Depois de ter saído de casa em cima da hora para a missa de ontem, encontrei o Anoop na rua. Ele me disse que haveria missa em inglês (English Mass) na igrejinha em frente, e missa no rito Malabar em malayalam na igreja da Paróquia.
Ah, é. Sou da paróquia de São Tomé Apóstolo, aqui. Tem uma imagem de Sao Tomé com o Evangelho na mão, evangelizando a Índia. Resolvi de ir na Missa em malayalam, que era meia hora antes, pra ver como era, e depois ir pra missa em inglês.
O tal de rito Malabar é bacana, viu? Todo cantado, o tempo todo. Só não é cantado as leituras e a pregação, claro. O resto, tudo cantado, e cantado em escala tâmil, toda louca. Mas, como estava me sentindo um intruso, e como acho falta de respeito entrar no templo alheio sem participar, fazendo do lugar um zoo, saí na hora do Evangelho e fui pra missa em inglês.
Mas não era a missa em inglês (Mass in English), mas a missa inglesa (English Mass), ou seja, Rito Romano. Mas em malayalam.
Boiei total, foi uma missa inteira em oração de línguas. So entendi o Amem, e sabia que que estava acontecendo porque era o mesmo rito, claro. Então rezei o credo e o pai nosso e as orações fixas em português, cercado de malayalam por todos os lados.
Feito isto, fui na casa do Marco entregar a ele um presente raro: água gelada. Oh, sim!! Tenho água gelada! Quem tem água gelada todos os dias não consegue fazer idéia de como isso é bom.
Depois, internet e depois dormir. Dormi igual um não sei o que, até 9 horas, e levantei, tomei café e banho (a água voltou) e fui pro mercado, comprar uns trem. Comprei banana, uns biscoitos, pepsi, legumes, leite. E também umas caixinhas de som de computador muito baratas (20 real), uns potinhos, uma escova de lixo e uma escova de chão (eles não usam vassoura, e sim um espanador gigante para varrer. Depois que tu ajunta o lixo, vem com um pazinha e uma escova macia e o recolhe). E uma extensão que aguentasse a geladeira. As caixinhas foram inauguradas tocando Madredeus, que é lindo demais. Como pode essa muié aguentar essas notas tão agudas sem nem sair do lugar, hein? E o sotacão português, que delícia! E as caixinhas em si? Oh my god, outstanding! Fora do normal de boas, e nem tô Johnny Five não, hein. Sao assim maiorezinhas não têm aquele som de pato que a maior parte das nossas daí tem. São coisa boa mermo. Comprei a intermediária, tinha uma por 23 reais que era cheia de apetrechos... mas não preciso dela pra ser feliz, e nem dessa, por sinal. Se quiser quebrar e queimar e explodir, por mim tudo bem, que a felicidade nunca mora do lado de fora.
Lavei minha toalha, os dois sufá de prártico e escovei o chão do banheiro, lavando tudo muito lindo. Quando me preparava pra lavar os azulejos... cabou a água traveiz. Eita, trem!!! Aí, o que fazer? Mandar uma mensagem pro Anoop (o Sebastião daqui) e fazer outra coisa. Ouvir música, escrever no blog, ler... O plano de deixar a casa linda, maravilhosa, cheirosa um espelho de tão limpa vai ter que ser cumprido amanhã!
Mas acho que ainda haverá tempo de arrumar até que venha uma visita. A espera pela visita gera a casa limpa, que gera a possibilidade de ser visitado. Quando se vai a alguém de casa bagunçada, é invasão, porque a gente quer pôr tudo no lugar, e a pessoa quando a gente vai embora arruma tudo e depois nos liga, dizendo: "Agora podes me visitar, que arrumei tudo!"
Fiz o meu punjal pra Sagrada Face (que consiste em acender o incenso pro seu Deus e orar, cumprimentando-o e submetendo-se) e fui lá pra fora pra entrar na internet na Biblioteca. Mas... a ligação de força da Biblioteca e do apartameto é diferente, e aí lá a luz acabou, e acabou também a gasolina do gerador. Hahahahahaha!!! Muito engraçado, de verdade. Acho graça desses trem agora.
