Hoje o dia começou comigo em grande valentia e ousadia.
Acendi dentro de mim a escada de luzes (aquela coisa que eles acendem no começo da missa e que é usado no hinduísmo, lembram? Chama isso, e é aceso sempre um número ímpar de pavios, ligados a uma bacia que contem óleo de côco) e desci as escadas do hotel.
Como só se vive uma vez, e como só se vive na Índia um dia de cada vez, resolvi encarar um full south indian breakfast.
Tirei uma foto, que ilustra lá pelo meio do post, que resolvi fazer ele mais atrativo agora que sou um fenômeno midiático.
De qualquer forma, peguei minha bottled water a que tenho direito pelas regras do hotel e parti rumo à vida. Acabei descobrindo por acaso que a minha cara de indiano pode ser usada a meu favor, e muito a meu favor. Se eu conseguir sair sem o Babu me ver, eu chego na avenida principal de Bangalore, perto do Minerva Circle, andando só uns 50 metros. Aí, eu entro no riquixá e solto um "Bangalore Hosur Road! Christ College! Near Dairy Flyover" com bastante fingimento de sotaque e eles me levam USANDO O TAXÍMETRO, ou riquixímetro. E aí, ao invés de 100 rupias, como estamos na avenida principal e não tem que dar uma certa volta que daria se eu pegasse em frente o hotel; e ainda como o cara não fala inglês, dá uns 50 pau. Ou seja, 2,30 reais (que eles chamam aqui, divertidamente, de Brazilian Dollars). Agora, se o Babu me vir, eu fico com pena dele e dou a ele as 20 rupias que ele curte pelo motorista que fala inglês e pelo chamado pelo rádio etc.
Aliás, acostumem com isso. É rupííías, e não rúúúúpia. Sei que na verdade é rúpias mesmo, mas o pessoal aqui fala rupí,(rupee), então pra mim tá fazendo muito mais sentido falar rupias. Enfim... o Babu me viu, e gastei 50 rupias a mais.
Cheguei lá, fui direto no banco, e me deram... um cartão? Um mini cartão, nesse lugar muderno chamado índia onde as portas têm cartões ao invés de chaves? Nããão!!! Uma cadernetinha! Um caderno mesmo, no duro, escrito Savings Bank Pass Book. Isso é o cartão, usado pra fazer depósitos. Pra fazer saques, ele também pode ser usado, ou o cartão, que será enviado para a sua casa, correto? Nãããão! Ele tem de ser buscado na agência em 14 dias. Uma das coisas mais incríveis da cultura daqui é quando você pede por algo que eles não têm na loja.
A maioria do pessoal que trabalha no banco é vaishya, e portanto tem um dever cármico de ter as coisas pra satisfazer o carma alheio. Quando ele não tem, é uma desonra. Assim, o Sibi (o gerente) ficou desesperado e começou a rodar pela agência com o meu caderninho na mão, quando eu pedi pelo cartão, porque eu perguntei se era de chip. E não era. Assim, vou receber em 14 dias 2 cartões, por mais que eu falasse "tudo bem, tudo bem, eu fico com o magnético, não tem problema nenhum..." Nada. Se eu quero o de chip, vou ter o de chip, SIR!
Feito isso, fui na Biblioteca catar uns livros para tirar czerocz, que é o nome do xerox. Eu quase rio quando falo o nome, mas me esforço bastante. O czerocz é muito caro pros padrões indianos, mas muito caro mesmo. São duas rupias a folha, que é uns 06 centavos do Brazilian Dollar. Pra comparar, o quarterão daqui, no Mac Donald's (que é uma coisa que não chama quarteirão, e sim Veg, mas que leva basicamente a mesma combinaçao de queijo, molho e bife, com a exceção do "bife" ser um amontoado de legumes prensado e frito a milanesa - uma dilícia) é 100 rupias, o que é 3,15 reais. Se fosse seguir a proporção, o czerocz tinha de ser 1 centavo. Mas... enfim... Deixei lá os livros pra pegar amanhã e fui pra biblioteca estudar.
