Então. Vou contar causos, agora.
Nem só de brasileiros, mexicanos, congoleses, indianos (obviamente), franceses, alemães e etc vive a Índia.
Também há coreanos. Litros.
A Coréia do Sul tem negócios no Oceano Índico, perto das águas territoriais indianas, o que por sinal tem causado um pouco de atrito. Mas além disto, desde meados do século passado (o 20), houve um grande êxodo, e se espalharam pelo mundo. Até em Juiz de Fora mesmo tem, né? Os famoso "coreano", que vendem uns vestidos baratos!
Então. Este processo de migração da Coréia está continuando até hoje, razão pela qual a gente encontra coreanos fora da Coréia. E aqui na India também.
São muito gentis. Extremamente educados, suaves. Entre eles aqui, eu que sou um sujeito feminino e heterossexual por acidente, conheço três meninas. Shin, que faz pós-graduação e me pede mil ajudas em tudo que é matéria, e que é semi-pastora anglicana. Ultra gente fina, e doidinha de tudo.
O marido dela, que já é padre, ficou em Seoul.
Ela me apresentou uma pobre alma, favorita do Frederico, Subin. Que chegou aqui há uns três meses, em Bangalore, mas mora na Índia há uns 4 anos porque os avós dela moram em Chennai. Faz uma graduação na Christ.
E a irmã dela, Sumin (taliqual os filhos Marina/Mariana, Rodrigo/Ricardo, Pata/Peta/Pita/Pota/Maria Clara... tão freqüentes no Brasil) faz o terceiro ano, do Ensino Médio. Que por aqui chama Junior College, ali no Koramangala 4th Block, coisa de uns 40 minutos a pé daqui.
Pois muito que bem. Têm uma estrutura social estranha.
Sumin tem uma Guardiã. Uma espécie de mãe postiça, que toma conta dela.
E Shin, a "padra" anglicana, é a guardiã informal de Subin. Uma quase-guardiã.
Na verdade, ela é uma ounni, uma "irmã mais velha", a mais velha de todas. A palavra "ounni" significa irmã mais velha. Mas elas não são parentes. E se conheceram aqui. Mas curiosamente, automaticamente pelas duas serem anglicanas (ou quase, ja que a Subin é meio budista também) e da mesma cidade (Seoul) a Shin se torna responsável por ela. E tem que pagar as contas, quando saem juntas, inclusive. E tem que cuidar dela. Muito louco, né?
Nessa coisa toda, ampliando o conceito, se um menino mais novo conhece uma mulher (ou menina mais velha), a menina mais velha não é ounni, mas "nunna" do rapaz.
E um rapaz mais velho é "opa" de todo mundo ali, meninos ou meninas.
Como eu sou um cabra curioso, saí perguntando isso tudo pra poder saber. É muito gozado algumas coisas, que eu não perguntei.
Tipo: quando encontro um deles, menino/menina; é como entrar em uma academia de karatê. Faz aquele cumprimentozinho do início, curvando. Mas um pouco menos curvado.
E ai de vc dizer "nossa, vocês parecem japoneses...".
O Japão é a Argentina da Coréia. E eles sustentam que são super diferentes, que não tem nada a ver, que o Japão é isso e aquilo.
Aí tá. De uns tempos pra cá, notei que a Shin, que tem 29 anos, começou a me chamar de opa. Eu deixei, uai. Que que eu ia fazer? Ela insistia! Comecei a chamar ela de Nunna, e ela ficava irritada, dizendo "não!!! sou Shin, só, e você é Opa. E é assim."
Como ela é meio louca (já disse isso aí pra cima... na opinião do Marco, ela é louca e meia, e do Frederico, é americana), achei melhor não contestar e "assumi o cargo". E ajudei ela com o trabalho de direito canônico (que ela como todo e qualquer protestante ou católico fundo que se preze não entende porque existe), com hebraico, com Mariologia... tudo moleza, né.
Na verdade ajudo o Dalsai, que está formando em Teologia, com o trabalho dele também. Mas ele é mais preguiçoso que eu, e me faz entender a irritação da Maria Inês comigo na época. E ajudo o Philip com a aula de Epistemologia da Religião dele também.
