Wednesday, May 16, 2012

Não pude conter a lágrima que lavou-me o rosto cansado.
Aquela situação me fazia pensar, relembrar, recordar. Trazer de novo ao coração. Entregávamos juntos, minha mãe e eu, a nossa oferenda, o nosso presente, ao papai. Embrulhamo-no bem, e fizemos questão de asseguramo-nos que não se abriria por acidente.
Mamãe sorria dolente. Pelos seus olhos e neles eu via que, muito embora quisesse me consolar e fizesse força para tanto, tampouco ela podia acreditar na estranha alegria misturada a tristeza que ambos sentíamos.

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Eu era apenas um menino quando me adotou. Trabalhava já, pois assim era o costume em minha terra. Mas não era mais que um menino, com meus dez ou doze anos - já nem me lembro ao certo. Nos colocou naquela estranha família, eu e meu irmão mais velho. Tinha agora mãe, a companheira inseparável dele. E tinha irmãs e irmãos. Éramos ao todo uns vinte, e não pude deixar de me preocupar em como poderia meu novo pai alimentar todos nós. Havia um de meus novos irmão que trazia sempre uma sacola, da qual tirava dinheiro sempre que necessário. Comprava ele as nossas necessidades, pelo que logo concluí que aquele era o irmão em quem meu pai confiava sua inteira confiança. Tive ciúme.
Quis que ele, assim que chegássemos em casa (pois estávamos sempre andando) mudasse suas preferências, e nos colocasse a mim e a meu irmão de sangue aos seus lados, assentados ao lado de seu trono. Ele riu-se muito, quando comuniquei-lhe minha intenção. Disse-me entre uma amostragem e outra da boca que falava por trás de sua boca que infelizmente não poderia garantir isto a não ser que eu me assumisse como criança. Num riso cúmplice em direção a Mamãe parecia dar a entender que entendia que meu pedido era o de uma criança, e por isto mesmo meu lugar já estava garantido. Mas parece ter querido expôr-me àquela situação constrangedora de repreender-me à frente de toda a família simplesmente para que os outros compreendessem que ele já havia percebido que o desejo que eu ali expressava estava presente em cada um de nós, uns tentando ser melhores que outros. Cada um querendo proeminência. Assumir aquilo, como eu fazia na minha inocência pueril, era a única forma de obter. Pois só se pode lapidar uma pedra preciosa quando se a encontra em estado bruto. A brutalidade de minha ganância passou a ser, pouco a pouco, lapidada por ele até transformar-se na simplicidade e leveza do pequeno adorno que trago aqui hoje em meu peito: o desejo de assentar-me ao lado dele em seu reino.

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Aquele em quem papai confiava (o que supria as nossas necessidades, inclusive a do papai mesmo, que deixava com ele todos os dízimos que as pessoas lhe pagavam) ganhou, certa vez, uma roupa nova. Era linda. Como eu queria ter aquela nova vestimenta! Era vermelha, a cor dos nobres. Papai o repreendeu severamente, como que se soubesse que na verdade aquilo fosse produto de roubo. Sim, roubo. O confiado de papai roubara de nossa sacola comum em seu favor.
Mas arrependeu-se. Pediu que conversasse com ele, que pedisse ao papai o perdão. Senti-me confuso! Como ele, em quem papai depositava a sua inteira confiança, podia me pedir que eu fosse ao nosso progenitor lhe pedir perdão, se claramente ele era o preferido, o único digno de confiança?
Ele riu-se e disse-me: "Não percebes que ele ama a ti mais que todos os outros? É que ainda tens a simplicidade das crianças, muito embora estejas crescendo a olhos vistos." Quase me ofendi com a sua observação sobre a minha inocência pueril, pois estava em uma fase da vida onde a gente não quer mais saber de ser criança e decide que já é grande, muito embora todas as outras pessoas saibam que somos crianças ainda. Hoje percebo que esta é a idade decisiva. Quando vierem estas indagações sobre ser adulto ou criança, recomendo a todos os púberes e adolescente que escolham permanecerem pequenos por dentro. Miúdos, ao ponto de caberem na mão de seus pais. Entreguem seu destino na mão deles. Foi o que escolhi fazer, ao perceber que, ao eu pedido, mamãe chorou olhando para papai, que meio relutante (justo que era) abraçou o nosso tesoureiro, beijando-lhe a face e pedindo-lhe perdão por ter sido muito duro.
Como aquilo podia ser? Percebi então a verdade: papai e mamãe não eram um casal comum. Eram mãe e filho. Mas ela era jovem, ou pelo menos parecia. Parece-me, até hoje, que dentro de si ela acolheu a origem da vida e da juventude. Enfim, papai o perdoou.