Posso dizer com certeza que essa semana aqui, da qual aproveitei uns 4 dias até agora, me ensinou mais sobre História dos cristãos indianos que os dois anos que lutei com isso no Brasil. Aliás, é pra isso que eu to aqui, né?
Já acho que é 95% certo o São Tomé esteve MESMO na Índia do século I, que morreu em Mylapore, perto de Chennai e que fundou a igreja cristã indiana, que fugiu daquela região por perseguição religiosa e se estabeleceu na costa sul oeste, no Kerala. Chennai fica na costa sul leste. Já pensou que coisa incrível? O túmulo está em Chennai, vou visitar qualquer dia desses. Mas uma parte considerável dos ossos foi transferida para Edessa, na Síria, lá pelos idos do século VII, quando os cristão siríacos implantaram a hierarquia num modelo siríaco aqui. Por isso que os ritos são chamados de Siro-Malabar e Siro-Malankara. Porque o Patriarca Malabar e o Patriarca Malankara têm, além dos elementos Malabar (Kerala) e Malankara (Chennai) elementos sírios, que foram assimilados quando da expansão do império sírio, que trouxe com ele a hierarquia cristã síria. Não é moleza?
De qualquer modo, tem se justificado a vinda aqui, do ponto de vista acadêmico. Lá pelas três, sem ter almoçado (o South Indian Full Breakfast, devido aos seus componentes, é uma coisa que empaçoca as pessoas) o Marco apareceu e comentou "Você tá se sentindo cansado especialment hoje?" "Tô. O que será que é isso?" "Não sei... acho que vou embora." E rapou fora pro kitinet dele, que já é aqui dentro e talz. Aí eu pensei... é melhor dar uma volta.
E saí pra compra o USB 3G Dongle e resolver o negócio do Celular, porque agora que eu tenho uma conta, eu posso ter um celular. E, assim que tiver celular, posso ter plano de saúde. E, de posse de tudo isso, vou pro Dharmaram, pra morar lá dentro, e portanto não vai ter internet de noite pra ligar pelo Skype, portanto era legal ter um 3G, que sai mais barato que usar o celular. O celular é pra me ligarem, pra me encontrarem, pra me mandarem mensagens... Na verdade, ligar pelo celular é BEM barato também, mas pelo Skype é mais ainda, né.
Aí começou o sofrimento. Sair na rua é sempre um sofrimento, devido à desordem em seu estado mais fundamental...
Fui no peito e na raça buscar nossa taça e evitando o cara da aircell do shopping. Ao entrar no shopping, tem que ser revistado, então preferi dar a volta pela rua. E também, ontem eu fui no shopping tentar comprar esse tal de 3g Dongle. Mas o cara não tinha. E se armou um circo.
Terminou com ele me colocando no telefone com um cara daqui do estado de Karnataka e com certeza falante de kannada (ou canará) tentando me explicar onde era a outra loja da aircell (que vende celulares da Airtel), perto do shopping. Mas o problema é o seguinte.
O pessoal que fala Tamil ou Malayalam têm um sotaque muito tranquilo de entender. Os que falam árabe, trocam o R pelo L igual o cebolinha em algumas palavras, mas também dá pra se virar. Mas o pessoal que fala kannada... só Jesus na calça, e de cuecão porque Ele é adulto. É um sotaque muito esquisito, eles trocam fonemas consonantais... ih, é uma luta. Por exemplo, eles falam to Inchtall, e isso é o Install. E tem o cantado próprio do kannada que eles jogam em cima do inglês, que é muito doido, também, um stacatto em 150 bpm ou algo em torno disso. Não dá pra entender. Aí quando a pobre criatura tentou me explicar pelo telefone pela terceira vez onde era o negócio, eu fui falando ok fingindo que tava entendendo e anotando e depois fui embora, subi uma escada rolante, achei um Subway, comi um vegetariano (são 5 opções vegetarianas no cardápio, 3 com aves (frango ou peru), não existe o de almôndega e tem só um tipo de queijo) e desci pela outra, fugindo do cara da aircell. Depois vim embora pro hotel.
