Wednesday, July 04, 2012


"Daqui a pouco eu lá vou e ponho a tal planilha sobre sua mesa. Mas não vou agora porque não estou disposta a suportar as chatices dele!"
Uma frase com um sabor delicioso, quando ouvida na Índia.
Comecei a rir. 
"I am sorry, sir… Do you need something?'
"Yes, I would like to talk with Mrs Lourdes Bravo da Costa."
"Well, this is her!"
Era a senhora que não estava disposta a suportar chatices.
"Bem, a senhora me desculpe, mas não é Brava só no nome, hein!"
"O rapaz do Brasil!"
"Sim!"
"Olha, meu filho, não entendes como é este chauvinismo indiano. Dá-me raiva. É gente de mentalidade tacanha. Inclusive porque falo português, me acusam de ser pró Portugal e não amar a Independência Goense."
"Quiçá isto fosse verdade, todos os antigos que acá moramos seríamos traidores!"- respondeu a outra moça.
"Ah, a senhora também fala português?"
"Pois sim! Todos falamos!" - anunciou uma terceira que entrava no escritório.
De 1599 a 1812 o Reino de Portugal dedicou-se a fazer uma limpeza religiosa na colônia de Goa, inclusive com a aplicações de pena de morte aos hereges. Em um território pouco maior que a cidade de Juiz de Fora, ao longos dos 300 anos 30 pessoas foram queimadas vivas pela Inquisição, muitos foram degredados, outros tantos fugiram. Tudo em nome da Lei de Cristo, que àquela época entendiam como a lei do porrete.
Foi preciso que a Côrte fosse ela mesma degredada para perceber que isto de degredo não valia a pena. No ano de 1812 o primeiro rei do Brasil, então Príncipe Regente João, decretou o fim da Inquisição em Portugal.
Mas, se no Brasil a Inquisição era branda, a de Goa era tida como a mais ferrenha das quatro Regiões de Portugal onde havia o tal tribunal.
Muitos não voltaram. Outros ficaram em regiões remotas, longe da capital Pangim. Criou-se um medo dos portugueses e daquela religião estranha que em nome do amor, queimava gente.
Mesmo os goenses que ainda falam português, estes ligados às famílias mais tradicionais, guardam um receio em relação à Religião do Amor. Muitos regressaram ao Hinduísmo. Não sei se é o caso das duas senhoras em questão. Mas é o caso do Rafael Dias, que me vendeu um pão com linguiça no caminho de volta ao Hotel.
Ou do senhor simpático que me vendeu cartões postais. Este nem fala mais português. Me disse em inglês que "os católicos querem os portugueses de volta." 
Não, não é verdade. Ninguém os quer de volta. Mas o caso é que muitas famílias que aqui residiam quando da anexação do território do estado português na Índia pela União Indiana, em 1962, perderam parentes. Foi uma guerra. Os indianos são bons de cascudo, e o exército português, que tinha firmado um acordo em 1948 com a União não acreditou que o exército invadiria Goa. Então os descendentes dessas famílias, e até mesmo alguns sobreviventes (1962 foi outro dia) dizem abertamente que foi um horror o que os indianos fizeram. 
É bem verdade que muitos gozam de dupla cidadania. Mas o fazem porque querem emigrar da Índia ao Reino Unido. Mas não, não querem os portugueses de volta. Ressentem-se pelos 462 anos de colonização, dos quais muitos (ao menos uns 300) foram desrespeitosos com a cultura daqui.
Foi a custo de sangue que Goa de tornou portuguesa, e foi a custo de mais sangue que deixou de ser. E o sangue que corre nas veias daqui não sabe direito se derrete-se recitando Camões ou se ferve pensando em Dom Manuel I.
Mas convidaram o brasileiro para dar uma conferência (uma palestra, né gente) em Agosto. Pela Fundação Oriente, de… Portugal.
E claro, emendaram um convite para um almoço de galinha à cabidela (frango ao molho pardo), mas com especiarias.
Mundo misturado, mundo misturado...
Chega, né?
Imagens, imagens…

Lisboa? Salvador? Não. Panjim.

Igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, a três minutos do Hotel Casa Paraíso.

Oficina do Primo do João Sapecado

4 comments:

Glorinha said...

Mas em agosto, vc nem vai tá aí mais, pois não?
Eles sabem alguma coisa sobre os portugueses no Brasil?
Imagino como foi confortante ouvir as pessoas falando sua lingua depois desse tempo todo só ouvindo estrangeiros. Eu, que fiquei apenas um mes ouvindo alemão, quando encontrei uns brasileiros em Paris, senti um alívio...Adorei as fotos. Um abração.

Banana said...

Que legal! Pelas fotos vc poderia dizer que está no Brasil, que todo o mundo acreditaria,
Êita, mundo véio sem porteira!!!!

MCarmen said...

Pois é! Enfim consegui colocar a leitura em dia! Puxa, por dificuldades diversas, deixei passar muito tempo, mas aos poucos, cheguei ao dia 04/07. Sabe, é incrível desfrutar dessa experiência que você tem tido e nos dá essa oportunidade. Poder conhecer um pouco de um país como a Índia e das pessoas que você vai encontrando nesse caminhar! Quero, sobretudo, registrar aqui que considero o máximo você ser uma pessoa assim que se empenha nesse com-partilhar! E faz isso com a maior propriedade, insere seu coração, sua fé e sua compreensão em textos belíssimos! Fico pensando como, às vezes, deve ser difícil fazê-lo... A falta de energia, o cansaço, o movimento das emoções, etc, mas você está aí firme! Parabéns e muito obrigada, princeso lindo! Você é realmente um “doidinho”querido, do bem e gente finíssima, viu? Penso que seus pais, irmãos e a Gisele devem estar assim cheios de saudade sim, mas bem felizes também! Acho o máximo os comentários da Glorinha! Afinal, mãe é mãe, né? Fico aqui pensando nos ataques de Zé Cândido dela e como nessas coisas de mães a gente se parece e sempre fica temerosa...
Detalhe: as fotos têm sido ótimas, adorei o modelito da saia e percebi que a camisa tem sido útil! Um bj! Muita força nesse movimento em direção ao conhecer/ crescer !

Anonymous said...

Parece bastante familiar esse ambiente, não?
Você deve estar se sentindo ao menos um pouco em casa.

Ótimas fotos. Poste mais!

abraços e parabéns!!!