É, eu sou um cara prestativo. Tooodo mundo sabe disso, que finjo de mau mas na verdade sou bonzinho.
Segunda feira, estava eu aqui olhando pro teto quando a Shin me liga.
"Opa, venha no hospital Sagar. Não estou entendendo o que o médico está falando."
Fui lá. Achei que ela estava doente.
Mas na verdade, a Subin é que estava com febre dessas que vai e vem, e com vômitos e não sei o que. Dengue. E elas queriam que queriam vacina contra a dengue. E queriam internar de qualquer jeito, porque é uma doença terrível.
E sim, o sotaque do Sul da Índia parece ser péssimo. Eu entendo não sei porque. Acho que é porque é muito parecido com o do Dilip, que parece brasileiro mas só consegue explicar Filosofia Vedanta em inglês. Nada mais justo, já que os livros estão em inglês... mesmo os aí do Brasil.
No Brasil ou você não encontra nada, ou encontra umas coisas Nova-Era ou encontra o livro em inglês sobre Filosofia Vedanta. No mais, é Nova-Era mesmo. Nego dizendo que Krishna e Jesus são a mesma coisa não no sentido profundo de mitologias de acesso ao divino, mas no superficial de serem um a encarnação do outro. E sobre a mitologia de Jesus, claro que não estou falando do Jesus Revelado, do Evangelho, mas daquele cara super gente-boa que cura até unha encravada nos grupos de oração. Ou no super-amiguinho que dá ao estudante uma vaga na universidade porque o ama muito e ele é o escolhido do Senhor. Ou no que... enfim. Pescou, né? Há uma mitologia extra-bíblica de Jesus que é mais conhecida que a história dele mesmo.
Bom. Fim deste enorme parêntese.
Fui lá, servir de intérprete.
A Índia toda é um grande monumento à burocracia inglesa, minha gente. Pense no críquete, cuja partida dura 5 dias (no duro. 5 dias de partidas de 6 horas cada) e no baseball, que é uma versão simplificada pelos estadounidenses do mesmo jogo. Os ingleses adoooram burocratizar. E os indianos também. Resultado...?
O paciente na Índia, mesmo que seja para engessar um braço quebrado, não pode nada.
Ele tem que ter um acompanhante, e as coisas são perguntadas e resolvidas com o acompanhante. O acompanhante é que diz se vai ou não vai fazer exame. Ou se vai ou não vai querer ir ao médico.
E aí, na hora que o médico ou o enfermeiro aparece pra colher o sangue, colhem e dão a guia pro acompanhante, ele tem que ir nao sei aonde e resolver nao sei o que. O paciente tem que ficar pacientemente sendo um sujeito passivo na coisa toda.
Os formulários estavam em inglês. Com perguntas do tipo Idade, peso, tal. E, do nada... Nome do responsável na Índia (pai ou cônjuge). Bem desse jeito.
E a Shin, que morou nos EUA e não entende o sotaque, não conseguia explicar que Subin não era casada. E nem entender que o médico queria saber como é que ela morava, se não era casada e nem morava com os pais. E Subin, que fala inglês indiano perfeito (depois de 4 anos também, né...?) não podia abrir a boca. Explicava a coisa pro médico, mas ele não deixava ela preencher o formulário e não preenchia. E dizia de novo "mas quem é responsável por você?" "Eu!! Tenho 22 anos!" "Mas você é mulher. Quem é responsável por você?" E tudo isto.
Sendo também que, como estava com dengue, foi colocada na sala de exame isolada, para que a doença não se espalhasse pelo hospital. Muito melhor que controlar o Aedes com um fumacê. Sai mais barato colocar os dengosos dentro de uma sala fechada. E isolada, sozinha, aumentando a ansiedade. E a Shin não podia entrar lá. Então tentaram resolver pelo celular, mas o médico tomou o celular da Subin, porque o paciente também não pode falar no celular. É proibido, porque faz muito barulho.