Mas hoje eu tava querendo comprar é o vodafone. POrque vodafone? POrque o roaming é de graça. A Airtel (olhei na internet depois) também opera na Índia toda, mas cobra o roaming do 3g. A vodafone opera na Índia toda dados e voz e não cobra o roaming 3g, o que já é uma economia. Agora... enquanto o 3g dongle da Airtel custa 1000, o da vodafone custou 2995. Ou seja, 1000 rupias a mais. Mas funciona por 60 dias e tem uma velocidade totalmente absurda.
Lá, preenchi outros papéis de cadasto, iguais os que já tinha preenchido antes, mas para os quais faltava o comprovante de endereço. O outro SIM é da BNSL, que é a companhia de celular do governo. Mas... ele não funciona! Aí o cara da loja falou que não ia ter jeito de liberar porque faltava comprovante de endereço e não sei o que e eu joguei o SIM fora e comprei o da vodafone, que já está funcionando. Meu número é 00xx919742970583. Um número gigante... Isso porque o código da Índia
e o 91. O resto todo é o celular. Celular não tem DDD, e sim dígitos a mais.
Trouxe pro hotel todo alegre os negócio, e liguei pro Pe Saju pra dizer que pus ele como contato na Índia. Isso é o que a vodafone pede em lugar do comprovante de endereço.
E, na hora que coloquei o chip no celular, ele já funcionou. E, na hora que coloquei o chip no USB dongle, funcionou também, e absurdamente rápido. Uma internet de altíssima qualidade, não essa vergonha que tem em Juiz de Fora.
No caminho de volta, vi Jesus na rua, várias vezes. E fiquei com raiva dessa parte da Índia, acho que em definitivo.
É muita miséria. Uma quantidade absurda de pessoas absolutamente miseráveis, sujas, para as quais as pessoas não olham por serem dalits ou sei lá o que. E das quais eu não consigo tirar os olhos, reconhecendo Alguém.
Alem disso, tem a miséria existencial própria daqui, que talvez seja ainda mais profunda. É muito bagunçado e esquisito. As pessoas têm determinados pactos sociais estranhíssimos. O trânsito, ninguém repeita, todo mundo faz o cada um por si na maior cara de pau. O outro pode existir ou não, dependendo se ele é do seu grupo. As meninas de burca preta debaixo do sol, perto da mesquita. As mulheres carregando crianças em uma mão e trouxas de roupa na outra na garupa de motos, sentadas de lado. Não consigo entender como que eles conseguem suportar contrastes tão profundos, de verdade... É muita zona, muita desordem, e quando eu entro na loja da vodafone... ar condicionado, um inglês excelente do guardinha, equipamentos de ultimíssima geração. Passo pelo shopping e quando saio dele, os motoristas de riquixá, provavelmente shudras, assediam com receio, sem ousar olhar nos olhos.
A teologia própria do Hinduísmo prevê que eles sejam olhados nos olhos e que eles podem ser deuses encarnados, provando o coraçao dos homens. E também prevê que tudo seja limpo... E não essa zona. Tem banhos rituais! Tem até banho público na cidade, pra garantir que todo mundo fique limpo. Mas o que o que o que...
A cidade é uma desordem tão gigante, que dá pra ficar com nervoso. Tem lugares, tipo atrás de alguns transformadores (os transformadores são no chão por aqui) que o pessoal faz cocô e xixi! Aí dá muito nervoso, porque pelos ideais de civilização britânico, tâmil ou árabe, era pra ser bonito... e era, até uns 50 anos atrás!
E depois, Bangalore se transformou numa zona, onde nenhuma das lógicas de civilização consegue dar jeito.
