Então.
Hoje começou o congresso de missionários aqui.
Eles me convidaram, mas resolvi de não comparecer o tempo todo porque não quero atrapalhar, atraindo atenção. Mas fui na missa, que foi as onze da manhã.
Foi missa em rito latino e em inglês, mas com os padres dos diferentes ritos (latinos, malabar e malankara) usando os seus paramentos próprios.
No começo, eles acenderam uma coisa no lugar de acender velas no altar. É uma coisa de hinduísmo (no sentido de também ser usado no hinduísmo), que se chama... não sei. Depois eu pergunto o nome e ponho uma foto no facebook. Claro, o daqui é adaptado, com uma cruz no meio dele.
Notei que alguns padres usavam ao invés de estola no pescoço uma estola rosa amarrada na cintura, bem como um laço de fita nada discreto amarrado no pescoço. Desconfio seriamente que esses deviam ser de rito Sírio, seja malabar ou malankara.
Estavam aqui o núncio apostólico e o arcebispo-maior (um patriarca, mas que nao tem esse nome de pura implicância) siro-malabar. Ele usou uma touca esquisita a missa toda.
Usaram hóstias normais, e todo mundo dos cultos sírios tirou os sapatos e sandálias (95% das pessoas usam sandálias) para entrar na igreja. Enfim... um preâmbulo do que virá. Amanhã a missa será em inglês e em rito malabar. Mal posso esperar pra ver que outro tipo de maluquice ocorre.
Além disso, informo a todos que ontem encontrei africanos, e foi quase como voltar pra casa. Tem uns 50 deles aqui, do Congo, Nigeria, Liberia, Burkina-Faso e outros países. Foi uma alegria. Conversamos um pouco e em pouquíssimo tempo já tava todo mundo rindo e gritando e se abraçando e tal. Era a hora do almoço, e eles insistiram muito para que eu fosse lá na sala de aula deles me apresentar. Eles estudam inglês, acho que licenciatura ou um curso de inglês mesmo, já que estamos nas férias. Acho que pode ser um curso para eles melhorarem o inglês e depois fazerem as graduações. Adoram o Brasil!
Aí falei que no Brasil tem muitos descendentes de africanos (quase todos) e que a família da minha namorante deve ter vindo de perto do Congo ou Angola, já que muitos escravos da região sudeste eram bantus e foram trazidos via Luanda e Nigéria (um chute calculado) mas não dá pra ter muita certeza, e que era uma honra conhecer os meus primos mais distantes. Eles aplaudiram, fizeram festa, interromperam o tempo todo, ficaram com olhos brilhantes... Acho que somos todos africanos, pelo menos 2/3 do ponto de vista cultural, aí. E sugiro mudarmos o nome de "ribeirismo" para "africanismo": é um griteiro só.
Hoje vou encontrar com o pró-reitor de Students Wellfare, que é algo como "assuntos estudantis" para teoricamente terminar o registro aqui... mas estou muito tranquilo, porque pesquisei no manual do bolsista da CAPES e nem vou precisar de registro nenhum. O que é pedido é uma conta e o seguro de saúde, que aqui podem ser conseguidos em se tendo um endereço fixo.
E eu vou teeeeeerrrr!!! Na sexta ou sábado, venho pra cá morar numa das kitinets. Pagarei 4500 rupias por mês, o que hoje dá 160 reais. Incluindo água e eletricidade!
Aliás, isso é uma coisa muito legal aqui. Ninguém paga pela água, ela é dada pelo governo de grátis ou quase isso. Os sistemas que estão ligados no sistema antigo de captação da água da chuva são gratuitos, e os "british-like", ou seja, os ligados em represas, são pagos.
É que o de represas recebe tratamento e o de água pluvial em cisternas não. Então é uma água de filtragem bacteriana, tipo um aquário, e com um pouco de sal. E pasmem... as represas estão todas secas por aqui, todo mundo usa mesmo é água de cisterna. O sol é tão forte que a água nao consegue se acumular na superfície... Os ingleses burrões não sabiam disso, e criaram um sistema oneroso e que não funciona por aqui. Achavam que aqui era igual o Nordeste da Índia, que é muito úmido e com água do Ganges o tempo todo. Sabe quantos rios eu vi aqui? Nenhum. A maior parte dos rios não é perene. Estamos mais ou menos assim... no sertão da Bahia. Mas um sertão com cisternas, que acumulam com muita eficiência água pro ano todo. E tanta, que dá pra distribuir de graça.
Só o que o governo vende mesmo é a Bottled Water. É a água que é pega na cisterna, tratada e vendida engarrafada, para beber. Aí o governo fixa um preço por litro, que todo mundo tem que obedecer. E o dinheiro é repartido. Aqui na universidade tem uns filtros que filtram a água das cisternas... mas eu não bebo dessa água não. Só em forma de chá ou café. Sei lá se o filtro é bom... e o que eu pude olhar parece da década de 30, e parece nunca ter sido lavado ou inspecionado, e não tem selo de aprovação de órgão nenhum. Melhor não arriscar o cólera.
E a eletricidade, o governo não consegue controlar, e acabou desistindo: a não ser em lugares MUITO selecionados, é tudo gato e gerador. É tão ruim aqui a eletricidade que ainda nao teve um dia no qual ela nao deu uma desligadinha, até agora.
E, confirmando a cultura indiana de atender só ao problema que existe, acham muito mais prático aumentar a capacidade dos geradores nas usinas do que tentar fiscalizar. E mais prático comprar um gerador que tentar se legalizar junto ao governo.