E o médico começou a perguntar pra Shin onde estava o marido dela, e ela dizendo "na Coréia" e o médico "o que? o que? o que?". Detalhe. Shin fala "South Korea"assim, lindamente. Mas com sotaque texano, porque morou lá por 6 anos. Sotaque este que, aos ouvidos do sul-indiano, é tão estranho quando o sul-indiano ao ouvido querendo ouvir inglês americano.
No meio desse circo, eu cheguei lá.
Curiosamente, tinha lá um amiguinho da Subin, da Universidade, que também não queriam deixar fazer nada porque tem 17 anos. E é assim, minha gente: Fica o enfermeiro vigiando quem está com o formulário. Tem uma mesa pra preencher o formulário. Não pode pegar e sair dali com ele. Não, não pode. É a burocracia. É só naquela mesa específica, de frente para aquele enfermeiro específico e aquela pessoa específica que pode preencher.
O menino é indiano, e a Shin não conseguia entender o que ele dizia.
Cheguei no circo. Cumprimentei. Shin me falou assim: "fica quieto e vai balançando a cabeça quando me vir", por uma mensagem. Ok.
Cheguei, fui balançando a cabeça e ela danando a falar coreano e eu boiando total e fazendo o cumprimentozinho japonês. O médico olhou pra minha cara.
"Ah, é você..." E quando eu ia dizer "eu o que?"A Shin já foi dizendo "YES! It's him! Can he fill the form?"
Me deram o formulário.
Coisas até simples. Mas termos loucos, que o enfermeiro foi explicando o que eram. Difícil mesmo de entender aquele formulário. Na verdade, não sei se o que atrapalhou a Shin e a Subin foi o formulário ou as explicações do enfermeiro. O menino (Nanda, que ele chama. Acabei de lembrar!) foi meio que traduzindo pra mim. E preenchi a coisa toda.
Entreguei. O enfermeiro olhou, conferiu, fez assim uma cara de "ah, tá" e me devolveu.
"assina aí, pra menina ser internada."
Que, gente? Olhei pra Shin. "O que ele quer dizer? Não é você que tem que preencher isso? Você não é 'ounni' dela?"
"Você é o Opa. Você é nosso protetor aqui na Índia."
"Desde quando, Shin?"
"Desde que descobri que nessa porcaria de país machista mulher não tem vez. Na verdade, estamos pra nos casar em breve, e Subin é minha filha adotiva. É o que ele parece ter entendido."
E olhou pro enfermeiro, que olhava pra mim como quem estivesse disposto a resolver uma iminente crise conjugal.
"Ah, tá... depois você me explica isso direito."
Assinei. Fomos pra sala de pagar os negócios todos. 880 rupias, pagos com a carteira da Subin, que já estava com a Shin. A mulher deu o recibo pra mim e não pra Shin. Até as mulheres são machistas na Índia.
"Como assim, pastora?"
Ela começou a rir, nervosa. Me olhou, falou mais umas coisas em coreano. E eu dei aquela sacudidinha e disse "Hai! Hai!", que é sim em Japonês. Mas e daí? Ninguém ali sabia nem coreano e nem japonês mesmo... Acho que ela estava com vergonha e danada da vida, tudo ao mesmo tempo.
"Relaxa. Não estou nervoso e nem bravo. Mas tô curioso com isso tudo. Como assim?"
"O cara queria que eu trouxesse o meu marido. Expliquei que ele era padre e estava em Seoul. Ele me perguntou onde era Seoul. Disse que era na Coréia, e ele disse que então eu era divorciada. Então disse que não, ele perguntou onde estava meu marido de novo. Expliquei a ele que na Coréia é assim e assado, que eu era a guardiã da Subin. E ele disse que tinha que ser um homem, e mandou eu chamar o meu guardião. Meu guardião é você, eu acho."
"É?"
"É. você é mais velho, faz karate, e tem mestrado. É o guardião."
"Sou?"
"É!!!! Opa!!!!"
Aí que eu entendi exatamente o que um "Opa" era.
"Mas... e porque vamos nos casar?"
