Friday, September 14, 2012


ATENÇÃO: ESTE POST É UM LONGO DEVANEIO, QUE REALMENTE NÃO MERECE SER LIDO. E EU QUERO COM ESTA FRASE DIZER, EXATAMENTE, QUE É PARA VOCÊ NÃO O LER, SE NÃO QUISER ENTRAR EM MIM.

Se eu conhecesse alguma canção sobre esta dor, eu a cantaria o tempo todo.
Um desconforto.
Estou entrando, hoje, na minha última semana aqui em Bangalore. Dentro de uma semana e algumas horas, precisamente às 23:00 de sexta feira dia 21 de Setembro, entrarei num táxi até o aeroporto, e lá esperarei até as 3:30 para embarcar no avião que me levará a Londres. Ele decolará às 6:30 do dia 22. Chegará em Londres mais ou menos ao meio dia. Dali, pego outro avião até Madrid, às 15:30. E em Madrid, espero até 18:30 para pegar um terceiro vôo, este com destino a São Paulo.
Chego em São Paulo na manhã do dia 23, domingo.
É possível que o Frederico esteja lá. E então, dali do aeroporto, vou com ele (ou sem ele, se ele não puder ir lá me esperar) para São José dos Campos, mas uma pré-descompressão de uma semana. Mas não acho que vá descomprimir tudo em uma semana. Claro que não.
Clodomir, meu colega do doutorado, precisou de dois meses para se re-acostumar ao Brasil. Eu acho que devo levar mais ou menos o mesmo tempo, também.
Para reconhecer o Brasil, as pessoas, tudo.
Na minha mala levo presentinhos pra todo mundo que julguei merecedor. Tem gente que não vai ganhar nada. Talvez fique até com raiva. Não ligo.
Resolverei um monte de saudades, e criarei outras. Natural.
Eu e Marco combinamos de ir a um congresso em Açores em Abril do ano que vem. As outras pessoas daqui, algumas só mesmo voltando para reencontrar.
Seria o caso dos padres, de muitas freiras. De indianos de forma geral. Do Jan.
Outras pessoas disseram que vão ao Brasil, e não duvidaria. Sarah, Shin, Subin (que disse que vai ao casamento do Frederico - pobre alma). Esses poderiam pagar a passagem.
A vida é assim, cruel. Cobram passagem nos aviões, ainda. Talvez ainda leve muitos anos ou milênios para desistirem desta prática absolutamente abusiva. Todo mundo devia poder viajar de graça.
De qualquer modo, estas pessoas (puxa, são todas muié! tacaria no meio o Jan, que disse que o sonho dele é conhecer o Brasil, só pra acabar com o clube da Luluzinha…) é possível de irem ao Brasil, algum dia.
Duvidoso. Mas possível. Acho que só vou poder falar com elas de novo por email mesmo. Algumas, nunca mais verei.
Na verdade, acredito MUITO que, tirando Jan e Marco, perderei contato com todo o resto. Mas… quem sabe, né? 
Não terei saudade da falta de água. Hoje fazem dois dias que não tem uma gota sequer na torneira. Não terei saudade das panes elétricas. E nem da barulhada imensa, o tempo todo, por todos os cantos. E nem da falta de calçadas. Ou do trânsito louco.
Não sentirei a menor falta do facebook ou do skype, que me conectaram com o pessoal do Brasil. Nem um pouco.
Não sentirei saudade da comida. É boa. Mas não ao ponto de criar saudade. Não é a "minha" comida. Especialmente os cubos de pele de porco cozidos. Esses não sentirei nem uma gota de saudade. Ou a salada de alguma coisa muito amarga com côco e pimenta. Não… essa salada eu procurarei esquecer.
Mas a descompressão não é disso. Não é de nada. Não é de ninguém. É de mim mesmo. Levará tempo.
Quando eu vim pra cá, trouxe comunidade, JUDAC, Grupo de Oração, Deus, família, Gisele, plano, sonho, Neo, vontade de dar aula na UFJF…
Pouco a pouco, peguei todos estes deuses pelo braço, levei à cruz e matei. Matei mesmo. Matei Jesus. Senti o sangue dele espirrando na minha testa enquanto batia o martelo e o culpava por tudo. Olhei pra cara dele desconfiado.
E matei todo mundo, também.
Um a um. 