Aí, fazer o que? Só rir, de um cara carregando uma carcaça de jetski nas costas, ou do outro cuja peça da moto caiu no meio da rua, ou da fumaça pesada jogada pra cima memos pelas mais aparentemente inofensivas autoriquixá.
E pasmar-se, porque o convite é estar no mundo sem ser dele, construindo um jardim de flor em volta de si mesmo para que todos se sintam convidados a se aproximar. Algo mais ou menos assim...
Repararam como Ele tá em branco?
7 comments:
Nossa!Quanta coisa, meu Deus!
Hoje o seu dia valeu por muitos anos; fico aqui pensando nos meus pobres 62 vividos aqui, em meio a tanta ilusão e equívocos e constato, como estive aquém de uma realidade muito diferente e muito mais impressionante tanto quanto reveladora da grandeza de Deus.Mas por sua misericórdia, revelada apenas por único dia vivido por você, que cheio de coragem se colocou a essa pesquisa.Ma é tempo
de refazer meus pobres conceitos que nem de longe imaginei serem tão limitados.E de reforçar a universalidade das coisas de Deus. Um grande abraço e que Deus cuide de você, aí, tão longe de nós, que a cada dia sentimos mais saudades.Bjos.
Olá, meu viajante preferido...srsr Suas impressões de tudo aí me encantam e nessa sua "cabeça pensante" a Índia é logo ali...
Que bom que você está conseguindo resolver as pendências. Cidadão playndiano...kkkkk
Qualquer hora te ligo: "Chama o Julim?!" (não dá pra esquecer!)
Nâo deixe de relaxar e aproveitar, como vc mesmo diz: Só se vive uma vez!!! Bjos!
"O viajante ainda é aquele que mais importa numa viagem"
É, Julim... e a gente que achava que seu quarto era o lugar mais bagunçado do planeta, heim?
Na verdade isso aí é um "mini-mundo", pq essas diferenças estão no mundo inteiro, só que como muitas vezes são distantes, o contraste não é tão evidente. Mas a realidade é uma só.
Qualquer hora te ligo também! Beijos!
Hahaha, eu ia fazer o comentário da Cecília sobre seu quarto, hahaha...
Interessante este comentário da Cecília, por sinal! Muito bem colocado!
Aproveite, Julibas! Faz amizade com os dalits, porque eu tô com pena deles!
Beijokas,
Os comentários estão tão bons quanto os seus escritos, Julim!!!
Tô achando o máximo!!!
Ótimas suas fotos! Nem dói, viu? Um beijo cheio de saudade!
Julinho, vc é´o máximo mesmo, porque eu já ia estar usando só um orelhão esse tempo todo e nunca que ia estar por dentro de todo esse aparato tencnologico...agora sobre a diferença, fico triste quando passo na beira e vejo que é bem perto do condominio são lucas e ninguém liga. mas vc esté em uma cidade de 6 milhoes de hab, a miseria sempre se multiplica mais tb em grandes centros. e eu eo robert estávamos comentando sobre isso e lembrando de quando vamos no Rio, é muita criança trabalhando, é muita mãe com bebe vendendo bala. dá uma depressão sempre.
abraços, qquer hora te dou uma ligada
PS: nossa que vontade de comer aquele breakfast...
gente, estreei o cel do julim u-huuu
...
depois de nossa conversa, julim, penso o que é o pior: aceitar a miséria nas ruas institucionalizada (india) ou fingir que lutamos contra ela(brasil). de todo jeito, acho que aí o buraco é mais embaixo...triste mesmo e chocante...
agora, uma coisa alegre: fiquei feliz em saber que vc estava lá comendo uma pizza com seu hermano, que até me mandou um abraço!!!
bjo nos dois e que deus os abençoe, cuide e guarde todos os seus passos. só saindo daqui msm pra ver o quanto temos em comum com nossos hermanos latino-americanos...
Post a Comment