E vim pra cá, pra entrar pela internet 3g+, que é boa pra daná mas num é de grátis, ora pois.
Enquanto andava pelo plano na rua, depois do mercado, cansei-me. O mercado está como que a 500 metros daqui. Mas cansei-me. Meu dedo anelar direito ficou até meio dormente.
A gente não faz idéia da dor que é carregar uma sacola até que isso seja necessário. Fiquei pensando em quantas sacolas meu pai e minha mãe e a Teresa e a Barbara, Robert e todo mundo carregou pelos miúdos e pelos enormes. Que zica, isso. Carregar sacolas é uma coisa muito péssima, mas muito péssima mesmo. Verdadeiro ato de amor. E maior ato de amor ainda teve uma certa pessoa, que se ofereceu pra carregar comigo, e trouxe até aqui. Não sei o nome dele. Não fala inglês e nem portugues e nem nada que eu saiba. Mas ele me amou com o olhar, e me ajudou. Que coisa linda, mas muito linda, é carregar a sacola de alguém... Se você quiser, eu pego uma sacola, só pra te acompanhar, disse ele. Foi isso que eu entendi. O nome disso? Quer saber? Ainda não sabe? Para quem entende e conhece, não existem essas separações...
Enquanto isso, vou passando as músicas pro HD externo, pois elas estão em 6 DVDs, e ficar caçando o DVD que vc quer é um pouco chato. E amanhã termina o ciclo "história da igreja da índia" e começa o ciclo "escrever artigo pra revista". O editor da revista me pediu um artigo. Vê se pode. Vou ter que escrever um bonito, né? Fiquei sabendo que eles acham massa pq eu conversei com o editor em italiano e com os padres em inglês, com o Marco em espanhol e com os africanos eu já consigo falar umas coisas de francês, além de saber um tico de tâmil, além de conversar mais ou menos (do jeito que vai saindo) em alemão com um outro padre daqui. Me têm (assim me contou meu amigaço Anoop) como um grande poliglota.
Mas gente... nem é o caso. Só arranho esses trem tudo. Mas pelo jeito, ninguém arranha nenhuma dessas línguas por aqui, eles sabem é Tamil, Persa, Malayalam, Sanscrito, Latim... o negócio todo é o exotismo, né. O exótico nos encanta.
O Exótico se dissolveu em mim, e nem sei quem sou. Todos os dias, me atiro como quem nada teme, e me esborracho desfeito e soluto, derramo-me pelos olhos internos e externos, em solidão, e me colhe as lágrimas.
Fala-me coisas lindas, olha-me com candura e compreensão, por muitos olhos. Por uns, me reconhece como igual, ou quase isso, sendo um intermédio de um e outro. Entre o escuro e o claro, sou reconhecido por ambos como um deles, ao mesmo tempo que me demonstram que não sou. Pelos iguais, sou tido como exótico, ironicamente somos todos a mesma luz, temos as mesmas propriedades, mas somos outros, sem dúvida alguma. E eu, exótico no meio do exótico, reconheço em todas as palavras estranhas, a única língua que é o Amém. Seja feito, que aconteça, que se modifique tudo em todos, em mim e também a partir de mim, que desisti completamente de achar que eu seja alguma coisa com muita propriedade além da mudança.
Ele se levantou, e num gesto e entre sorrisos acalmou-me.
A tempestade era eu.
Ah, é. Sou da paróquia de São Tomé Apóstolo, aqui. Tem uma imagem de Sao Tomé com o Evangelho na mão, evangelizando a Índia. Resolvi de ir na Missa em malayalam, que era meia hora antes, pra ver como era, e depois ir pra missa em inglês.
O tal de rito Malabar é bacana, viu? Todo cantado, o tempo todo. Só não é cantado as leituras e a pregação, claro. O resto, tudo cantado, e cantado em escala tâmil, toda louca. Mas, como estava me sentindo um intruso, e como acho falta de respeito entrar no templo alheio sem participar, fazendo do lugar um zoo, saí na hora do Evangelho e fui pra missa em inglês.
Mas não era a missa em inglês (Mass in English), mas a missa inglesa (English Mass), ou seja, Rito Romano. Mas em malayalam.