"Porque o enfermeiro não entendeu nada do que eu expliquei e me perguntou tudo de novo. Aí me deu a idéia de te promover a noivo, que sabe coreano e por isso podia ajudar. Desculpa"
"Você é louca mesmo... bom... e o que você me disse lá?"
"Um monte de desaforos ao enfermeiro, só olhando pra sua cara."
Pouco depois, chegaram vááááários coreanos. Todos falando aquela bizarrice de língua. Alguns meninos, de uns 20 e poucos anos, tinham os cabelos cortados no melhor estilo "cavaleiro do zodíaco" ou "Ben10". Quando perguntavam o que eu fazia, dizia que era pesquisador de doutorado. Faziam uma cara de admiração, curvavam. E diziam ooooohhhhh...
O menino indiano ficou curiosíssimo querendo entender como é que eu podia ter Mestrado em Teologia.
"So you do detain a Master's Degree in Theology, don't you?"
"Yes."
"Are you a father?"
"No."
"How is this possible?"
Gente.
Acabou que a Subin ficou no hospital, a Sumin e a guardiã da Sumin foram pra lá e ficaram com ela. Expliquei que a vacina era todo mundo usar repelente.
"Porque não tem vacina? O Brasil é rico! Podia fazer a vacina."
Também estou me perguntando isso até agora.
Não sei se ainda estão lá, mas como a cultura do "zoto", como vocês podem perceber, é muito estranha, não sei se devo ligar pra saber.
Porque de uma hora pra outra pode acabar que viro avô de sei lá quem sem o menor aviso.
Mas o que IMPRESSIONA, e assim quero fechar o texto e dizer o que realmente me inculcou, é que a pergunta de fundo, no Brasil, na Índia, na Coréia, é a mesma.
"Como você pode ter Mestrado em Teologia e não ser padre?"
Fiquei sabendo, depois, pela boca da Shin, que a Sumin é da opinião que eu e Marco somos muito sagrados (very Holy people) porque pesquisamos teologia e nem somos padres. Somos mais sagrados que os padres. Somos na verdade reencarnações/emanações/sei-lá-o-que da sabedoria do Buddha.
No Brasil, as donas já pararam o Robert na fila do caixa do Bahamas pra dizer "Nossa, o Julio tem Mestrado em Teologia, e já está no doutorado. Como pode ser que possamos conviver com alguém assim...!!!". A mãe do Fernando Haider ficou na dúvida se a Barbara, doutorinha, comia pipoca.
E, diante de um Rubem Alves da vida, eu babo ovo e o considero super-sagrado.
O que nos causa espanto é que sabemos que o outro é território sagrado, e as maneiras que a gente reage a isto é que são variáveis em cada cultura.
No Brasil, compramos o melhor milho.
Na Índia, batemos continência e pedimos bênção.
Na Coréia, fazemos da pessoa a nossa guardiã.
No catolicismo, santo.
No hinduísmo, outro deus.
E assim em diante.
Mas o desconforto é o mesmo: o outro é sagrado.
Eu, o piorzão, sou sagrado.
E essa é uma coisa pior de se constatar.
Talvez deva me preocupar mais com o meu milho. E pedir minha própria bênção. E ser meu guardião. E me conter. E ser santo. E assumir o Deus dentro de mim.
E, claro... o causo por si mesmo já é super bizarro e divertido. Vale a pena registrar...
Nem só de brasileiros, mexicanos, congoleses, indianos (obviamente), franceses, alemães e etc vive a Índia.
Também há coreanos. Litros.
A Coréia do Sul tem negócios no Oceano Índico, perto das águas territoriais indianas, o que por sinal tem causado um pouco de atrito. Mas além disto, desde meados do século passado (o 20), houve um grande êxodo, e se espalharam pelo mundo. Até em Juiz de Fora mesmo tem, né? Os famoso "coreano", que vendem uns vestidos baratos!
Então. Este processo de migração da Coréia está continuando até hoje, razão pela qual a gente encontra coreanos fora da Coréia. E aqui na India também.
