Tuesday, February 09, 2010

Se há uma coisa que sempre quis fazer e nunca tive força de vontade o suficiente para cumprir, é acordar todos os dias antes do sol nascer, só pra não perder jamais o espetáculo que se dá nesta ocasião.
De um tempo pra cá; pouco tempo, é bem verdade; esta vontade ficou ainda mais patente dentro de mim. E também por fora, que não acredito nessa baboseira infantil de espírito e alma, e tampouco que meu cérebro pense. Minhas melhores idéias só surgem após alguma caminhada, treino, viagem, natação, banho de sol, beijo na boca ou seja lá o que for. Meu corpo inteiro pensa, sente, quer, deseja, reza, transcende... Não tenho alma, dessas separadas, esvoaçantes e com mania de retorno a corpos diferentes do meu. Minha alma é tão minha, mas tão minha, que é física, que é meu corpo!
Por isto meu desejo de alvoradas. O nascer do sol também não é nascer “só do sol” (como se o sol pudesse ser tido como “só isso aí”, mas vá lá...) mas é também Renascer de Esperança, Espetáculo de Luz que transforma tudo.
Por sinal, quando eu fico acordado até tarde (o que nem é raro, diga-se de passagem), vez por outra sou surpreendido pelo sol nascendo e então penso “puxa, já está cedo”. O nascer do sol é essa coisa assim mágica, transformadora. Transforma o meu “tarde”, num instante, em inegável e universal “cedo”.
Ah, como eu queria fazer o contrário, e tenho tão pouca força de vontade... Dormir mais cedo (ou seria tarde do dia anterior?) pra acordar mais cedo. Porque aí eu não seria surpreendido pelo sol... não! Acordar deliberadamente, todos os dias, mais cedo, seria minha expressão de Confiança, de Esperança na Transformação, de Ansiedade pelo Novo. Nada de glamour. Nada de passar a noite em claro esperando o sol nascer. Dormir, chegar antes da hora pra apreciar o nascimento. Isso sim é que seria uma vida digna, completa, cheia de sentido...
Pois é. Mas durmo tarde... lá pelas duas.
Acho que Alguém teve pena da minha vontade, ontem. Porque a construção sem sentido, sem nexo, que me faz tossir sem parar por alergia ao cimento que nunca cessa de ser comprado e gasto neste quartinho de nada que está ali no quintal, recém construído e ainda pleno de poeira... essa construção irritante! Me deu uma lição. Passou a abrigar canários.
Ontem, os canários se reuniram e cantaram, cantaram, cantaram. Acordei com aquele doce barulhinho, parece até com vozinha de criança. Os canários me acordaram, cinco minutos antes da alvorada.
Eu espero que eles se acostumem comigo. E que eu não me acostume com eles, que eles sempre me surpreendam e me acordem, dessa maneira tão doce, sutil e meiga.
Há um deles que é especial. Tem um canto tímido, meio engasgado, meio de esgueio. E jura-me que é atirado, pelinha, que não posso dar-lhe alpiste algum ou agarrará pra sempre no meu quintal. Acho que vou botar-lhe alpiste é cá na janela, pra ele freqüentar meu quarto... Mas sem arapucas e alçapões, isso não se faz.
Ele me canta como se me perguntasse se acordo ou não, se aprendo o tempo dele ou se fico assim todo trouxa acordando tarde. Bichinho danado. Parece que na minha pergunta, eu mesmo sou-lhe a resposta. Me encanta...
Nunca fui bom em crônicas, este blog tem sido um desafio.
Fosse uma dissertação, eu teria algum treino.
Ou fosse verso, maravilha, algum costume.
Mas crônicas... chronos feito texto... libertar em texto o que vou sentindo e vivendo ao longo do tempo? Desafiador!
De todo modo, fica a lição: Ainda que sua construção não faça sentido e lhe incomode, fale dela aos canários, que algum há de se habituar a acordar-te para a alvorada, que não tarda, sempre vem. Sempre cedo, nunca tarde.
Preciso aprender a acordar mais cedo. É que descobri-me precisado do meu canário. Preciso cevar esse bicho danado aqui, preciso criar nele o hábito da minha janela, pra eu ver o Mundo com esses olhinhos e esse canto entre eu e Ele. E logo. Antes que esse canário troque de construção.

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