Boiei total, foi uma missa inteira em oração de línguas. So entendi o Amem, e sabia que que estava acontecendo porque era o mesmo rito, claro. Então rezei o credo e o pai nosso e as orações fixas em português, cercado de malayalam por todos os lados.
Feito isto, fui na casa do Marco entregar a ele um presente raro: água gelada. Oh, sim!! Tenho água gelada! Quem tem água gelada todos os dias não consegue fazer idéia de como isso é bom.
Depois, internet e depois dormir. Dormi igual um não sei o que, até 9 horas, e levantei, tomei café e banho (a água voltou) e fui pro mercado, comprar uns trem. Comprei banana, uns biscoitos, pepsi, legumes, leite. E também umas caixinhas de som de computador muito baratas (20 real), uns potinhos, uma escova de lixo e uma escova de chão (eles não usam vassoura, e sim um espanador gigante para varrer. Depois que tu ajunta o lixo, vem com um pazinha e uma escova macia e o recolhe). E uma extensão que aguentasse a geladeira. As caixinhas foram inauguradas tocando Madredeus, que é lindo demais. Como pode essa muié aguentar essas notas tão agudas sem nem sair do lugar, hein? E o sotacão português, que delícia! E as caixinhas em si? Oh my god, outstanding! Fora do normal de boas, e nem tô Johnny Five não, hein. Sao assim maiorezinhas não têm aquele som de pato que a maior parte das nossas daí tem. São coisa boa mermo. Comprei a intermediária, tinha uma por 23 reais que era cheia de apetrechos... mas não preciso dela pra ser feliz, e nem dessa, por sinal. Se quiser quebrar e queimar e explodir, por mim tudo bem, que a felicidade nunca mora do lado de fora.
Lavei minha toalha, os dois sufá de prártico e escovei o chão do banheiro, lavando tudo muito lindo. Quando me preparava pra lavar os azulejos... cabou a água traveiz. Eita, trem!!! Aí, o que fazer? Mandar uma mensagem pro Anoop (o Sebastião daqui) e fazer outra coisa. Ouvir música, escrever no blog, ler... O plano de deixar a casa linda, maravilhosa, cheirosa um espelho de tão limpa vai ter que ser cumprido amanhã!
Mas acho que ainda haverá tempo de arrumar até que venha uma visita. A espera pela visita gera a casa limpa, que gera a possibilidade de ser visitado. Quando se vai a alguém de casa bagunçada, é invasão, porque a gente quer pôr tudo no lugar, e a pessoa quando a gente vai embora arruma tudo e depois nos liga, dizendo: "Agora podes me visitar, que arrumei tudo!"
Fiz o meu punjal pra Sagrada Face (que consiste em acender o incenso pro seu Deus e orar, cumprimentando-o e submetendo-se) e fui lá pra fora pra entrar na internet na Biblioteca. Mas... a ligação de força da Biblioteca e do apartameto é diferente, e aí lá a luz acabou, e acabou também a gasolina do gerador. Hahahahahaha!!! Muito engraçado, de verdade. Acho graça desses trem agora.
E vim pra cá, pra entrar pela internet 3g+, que é boa pra daná mas num é de grátis, ora pois.
Enquanto andava pelo plano na rua, depois do mercado, cansei-me. O mercado está como que a 500 metros daqui. Mas cansei-me. Meu dedo anelar direito ficou até meio dormente.
A gente não faz idéia da dor que é carregar uma sacola até que isso seja necessário. Fiquei pensando em quantas sacolas meu pai e minha mãe e a Teresa e a Barbara, Robert e todo mundo carregou pelos miúdos e pelos enormes. Que zica, isso. Carregar sacolas é uma coisa muito péssima, mas muito péssima mesmo. Verdadeiro ato de amor. E maior ato de amor ainda teve uma certa pessoa, que se ofereceu pra carregar comigo, e trouxe até aqui. Não sei o nome dele. Não fala inglês e nem portugues e nem nada que eu saiba. Mas ele me amou com o olhar, e me ajudou. Que coisa linda, mas muito linda, é carregar a sacola de alguém... Se você quiser, eu pego uma sacola, só pra te acompanhar, disse ele. Foi isso que eu entendi. O nome disso? Quer saber? Ainda não sabe? Para quem entende e conhece, não existem essas separações...