São muito gentis. Extremamente educados, suaves. Entre eles aqui, eu que sou um sujeito feminino e heterossexual por acidente, conheço três meninas. Shin, que faz pós-graduação e me pede mil ajudas em tudo que é matéria, e que é semi-pastora anglicana. Ultra gente fina, e doidinha de tudo.
O marido dela, que já é padre, ficou em Seoul.
Ela me apresentou uma pobre alma, favorita do Frederico, Subin. Que chegou aqui há uns três meses, em Bangalore, mas mora na Índia há uns 4 anos porque os avós dela moram em Chennai. Faz uma graduação na Christ.
E a irmã dela, Sumin (taliqual os filhos Marina/Mariana, Rodrigo/Ricardo, Pata/Peta/Pita/Pota/Maria Clara... tão freqüentes no Brasil) faz o terceiro ano, do Ensino Médio. Que por aqui chama Junior College, ali no Koramangala 4th Block, coisa de uns 40 minutos a pé daqui.
Pois muito que bem. Têm uma estrutura social estranha.
Sumin tem uma Guardiã. Uma espécie de mãe postiça, que toma conta dela.
E Shin, a "padra" anglicana, é a guardiã informal de Subin. Uma quase-guardiã.
Na verdade, ela é uma ounni, uma "irmã mais velha", a mais velha de todas. A palavra "ounni" significa irmã mais velha. Mas elas não são parentes. E se conheceram aqui. Mas curiosamente, automaticamente pelas duas serem anglicanas (ou quase, ja que a Subin é meio budista também) e da mesma cidade (Seoul) a Shin se torna responsável por ela. E tem que pagar as contas, quando saem juntas, inclusive. E tem que cuidar dela. Muito louco, né?
Nessa coisa toda, ampliando o conceito, se um menino mais novo conhece uma mulher (ou menina mais velha), a menina mais velha não é ounni, mas "nunna" do rapaz.
E um rapaz mais velho é "opa" de todo mundo ali, meninos ou meninas.
Como eu sou um cabra curioso, saí perguntando isso tudo pra poder saber. É muito gozado algumas coisas, que eu não perguntei.
Tipo: quando encontro um deles, menino/menina; é como entrar em uma academia de karatê. Faz aquele cumprimentozinho do início, curvando. Mas um pouco menos curvado.
E ai de vc dizer "nossa, vocês parecem japoneses...".
O Japão é a Argentina da Coréia. E eles sustentam que são super diferentes, que não tem nada a ver, que o Japão é isso e aquilo.
Aí tá. De uns tempos pra cá, notei que a Shin, que tem 29 anos, começou a me chamar de opa. Eu deixei, uai. Que que eu ia fazer? Ela insistia! Comecei a chamar ela de Nunna, e ela ficava irritada, dizendo "não!!! sou Shin, só, e você é Opa. E é assim."
Como ela é meio louca (já disse isso aí pra cima... na opinião do Marco, ela é louca e meia, e do Frederico, é americana), achei melhor não contestar e "assumi o cargo". E ajudei ela com o trabalho de direito canônico (que ela como todo e qualquer protestante ou católico fundo que se preze não entende porque existe), com hebraico, com Mariologia... tudo moleza, né.
Na verdade ajudo o Dalsai, que está formando em Teologia, com o trabalho dele também. Mas ele é mais preguiçoso que eu, e me faz entender a irritação da Maria Inês comigo na época. E ajudo o Philip com a aula de Epistemologia da Religião dele também.
É, eu sou um cara prestativo. Tooodo mundo sabe disso, que finjo de mau mas na verdade sou bonzinho.
Segunda feira, estava eu aqui olhando pro teto quando a Shin me liga.
"Opa, venha no hospital Sagar. Não estou entendendo o que o médico está falando."
Fui lá. Achei que ela estava doente.
Mas na verdade, a Subin é que estava com febre dessas que vai e vem, e com vômitos e não sei o que. Dengue. E elas queriam que queriam vacina contra a dengue. E queriam internar de qualquer jeito, porque é uma doença terrível.