Não sei qual é o tamanho da Isabela. Não sei se a Alopex me reconhecerá. Não sei se o pai está mais gordo ou mais magro. Não sei se  a Bia continua bocão (ah, sim… continua… fofoqueira!). Não sei se é assim ou assado. Não sei se a Missa é boa ou ruim. Não sei de mais nada.
O último a matar foi eu mesmo. Deitei a mim mesmo lá. E tome martelo.
Morremos, todos.
Surgiu uma indiferença, uma consciência. Antigamente eu falava assim "sei que nada sei" porque o Sócrates tinha falado. Aí eu falava pra todo mundo perceber que eu conhecia o Sócrates, que sabia dele. Na verdade, ao falar isso, eu só dava prova de que sabia isso e aquilo. Sabia mesmo. Fui muito sábio, por muito tempo.
Aí, desde que morri, esqueci tudo. Não sei de nada, nadinha da Silva, nada.
Só sei que não sei.
Olho desconfiado pra mim mesmo. E pra mãe. E presse povo daqui, esses mesmos que vão ou não manter contato. Desconfio de todos eles.
Só confio na única coisa que se levantou depois de um tempinho de morto. Não fui eu. Eu continuo morto. É Ele. 
E olha, levantou muito diferente, nem te conto. Sabe o que tem a ver com esse das adorações do santíssimo e da Bíblia e de toda essa parafernália? Nada. E tudo.
É plenamente reconhecível como o mesmo. Mas é totalmente diverso.
Estar morto é uma beleza. Espero não levantar. Olho pra mim mesmo, pras coisas que eu quero, e rio. Acho graça. Sinto-me ridículo, todo desejoso de tudo. E aí, nem ligo mais. 
Se não tem água, não tem problema. E tem.
Se tem água, que bom. E não.
Não faz diferença. E faz.
Estar morto é ser sim e não. O morto sempre vive na lembrança…
Vocês, queridos a quem matei e que desconheço completamente, estejam já avisados. Vai ser aos poucos. Vou precisar de tempo pra me reacostumar. Peço paciência.
Havia em mim alguns monstros, também. Estes sobreviveram.
Eram todas as coisas que eu fazia, pensava de mim ou negava que tivesse feito ou que me sentisse.
Hoje em dia, vivemos todos juntos.
É que, como morri, virei um zumbi, uma assombração sobre mim mesmo. Nos tornamos iguais. Descobri que eu era só mais um dos monstros, e aí ficou fácil.
Nós jogamos cartas, rimos dos padres. Achamos engraçado o fato das freiras usarem burcas e serem chamadas de devotas, enquanto as muçulmanas de hábito são tidas como oprimidas. 
Andamos por aí, todos de mão dadas, e os guardas nos fazem continência. Respondemos com um sorriso imenso. Eles riem de volta, e fica muito melhor assim. Achamos curioso o fato de gozarmos de privilégios.
Enquanto as freiras e as moças que moram no prédio do Adyanna ou os padres e irmãos e meninos que moram nos outros blocos têem que estar em casa às 19:30, vez ou outra saímos neste horário.
E aí os guardas que ficam no portão e pelas ruas do campus não nos batem continência. Só riem. E nos deixam passar. Rimos de volta.
E rimos de nós mesmos. Quando um ou outro nos pergunta porque fazemos assim e não assado, respondemos que não nos importamos muito com o que os superiores pensam. Que não estamos nem aí pros superiores. Superiores, Coordenadores dos blocos estes que, ao contrário de repreender, riem. E dizem "da próxima vez, me convide."
Rimos do medo dos outros. Rimos da autoridade dos coordenadores. Rimos da amizade dos guardas. Rimos da nossa cara de pau. Rimos porque estamos ensinando o "jeitinho". 
Mas não ficamos nos lembrando. De noite, entre uma e outra ave-maria (essa também pessoa morta, morta, coitada. Diferente que só do que dizem a respeito dela. Acho que até fica meio ofendida), pegamos todos os risos, todos os guardas, tudo. E matamos, um a um.
Até que fiquemos eu, os monstros (jogando cartas), Ele e ela.
Ela é boa companhia. 
Perguntei outro dia "é verdade isso?" e a resposta foi "e importa?"
