança e toda arte emana dele, Shiva. O senhor da Dança, ou Natya-raja. Nataraja, a corruptela que sai daí. Lembre-se do Mahal-raja, ou Maharaja, de um mês ou mais atrás! Curso intensivo de sânscrito, hein...
Bem... Shiva dança.
E, quando dança, move o ciclo de nascimentos e mortes.
Tem muitos braços, tantos quantos ele deseja. Cada braço, cada mão nos corpos sutis dos deuses, são potencialidades ou atributos desses deuses. Assim, quanto mais coisas o deus fizer, mais braços "brotam" dele, na representação.
Outra forma de Shiva, além do Nataraja, é a do Sadhguru, o Santo Mestre. É ele sentado, com cinco faces. Uma para cada ponto cardeal e uma para o alto. É que ele é muito, mas muito másculo. E estava vigiando a mulher dele um dia. Aí ela tava incomodada, queria privacidade. E fugiu pra lá e pra cá. Mas para cada lugar que ela ia, ele criava uma face para poder vê-la. E sentou-se no chão, no mais raso, abaixo do qual ninguém poderia descer. Aí ela fugiu pro topo dos céus. Mas ele fez em si uma face voltada pra cima. E a olhou, e a vigiou.
Sentado, este Santo Mestre ensina sobre a sua onipresença e sobre a maior ilusão, que é a solidão. A esposa de Deus não pode ficar sozinha, e está sempre sendo vigiada por Ele.
Mas este Santo Mestre é um perigo! Não se iludam!! Ele tem um olho no meio da testa, sempre. Todas as formas de Shiva o têm.
Quando perturbado, ele te olha com este olho. E este olho é o da destruição. E a quem ele olha, é destruído.
É assim que ele arrancou a cabeça de seu filho Ganesh, tendo que a repor com uma cabeça de elefante. Ganesh, mais tarde, deve até ter ficado agradecido. É que os elefantes são mais sábios que os homens, e por isto ele foi capaz de escrever os Vedas, que contém toda a sabedoria e que não podem ser lidos por qualquer pessoa.
Você sabia que 95% das editoras da Índia não publicam nenhum trecho dos Vedas? E que os livros védicos, quando se os encontra, não estão em destaque? E que tem que ser assim?
Quando os deuses encontram uma alma digna de ler estes livros, emana de Ganesh, pelo mundo (ele é um meio/elefante, mega mundano...) uma cópia para aquela pessoa. Se não há essa pessoa, então não há Vedas pra ela.
A maior parte dos hindus nunca leram os Vedas. Lêem algumas mitologias. Escutam alguns contos do brâmane e dos sacerdotes do templo, que os devem guiar (e não manipular) para uma vida digna. Assim, em uma nova vida, eles poderão nascer em outra forma e desfrutar a sabedoria védica, se for vontade de Deus. Se estiverem preparados.
O olho de Shiva, que é destruição, é a sabedoria dele. Quando ele te olha, você se vê no fundo do seu olho que vê além dos olhos normais. E ali, preso no fundo dos olhos de Deus, o conhecimento sobre Ele te destrói. E, destruído, provavelmente será salvo e não renascerá.
Afinal, como poderia renascer alguém que não existe mais, porque foi destruído?
Mas o olho de Shiva é justo. Portanto, se não estiveres santo, irás pro inferno, e terás de renascer milhares de outras vezes! Por isso a cautela sobre a quem olhar, pelos brâmanes e a sabedoria védica, por parte de Shiva e Ganesh, que no final das contas são a mesma coisa.
Coisa essa que não se sabe nem o que é e nem se sabe de alguma coisa.
No RigVeda está escrito
"sobre o nascimento do mundo, seus caminhos e seus desígnios, só Ele, o criador e observador do mundo, sabe algo. A não ser que nem Ele mesmo saiba."
A sabedoria dos Vedas consiste nisso:
O acesso a Deus, a morada no fundo de seu olho, é ruptura total com tudo. É ruptura com a necessidade de conhecimento.
Se conheceres aquele que é, porque conhecer alguma outra coisa? E pra que?
Prezados.
Eu sou a esposa de Deus. Ele me olhou. Ele me vigiou. Eu quis fugir dele, por todos os lados, para todas as direções. Para cima e para baixo. No baixo mais baixo de tudo, eu o encontrei, encarnado de forma radical. No alto mais alto de todos os altos, ele me viu. Não pude me desviar de seu olhar. Deixei que ele me olhasse. Ele arrancou minha cabeça. Ele destruiu meu conhecimento. No lugar, pôs a que mais lhe aprouve, uma que fosse a mais terrena possível para que eu pudesse entender a sua grandeza e o seu assento no fundo do mundo. Quando procurei alguma coisa que pudesse descrever o que experimentei, arrancou um de meus dentes e me deu como caneta. Escrevo minha história com aquilo que sou, e nada mais. Veio dançar comigo. Enquanto dançava, me deixou escolher qual lado eu desejava. O da direita, o da meditação, do celibato, da pureza ritual, ou o da esquerda, o do esparramar-se pelo mundo, de comer alimentos proibidos, de casar-se mil vezes, de não me preocupar com pureza nenhuma, mas ser o seu assento mais baixo.
