Thursday, February 04, 2010

Fazia já algum tempo que meu celular não tocava de madrugada. Já andava desejoso há muito que isto voltasse a acontecer.
Antes não era assim, havia outros do grupo quase feminino de amigos que eram, como eu, insones pela mera falta de atividades, e era divertido sair a noite (lá pelas 2) pra bater um papo, ou fazê-lo pelo telefone celular, esta bendita invenção.
Ele tocou, e uma das mais doces de todas as vozes me disse, num tom assustado, que você decidiu viajar, mudar de casa, ir pro seu destino.
Penso em você, e me lembro com alegria de nossos encontros.
Nunca sozinhos, é bem verdade. Sempre a três, a quatro, a mil. Sempre em serviço.
Me lembro da tua risada larga, gostosa, do seu fino humor.
Não houve, jamais entre nós, uma conversa que não fosse permeada por risadas.
"Canta a música do filho pródigo pra oração da manhã?"
"Qual delas, Diego? Deve haver milhares!!?"
"Ah, sei lá. Uma autobiográfica, que fale de você."
"Que fale de mim? Puxa, vc conhece minha história de vida...?"
"Bom... eu tava falando daquele trecho que diz que o pai mandou buscar um novilho capado e gordo..."
Impossível não rir, mesmo me sentindo meio ofendido com meus mais de 90 quilos, na época.
Foi sempre assim, por mais séria que nossa conversa iniciasse (por exemplo uma entrevista pro jornalzinho da paróquia, quando enfim você veio à minha casa), nunca durava muito sem que tudo descambasse em risadagem e fuleragem.
Sinto saudades, mas sei que continua aqui, em cada lágrima que me escorre por dentro e por fora, em cada olhar perdido na capela mortuária, em cada exéquias que eu celebrar e recordar o seu caixão.
E também, mais forte ainda, em cada riso que me derem, em cada gargalhada gostosa quando me lembrar dos momentos felizes, até mesmo em cada música de filho pródigo, em cada oração da manhã, em cada terço rezado, em cada encontrista convertido, em cada... respiração.
Talvez mesmo até em cada vitória (imerecida) dos Sagazes, seu clube de coração, sobre outros times aqui da igreja.
Você resolveu partir, não me engano. Você quis, uma vez na vida, ser pioneiro, e inaugurar o céu dos encontristas do JUDAC.
Fico pensando em você, ao lado do Marcos, que inaugurou o departamento de palestras, ensinando às almas deste purgatório como é que se sorri e como é que se reza. Estão formando, sem dúvida, uma excelente dupla, e já vejo suscitados em corações saudosos o desejo de santidade que emanava do exemplo de vocês.
Ainda não digeri esta última troça que quis fazer... brincadeira de mau gosto, ir assim sem avisar..
Tudo bem, foi ao encontro do Nosso Amor Maior, mas acho uma tremenda falta de finesse ir assim, tão de repente. Meu canto perdeu parte do sentido, e em protesto, a rouquidão. Sôo agora como um locutor de radio AM. Em nosso serviço, éramos por vezes eco um do outro. Só recuperei a voz pra cantar enquanto baixavam teu esquife para dentro da terra-sementeira que vamos nos reencontrar, que "meu lugar é o céu e é lá que eu quero morar."
Agora, ir pro céu ganhou novo sentido, porque sei que tenho um amigo concreto me esperando, e fatalmente não faltarão risadas. Você não vai resistir, eu sei, e vai me sacanear de algum jeito bem na porta, em voz baixa que é pra São Pedro não te ouvir.
É justamente o que sabe fazer bem: deixar que Deus e os outros santos,
como tu, ouçam apenas as nossas risadas. Sorrio aliviado, com saudade,
mas esperançoso de te reencontrar. Será bom, este dia...mas não posso deixar de pensar que, certamente, sua primeira atitude em minha intercessão foi uma zoeira. Foi uma fuleragem.
Eu aqui, desejoso de ouvir uma voz, e tu mexe os pauzinhos celestes para
meu celular tocar. Atendo sequioso, alegre e saltitante. Ouço a triste notícia de sua partida.
Fico desalentado, perco até a voz, mas ouço a tua, em risadas angelicais. Pregou mais uma peça no véio aqui. A primeira dessa sua nova fase transcedental e etérea.
É, Diego... continuas o mesmo...

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