E sim, o sotaque do Sul da Índia parece ser péssimo. Eu entendo não sei porque. Acho que é porque é muito parecido com o do Dilip, que parece brasileiro mas só consegue explicar Filosofia Vedanta em inglês. Nada mais justo, já que os livros estão em inglês... mesmo os aí do Brasil.
No Brasil ou você não encontra nada, ou encontra umas coisas Nova-Era ou encontra o livro em inglês sobre Filosofia Vedanta. No mais, é Nova-Era mesmo. Nego dizendo que Krishna e Jesus são a mesma coisa não no sentido profundo de mitologias de acesso ao divino, mas no superficial de serem um a encarnação do outro. E sobre a mitologia de Jesus, claro que não estou falando do Jesus Revelado, do Evangelho, mas daquele cara super gente-boa que cura até unha encravada nos grupos de oração. Ou no super-amiguinho que dá ao estudante uma vaga na universidade porque o ama muito e ele é o escolhido do Senhor. Ou no que... enfim. Pescou, né? Há uma mitologia extra-bíblica de Jesus que é mais conhecida que a história dele mesmo.
Bom. Fim deste enorme parêntese.
Fui lá, servir de intérprete.
A Índia toda é um grande monumento à burocracia inglesa, minha gente. Pense no críquete, cuja partida dura 5 dias (no duro. 5 dias de partidas de 6 horas cada) e no baseball, que é uma versão simplificada pelos estadounidenses do mesmo jogo. Os ingleses adoooram burocratizar. E os indianos também. Resultado...?
O paciente na Índia, mesmo que seja para engessar um braço quebrado, não pode nada.
Ele tem que ter um acompanhante, e as coisas são perguntadas e resolvidas com o acompanhante. O acompanhante é que diz se vai ou não vai fazer exame. Ou se vai ou não vai querer ir ao médico.
E aí, na hora que o médico ou o enfermeiro aparece pra colher o sangue, colhem e dão a guia pro acompanhante, ele tem que ir nao sei aonde e resolver nao sei o que. O paciente tem que ficar pacientemente sendo um sujeito passivo na coisa toda.
Os formulários estavam em inglês. Com perguntas do tipo Idade, peso, tal. E, do nada... Nome do responsável na Índia (pai ou cônjuge). Bem desse jeito.
E a Shin, que morou nos EUA e não entende o sotaque, não conseguia explicar que Subin não era casada. E nem entender que o médico queria saber como é que ela morava, se não era casada e nem morava com os pais. E Subin, que fala inglês indiano perfeito (depois de 4 anos também, né...?) não podia abrir a boca. Explicava a coisa pro médico, mas ele não deixava ela preencher o formulário e não preenchia. E dizia de novo "mas quem é responsável por você?" "Eu!! Tenho 22 anos!" "Mas você é mulher. Quem é responsável por você?" E tudo isto.
Sendo também que, como estava com dengue, foi colocada na sala de exame isolada, para que a doença não se espalhasse pelo hospital. Muito melhor que controlar o Aedes com um fumacê. Sai mais barato colocar os dengosos dentro de uma sala fechada. E isolada, sozinha, aumentando a ansiedade. E a Shin não podia entrar lá. Então tentaram resolver pelo celular, mas o médico tomou o celular da Subin, porque o paciente também não pode falar no celular. É proibido, porque faz muito barulho.
E o médico começou a perguntar pra Shin onde estava o marido dela, e ela dizendo "na Coréia" e o médico "o que? o que? o que?". Detalhe. Shin fala "South Korea"assim, lindamente. Mas com sotaque texano, porque morou lá por 6 anos. Sotaque este que, aos ouvidos do sul-indiano, é tão estranho quando o sul-indiano ao ouvido querendo ouvir inglês americano.
No meio desse circo, eu cheguei lá.
Curiosamente, tinha lá um amiguinho da Subin, da Universidade, que também não queriam deixar fazer nada porque tem 17 anos. E é assim, minha gente: Fica o enfermeiro vigiando quem está com o formulário. Tem uma mesa pra preencher o formulário. Não pode pegar e sair dali com ele. Não, não pode. É a burocracia. É só naquela mesa específica, de frente para aquele enfermeiro específico e aquela pessoa específica que pode preencher.