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Confuso, certo dia, fui ter com papai. Já estava grande, achava. E percebia que colocar os pingos nos is era necessário. Questionei-o como podia ser aquilo, de ela ser minhã mãe e ele meu pai, se na verdade eram mãe e filho? Não devia eu me entender como seu irmão? Ele riu-se muito, até chorar de alegria. Perguntei-lhe porque. Me respondeu que ali, do alto dos meus quinze anos, compreendia e fazia perguntas que meus irmãos mais velhos tinham medo de fazer. Perguntei porque do medo deles, e ele olhando nos meus olhos disse-me na maior seriedade: "Meu querido irmão, se quiseres, podes escolher entre ser meu irmão ou filho. Porque eu e meu pai somos tão íntimos que para nós, nos entendemos como um só."
Minha falta de compreensão quedou-se ainda pior. Como poderia eu entender aquilo? Pedi que me explicasse detalhadamente o que queria dizer. E ele disse que queria dizer o que havia dito. Pediu-me para acreditar com o coração, porque ele mesmo quando pensava no assunto não conseguir ver muito sentido. "Somos humanos. Não conseguiremos jamais entender o mistério que eu sou. Ou que cada humano é. Mas podemos confiar nas nossas percepções mais profundas, mesmo que pareçam loucura. A loucura é, muitas vezes, a voz da alma!"
Até hoje não entendo o que aquilo significa. Ou melhor, o que isto significa. Mas sei que quando penso e me lembro da nossa vida juntos, dentro de mim, do mais íntimo de mim, brota uma compreensão-aceitação, um gozo por saber e não poder explicar. Chamo-o de "vento".
É que papai (sempre o verei assim, pois é isso que ele parecia querer que eu entendesse) uma vez disse a um irmão que morava longe e só nos visitava à noite: "Os que nasceram do espírito são como o vento, que sopra onde e como quer. Você o percebe, ouve o seu ruído, mas não sabe de onde vem e nem pra onde vai." É assim, esta percepção, este vento santo. Uma força que brota no meu íntimo, como se misteriosamente sempre estivesse lá, e me toma e me faz compreender. Me faz participar daquele entendimento. COM-Preender. Não é um A-prendimento, algo que se faz isolado. É um COM. É pensar em papai/mano e entendo que ele é um com o pai dele. Por isto, o reconhecia como pai, muito embora seja meu irmão. É que entendia, na minha mente de criança que insiste em não conseguir fazer abstrações a concretude de sua paternidade, que acontecia naquela fraternidade onde passeava um santo entendimento de sermos um, muito embora parecêssemos vários.

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Chegamos à capital do reino. Parecia que ali era nosso destino final. Achei estranho, pois ao longo dos 3 ou 4 anos em que ele me fez crescer junto dele, já estivéramos ali várias vezes. Porque daquela vez ele insistia em dizer que enfim iria se encontrar com o pai?
Fomos ao templo para agradecer nossa chegada, e tínhamos que nos desviar de muitas mesas e gaiolas e bancas e tudo o mais, que muitos servidores do templo (assim se intitulavam) espalharam pelo lugar. Era muito barulhento, impossível de se desligar de tudo e flutuar na suave compreensão de Deus. Era assim que ele me havia ensinado a orar. Levantou-se do chão e pegando cordas que ali haviam, expulsou a todos, como se fosse o dono do templo. Acusou-os de terem transformado a casa de seu pai num lugar de perdição. Entendi, naquela hora, que a sua irritação é que havia reconhecido no rosto daquelas pessoas tão barulhentas talvez alguns dos bufões que existem nas côrtes palacianas.
Aquelas pessoas o obedeceram, e foram embora. Ele olhou para aquele em quem confiava, que o olhava assustado. Parecia não ter alcançado como eu (pois assim eu julgava, do alto dos meus 16 anos, ser eu a pessoa mais sábia da terra) que ele havia reconhecido os agitadores de seu reino. Meu irmão parecia, ao contrário, ver no papai um agitador. Foi apressado entrando aos vestíbulos do templo falar com os sacerdotes, talvez para cumprimentá-los. O caso é que ele, em sua roupa de nobre, pôde entrar nos recintos mais sagrados, enquanto nós, pobres e suados e vistos como impuros, não o podíamos.