É, não importa mesmo se é verdade ou mentira, doutrina ou heresia, ortodoxia ou sei lá o que. Importa que seja boa companhia.
Outro dia, um dos monstros ficou meio em dúvida. "Não sei não. Você está exagerando, Zumbi. Deve ter algo de verdade em alguma coisa que essa gente toda fala…"
É verdade, teólogo. (esse é o nome do monstro. Já é em minúsculo porque já nem é identidade) Tem mesmo algo de verdade. É que todos estes santos, e santas e tudo, estão em Deus. E onde está Deus?
Ele apontou um dedinho pro nada.
teólogo, faz um favor pra gente: me diz o que você está vendo ai em Deus.
"Nada. É vazio, sem forma, sem som. Puro silêncio de alma."
Então cala a boca, teólogo. Se este povo todo estiver em Deus, nunca saberemos. E a opinião que temos sobre este estar deles por lá só pode ser monstruosa e mentira. Porque se fosse divina e verdadeira, não saberíamos. Como você mesmo sabe, parvo, não é possível saber. Portanto, o que dizem a respeito de tudo é, necessariamente, mentira.
Ele ficou meio triste. Ele gosta de saber de coisas. Até conta algumas pras outras pessoas. Mas conta querendo confundir. Declaradamente, sabe que tudo é mentira, desde que expliquei isso pra ele.
Ali, sentados na beiradinha do colchão, eu e meus monstros rimos, jogamos Uno.
Um outro deles era cismado de que gostava de mulheres. Chamava-se heterossexual casadoiro. 
Foi um dos que mais deu trabalho. Pele grossa. Dura. Quase entortou o prego. Mas morreu também.
Perguntam-me mentalmente os zumbis do outro lado deste teclado se isso quer dizer que eu não vou me casar.
Pode ser. Não importa. Se a "adversária" topar não me amar, eu aceito.
Amo só o Amor. E mais ninguém. Ninguém merece ser amado, sinto muito. O máximo que posso oferecer é um assento na minha varanda pra juntos amarmos. 
Sexo, filhos, planos, todo o resto, é o de menos. Não importam.
Eu sou filho não planejado. A Cecília também é. 
Somos os favoritos, tenho certeza. É que causamos mais impacto.
Até imagino a cena.
"Que? Tá grávida? Mas e o planejamento familiar…?"
E távamos lá, sugando edométrio há muito tempo.
E aí, depois da surpresa, aquele amor imenso. 
Nossos pais amaram a gente. E assim amaram. Não se amaram. Amaram a vida um com o outro.
Não só, claro.
Porque, se isso parece verdade, só pode ser sinal de que não é, posto que a verdade está em outra parte, sempre inacessível.
Por isto, não amo mais ninguém. Amar gente conhecida é muito fácil.
"Ah, como podeis dizer que amais a Deus, a quem não podeis ver, se não amais ao próximo  a quem vedes?"
Sinceramente, não sei de onde você tirou isso. A palavra que você utiliza para falar do amor entre pessoas é diferente do amor a Deus, que é o que estou me referindo aqui. Estou falando de agápe. De dar a vida. Não dou a vida por ninguém. Não tenho vida pra dar. Morri.
Posso viver esta morte com quem quiser dar a vida comigo, é só.
E o que eu posso oferecer a esta outra pessoa é outra coisa, que leva o nome de amor, mas não é amor, amor, amoooor mesmo. É que nossa língua é muito pobre.
Eu amo com esse amorzinho fuleiro, claro que sim. Esse outro é feito de inclinações pessoais, afinidades, planos, sonhos conjuntos…
O problema é que esses são nomes de monstros, que iludem a consciência e nos tornam assim anestesiados a respeito do que somos essencialmente.
Somos mortos. Nós, que AMAMOS, morremos.
Eu encontrei um Amor, no fundo de mim. 
Não sei o que fazer a respeito dele.
Ele veste muitas roupas e muitas peles e muitas vozes.
Ele ficará aqui, e irá comigo.
Ele é diferente de mim, e meu único igual.
Vocês terão de ter paciência, porque… no fim, e depois deste longo preparo, posso dizer de forma que vocês todos entendam:

