Friday, June 15, 2012




Lendo, lendo, lendo.
Ler, pensar, rezar, tudo isso faz mal pra cabeça. Amar então... ui, que dor!
Recentemente, escolhi um vocativo pra mim mesmo.
Princeso.
É que não existem estórias sobre príncipes encantados, e eu me sinto encantado. Mas não aceito ser um mero Julim encantado. Falta glamour. Então, princeso, que assim incluo o que eu sou e o que me sinto. Menino do sexo masculino e mesmo assim à espera de um príncipe, um Salvador.
Bem, mas se por um lado faz mal, por outros nos enche de percepções e aumenta nossa compreensão.
Eu não entendia  Teresinha do Menino Jesus, essa doida, que queria ser sacerdote, missionária, doutora, mártir, santa... que coisa mais estranha.
Mas aí eu fui lembrando que quando eu fui no Convento da Tia Mariarosa eu fiquei querendo ser Freiro. Padre não. Padre me parecia uma coisa muito chata e seca.  Queria ser freiro.
Igual eu sou princeso.
Mas enfim... só consigo ser freiro dentro de mim mesmo, porque não existem freiros nisso que chamam de mundo real (mas que cá pra nós, de real não tem nada!)
Aqui, lendo esses diários, fiquei pensando: que desperdício. Que pessoal louco. Vir pro fim do mundo, pro alto dos morro frio da Índia pra morrer, igual o João de Brito, que morreu de morte matada. Ou o padre Saulière, que morreu de morte morrida, mesmo, outro dia mesmo. Em 1967. Ele fez uns bizu aqui, era botânico, descobriu umas planta nos mato aqui em volta...
Enfim.
Desperdício.
E que desperdício igualmente enorme de Roberto Nobili Conde de Nápoles com a Marquesa Sforza, que tiveram um filho que mandaram pra escola e que acabou virando padre. E fez o noviciado no navio a caminho da Índia, tendo renunciado antes ao cargo em favor do Vicenzo Nobili, que era só um menino.
Padre Roberto Nobili era o Júnior. Era o filhinho querido da mamãe e do papai. E desperdiçou uma inteligência ímpar comendo arroz uma vez por dia, vestido de laranja sentado numa almofada esquisita no meio de Madurai.
E esses moços aqui, hoje? Prakash, Peter, Martin, Janegathan, Iriairajaj. Moços novos. Tudos padres. E a minha mãe e meu pai? Desperdiçaram a vida inteira um com o outro. E o Marcello e a Fabiana. E o Robert e a Barbara.
Eta.
A vida é, todo dia, um parto. Tem dia que a gente acorda querendo ser princeso. E freiro. E pai. E matemático. E biólogo, e teólogo. E querendo saber tamil, e nheengatu.
E o parto é sair da segurança do sonho e abraçar a dureza e a dor da realidade, que significa sempre abrir mão de todo o resto.
E agora?
Entendo perfeitamente a Teresinha.
Ter de escolher é uma coisa triste, mas alegre, claro.
Mas ainda bem que, mesmo que a gente escolha alguma coisa, a gente pelo menos pode querer tudo ao mesmo tempo.
A vontade é livre.
A escolha, não.
Bem... Teresinha do Menino Jesus, agora somos amigos.

3 comments:

Teresa said...

"A vida é, todo dia, um parto.
E o parto é sair da segurança do sonho e abraçar a dureza e a dor da realidade, que significa sempre abrir mão de todo o resto."

Era sempre, sempre, só (só?) isso que eu queria te dizer... mas não conseguiria me expressar tão magnificamente como vc fez hj!!!!!

Amo-te!

Banana said...

Hahaha, adorei essa! Freiro... Foi lá q fizemos nosso pacto de cuspe! E eu tb quase fiquei por lá. Acho que é porque aquelas freirinhas são contagiantes...

Glorinha said...

Ah, Teresinha do Menino Jesus, cuida desse novo amigo seu!