A Universidade paga eletricidade, claro. E tem geradores também. Pelo que eu desconfio que deve ter algo de gato na coisa toda. Mas e daí, uma vez que aqui é normal, hein?
Daqui a pouco, vou tentar comer um sanduíche vegetariano, que é uma delícia, lá com os meus primos. Então... já vou indo.
Mas antes de ir, eu quero agradecer a cada um que tem viajado na minha viagem. Tem sido ótimo, e de grande apoio. Espero que todos estejam gostando também... E esse é assim um diario de bordo da viagem dentro de mim mesmo.
Termino contando que cantaram Shout to The Lord na missa, e eu quase não resisti a abrir a boca e sair cantando a versão do Diante do trono, "Aclame o Senhor". E a entrada foi... "Esse é o dia que o Senhor nos fez". OU seja... aqui é tudo igual em algumas coisas.
Mas os padres estão embrulhadinhos de presente.
9 comments:
julinho, haha´, morro de rir dos seus posts e tô quase abrindo um face pra mim só pra gente conversar. Olha, o gilberto freyre falou que a gente (brasileiro) á africano no gesto, no falar, no rir, no dançar, em tudo. E é verdade! Aqui, a Dale, minha professora de ingles me falou que o irmão dela passou anos na india em um mosteiro budista e teve mil infecções intestinais e umas bem sérias por causa da água. Não quero te apavorar nem nada, mas é bom mesmo ter esses cuidados e não beber desses filtros do tempo do epa. e ela falou que o irmão dela se contaminou em um bar com o gelo que o garçom pôs na bebida. eu queria há tempos te falar isso. E incrivel, mas essa música shout to the lord não sai da minha cabeça, e o cd inteiro! É michael Smith. E eu comprei o CD! E sabe aquela música que a gente cantou na formatura da Paola? Te louvarei não importam as circunstâncias! Adorarei...somente a ti Jesus. Pois é, tem lá tb, a versão original, que é american, dele.
Aproveita o tempo. E quem sabe se a´lguem decide ir pra india e me levar de guia com passagem paga?...afinal, sou quase uma native!
bjo.
mais uma coisa: não falei que c ia entrar pra esse ministério?...
Viajar na sua viagem é inesperadamente fantástico... claro que não é à toa que essa filosofia toda esteja latente em nós... Thanks father!
E quer saber, acho que já passou a sua fase "quekotôfazendoaqui" e essa aventura começou a ficar legal de verdade!!!
No mais, "carpe diem"...Te adoro!!!
oi, julinho, estou adorando viajar com você, conhecer tanta coisa incrível.Hoje mesmo comentei com a sua comadre Glau o quanto tem sido legal isso e ela me falou que fica esperando ansiosa o Zelão dormir para poder ler seus registros.
Quanto a água, pelo amor de Deus não se descuide! Cuidado com o gelo, ein? É melhor beber as coisas quentes. Aí tem picolé? se tiver, não coma, pois pode ter sido feito com água contaminada. Ai, meu Deus, O Zé Candido! Fiquei muito impressionada com os seus relatos tão detalhados de tudo. Valeu! Beijos e fique com Deus.Amanhã tem mais novidades, com certeza.Te amo!
Ô Bárbara!!!!! Que idéia foi essa de falar de água contaminada em pleno coments do blog???? Sabia que a mãe ia ler!!! Determinadas coisas a gente só fala nas msgs do facebook ou em e-mails particulares, tá? hahahahahahahaha....
Julim, sua aventura pela Índia tá massabagarai! Os padres daí são indianos tb ou são todos missionários?
putz...foi mal, julim e ceci...
esqueci que o zé cândido ia ler...mas não achei que ia ter problema,não...
o máximo que o irmão da Dale que morou na india teve foram uma cólicas e umas lombrigas e umas nfecções intestinais, zé candido!! E ele não morreu, só teve dor de barriga e tomou remédio e acabou com as baciinhas de água e caneca da india e sarou. E eu tive um buraco no intestino sem sair da minha cidade. e ainda a minha ex-orientadora de Niterói teve uma suuuuuuper infecção com um suquinho de laranja que ela tomou em um restaurante do rio de janeiro...e era restaurante chique.
(consertei????)
Não, Bárbara, não consertou... Kkkkkk... Dou pála! Kkkk...
Mas o Julim é que começou falando sobre o cólera no post. Zé Cândidos à parte, cuidadoaê, hein, Julim? Chá e café tb contém água! Vai no supermercado e compra um estoque de garrafinhas de água confiável, e ande sempre com uma na mochila da Nike. Pronto, resolvido!
Ai, ai... os comments da família são ótimos!!
Tereza, os são são MARAVILHOSOSSSS!!! Tô amando viajar com vcs todos!!
Manda um beijo pros meus primos perdidos, kkkk!!!
Então, sem querer puxar a brasa pra minha sardinha, fiz um brógui pra mim tb: http://atelielichia.blogspot.com.br/
Tem uma coisa lá que eu escrevi pro Julim...
Feliz 2 anos e 2 meses!
Bjo, nego! Te amo!
Noss, um negócio muito legal podermos ir acompanhando as suas vivências aí!
Emocionantes os seus relatos!
Tinha que ser: só a "Bárbra" pra levar bronca geral dos arroelas... Liga não Glorinha, tá comprovado: vitamina S faz bem e depois, ele já até comprou os rolinhos pra ir ao banheiro e tá comprando garrafinhas pq doido ele é só um pouquinho...
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