O menino é indiano, e a Shin não conseguia entender o que ele dizia.
Cheguei no circo. Cumprimentei. Shin me falou assim: "fica quieto e vai balançando a cabeça quando me vir", por uma mensagem. Ok.
Cheguei, fui balançando a cabeça e ela danando a falar coreano e eu boiando total e fazendo o cumprimentozinho japonês. O médico olhou pra minha cara.
"Ah, é você..." E quando eu ia dizer "eu o que?"A Shin já foi dizendo "YES! It's him! Can he fill the form?"
Me deram o formulário.
Coisas até simples. Mas termos loucos, que o enfermeiro foi explicando o que eram. Difícil mesmo de entender aquele formulário. Na verdade, não sei se o que atrapalhou a Shin e a Subin foi o formulário ou as explicações do enfermeiro. O menino (Nanda, que ele chama. Acabei de lembrar!) foi meio que traduzindo pra mim. E preenchi a coisa toda.
Entreguei. O enfermeiro olhou, conferiu, fez assim uma cara de "ah, tá" e me devolveu.
"assina aí, pra menina ser internada."
Que, gente? Olhei pra Shin. "O que ele quer dizer? Não é você que tem que preencher isso? Você não é 'ounni' dela?"
"Você é o Opa. Você é nosso protetor aqui na Índia."
"Desde quando, Shin?"
"Desde que descobri que nessa porcaria de país machista mulher não tem vez. Na verdade, estamos pra nos casar em breve, e Subin é minha filha adotiva. É o que ele parece ter entendido."
E olhou pro enfermeiro, que olhava pra mim como quem estivesse disposto a resolver uma iminente crise conjugal.
"Ah, tá... depois você me explica isso direito."
Assinei. Fomos pra sala de pagar os negócios todos. 880 rupias, pagos com a carteira da Subin, que já estava com a Shin. A mulher deu o recibo pra mim e não pra Shin. Até as mulheres são machistas na Índia.
"Como assim, pastora?"
Ela começou a rir, nervosa. Me olhou, falou mais umas coisas em coreano. E eu dei aquela sacudidinha e disse "Hai! Hai!", que é sim em Japonês. Mas e daí? Ninguém ali sabia nem coreano e nem japonês mesmo... Acho que ela estava com vergonha e danada da vida, tudo ao mesmo tempo.
"Relaxa. Não estou nervoso e nem bravo. Mas tô curioso com isso tudo. Como assim?"
"O cara queria que eu trouxesse o meu marido. Expliquei que ele era padre e estava em Seoul. Ele me perguntou onde era Seoul. Disse que era na Coréia, e ele disse que então eu era divorciada. Então disse que não, ele perguntou onde estava meu marido de novo. Expliquei a ele que na Coréia é assim e assado, que eu era a guardiã da Subin. E ele disse que tinha que ser um homem, e mandou eu chamar o meu guardião. Meu guardião é você, eu acho."
"É?"
"É. você é mais velho, faz karate, e tem mestrado. É o guardião."
"Sou?"
"É!!!! Opa!!!!"
Aí que eu entendi exatamente o que um "Opa" era.
"Mas... e porque vamos nos casar?"
"Porque o enfermeiro não entendeu nada do que eu expliquei e me perguntou tudo de novo. Aí me deu a idéia de te promover a noivo, que sabe coreano e por isso podia ajudar. Desculpa"
"Você é louca mesmo... bom... e o que você me disse lá?"
"Um monte de desaforos ao enfermeiro, só olhando pra sua cara."
Pouco depois, chegaram vááááários coreanos. Todos falando aquela bizarrice de língua. Alguns meninos, de uns 20 e poucos anos, tinham os cabelos cortados no melhor estilo "cavaleiro do zodíaco" ou "Ben10". Quando perguntavam o que eu fazia, dizia que era pesquisador de doutorado. Faziam uma cara de admiração, curvavam. E diziam ooooohhhhh...