Nenhum dos dois lados dele me pareceu bom. E eu o abracei. Ele parece me acariciar com uma de suas mãos esquerdas. E dançamos felizes.
Ele não tem forma. Seu nome é Jesus. Não é Shiva. Shiva é um apelido do qual aos meus ouvidos ri, dizendo: "Nem fiz nenhuma possessão, como um demônio, nem apareci como sou!! Encarnei! Anuncia!"
O olhar de Deus recaiu sobre mim, e o mundo ficou pequeno demais. E, se o mundo é pequeno dessa maneira, ao ponto de caber na ponta de um alfinete, eu nem existo mais!
Fui.
Parti.
Rompi.
Transbordei.
A todos que não podem entender o que isto significa, rezem. Sinceramente, é que ainda não estão preparados.
E a todos que queiram saber o que é isto?
Rezem.
E abracem Aquele que É.
O meu preferido, por ser o mais esquisito, é o Shiva.
Descrito como "o Senhor das Feras" na civilização de Haruppan, ele é aquele rapazinho da Yoga.
Raramente toma avatares.
Os deuses indianos não encarnam. Não, não. Eles tomam avatares, numa espécie de possessão.
Pois é. O Shiva não curte muito isso não.
Ele aparece em carne e osso, nu e cru, quando dá na cabeça dele. Dizem que ele mora na cordilheira dos Himalaias... Claro, isso não é unânime. Nada é unânime na Índia. Outros dizem que ele não mora em lugar nenhum. E outros dizem que ele é onipresente.
O que me encanta nesse tal de Shiva é que ele é um deus que dança.
É o Deus que e o Fred (não o Simões, mas o Nietzsche) procurávamos.
O livro sobre dança clássica na Índia, chamado Bharath Natya Shastra, emanou diretamente de Shiva. O Bharath foi anotando o que ele lembrou. Mas toda dança e toda arte emana dele, Shiva. O senhor da Dança, ou Natya-raja. Nataraja, a corruptela que sai daí. Lembre-se do Mahal-raja, ou Maharaja, de um mês ou mais atrás! Curso intensivo de sânscrito, hein...
Bem... Shiva dança.
E, quando dança, move o ciclo de nascimentos e mortes.
Tem muitos braços, tantos quantos ele deseja. Cada braço, cada mão nos corpos sutis dos deuses, são potencialidades ou atributos desses deuses. Assim, quanto mais coisas o deus fizer, mais braços "brotam" dele, na representação.
Outra forma de Shiva, além do Nataraja, é a do Sadhguru, o Santo Mestre. É ele sentado, com cinco faces. Uma para cada ponto cardeal e uma para o alto. É que ele é muito, mas muito másculo. E estava vigiando a mulher dele um dia. Aí ela tava incomodada, queria privacidade. E fugiu pra lá e pra cá. Mas para cada lugar que ela ia, ele criava uma face para poder vê-la. E sentou-se no chão, no mais raso, abaixo do qual ninguém poderia descer. Aí ela fugiu pro topo dos céus. Mas ele fez em si uma face voltada pra cima. E a olhou, e a vigiou.
Sentado, este Santo Mestre ensina sobre a sua onipresença e sobre a maior ilusão, que é a solidão. A esposa de Deus não pode ficar sozinha, e está sempre sendo vigiada por Ele.
Mas este Santo Mestre é um perigo! Não se iludam!! Ele tem um olho no meio da testa, sempre. Todas as formas de Shiva o têm.
Quando perturbado, ele te olha com este olho. E este olho é o da destruição. E a quem ele olha, é destruído.
É assim que ele arrancou a cabeça de seu filho Ganesh, tendo que a repor com uma cabeça de elefante. Ganesh, mais tarde, deve até ter ficado agradecido. É que os elefantes são mais sábios que os homens, e por isto ele foi capaz de escrever os Vedas, que contém toda a sabedoria e que não podem ser lidos por qualquer pessoa.
Você sabia que 95% das editoras da Índia não publicam nenhum trecho dos Vedas? E que os livros védicos, quando se os encontra, não estão em destaque? E que tem que ser assim?
