Monday, July 02, 2012

Nesse início de segunda metade, a confissão:
Foi moleza.
Fácil demais.
Simplesmente porque não fiz nenhum esforço para que fosse diferente.
Senti todas as dores e todas as alegrias. Procurei esvaziar a mente, o coração, nesses teclados que me cercaram.
Continua uma agitação, uma tempestade, as mesmas companhias divinas, agora com rostos diferentes.
Rostos mexicanos, etíopes, congoleses, coreanos, indianos. Rostos bonitos e serenos, faces de um Deus acordado que me repreendeu em silêncio e me fez acalmar.
Vez ou outra, uma lágrima de saudade. Quase sempre, uma acomodação inquietante.
Vou receber um visitante do exterior. Não me sinto mais no exterior. O exterior não existe mais, agora que virou o interior onde eu habito.
Quanto ao meu interior, uma voz virou companheira constante. Tornou-se normal e corriqueiro escutar aquela vozinha lá do fundo que é recadista de Deus. Chama-se consciência, e de acordo com Joana d'Arc, o lugar privilegiado onde Deus fala.
O que existe de mais diferente na Índia é que é tudo igual, com algumas coisas ao contrário e sem angu.
Mas angu nem tem gosto. Como pode fazer falta alguma coisa que nem tem gosto, comparada a uma salada de repolho com açafrão e côco refogados na manteiga clarificada com pimenta malagueta?
Educar. Ser guiado para fora. Estou sendo educado. Precisei sair de mim, da minha zona de conforto. E agora tenho outra, uma espécie de confortozinho. Uma zoninha de confortinho, por assim dizer.
Não acho a Índia estranha, na maior parte das vezes. Acho diferente, mas normal. Acostumei com a Índia.
Preciso sair logo da Índia e voltar ao Brasil, pra me sentir desconfortável de novo. É que o desconforto obriga à perda do senso de si. E o senso de si é uma armadilha que muitas vezes impede o acesso ao real de si mesmo, que não pode ser assim dominado por um senso. A realidade está em outra parte.
O real é a diferença, e só na diferença existe diálogo e relação.
Não sei se uma pessoa solteirona que viveu a vida toda cercada de conforto e bem estar conseguiria entender o real. Acho que sim, porque sempre estou errado sobre tudo. Mas me parece que o outro, o incômodo da vivência outra, é que é o real, que é o educador.
É difícil expressar, ainda mais em blog onde eu atiro as coisas pra algum dia editar, quase reescrever, refinar... Este meu blog é uma porcaria, uma coisa em branco, um caderno de rascunho.
Ou melhor, um diário muito pessoal aberto.
Acho que até agora o único ganho, para além de pesquisa e doutorado, foi esse: não me preocupo mais em ser descoberto. Lancei fora minha capa. Só me resta esperar ter recobrada a visão.
Enquanto isso, vou tateando na minha incapacidade de ver um caminho, na maior ousadia, até a realidade, que eu não sei o que é, mas só posso descobrir experimentando, porque nem posso sequer vê-la!
Sim, sim... não faz o menor sentido.
Não, não... faz muito sentido sim!
Sentido é uma arapuca.
Ainda bem que estou sem sentido nenhum.
Não quero saber de sentido nenhum.
Fiquei doido.
E aqui, nesse país da loucura, é tudo normal. Você lê, almoça, conversa, liga pro Brasil... todo mundo te acha super normal. Mas você sabe que é doido. E fala pra todo mundo "ó, num me escuta não que eu sou doido".
A lógica é outra.
A desordem não pode contaminar a ordem.
Na verdade, quando se tem ordem dentro de si, toda e qualquer desordem  não tem a menor importância.
E a ordem surge do incômodo, da perda de conforto que só existe quando a gente se depara com uma pessoa terrível: Eu.
Quando você descobre que o que te deixa confortável são as outras pessoas, e não a realidade (porque a Índia seria muito mais confortável se todo mundo estivesse aqui, portanto ela mesma não é o problema, mas a ausência de outras pessoas é que é)... bem! Isso significa também e necessariamente que Eu atrapalha a educação de mim mesmo e do outro. Que coisa terrível.
E que dificuldade enorme é perceber que o único objetivo que realmente tem valor em si mesmo é apagar o interruptor da mente e do coração e atingir o conhecimento do real das coisas e de si, que só acontece quando se está liberado da obrigação de processar os objetos, e passar a conhecê-los.
É impossível explicar.
Mas é a única coisa que me faz compreender, por exemplo a Encarnação. Deus, o maior EU, o único Eu Sou, desligou-se e virou um menino com cólica em Belém da Judéia, vestindo trapos e deitado em palha num cocho. Descobriu o que era ser bebê ao sugar o seio de Maria. Descobriu o que era dor ao ser circuncidado. Claro, a Encarnação continua mistério. Por isso entendo-com, com-preendo, e não a-preendo ou en-tendo. Não entro nesse conhecimento e nem consigo alcançá-lo a não ser por participação. Mas quando agora, por exemplo, sinto uma leve vontade de dormir, participo da surpresa de Deus em Jesus pensando: Poxa, o sono é isso????
É.
Desligar a mente.
Não, realmente não faz o menor sentido.
Minhas sinceras desculpas.

4 comments:

Anonymous said...

em suma "o inferno não são os outros"
certo?

Anonymous said...

Isso! E o Sartre estava completamente errado.

Glorinha said...

Nossa, caramba, quanta coisa!
É... só sei que Deus dá conta de tudo isso, confio nele e espero sua misericórdia infinita diante das angústias da humanidade.Amo a Deus e por isso confio e espero. Isso traz alívio...Beijos!

Glorinha said...

Nossa, caramba, quanta coisa!
É... só sei que Deus dá conta de tudo isso, confio nele e espero sua misericórdia infinita diante das angústias da humanidade.Amo a Deus e por isso confio e espero. Isso traz alívio...Beijos!