Wednesday, April 18, 2012

Descansa-te!

Olha, vamos começar aqui falando sobre a água.
As pessoas aqui não tomam água de torneira ou filtro, sendo que estes últimos são raros.
Elas tomam sempre a packaged water, que eu já expliquei que é uma coisa do governo etc etc.
Seria muita idiotice da pessoa que vem pra cá resolver tomar a água da rede, porque nem os nativos têm coragem pra isso.
Quanto ao chá e ao café, eles fazer com água fervida. E fervida na panela de pressão! Eu já vi fazendo, e tomo só os chás e cafés dos lugares onde eu vi fazendo.
Então, Zés, não fiquem preocupados que eu sou até um pouco doido, mas não sou burro... Não há problema nenhum em tomar a água packaged.
E quanto ao irmão de não sei quem que veio pra ficar num mosteiro budista, bem feito pra ele. Porque tem mosteiros budistas em São Paulo, no Rio, no Paraná, em Gioaná... tirando que esse negócio de voltar às raízes é totalmente contrário à filosofia do budismo, que prega basicamente que o Buda deve ser esquecido. Por sinal, tem uma frase do próprio Buda: "se algum dia encontrar o Buda, mate-o."
Agora as novidades. Ontem eu acabei descobrindo o que é que deu tanto pau aqui no meu registro na Universidade. O caso é que o Kurian Kachappilly é chefe do departamento de Filosofia e Teologia, que antigamente chamava Filosofia e Religiões. Assim, eles ficaram assim sem saber como fazer, porque o Kurian errou a digitaçao e assinou como chefe do departamento de Filosofia e Religiões, que não existe mais.
Ligaram pra ele, deram uma escovada (mas ele não ficou bravo e nem triste, só mais esperto) e como eu tenho a bunda voltada para o disco lunar, fui registrado não como pesquisador visitante no Depto em questão, mas na Chancelaria da Universidade, e pelo chanceler em pessoa. Na verdade, o vice-chanceler, que perguntou sobre o meu trabalho, e eu expliquei. E ele ficou assim todo feliz, achando o máximo que as idéias sobre a Índia estejam sendo pesquisadas no Brasil e que eu tão jovem esteja pensando nesses assuntos etc. Isso é o que ele disse, e talvez eu até seja um pouco esperto ou bom de papo ou os dois, que ser bom de papo é tipo de esperteza.
Ele assinou um papel pro banco, pra mim. Aqui, alguém tem que te indicar para abrir uma conta em qualquer banco. Não pode só chegar lá e abrir. E a assinatura e o tipo de troço que eu virei (pesquisador de doutorado visitante da chancelaria) deve ser maneiro, porque os funcionários do banco abriram a conta sem eu ter um endereço fixo, o que seria necessário, e pediram muitas desculpas o tempo todo. Isso porque pediram a minha admission ID, coisa que os estudantes têem, e eu mostrei o papelzinho lá do Chanceler e o cara do banco ficou "sorry, sir! sorry sir!" "You're the youngest scholar that i know" (póe no google translator, tá?). Eles não chamam os outros de scholar assim de graça. Me deram importância. Fiquei quase metido, só não é mesmo o caso porque eu bem sei que nem presto...
De manhã, antes de vir pra cá, não consegui ir na missa, que foi às seis e meia da manhã. Resolveram dormir às duas da madrugada por aqui hoje, e a rua estava uma bagunça louca até essa hora. Não sei se aconteceu alguma coisa, alguma briga, sei lá. Mas não quero nem saber, também. O fato é que acordei cinco e meia totalmente do avesso, e resolvi trocar a missa pelo dia todo. Fiz um acordo assim "olha, tava indo na missa como quem vai a um zoológico, só pra ver as fitas rosas no pescoço. Então Você me perdoa, mas troco a missa pelo dia todo. Te dou o dia todo, com muita concentração." E dormi assim em paz comigo mesmo (e com silêncio) até oito e meia. Aí oito e meia o celular que não liga pra ninguém mas é uma ótima lanterna e um ótimo despertador começou "It is time to wake up! The time is eight thirty...". Ele fala. Mó barato.
Comi no cafe da manhã aquele pãozinho de arroz com uma coisa que chama samba. É um molho, um bisurado pra você comer junto. E olha... nem se atreva a me dizer do que é feito o samba. Parece que tem cebola, cenoura, um tiquinho de pimenta (claaaaaro) e coisas. Essas coisas devem ser açafrão, cominho, coentro, cravo da índia... e mais alguma coisa. Só sei que é bom pra daná.
Falando em samba, hoje no tempo Shaiva que tem do lado da Universidade de Cristo (terra de contrastes...) começou um samba. Quase fui lá pegar um santo, porque o andamento dos tambores é o mesmo do candomblé, sabe? O ritmo é bem diferente, mas é aquele andamento assim de uns 100-120 bpm.
Ontem, na missa, aconteceu assim uma explosão mental que não contei. O grupo que estava cantando, na hora da comunhão, cantou o "Shout to the Lord". Ok. Mas o massa foi que durante a segunda rodada da música, a moça começou a cantar raga por cima. Raga é um tipo de improviso típico da Índia, de música devocional. E ela cantou na escala indiana. Então ficou assim MEGA adsonante, com comas e tudo o mais, cantado por cima de um violão e um piano. Muito maluco, incômodo, e bonito. Foi muito legal.
Agora no dia de hoje eu vou tentar fazer o plano de saúde, no sentido de que vou pesquisar sobre o assunto. Vou fazer um plano Apolo, que é a Unimed daqui.
No mais, vou indo bem, cada dia dois milímetros mais indiano. Ao final, terei somado uns 300 milímetros, o que é um terço de metro. E aí eu fico assim mais rico, ilustrado e doido. Ser doido é muito bom, sabiam? Eu tenho medo de gente normal, não quero nem imaginar como seria isso...
Sobre o título, foi o conselho do Marco. Ele não tem nada de plano e de banco e de nada. Só tem euros, sabem? E nem rupias ele tem. Aí eu expliquei o que precisava fazer, ele fez assim assim com a cabeça e mandou essa "descansa-te". Temos um acordo de só falar em portugues e espanhol, o que é muito bom porque espanhol soa muito mais familiar que inglês, né.
Daí esse descansa-te significa "relaxa, respira no azul". Ou seja, vai dar tudo certo no final, não esquenta a cabeça não.
O Marco é muito cuca-freca. Ele fica por aí olhando as pessoas jogarem críquete, que é bat. O Críquete indiano é bat, esse que a gente joga na rua (BÉTE). A diferença é que tem uns apanhadores, que ainda não consegui distinguir se são gandulas ou se são jogadores mesmo. E tem campeonato nacional disso.
Tô num lugar onde tudo é igual, mas tem campeonato nacional de bat.
Entao acho que dentro de uns 3 dias eu vou ver os zoto jogar bat também, e relaxar totalmente. Por enquanto, to tranquilo uns 40%.
Saudade e brancura de todos e para todos. Shanti Om, tchau.

