Olá pessoal!
Hoje é um dia em que a vida será resolvida, sabiam? De um jeito ou de outro...
Pelas regras da CAPES, eu tenho que ter aqui uma conta bancária e um seguro de saúde.
E, pelas regras da vida indiana, eu tenho que estar registrado em algum lugar para poder ter uma conta bancária ou um seguro de saúde.
O caso todo é que ontem, o vice diretor da Filosofia, Pe. Saju, não me registrou porque estávamos esperando o Pe Thomas chegar de uma viagem que ele havia feito. Parecia que ele tinha informações adicionais.
E as tais informações adicionais que ele tem (ele realmente tem) é que o pe. Kurian (meu orientador, que está viajando) disse que eu seria registrado como estudate de doutorado visitante. Mas o caso é que ele não faz esse registro, e quem faz é o pe Saju, mesmo. Ou seja... esperamos ele meio que à toa, né?
Isso é uma coisa cultural, e pra eles tá tudo bem. Enquanto no Brasil o professor que fosse receber o aluno teria de comunicar à coordenaçao que tipo de estudante seria e o que vai fazer e etc, aqui não. Eles sabem que o aluno vai vir, sabiam que eu existia, mas não faziam idéia de que eu fosse brasileiro ou que eu estivesse como PhD Visitor Fellow ou sei lá o que. Simplesmente sabiam que dois estrangeiros alunos do Kurian iriam chegar. O outro é um mexicano, que chega hoje.
E, se a coisa não depende do sujeito... Ele não faz e pronto. Deixa arder. Por exemplo, o Kurian ou o Thomas. O Kurian é o orientador, então ele orienta. Ele nunca me disse como fazia para me registrar e nem nada, e parecia nao entender a minha preocupaçao, que eu guardei comigo pra nao estressar ninguém. E o Thomas simplesmente é o Bibliotecário, entao ele só faz o registro na biblioteca e pronto. Esse processo de se considerar autonomo na coisa e pouco se lixar pro que o outro pode fazer por conta própria parece se repetir ao infinito.
Nas ruas, por exemplo, a regra é simples. Ultrapasse pela direita e, se algum carro vier em sentido oposto, mantenha-se à esquerda. Se algum pedestre estiver na rua, nao o atropele.
Assim nao tem mao e nem contramao e nem nada. No papel deve até haver... mas o que eu percebi do estilo de direçao é basicamente assim: você vai tocando a bagaça onde vc está, seja um carro, uma moto, um riquixá... E, quando alguém vem em sentido contrário, vc se mantem a esquerda e dá uma buzinadinha. Se tiver alguém mais lento na sua frente, você dá uma buzinhadinha e passa pela direita. Se as duas coisas ocorrerem, isto é, se você quer passar alguém mas vem algum carro na direçao oposta, vocês vao negociando e passando, Aí o outro carro vai mais pra esquerda e tu passa.
Quando a gente vai atravessar, é só ficar atento para as motos. De repente, aparece um pelotão delas, e você se enfia na rua e vai olhando levantando a mão pra garantir que está sendo visto e andando. E eles vão desviando de você, passando em volta de você, alguns reduzem... enfim, dão um jeito pra vc passar.
É claro que você nao deve atravessar na frente de um onibus ou caminhao. Estes andam como se fossem trens, sempre em frente e nunca desviam de nada, se valendo do tamanho. E tudo dá certo, você chega do ponto a ao b sem maiores problemas.
Na universidade, estou atravessando uma rua, e as pessoas estao indo pra direita e pra esquerda e em volta, se adaptando à minha travessia.
O caso todo é que pode ser que o pe Saju não me registre... Se isso ocorrer, terei de ir embora. E por mim, tudo bem. No momento, estou indiferente... Tanto faz ficar ou ir embora, vejo vantagens nos dois.
Aqui tem muitas coisas diferentes e realmente malucas. Ontem eu precisei ir no banheiro fazer um numero 1. Enquanto tava lá, reparei que nao tinha papel. E, quando desci para o primeiro andar da biblioteca, onde fica o Sreejee, perguntei pra ele se podia fazer uma pergunta pessoal. Ele disse que sim. E mandei brasa: como vocês limpam a bunda?
E ele explicou que tem sempre um balde com um caneco no banheiro. Tem mesmo. Em 100% dos banheiros tem isso. Aí você pega o caneco e lava com a mão esquerda, porque a direita é usada pra comer. E enxuga como der com um papel toalha ou papel higienico ou lenço ou qualquer coisa. E pronto! Tá lindo!
Isso até tem suas vantagens, fiquei pensando. Esse povo come uma pimentaria doida. Imagina se eles ferissem o toba com o papel, ou deixassem restos de pimenta e talz? Bom, no hotel tem papel e tem aquela duchinha, entao nao tive problemas dessa ordem ainda... até hoje de manhã, quando eu cheguei na bibioteca central daqui e precisei ir fazer o número dois.