O menino indiano ficou curiosíssimo querendo entender como é que eu podia ter Mestrado em Teologia.
"So you do detain a Master's Degree in Theology, don't you?"
"Yes."
"Are you a father?"
"No."
"How is this possible?"
Gente.
Acabou que a Subin ficou no hospital, a Sumin e a guardiã da Sumin foram pra lá e ficaram com ela. Expliquei que a vacina era todo mundo usar repelente.
"Porque não tem vacina? O Brasil é rico! Podia fazer a vacina."
Também estou me perguntando isso até agora.
Não sei se ainda estão lá, mas como a cultura do "zoto", como vocês podem perceber, é muito estranha, não sei se devo ligar pra saber.
Porque de uma hora pra outra pode acabar que viro avô de sei lá quem sem o menor aviso.
Mas o que IMPRESSIONA, e assim quero fechar o texto e dizer o que realmente me inculcou, é que a pergunta de fundo, no Brasil, na Índia, na Coréia, é a mesma.
"Como você pode ter Mestrado em Teologia e não ser padre?"
Fiquei sabendo, depois, pela boca da Shin, que a Sumin é da opinião que eu e Marco somos muito sagrados (very Holy people) porque pesquisamos teologia e nem somos padres. Somos mais sagrados que os padres. Somos na verdade reencarnações/emanações/sei-lá-o-que da sabedoria do Buddha.
No Brasil, as donas já pararam o Robert na fila do caixa do Bahamas pra dizer "Nossa, o Julio tem Mestrado em Teologia, e já está no doutorado. Como pode ser que possamos conviver com alguém assim...!!!". A mãe do Fernando Haider ficou na dúvida se a Barbara, doutorinha, comia pipoca.
E, diante de um Rubem Alves da vida, eu babo ovo e o considero super-sagrado.
O que nos causa espanto é que sabemos que o outro é território sagrado, e as maneiras que a gente reage a isto é que são variáveis em cada cultura.
No Brasil, compramos o melhor milho.
Na Índia, batemos continência e pedimos bênção.
Na Coréia, fazemos da pessoa a nossa guardiã.
No catolicismo, santo.
No hinduísmo, outro deus.
E assim em diante.
Mas o desconforto é o mesmo: o outro é sagrado.
Eu, o piorzão, sou sagrado.
E essa é uma coisa pior de se constatar.
Talvez deva me preocupar mais com o meu milho. E pedir minha própria bênção. E ser meu guardião. E me conter. E ser santo. E assumir o Deus dentro de mim.
E, claro... o causo por si mesmo já é super bizarro e divertido. Vale a pena registrar...
6 comments:
Nossa Senhora! Mas que coisa incrível! Meu Deus, onde você foi amarrar a sua égua? Enquanto li esse seu registro, tive diversas e contrastantes reações: fiquei apreensiva, aflita com a situação da menina, doente e encrencada para poder se tratar, zé candido com medo de vc precisar de internamento, quem será seu acompanhante? Ai, Minha Santa Mãe, valei-me e livra-nos da doença!
Por fim, fique morrendo de rir, imaginando vc noivo e eu sogra sei lá de quem...Ufa! Ainda bem que só faltam 17 dias pra sua volta.
Volte logo, aqui tudo é bem melhor!Um abraço da mãe saudosa.
Manda melhoras para a Surubin
Jesus amado... que isso??!! Que moranguete-hospitalar foi esse? kkkk é...pessoas são mesmo incopreensíveis em todo o planeta!!! Bjos
Gostei do moranguete.
KKKkkkkk!!! Surubin e moranguete hospitalar!! Hahahahaha!!! Irmãos Simões, acho que vcs deveriam escrever um livro a muitas mãos!! Pensem na ideia com carinho...
E Julim, não empolga com essa ideia de noivo por aí não, tá!! Pode voltar pra cá! Hunf!!
Até meus colegas de trabalho estão contando os dias da sua volta. Mas fico muito feliz com os laços que vc construiu aí.
Um beijo pros seus amigos, e um só pra vc!!
Surubin ao forrrrrno...
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