Não quero saber de nenhum de vocês. 
Se vocês todos sumirem, não fará a menor diferença para o que eu sou.
Eu sou uma faisquinha miúda. E vocês também são, claro.
Mas a chama…? A chama é outra coisa!
E eu conheci a chama. Aí, minha faísca se tornou desnecessária. E apagou.
Conhece-te a ti mesmo… Me conheci, e não era diferente de todas as outras mentiras.
Por fim…
Antigamente, eu queria ser santo.
Hoje, não quero mais.
Já sou de Deus. Se ele quiser me jogar no inferno, por mim tudo bem.
E por isso tudo, tenho saudades de todos. Mas as mato ao cair da noite.

4 comments:

Glorinha said...

Veja bem,Julim:"Jesus hat das Kreuz nicht erlärt,sondern getragen"(Georg Moser).
Acho que o monstro teólogo não sabe disso.
Cá estamos, esperando você, com muito amor e muita paciência.
O pai e eu sabemos fazer isso. Primeiro, foram 9 meses sem ver sua carinha;depois, mais um tempão,para ouvir você falar:mamãe, papai,depois mais tempo para vê-lo andar.Mais tempo para vê-lo descobrir o mundo das letras, etc, etc. Muito tempo esperando você crescer e se tornar adulto.Esperar sua descompressão é fichinha para quem te ama.
Esperar e confiar no poder de Deus, isso é o principal, as outras coisas são detalhes.
Que essa última semana seja repleta de bênçãos para todos nós. Amém!

Teresa said...

Pois é, meu queridíssimo irmão caçula! Como sou teimosa, li tudo de você! Claro! E se eu lhe disser que eu também estava em algumas linhas (ou em quase todas) vc tbém não entenderia, e tbém nem precisa, não é assim que vc fala?! Se eu lhe disser que meus monstros (eles existem, pode crer!) são parentes próximos dos seus...hunf, nem te conto! Mas pode saber de uma coisa: o Amor que mora em você, que mora em mim(ai! tomara!) quer você de volta, no seu primeiro planeta que é aqui, na sua família! O resto é o resto, depois o tempo resolve... o tempo sempre resolve, quer a gente queira ou não! Venha do jeito que vc é, totalmente nada e maravilhosamente tudo, com ou sem monstros, mas cheio desse tempo que vc com certeza nunca vai esquecer! Que o seu tempo-amor nos enriqueça sempre mais e mais! Tem um lema que diz assim: "Vá com calma, mas vá!" Acho que agora posso dizer: "Venha com calma, mas venha!!!!" Ah! lembrei de uma música:

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo

Preciso dizer: não adianta vc dizer que morreu, pois você vive do meu lado de dentro!!!!


Banana said...

Julim, acho que vc causou impacto, mas não por não ter sido planejado (e eu tb não fui, diga-se de passagem).
O impacto mesmo foi depois que vc saiu da barriga: a cada dia mais maluquinho (no bom sentido, é claro!)
Volta, volta, Julinho! Volta pr´essa gente que te ama!!!

Maria Maria said...

"Jogado aos seus pés eu sou mesmo exagerado..."
O Frederico é a pessoa certa pra te descomprimir! Não vai querer emprestado seu submarino sonar, nem seu avião de controle remoto!
Quando chegar de verdade, me avisa pra eu providenciar a festinha....

PS: Ai de você se não trouxe presente pra mim!!!!!!!!!!!!