Quando os deuses encontram uma alma digna de ler estes livros, emana de Ganesh, pelo mundo (ele é um meio/elefante, mega mundano...) uma cópia para aquela pessoa. Se não há essa pessoa, então não há Vedas pra ela.
A maior parte dos hindus nunca leram os Vedas. Lêem algumas mitologias. Escutam alguns contos do brâmane e dos sacerdotes do templo, que os devem guiar (e não manipular) para uma vida digna. Assim, em uma nova vida, eles poderão nascer em outra forma e desfrutar a sabedoria védica, se for vontade de Deus. Se estiverem preparados.
O olho de Shiva, que é destruição, é a sabedoria dele. Quando ele te olha, você se vê no fundo do seu olho que vê além dos olhos normais. E ali, preso no fundo dos olhos de Deus, o conhecimento sobre Ele te destrói. E, destruído, provavelmente será salvo e não renascerá.
Afinal, como poderia renascer alguém que não existe mais, porque foi destruído?
Mas o olho de Shiva é justo. Portanto, se não estiveres santo, irás pro inferno, e terás de renascer milhares de outras vezes! Por isso a cautela sobre a quem olhar, pelos brâmanes e a sabedoria védica, por parte de Shiva e Ganesh, que no final das contas são a mesma coisa.
Coisa essa que não se sabe nem o que é e nem se sabe de alguma coisa.
No RigVeda está escrito
"sobre o nascimento do mundo, seus caminhos e seus desígnios, só Ele, o criador e observador do mundo, sabe algo. A não ser que nem Ele mesmo saiba."
A sabedoria dos Vedas consiste nisso:
O acesso a Deus, a morada no fundo de seu olho, é ruptura total com tudo. É ruptura com a necessidade de conhecimento.
Se conheceres aquele que é, porque conhecer alguma outra coisa? E pra que?
Prezados.
Eu sou a esposa de Deus. Ele me olhou. Ele me vigiou. Eu quis fugir dele, por todos os lados, para todas as direções. Para cima e para baixo. No baixo mais baixo de tudo, eu o encontrei, encarnado de forma radical. No alto mais alto de todos os altos, ele me viu. Não pude me desviar de seu olhar. Deixei que ele me olhasse. Ele arrancou minha cabeça. Ele destruiu meu conhecimento. No lugar, pôs a que mais lhe aprouve, uma que fosse a mais terrena possível para que eu pudesse entender a sua grandeza e o seu assento no fundo do mundo. Quando procurei alguma coisa que pudesse descrever o que experimentei, arrancou um de meus dentes e me deu como caneta. Escrevo minha história com aquilo que sou, e nada mais. Veio dançar comigo. Enquanto dançava, me deixou escolher qual lado eu desejava. O da direita, o da meditação, do celibato, da pureza ritual, ou o da esquerda, o do esparramar-se pelo mundo, de comer alimentos proibidos, de casar-se mil vezes, de não me preocupar com pureza nenhuma, mas ser o seu assento mais baixo.
Nenhum dos dois lados dele me pareceu bom. E eu o abracei. Ele parece me acariciar com uma de suas mãos esquerdas. E dançamos felizes.
Ele não tem forma. Seu nome é Jesus. Não é Shiva. Shiva é um apelido do qual aos meus ouvidos ri, dizendo: "Nem fiz nenhuma possessão, como um demônio, nem apareci como sou!! Encarnei! Anuncia!"
O olhar de Deus recaiu sobre mim, e o mundo ficou pequeno demais. E, se o mundo é pequeno dessa maneira, ao ponto de caber na ponta de um alfinete, eu nem existo mais!
Fui.
Parti.
Rompi.
Transbordei.
A todos que não podem entender o que isto significa, rezem. Sinceramente, é que ainda não estão preparados.
E a todos que queiram saber o que é isto?
Rezem.
E abracem Aquele que É.
5 comments:
Seu texto me tem revelado alguém que tem experimentado experiências profundas com o Eterno.
PArabéns pela simplicidade com que tem lidado com isso.
Tenho rezado sempre que vc me vem à mente. Continuarei rezando, mais ainda, pois acho que estou nos dois lados que vc coloca aqui.
Deus, cuide desse menino!
Corrigindo o texto acima, pois não sei fazê-lo de outra forma: alguém que tem vivido experiências.
Nossa, lindo seu texto, Julim, como sempre...
Espero que um dia Ele tb olhe para mim e me tire pra dançar!! Gosto muito de dançar, vc sabe, mas ainda não estou mesmo preparada pra um parceiro pé-de-valsa como Ele.
Posso ir ensaiando com vc? A gente dança junto e vai me ensina uns passos novos, que tals? rsrs!
Espero poder dançar com vc em breve meu lindo... bjos!!
Lindo!
Lindo mesmo! Adorei!
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