Thursday, August 23, 2012

23 de Agosto

A gente estava namorando fazia pouquíssimo tempo. Duas semanas. Foi um custo, ela não queria. Só porque eu, galinhão e ciscadeiro, tava emendando o terceiro namoro direto, sem pausa pra pensar.
Todo avanço meu era um recuo dela. Um belo dia, cerquei a pobrezinha e dei um ultimato. Como sou irresistível, ela topou.
E, quando fez...
Agnaldo, entre uma padrice e outra, me ligou.
"Um amigo meu me ofereceu a casa dele em Guarapari de graça. Vamos?"
Fomos.
Houve uma ressaca.
Eu, menino ensolarado, espantava a chuva onde quer que a gente fosse. Castelhanos, Iriri, Piúma.
Mas em Guarapari mesmo, coitados da gente... Ali era só ressaca. Ondas enormes.
Um belo dia, o Guinaldo dormindo feito um leitão, roncando que só, uma chuva começou.
O mar se levantou, bravo. Arrancou pedaço de calçada, derrubou árvore. Foi um desmadre.
A luz acabou.
Peguei o Ananias pra jogar paciência (a versão do Linux é muito melhor, vocês precisam tentar!!) e de repente, me vi pensando.
Meu Deus. E eu aqui. Recém namorante. E eu aqui. Ai ai ai. Que burrice. Porque ela não veio? Porque? Porque?
E escrevi.
Agnaldo suspirava sonhando, talvez pensando na Bia, que sempre foi o seu amor irrealizado e confesso. O suspiro dele entrou no poema, misturado ao ritmo da destruição lá fora, que curiosamente trazia paz...
No dia seguinte, pegou pra jogar ele também paciência, o Ananias. Tava lá, na janela que abriu na reinicialização do sistema (gente, o Linux faz isso, igual o MacOs! Vocês precisam tentar!!!) o poema, faltando pontuar. Ponto é uma coisa que a gente escolhe depois. Ou nem escolhe.
Me olhou com uma cara chocada.
"Meu kit Santo Antônio fez efeito retardado... você vai casar com essa aqui, e eu vou celebrar. É uma das coisas mais lindas que eu já li. Parece até que foi escrito durante a lua de mel aqui. E ela nem está aqui."
Ela estava.
Tá aqui também, essa nêga danada que me persegue sei lá como.
Leia com respeito. É um dos que mais me envergonho. Mas é pra ela. Hoje é aniversário dela!
É sobre como o mar pode ser feminina, e destruidora mesmo que suave.

(Sem título)


E veio a noite, e ocultou as ondas.
Ouviu-se só o ruído inundando aos poucos as vias desavisadas...
A maré destruiu todo caminho diverso, as possibilidades todas, 
restou só ouvir as ondas, sem ver os seus contornos.

Ouviu-se os gemidos, os arfares, o recuo e o avanço do oceano negro
Silenciou-se a voz da terra faminta, em fruição
Terra molhada, maré resfolegante, tudo fez-se som
Sem traço de engano, susto ou medo.

As palavras calaram-se nos gemidos
As vozes decidiram falar sem dizer
Os ouvidos se encharcaram um no hálito doutro.

No sobe e desce do oceano negro 
No molha e seca da terra sedenta
Fez-se paz, fruto e amor.

3 comments:

Gisele Reis Simões said...

...
Lindo demais!
Vc sempre me dá presentes lindos, que eu fico mais apaixonada ainda...
Um beijo, meu bem!
Saudade. Muita!

Teresa said...

Dizem que a distância faz ao amor aquilo que o vento faz ao fogo: apaga o pequeno, inflama o grande!

É Julim... Você é mesmo irresistível!

Um beijo de admiração e orgulho... e de saudade (claro!!!!)

Glorinha said...

Ah, menino danado, julim poeta, terrível como a tempestade e manso como uma mãe. Orgulho-me de você, seu inspirado!
Muito lindo seu poema.
Beijocas da mãe.