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Caiu a noite, e papai nos levou a um lugar que havia sido reservado por dois dos meus irmãos para nosso jantar. Em meu país, uma vez por ano fazemos uma grande festa para celebrar a libertação que há muito tempo nos foi dada, mas da qual nos esquecemos. É que éramos escravos de um rei muito malvado, e um tal Moisés nos livrou das garras dele, em muitas aventuras. Mas, quando chegamos aqui, fizemos escravos de novo. Sempre que eu comia aquele jantar, perguntava ao papai, que nos expunha isto: "E quem vai libertar estes novos cativos? Quem será o novo Moisés?"  Entre risos de todos, ele me dizia: "Alguém que te conhece muito bem!" E, usualmente, deitávamos para descansar, para fazer uma sesta. Nenhum de nós tínhamos travesseiro, e papai assim que ouviu esta reclamação vindo de minha boca pela primeira vez fez-se meu travesseiro. E desde então eu passei a me deitar em seu peito para dormir.
Naquela noite (acho que faz agora uns quatro dias) eu entre cochilos o percebi preocupado. Pareceu-me ter ouvido "um de vós vai me trair". E eu perguntei-lhe quem. Ele me disse : "aquele que come do mesmo prato comigo".
Aquele jantar havia sido bastante estranho. Durante ele, papai deu-nos pão e vinho dizendo que eram sua carne e sangue. Como eu não entendesse o que aquilo significasse, pedi em meu íntimo que aquela força misteriosa que parecia um vendaval viesse me auxiliar. Assim consegui comer daquele estranho e único alimento, que tinha gosto, cheiro e tudo o mais de pão e vinho. Mas enquanto ele descia pela minha garganta, era como se eu estivesse deitado no peito de papai. Mais! Era como se o coração de papai, que eu estava acostumado a ouvir, batesse dentro de mim.
Ergui meus olhos e vi o confiado de papai cheirando o pão e o vinho, e comendo em dúvida. Acho que ele não sabia do vendaval. Na verdade, sempre me fazia a impressão que dentro dele havia um lago calmo e tranquilo, muito distinto de meu impetuoso mar entre tempestades. Senti-me tolo por não conseguir perceber as coisas como elas são, tal qual meu irmão era capaz de fazer. Mas papai olhava pra ele com amor, como se o perdoasse de tudo de antemão. Olhou para ele e disse: "Filho! Irmão! Sempre pus tudo o que tenho e sou em suas mãos, e agora o faço por meio deste pão. Escolhe se vais comer comigo ou de mim!". Talvez seja isto que ele tenha querido dizer quando afirmou "aquele que come do mesmo prato comigo há de me trair". Não sei. Não quero julgar. Mas me parece que o confiado de papai nào conseguiu comê-lo como todos nós fizéramos. Ele comeu com ele. Mas ainda tinha papai, seu sustento e seu destino em suas mãos. E foi embora.
Dali fomos rezar um pouco em um bosque muito bonito que por ali havia.