6 comments:

Glau said...

Adoooooooro suas explicações detalhadas. Quando leio seus textos parece que eu tô aí também.

Glorinha said...

Gostei disso: a cada dia basta a sua preocupação.
Afinal, não sabemos que devemos olhar as aves do céu e os lírios do campo? Não possuem eles maior majestade no vestir que o próprio Rei Salomão? E quem os veste assim? Então, nada nos faltará pois o nosso Pai que assim os veste sabe de nossas necessidades e nos ama.Não nos gastemos com preocupações sobre o dia de amanhã.Descansemo-nos! Obrigada mais uma vez por essa oportunidade de partilhar suas experiências aí, nesse mundo distante e ao mesmo tempo próximo de nós, que aqui estamos sentindo saudades de um sujeito incríveL: VOCE!
Bjos.

Bárbara said...

julinho, ontem tentei post a comment, mas não consegui...saudade e shanti pra você. incrível foi que ontem eu li waste land e o poeta (Eliot) termina assim: Shanti shanti shanti. aí fui ver o que significava e fiquei me lembrando de vc.
bjo

Gisele Reis Simões said...

Achei engraçado vc escrever "cravo da Índia". Aí, com certeza, é só cravo, né? Huhuahauha!!!
Tá sendo ótimo viajar com vc!
¡Descansate!
Te amo!

Banana said...

Hahaha. Cravo da índia da Índia...
Julinho, vc é uma figura! Se encontrar o buda, nao mata ele nao, coitado! Hahahahaha...
Bjim,

Paolla said...

Confirmo o louvor da Glau! Por causa dos seus detalhes a gente se sente aí com vc! Bjos, ídolo!