Sem saber como me virar, falei pra biblioterária auxiliar que precisava de soar o nariz, e ela trouxe lenços de papel. Peguei um monte, dizendo que tinha rinite,e fui subindo a escada fingindo que tava com o nariz entupido. Aí me sentei no trono e fui derrubando e soando o nariz, tudo ao mesmo tempo. Assim, quando eu desci, todo mundo ficou feliz, numa quase cumplicidade... acho que nunca vao me perguntar o que eu fiz exatamente. E eu... vou comprar um rolo de papel daqui a pouco.
Essas são coisas que me fazem querer sair daqui logo, de volta ao Brasil onde todo mundo usa papéis macios e branquinhos, e nao come pimenta no café da manhã.
Por outro lado, ontem a noite eu tava pensando na historia do gato. Diz uma lenda indiana que um sábio muito santo tinha um discípulo chamado Chelababa, que o enchia por demais a paciência. Ele entao resolveu fugir do Chelababa pros Himalaias, e deixou o mesmo a cargo de cuidar da casa. Um tempao depois o sábio voltou, e à medida que fui chegando perto da casa dele, viu um feira de "gatos para meditação". Achou aquilo estranho e continuou. Viu um pai que batia no filho adolescente, gritando "Como ousa meditar sem gatos? O grande Chelababa nunca medita sem gatos!"
Se espantou pelo fato do Chelababa ser agora um mestre e talz...e quando chegou na casa, que permanecia intacta e humilde (na verdade uma cabana) do lado viu um palacete. Entrou no palacete e lá estava Chelababa, sentado numa grande almofada e com vários gatos amarrados no chao, em volta. E então se lembrou. Lembrou que quando morava ali, tinha um gato para tomar conta dos ratos da cabana. Um gato muito simpático e amigável, mas que insistia em ficar subindo pela sua longa barba quando ele tentava meditar. Entao, ele sempre amarrava o gato para entrar em êxtase. Chelababa, vendo aquilo, logo deduziu que o primeiro passo para atingir a iluminaçao era amarrar um gato aos pés da almofada. Quando foi possível, o sábio achegou-se de Chelababa e disse: pode continuar aqui, que vou seguir o caminho. Mas está dispensado da necessidade de gatos.
A lenda termina assim. E tem significados óbvios. Pra mim, ela significa que os meus medos, o meu estranhamento, a minha certeza de muitas coisas dizem miau.
Eu vim pra cá para me despir. E, num repente, sem as minhas roupagens sociais e minhas muletas emocionais, que são os caros leitores, fiquei só. E me vi oco! Dentro de mim, sem mais ninguém, só fica mesmo a minha religiosidade, Jesus, a centelha divina, Maria, os santos... esse pessoal boca-boa. Mas e eu mesmo, quem sou? Como posso querer me doar a Ele se não tenho perfeita posse de mim? Como posso querer me buscar no fundo de mim e entregar a ele, se sou só dor e perda, e perdi totalmente a verticalidade, a inteireza? Fica complicado... Só posso concluir que é preciso que eu fique mais aqui. A estranheza que eu tenho em relaçao a Índia não é em relaçao a Índia mesmo. É em relaçao a eu na India. Tendo que experimentar e concluir por mim mesmo o que é a Índia, e o que sou eu, que estou só. Se eu voltasse hoje, daria para vocês o mesmo fantochinho. Mas o Jesus daqui é iogue, despido de si mesmo. Yoga é uma disciplina de pensamento para se preparar para o encontro com o Real, e que possibilita objetivamente a posse de si mesmo, para poder se doar. Ok, vc pode estar pensando: mas e os alongamentos e exercícios e tal e coisa? Bem, eles servem como preparaçao para a yoga propriamente dita. Uma vez que a pessoa esteja alongada, saudável, limpa de todo desconforto, ela pode se assentar em um lugar e ir refletindo, buscando iluminaçao. É basicamente isso. Aprender a estar só.
A solidão é uma dádiva imensa, porque no fundo de nós mesmos nós encontramos o maior estranho, que somos nós. E o totalmente estranho, que é Deus. E uns gatinhos. Por exemplo? Maria. Jesus. Os santos. Todos estes estão, objetivamente, em Deus, correto? Creio em Deus Pai todo poderoso tra la la... Subiu aos céus, está sentado à direita do Pai, de onde há de vir. Esse "onde" é a direita do Pai ou o Pai mesmo? Se o Pai não é físico, ele tem direita e esquerda? Fique com essa manga pra chupar.