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Durante a oração, acredito que eu tenha dormido. Parece-me que sonhei com seres luminosos descendo do céu  e enxugando o rosto de papai. Do que me lembro é de meu irmão que havia saído antes do final do jantar chegar apressado. Tinha, ainda e como sempre, papai em suas mãos. Junto com ele, vieram seus amigos do templo, o que me deixou muito feliz. Ele tinha amigos do templo, e talvez estivesse vindo buscar papai para conhecê-los. Beijou papai, que lhe acusou de traição. Até agora não entendo esta traição. Mas o caso é que assim que beijou-o, papai parece ter reassumido a própria vida. Olhando nos olhos de toda aquela gente, disse: "Eu sou o que vocês procuram". Eles caíram no chão, tremendo de medo. Nào entendi o medo deles. Ora, haviam encontrado o que a gente procura a vida inteira e quase nunca consegue encontrar. Um pai amoroso e uma terna mãe! Assim que levantaram, ele falou de novo, anunciando: "Eu sou!". A boca que falava por trás de sua boca (acho que era a boca do pai dele, ou do nosso pai. Sei lá.) parecia emitir luz e poder. Nào que saísse alguma luz. Mas um olho por trás de meu olho, talvez o olho dele, que me havia sido dado naquele pão e vinho, podia enxergar a realidade do que acontecia. Ele era Deus. Eu não tive medo. Eu o aceitei imediatamente como meu Deus, mesmo sem entender (a gente nunca entende...) como aquele homem tão absolutamente humano no sentido mais cru da palavra podia ser Deus. Mas Ele (convém-me agora usar maiúsculas) era Deus!
Mamãe veio ao meu encontro logo que papai saiu com seus amigos em direção ao Templo. Pediu-me para que a levasse lá. Eu fui com ela, nós dois em uma alegria misteriosa, pois muito embora a situação parecesse tensa, enfim Ele iria tomar posse de Seu Reino, cuja capital só podia mesmo ser o Templo. Tudo fazia sentido!! Mas não ousamos trocar palavra sobre isso.

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E então o mistério iniciou-se. Antes deste, os mistérios haviam sido de alegria e gozo, ou de luz e compreensão. Mas aqueles que dali em diante se descortinaram eram opressivos e escuros. No entanto, parece que uma misteriosa alegria, bem como uma luz oculta, brilhavam e se manifestavam por trás daquelo que era aparententemente treva, escuridão e opressão.
O condenaram sem o julgar. Mas não pude deixar de perceber que ele estava sentado na cadeira do juiz na hora que a sentença foi proferida pela boca daquele. Será que ele usara a boca do Juiz para condenar-se, já que não poderia de forma alguma fazê-lo de outro modo sem assustar toda a gente?
Em seguida, o chicotearam. Deve ter sido dolorido, pois os chicotes que usaram arrancavam pedaços de carne e pele. Mas ele manteve-se de pé. Normalmente, os escravos eram chicoteados na nossa terra, muito embora de uma maneira mais suave. Mas ele manteve-se de pé enquanto recebia chicotadas muito piores que aquelas às quais os escravos sucumbiam desmaiados. Ele era tratado como um escravo, mas realmente era um Rei.
Colocaram em sua cabeça uma coroa feita de espinhos e martelaram-na aí, usando um pedaço de pau. E revestiram-no de uma roupa vermelha muito parecida com aquela que Judas (agora me recordo do nome daquele que caiu no esquecimento!) costumava usar. Talvez fosse a mesma. Não sei. Era um rei, o Rei mais belo de todos. Um rei que se compadecia tanto de seu povo e seus escravos a ponto de libertá-los por dentro de seu sofrimento e revestir-se se seus roubos, muito embora fosse um Justo Senhor.
E o mandaram carregar a sua cruz. Decidiram matá-lo. Por mais tensos que eu e mamãe estivéssemos, decidimos ir com Ele até o lugar onde o pregariam naquela coisa horrorosa. A mim, me parecia que a qualquer momento Ele se elevaria do solo e com um estalo de dedos instalaria a justiça na terra. Ironicamente, entretanto, o Senhor de todas as direções, numa outra prova de sua complacência, atou-se (ou deixou-se atar) a dois criminosos terríveis, condenados como Ele. Ele atou-se aos criminosos, e muito embora seja o Guia perfeito, segue no caminho da iniquidade, fazendo-se um em meio aos Iniquos, para poder salvá-lo.
Pregaram-no na cruz. E, aquele a quem ele seguia no caminho até a execução o desdenhou. Amarraram-nos no caminho, o pescoço de Papai aos pés deste primeiro. Mas aquele que o seguia, atado aos seus pés pelo pescoço, este o recebeu. E o Irmão Mais Velho o recebeu em sua casa, prometendo-lhe tranquilidade em seu Reino.
Neste momento, meu coração se encheu de alegria. Ele estava indo pra casa. Eu podia confiar. Ele sabia o que estava fazendo. E então, olhando-me nos olhos, a mim e a sua Mãe, dispensou-me de sua paternidade, e a ela de sua maternidade. Como quem volta para casa depois de um longo caminho em terra estrangeira e não tem espaço na bagagem para levar tudo o que ama, nos deu um ao outro. Chamou-a não mais de mãe, mas de Mulher. "Mulher, eis aí teu filho". E a mim, que sempre havia me enxergado como seu filho, o confirmou. "Filho, eis aí a tua Mãe".
O céu se escureceu, e Ele morreu por vontade própria. Ele disse ao Pai: "Recebe-me! Em tuas mãos me deposito!" e imediatamente morreu.
Um soldado o perfurou com uma lança, e de seu corpo morto jorrou Sangue e algo que parecia água. Tenho muita certeza de que era o mesmo sangue daquele vinho, e atesto isto a todos. Aquela água, igualmente, me parece a mais pura de todas as águas. E, quando Aquele sangue atingiu a mão do soldado, ele ajoelhou-se e disse "Este é o Filho de Deus!".
O mesmo soldado, junto com um verdadeiro amigo que o Mestre tinha conquistado no templo e que se chamava José de Arimatéia ajudaram a mim e a minha Mamãe a tirarmos o Corpo do Mestre daquela cruz.
Como se não estivesse satisfeito em encher-me naquele pão e vinho de seu corpo e sangue, encheu-me de sangue também por fora, bem como pedaços de sua carne, especialmente nas costas, soltavam-se em minhas mãos. E eu, num misto de espanto, horror e temor tinha certeza de que em minhas mãos estava o corpo morto de um Deus.