Enquanto isso, vou passando as músicas pro HD externo, pois elas estão em 6 DVDs, e ficar caçando o DVD que vc quer é um pouco chato. E amanhã termina o ciclo "história da igreja da índia" e começa o ciclo "escrever artigo pra revista". O editor da revista me pediu um artigo. Vê se pode. Vou ter que escrever um bonito, né? Fiquei sabendo que eles acham massa pq eu conversei com o editor em italiano e com os padres em inglês, com o Marco em espanhol e com os africanos eu já consigo falar umas coisas de francês, além de saber um tico de tâmil, além de conversar mais ou menos (do jeito que vai saindo) em alemão com um outro padre daqui. Me têm (assim me contou meu amigaço Anoop) como um grande poliglota.
Mas gente... nem é o caso. Só arranho esses trem tudo. Mas pelo jeito, ninguém arranha nenhuma dessas línguas por aqui, eles sabem é Tamil, Persa, Malayalam, Sanscrito, Latim... o negócio todo é o exotismo, né. O exótico nos encanta.
O Exótico se dissolveu em mim, e nem sei quem sou. Todos os dias, me atiro como quem nada teme, e me esborracho desfeito e soluto, derramo-me pelos olhos internos e externos, em solidão, e me colhe as lágrimas.
Fala-me coisas lindas, olha-me com candura e compreensão, por muitos olhos. Por uns, me reconhece como igual, ou quase isso, sendo um intermédio de um e outro. Entre o escuro e o claro, sou reconhecido por ambos como um deles, ao mesmo tempo que me demonstram que não sou. Pelos iguais, sou tido como exótico, ironicamente somos todos a mesma luz, temos as mesmas propriedades, mas somos outros, sem dúvida alguma. E eu, exótico no meio do exótico, reconheço em todas as palavras estranhas, a única língua que é o Amém. Seja feito, que aconteça, que se modifique tudo em todos, em mim e também a partir de mim, que desisti completamente de achar que eu seja alguma coisa com muita propriedade além da mudança.
Ele se levantou, e num gesto e entre sorrisos acalmou-me.
A tempestade era eu.
5 comments:
é isso aí, Julinho, por isso que uma coisa ruim deve ser "um saco" e uma coisa pior é "uma sacola"
beijos
bárbara
mas uma coisa pior ainda é uma "mala" ...
Tb acho que carregar sacolas é um jeito de amar, um gesto de amor... Lembrei do meu pai, sabe? Ele sempre carrega muitas sacolas...
Descobrir que vc é a própria tempestade é meio complicado... acho um pouco triste. A parte boa mesmo é Jesus acordar!
Interessante justamente seu dedo anelar direito doer, né?
A Cecília e a Glau estão quase me matando por causa do comentário de um post atrás, só porque eu concordei com o Marco. Mas elas não sabem que eu te dei uma coisinha pra vc colocar nesse mesmo dedo... talvez pra fortalecer vc, ou a mim, não sei... acho que não evitaria a dor, nem a do dedo, nem a do coração, mas "alia" a gente...
Saudade grande, que aperta...
Um beijo...
Tá bonito, heim?
Esse seu "retiro" tá me fazendo refletir, claro... me lembrei das sacolas, do morro pra subir com elas, da mochila de carrinho que eu também tinha que puxar e mais a mão de uma menina que reclamava, reclamava, mas que no final das contas estava ali comigo, me ajudando a subir, sempre subir, nunca retroceder... e já era noite!
Ah! Guardei um pedaço de bolo pra vc do outro menino , que não carregava sacolas, mas que sempre torce pra eu chegar lá em cima com todas elas!
Bjos...bjos...Namastê!
Pô, Julim! Vc nunca carregou sacolas?? Já carreguei e carrego muitas vezes, e sempre fico com os dedos dormentes e a cara suando, rsrsrrs...
Gostei de ver, hein, Gi? Aliancinha no dedo! Quando o Julim vortá, tá laçado! E o bolo do Robson vai estar um pouqinho véi... Põe no freezer, Teresa. e guarda pra mim tb, pois tô ni Muza. Rsrsrs...
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