Deitar no colo de Maria com Jesus diz MIAU! É real, é verdadeiro, e tudo o mais. Mas ainda assim, é MIAU. O único real nisso é o abraço com Jesus, o abraço com Deus. Não o deus que eu creio, que é Jesus. Mas o Deus real. E o abraço é esse mergulho, essa intimidade que eu quero com o real. Muito maluco isso, reconheço. Mas pense a respeito de quem Jesus é, para além do humano. Há nEle uma coisa toda outra, que é divina. E garanto a voces que não tinha nenhum homem na minha cama ontem, além de mim mesmo. Isso só pode querer dizer que Jesus está aqui, dentro de mim. E eu sempre soube disso, mas precisei ir pra muito longe só pra experimentar isso a primeira vez. Ou seja, miau. Eu sou o meu maior gato.
Portanto, se eu for registrado aqui de algum modo ficarei feliz, muito embora com dor de saudade de casa, com desejo de voltar e com etc, principalmente.
Porque vou ficar obrigado (inclusive pro lei, pelas regras do Ministério da Educaçao do Brasil) a me descobrir. E descobrir-se é ficar nu.
Se eu voltasse hoje pro Brasil, eu ia me agarrar a todos vocês e me perder em vocês. Mas eu estou agarrado a Jesus, no fundo da barqueta.
Barqueta essa cuja foto postarei precisamente as dez da manha no horário do Brasil no facebook. Sim, é verdade... achei o tal barco, realmente achei. O altar da igreja daqui tem a forma de um barco. Enquanto eu rolava na cama com o Jetlag e tudo o mais, no grupo de oraçao de Sant'ana, na adoraçao, tiveram a visualização e a lembrança desse barco. Eram entre sete e nove da noite ai, portanto entre uma e três da manhã daqui. A hora exata em que comecei a ter meus "delírios".
Invejem-me: descobri que para além da minha existência existe um algo em mim que é, e que está intimamente ligado ao Real, que É. E a gente se encontra no barquinho.
Bom, é isso. Muitas coisas teria eu ainda para falar, mas se eu escrevesse, nem todos os livros do mundo poderiam conter tudo!
Um abraço e lembrem-se: este é um blog livre de conteúdo! Em branco!
11 comments:
E tem o drama do papel higiênico até na Índia!Hahaha... Quanto a questão da pimenta, Julio Eduardo, você deveria ter comido mais pimenta na minha casa pra tentar se acostumar!!! Penso em você e rezo por você sempre. Te adoro. Um beijo. Muita saudade!
Julinho,
o passado é história
o futuro é mistério
só o que há é o presente. Ele é uma dádiva. É por isso que se chama presente.
aproveite, meu caro. Faz uma forçona no que depender de vc para conseguir esse tal registro. Não é todo mundo que consegue isso. Vc conseguiu. Saiu de um país em que a grande maioria nunca sequer pisou numa universidade federal e ainda conseguiu financiamento para estudar fora. é dadiva. O resto é detalhe. O resto vai se ajeitando.Entregue-se aos ajeitos do universo, de sua condição trágica de ser humano e do que ela te permite no momento. bjo to torcendo
Finalmente conseguimos saber pra que serve o balde com a caneca, hein? Hahahaha... Sabia que era algo suspeitíssimo!
Aiai, acho que vou voltar pra Yoga...
também pensei outra coisa...todo mundo lava a bunda, seja como for...esse homem da biblioteca deve ter achado a mesma coisa...tô imaginando ele chegando em casa e contando pros parentes de vc e todo mundo achando engraçado e tendo pena...porque no fundo é tudo igual, né?...bjo
Julim,
Daqui no máximo 3 semanas vc não vai mais querer voltar. Já passei por isso, mais perto, porém mais novo. E se vc voltar quem vai me escrever uma carta-convite para eu ir visitar Rishkesh? Se não for com vc aí eui não vou nunca mais... Segura as pontas, pára de falar difícil e virizomi.
Frederico.
Julim vc é o máximo. Eu jamais perguntaria a uma pessoa como ela limpa a bunda.
Vc já descobriu como usar as 3 conchas???
Eta nóis, ein? Vamo que vamo! A gente ainda vai rir muito, passada essa primeira etapa desse projeto ìndia.
Mas esse barquinnho... tá demais de emocionante!
ô Julim, concordo com o Frederico, esse post tá muito kolocuscotokus... mas eu li né...
pra que limpar a bunda? logo vai ter que sujar de novo... hueheuheuhuheuheu...
Abraço!
Julim, obrigado, muito obrigado por vc ter chegado até aí! E daí me ajudar a relembrar o meu pavor aos gatos: quando eu era pequeno meu pai construiu uma arataca (armadilha de pegar gatos), na parte superior tinha uma gradizinha onde se colocava uma cordinha para enforcar os bichinhos, eram horríveis enquanto morriam, assim como são horríveis os meus gatos que tentam me distrair, me mantendo em minha cabana, e com a bunda suja.
Obrigado do Edi.
Huahuahauhauha! Adorei o coments do Fre!!!
No mais, Julim, vc já é craque nisso! É só comprar um estoque de meias!!!
E outra: tá virando o bam-bam-bam da internet, heim? Depois me dá um autógrafo!
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