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Embrulhamo-no, e colocamos em um dos túmulos que José de Arimatéia tinha, como quem deposita o mais precioso presente nas mãos de um amoroso Pai.
A lágrima rolou de meu rosto, e Mamãe enxugando-a enquanto continha as suas me disse: "Fica tranquilo, meu filho. Eu sempre soube, desde que este menino nasceu, que isto aconteceria. Uma dor imensa corta minha alma e meu coração. Mas eu tive A Vida morando em mim e comigo por muitos anos, e por isto sei reconhecê-la. Ele está morto, mas é o dono de Sua e de todas as vidas. Nào entendo isto. Mas uma coisa misteriosa me diz que está tudo bem. Leva-me para sua casa."
Eu e Mamãe fomos pra casa, onde pouco a pouco os outros foram aparecendo. Judas, nunca mais o vi. Espero de todo o coração que esteja bem. A Carne e o Sangue do qual participo já o perdoou. Ele fez corretamente, pois devolveu, na última vez que esteve com o Mestre, a Vida dEle, e só assim Ele a pôde nos dar.
Dormi quase o sábado todo, pois estava muito cansado, pensando em todas estas coisas, que aconteceram a partir de Quinta. Não dormia desde Quinta! Sonhei o tempo todo que estava dormindo junto ao túmulo dEle.
E, agora pela manhã, Mamãe e duas de nossas irmãs foram ao túmulo e disseram que o Corpo desapareceu.
Corri até lá com Simão, o mais velho de nós, e assim que entrei sorri aliviado. Entendi tudo. Ele retomou a Sua vida. Os lençóis com os quais eu mesmo o embrulhei estão vazios, e posso reconhecer os meus nós. Ele atravessou aqueles lençóis. A luz que falava por trás de sua boca na quinta tomou-o por inteiro.
Simão não tem tanta certeza. Ele é nosso chefe (depois de Mamãe, é claro), então todos estão ainda meio desconfiados.
Quando a mim? Eu sei onde Ele está. Está aguardando o momento certo para atravessar, como fez com aqueles lençois, estas paredes entre as quais nos escondemos.
Espere! Vejam!
É o Senhor!


Entre o Quinto e o Primeiro Mistérios

2 comments:

Maria Maria said...

Lindo texto! Até chorei!
Aqui, use sempre essa fonte que ela é bem melhor de ler do que a pequenininha...

Glorinha said...

Lindo, lindo o seu conto. Adoro conto assim, de época e sugerindo ser o diário de uma personagem real.Parabéns!Certa vez eu li um livro contendo as impressões de Nicodemus do dia em que Jesus foi preso, condenado e morto.Nunca mais esqueci! Beijocas do tamanho do Brasil.